Equador: Paro Nacional, Parte Dois – Dois Anos e Meio Depois, Outro Levante Abala o País

Devido ao esforço de diferentes internacionalistas, trazemos mais uma entrevista com camaradas nas linhas de frente dos levantes populares no Equador. Em outubro de 2019 houve uma extraordinária revolta indígena e popular no Equador que, após 12 dias e com saldo de 11 mortos, conseguiu cancelar um pacote de medidas neoliberais impostas pelo FMI, entre as quais o cancelamento de subsídio aos preços dos combustíveis. Leia ela em português aqui ou em várias outras línguas no portal de nossos camaradas do Crimethinc.

Novamente, em junho de 2022, estoura a greve geral e os protestos de rua no Equador, que entra em sua terceira semana, com mais de 20 dias do chamado Paro Nacional, novamente liderado pelos movimentos indígenas, novamente contra as políticas do FMI e o aumento dos preços dos combustíveis. Voltamos a entrevistar  o mesmo camarada que está ativamente participando das mobilizações populares encabeçadas por movimentos indígenas que enfrentam a políticas do FMI e o aumento dos preços dos combustíveis, para nos contar sobre a dinâmica da revolta na capital equatoriana num dos maiores levantes em curso na América Latina.

O que significa que as pessoas no Equador tenham que lutar toda essa batalha novamente tão logo após uma vitória histórica? Essa força se espalhará pela América Latina novamente? Leia mais a seguir.


O que aconteceu nos últimos 2 anos e meio no Equador para que, após uma pandemia e eleições parlamentares e presidenciais, voltasse ao ponto de partida?

Após a insurreição popular de 2019, [o então presidente] Lenin Moreno começou a aumentar o preço do combustível gradativamente, ou seja, a vitória parcial de 2019 foi anulada e voltamos ao ponto de partida. Enquanto isso, o atual presidente, Guillermo Lasso, intensificou esse mecanismo, levando o preço dos combustíveis as alturas, provocando de fato um aumento nos preços dos produtos de primeira necessidade.

Moreno conseguiu terminar seu governo, assim como seus ministros. Estes, juntamente com o alto comando da Polícia e do Exército, permaneceram impunes pelos crimes cometidos durante as jornadas de outubro.

Em 2021 houve eleições. O candidato do movimento indígena foi Yaku Pérez, que conseguiu capitalizar o descontentamento de outubro, mas não foi suficiente para chegar ao segundo turno das eleições e ameaçar a vitória de Andrés Arauz, candidato do Correismo [Levado ao poder pela “maré rosa” que estabeleceu governos em toda a América Latina, Rafael Correa foi presidente do Equador de 2007 a 2017; hoje, acusado de corrupção, vive na Bélgica]. Guillermo Lasso, banqueiro responsável pelo Feriado Bancário de 1999 [episódio de congelamento da contas de banco de cidadão equatorianos], chegou ao segundo turno e venceu as eleições. [Em março de 1999, temendo a hiperinflação, o governo equatoriano declarou um feriado nacional, que acabou durando uma semana inteira; na época, Guillermo Lasso era CEO do Banco Guayaquil.]

Na CONAIE [Confederação de Nacionalidades Indígenas do Equador] também houve eleições e o vencedor foi Leónidas Iza, líder do MIC (Movimento Indígena de Cotopaxi) e um dos líderes da revolta de outubro.

“Fora Lasso”: manifestantes se defendendo da polícia ao redor da Casa da Cultura em Quito.

Em 2019, a revolta no Equador ajudou a desencadear revoltas subsequentes no Chile e em outros lugares. Os movimentos na Colômbia, Chile e em outros lugares da América Latina influenciaram os movimentos no Equador desde então?

Após outubro de 2019, em vários países da América Latina, a população se levantou contra seus governos. No entanto, os acontecimentos atuais no país, embora reflitam uma crise geral em todo o continente e tenham sido decisivos no imaginário coletivo, têm uma conotação clara que responde ao contexto conjuntural equatoriano. É como se algo tivesse ficado pendente da revolta de três anos atrás.

