Um pensamento atribuído a Frederic Jameson e repetido por Slavoj Žižek e Mark Fisher, diz que, em nosso tempo, seria “mais fácil imaginar o fim do mundo do que o fim do Capitalismo”. A frase traz um diagnóstico crítico importante sobre a impossibilidade da imaginação e o sentimento perpétuo de que é impossível viver fora do atual sistema econômico e político dominante. A possibilidade de fim dessa ordem seria vivenciada apenas como o fim da humanidade em si e de seu mundo.
Talvez por esse motivo quase toda distopia apocalíptica conta com um roteiro semelhante, onde pessoas buscam reabilitar o mundo que foi destruído, e retornar para a “normalidade” conhecida – um desejo que se tornou universal durante a pandemia da Covid-19.
Sejam reformistas ou revolucionários, tanto os defensores quanto os falsos críticos da ordem parecem concordar que os rumos do Capitalismo ameaçam a sobrevivência da vida no planeta. Porém sua disposição para acabar com as estruturas de dominação encontram limites no Estado e nos seus aparelhos repressores. De jacobinos a bolcheviques, de sociais-democratas a fascistas, a disputa parece ficar em torno da questão de que para superar o Capitalismo (ou o “sistema”) é necessário tomar o poder através de um “governo revolucionário” (e sua polícia). A questão parece ser sempre a de quem detém o controle de suas estruturas – e não a destruição das instituições que perpetuam a destruição de nossas comunidades e do meio ambiente.
Fica claro que críticas vindas da esquerda e das classes oprimidas muitas vezes evitam debater e promover ações que apontem para o fim da polícia e das prisões porque consideram que estas serão necessárias quando for sua vez de assumirem o comando por meios revolucionários ou da ocupação gradual dos postos de direção política. Afinal, quem vai impor as decisões do novo governo, do partido que “representa a classe” e seu comitê central?
Não é por acidente e nem deveria surpreender que movimentos revolucionários vitoriosos que se dedicaram a erguer sua própria polícia e a desenvolver seus aparatos repressivos, passaram a conduzir sua própria contrarrevolução e voltaram suas armas para as camadas populares que ajudaram a derrubar o regime anterior. Sem uma polícia e toda uma organização militar própria e secreta, os Bolcheviques não conseguiriam tomar grãos de camponeses à força, reprimir greves e massacrar camaradas socialistas e anarquistas que protestavam contra seus abusos.
Por compreenderem isso no seio da própria luta, anarquistas, desde Bakunin, diferenciam a revolução social, que derruba Estado e Capital em favor da ação direta e da autogestão, de uma revolução política; que entrega o controle do Capital ao Estado, dirigido pelos burocratas iluminados (e um tanto depressivos) da revolução e do partido que governa em nome dos trabalhadores.
* * *
Desde o surgimento do que entendemos por uma polícia moderna, na Inglaterra do século XIX, sua função era o de disciplinar as massas trabalhadoras e controlar as camadas excluídas e miseráveis. Quando empregar em seu próprio território um exército treinado para guerras contra inimigos externos parecia ser brutal e ineficiente, a polícia surge como uma força mais amena de profissionais empregados para defender a propriedade e agir contra o ameaças internas à paz: greves, rebeliões e movimentos sindicais.
Nas chamadas Américas, onde as sociedades foram fundadas sobre o colonialismo e a escravidão, as polícias surgem como uma extensão das forças que capturavam e mantinham pessoas escravizadas. Nunca foi seu objetivo prevenir o crime, mas governar garantindo que apenas os comportamentos de certos grupos sejam criminalizados e punidos com base não apenas na cor da pele e no pertencimento de classe, mas também no gênero, idade, profissão (ou a falta dela). Mesmo se você não tiver nada, a polícia estará lá. Ela é o patrão de quem não tem emprego ou casa. Para isso, as elites no poder recrutam entre a massa empobrecida pessoas dispostas a defender seus interesses em troca de dinheiro e respeito. São traidores da classe dispostos a ferir sua comunidade por um salário e o poder que uma arma na mão pode lhe dar.
A chamada “Guerra às Drogas” trouxe de volta a noção militarizada da força bruta e letal para a repressão da sua própria população. Mas obviamente, que não igualmente para todas as pessoas envolvidas com produção, venda e consumo de drogas. As pessoas brancas ricas e proprietárias, no topo, sofrem (quando muito) processos legais e administrativos. Na base, a população preta, imigrante e periférica enfrenta o encarceramento em massa, suspensão de direitos básicos e o extermínio.
Reformar a polícia é, portanto, apenas tentar dar mais legitimidade à sua existência e tornar mais difícil sua abolição. Mesmo quando a polícia recruta membros da mesma cor, gênero ou origem dos grupos tradicionalmente excluídos, a realidade mostra que isso apenas aumenta a tensão nessas comunidades.
* * *
A devoção ao Estado é, inevitavelmente, o amor pela polícia. Sem ela, não é possível uma divisão entre quem manda e quem obedece, entre quem trabalha e quem administra, entre pessoas incluídas e excluídas. Ela fabrica inimigos internos para justificar sua existência.
O mito de que a vida é melhor para todo mundo – e não só para a elite – com o trabalho da polícia está tão entranhado em nosso imaginário que as pessoas que se declaram revolucionárias e de esquerda acreditam que sua revolução também será melhor conduzida com a ajuda da polícia. Elas se recusam a assumir que o que desejam é a garantia de poder e controle que o uniforme e as armas dos especialistas em violência imposta os garante.
Em um mundo em colapso, a única coisa capaz de impedir que as pessoas consigam lutar por suas vidas e tirar a riqueza e os recursos das mãos dos ricos é a força bruta. A última e maior função do Estado é a repressão policial. Cientes disso, uma esquerda que almeja o poder centralizado não pode oferecer outra coisa que não um novo círculo de legitimação das forças de segurança. O Capitalismo pode até acabar, mas alguém precisa garantir o poder dos novos líderes.
Ou criamos comunidades livres e fortes com autogestão e por meio da ação direta, capazes de construir sua autodefesa sem depender de profissionais e especialistas em violência, ou prepararemos o terreno, os recursos materiais e a legitimidade de aparatos repressores que podem simplesmente cair na mão de futuros governos fascistas. Ou pior seguir na mão de benevolentes e humanistas governantes iluminados que praticam massacres em nome da democracia.
Quem fala de uma luta contra o capitalismo e o fascismo, sem falar de uma luta contra o Estado, suas polícias, tribunais, exércitos e prisões, fala com um cadáver entre os dentes.
LEITURAS RECOMENDADAS:
SOMOS TODAS ANTIFASCISTAS – MENOS A POLÍCIA: sobre como e com quem lutamos – por Facção Fictícia
Polícia: Um Estudo Etnográfico Foto-Ensaio Sobre a Obediência Armada – por CrimethInc.
O Fim do Policiamento – Alex S. Vitale