Como você definiria ou avaliaria esse primeiro ano de governo de Lasso? Como foi possível que um banqueiro neoliberal se tornasse presidente depois de uma revolta tão forte e bem sucedida como a de 2019, e como ele conseguiu perder esse apoio em tão pouco tempo, de modo que em apenas um ano ele teve de enfrentar outra revolta popular?

Péssimo. Lasso venceu graças ao voto anticorreista. O cenário teria sido diferente se Yaku Pérez tivesse chegado ao segundo turno. Muitas pessoas votaram em Lasso como uma rejeição ao possível retorno do projeto da ex-revolução cidadã. As divisões dentro do movimento indígena favoreceram, em parte, a ascensão de Lasso ao poder.

Assim que seu governo começou, Lasso perdeu seu principal aliado, o Partido Social Cristão. Imediatamente, começou um antagonismo com a Corte Constitucional. Isso, somado ao fato de ter uma minoria na Assembleia, fez com que o banqueiro tivesse que se virar para poder governar.

Sua principal estratégia inicial foi a vacinação em massa da população, fato que o manteve com excelente capital político durante os primeiros meses de governo. Após a fase de vacinação e a pandemia, a realidade do país ficou evidente para todas e todos.

O movimento indígena e diversos setores sociais tiveram duas mesas de diálogo no ano passado e o governo não os ouviu, o que estamos vivenciando agora é consequência da falta de respostas às demandas da sociedade equatoriana que vive na pele as consequências da pobreza , a falta de emprego, a destruição de seus territórios e o aumento da violência nas ruas e nas prisões devido a guerras entre grupos criminosos. Houveram quatro massacres em prisões equatorianas (nos últimos dois anos 360 detentos foram assassinados) e os casos de assassinos contratados, nas principais cidades do país, são o pão de cada dia.

Os bancos não perdoaram as dívidas dos camponeses, nem dos trabalhadores, apesar da pandemia. Não pode haver renascimento econômico para os mais pobres porque os banqueiros os sufocam.

Grafite ao fundo: “Os Mortos.”

A atual Greve Nacional, vista de fora, é muito parecida com a greve de outubro de 2019. Mas será mesmo? Quais são as principais semelhanças e diferenças?

A revolta de 2019 foi a revolta das filhas e filhos da primeira revolta indígena da década de 1990. É uma nova geração cheia de raiva e com sede de justiça.

Ao contrário da greve anterior, coube à CONAIE, juntamente com outras organizações camponesas, declarar uma greve nacional a partir de segunda-feira, 13 de junho. Há três anos, foram os estudantes e caminhoneiros que acenderam o pavio.

Desta vez, as comunidades indígenas resistiram por uma semana em seus territórios antes de chegar a Quito. A capital teve que sustentar a greve nacional sozinha por uma semana. Os estudantes e bairros. Os bairros de Quito, especialmente os do Sul, desde o primeiro dia resistiram em seus territórios. Isso não aconteceu três anos atrás ou pelo menos não com a intensidade de agora.

A repressão tem sido forte, mas além do ocorrido na sexta-feira, 24 de junho, a polícia e os militares têm sido mais estratégicos no uso da força. Isso, por exemplo, evitou que Quito tivesse um surto na primeira semana. Houve marchas, confrontos com a polícia, mas a situação não saiu do controle até a chegada da CONAIE .

Por divergências políticas com as lideranças da Conaie, a Frente Unitario de Trabajadores (FUT), principal sindicato dos trabalhadores, este ano ficou de fora das mobilizações. Os caminhoneiros também não aderiram.

No entanto, a solidariedade do povo não mudou, mas se fortaleceu em relação ao último levante, os companheiros e companheiras estão melhor organizados apesar das dificuldades causadas pelo governo.

No domingo, 19 de junho, primeira semana da greve e com o anúncio da chegada das diferentes comunidades de todo o território a Quito, os militares e a Polícia Nacional ordenaram a requisição da Casa da Cultura Equatoriana (CCE), evitando que este local, ao contrário de 2019, seja o ponto de concentração dos manifestantes, por isso o local das assembleias e o centro logístico da revolta tem sido a Universidade Central. Isso fez com que os confrontos não fossem apenas na área de Arbolito, da Assembleia, do Centro Histórico, mas também no entorno da Universidade.

22 de junho: A polícia do Equador reclama que uma unidade policial “foi totalmente destruída e queimada, assim como viaturas e motocicletas que foram designados para servir aos cidadãos”, juntamente com um pedido de “não mais violência”. Muito interessante, vindo daqueles cuja profissão é exercer violência contra a população.

Você pode fazer uma breve descrição dos principais eventos que ocorreram durante esta Greve Nacional? E quais são suas principais demandas? As demandas do início da mobilização são as mesmas de agora ou algo mudou? Que estratégias, táticas e métodos de luta foram implementados?

Cronologicamente, a greve nacional começou na segunda-feira, 13 de junho. As organizações indígenas e camponesas iniciaram bloqueios de estradas em seus territórios. Em Quito, os estudantes convocaram uma marcha da Universidade Central ao Centro Histórico. Os bloqueios não foram tão fortes e a mobilização foi reprimida no Centro Histórico.

O panorama sugeria uma greve não tão contundente quanto a de 2019. Na madrugada de terça-feira, 14 de junho, o governo cometeu o erro de prender ilegalmente Leónidas Iza, líder da Conaie; causando uma reação imediata em todo o país pela manhã. Este foi o episódio que acendeu o pavio e fez a greve nacional ganhar força. Leónidas Iza foi sequestrado pela polícia por 24 horas e o protesto transbordou. Na cidade de Quito, a Unidade Flagrancia foi atacada e uma viatura da polícia incendiada. Em Latacunga, o movimento indígena ocupou a sede do Ministério Público. No dia seguinte Iza foi liberada, mas teve que comparecer diariamente para assinar na cidade de Latacunga.

Os bairros de Quito a partir do segundo dia se levantaram especialmente na zona sul da cidade e na periferia norte. Eles foram reprimidos por vários dias, mas continuaram a resistir. Os estudantes e movimentos sociais de Quito realizaram marchas de 5 dias em apoio à greve nacional. Quinta-feira, 16 de junho, foi o dia em que mais pessoas foram às ruas, cerca de 10 mil pessoas. Na mesma modalidade, marcha em direção ao Centro Histórico que depois foi violentamente reprimido pela polícia.

A cidade de Cuenca também se levantou, a polícia atacou a universidade onde os manifestantes se refugiaram. Autoridades acadêmicas denunciaram o incidente e pediram uma marcha muito maior no dia seguinte. Na capital, começaram a se organizar grupos que identificaram e afastaram das marchas os policiais infiltrados, dezenas de indivíduos que, ao final das marchas, detiveram colegas após tê-los seguido. Isso colocou em dificuldade o aparato repressivo da polícia. As manifestações tiveram o cuidado da polícia e as fotos desses infiltrados circularam pelas redes sociais. Da mesma forma, antes de expulsar o policial, mostrou-o às pessoas para que pudessem gravar o rosto do intruso.

É importante entender quais são as demandas dessa greve nacional antes de continuar com a cronologia.

Há 10 pontos exigidos do governo: baixar o preço do combustível, criar uma moratória bancária para que a população possa reactivar as suas economias sem sentir a pressão dos abutres dos bancos. Parar de explorar e destruir territórios onde há fontes de água e onde vivem comunidades. Da mesma forma, ativar um mecanismo como consulta prévia nos territórios onde deseja fazer mineração ou extrair petróleo. Outra das exigências é declarar a saúde pública e a educação em situação de emergência. Ambos os setores foram atacados pelas políticas neoliberais do governo e viram seus orçamentos reduzidos.

Preços justos para os produtos agrícolas para que os agricultores possam receber o que realmente vale o seu trabalho.

Um controle mais rígido por parte do governo das necessidades básicas, dada a especulação desenfreada.Suspensão da privatização de setores estratégicos como Previdência Social, Banco del Pacífico, CNT (Corporação Nacional de Telecomunicações), rodovias. Respeito aos 21 direitos coletivos das organizações indígenas e educação bilíngue.

E o último ponto é garantir a segurança dos cidadãos diante da onda de violência nas ruas e nas prisões do país. Todas essas demandas são compartilhadas pela população que está apoiando a greve nacional.

Depois de cinco dias enfrentando a indiferença do governo, o Movimento Indígena e Camponês decidiu vir para a cidade de Quito. Na sexta-feira, o governo declarou estado de emergência nas províncias mais conflituosas e decretou toque de recolher na cidade de Quito das 22h às 5h. No domingo, 19, ordenaram a reintegração da Casa da Cultura e a ocuparam violentamente para impedir que as pessoas se organizassem. Os bloqueios e confrontos entre moradores dos bairros do sul de Quito e a polícia continuaram durante todo o fim de semana.

Na segunda-feira, 20 de junho, as primeiras caravanas do Movimento Indígena começaram a chegar do norte e do sul da capital e foram violentamente reprimidas. Enquanto isso, os estudantes da Universidade Central e os movimentos sociais de Quito ocuparam a Universidade para que os companheiros e companheiras que chegavam pudessem ter um lugar seguro para dormir e se organizar. À noite os caminhões cheios de manifestantes começaram a chegar aos poucos, foram reprimidos por todos os lados e tentaram impedir que chegassem a Quito.

Apenas duas universidades abriram as portas para o movimento indígena. Dado que a Casa da Cultura estava nas mãos da polícia, o centro operacional da greve nacional deslocou-se pela primeira vez para a Universidade Central. Aqui começaram a organizar os primeiros potes solidários, creches para crianças, brigadas médicas, centros de armazenamento e as primeiras linhas de resistência.

Desde a manhã de terça-feira, 21 de junho, os confrontos com a polícia começaram em todo o centro norte de Quito. Enquanto isso, as primeiras mortes já foram contabilizadas, que com o passar dos dias chegaram a 5. Um manifestante foi jogado em um barranco pela polícia, outro na província de Puyo, morreu com gás lacrimogêneo atirado em seu crânio, outros em Quito produto de pellets.

Na quinta-feira 23, a Casa da Cultura e o parque El Arbolito foram retomados por uma gigantesca marcha, as principais assembléias deslocaram-se novamente para o lugar histórico da esquerda equatoriana.

O conflito imediatamente se espalhou pelo parque e chegou às receitas da Assembleia Nacional. As linhas de frente com muito mais experiência em relação ao último ataque desta vez foram mais organizadas e protegidas.

No bairro de San Antonio, ao norte de Quito, o exército foi atacado por moradores quando tentava se estabelecer na área para reprimir os manifestantes. Um colega foi morto por um tiro dos militares.

“Lasso, você fodeu com meu povo — está fodido.”

Na sexta-feira, 24 de junho, Guillermo Lasso em rede nacional autorizou a polícia a aumentar sua força repressiva. Uma hora depois, a polícia e o exército atacaram indiscriminadamente a Casa da Cultura e a Pequena Árvore, provocando uma fuga em massa do setor. Muitas crianças e idosos foram sufocados pela violência policial.

Fomos todos perseguidos por toda a área até nos afastarmos do setor. Havia dezenas de detidos e feridos. No entanto, a polícia à noite se retirou da área.

Este fim de semana muitos companheiros e companheiras voltaram para suas comunidades e outros estão chegando. Os mutirões de limpeza foram organizados e foi dada prioridade às assembleias para organizar a terceira semana da greve nacional. No sábado, 25 de junho, houve uma grande marcha de mulheres e dissidentes.

Hoje domingo 26 na Universidade Central há shows e atividades esportivas. Na Casa da Cultura um festival artístico e cultural.

As exigências continuam as mesmas. No entanto, foi estabelecido como condição mínima para um diálogo a redução imediata do preço do combustível.

Quais são os principais sujeitos sociais hoje mobilizados no Equador? Que peso e que distribuição territorial têm? Que alianças sociais e políticas foram criadas

O movimento indígena e camponês, os estudantes e os bairros de Quito. A primeira é a mais organizada historicamente, a segunda foi novamente ativada nesta conjuntura. Os bairros de Quito são a surpresa desta greve, eles mostraram um alto nível de organização e controle do território.

Muitos companheiros e companheiras em todo o território estão apoiando a greve nacional, as principais alianças foram tecidas lá. Muitos não se organizaram entre si por divergências ideológicas, estes foram deixados de lado em vista da importância do momento. Por ainda não ter força suficiente, o movimento social, especialmente em Quito, amadureceu enormemente.

Como você avalia o papel da CONAIE nesta Greve Nacional? Está conseguindo se afirmar como o principal sujeito da oposição social à ordem neoliberal? Você está conseguindo articular alianças sociais para além do mundo indígena?

A CONAIE continua sendo o principal tema político do país e um dos mais importantes da América Latina. Sua capacidade organizacional e força coletiva continuam a surpreender. No entanto, o resultado das fraturas internas é sentido, a força que eles conseguiram colocar em campo ainda é menor do que a de 2019. Os companheiros e companheiras continuam colocando seus corpos na linha de frente por todos e todas.

Não é fácil vir dormir em estádios, no chão, em papelão por dias. Sua determinação é incrível.

Além das alianças que podem ou não ter sido geradas, eles são reconhecidos por todos como os principais defensores dos direitos coletivos da sociedade equatoriana. O que falta é que os movimentos sociais urbanos consigam se articular mais com o movimento indígena e que este também aprenda com o movimento urbano. Ainda não existe uma assembleia onde os grupos sociais possam ter capacidade de decisão sobre o que está acontecendo. Eles estão na organização diária, participam de pequenas assembleias, mas não foi possível, por exemplo, ter uma assembleia que reúna todos os movimentos sociais de Quito e as linhas de frente que estão apoiando essa greve nacional.

Como você avalia o papel de seu líder Leónidas Iza, que surgiu em outubro de 2019 como uma figura de esquerda na organização até se tornar seu presidente? Como você avalia a detenção de Iza no segundo dia de Paro? Ele está desempenhando mais um papel de agitador ou moderador no contexto de protesto social? Ele tem objetivos político-eleitorais?

Leónidas Iza é o líder absoluto da greve nacional. A CONAIE agora tem como líder uma pessoa com ideias políticas claras e excelente preparação. Uma pessoa mais radical em suas ideias do que seu antecessores. Isso lhe causou problemas dentro do movimento, mas ao mesmo tempo causou muita simpatia.

Como mencionei no início, a prisão de Iza foi o estopim que deu força à greve nacional.

O problema de Iza é que sua liderança, voluntária ou não, está ofuscando as demais lideranças sociais e indígenas. A mídia também ajudou a centralizar tudo sobre ele. Seu papel tem sido o de moderar e também de agitar dependendo do momento.

O movimento indígena quer ter o primeiro presidente indígena da história, então de uma forma ou de outra tudo o que está acontecendo em algum momento será capitalizado em nível eleitoral. Não sei se Iza ou outro personagem fará isso, mas isso é inegável.

Qual é o papel do Correismo nesta Greve Nacional e nesta situação política?

Assim como há três anos, eles participam, mas não têm o menor controle sobre o que está acontecendo. Apoiam a greve nacional e querem derrubar Lasso, por isso foram eles que convocaram o plenário da Assembleia para discutir a possibilidade de impeachment por comoção nacional.

Parece que está tramitando na Assembleia Nacional um pedido de impeachment (morte do cruzada). Quantas chances existem para isso acontecer? Você acha que é realista pensar em uma queda iminente para Lasso, seja pelo parlamento ou pelo impulso do protesto social? O que podemos esperar a seguir, um novo governo eleito pelo parlamento ou novas eleições? É algo que os movimentos patrocinam ou temem uma rearticulação da ordem política? Que perspectivas se abrem e que oportunidades se fecham?

14 dias se passaram e o governo com várias artimanhas ainda está conseguindo se manter firme. O que aconteceu na sexta-feira no nível repressivo foi um duro golpe para todos.

O movimento indígena pediu a seu braço político Pachakutic que vote a favor do impeachment como alternativa e saída para a crise atual, caso o governo não responda aos 10 pontos. Eles não podem voltar para casa com os bolsos vazios, cinco camaradas já perderam a vida.

A queda de Lasso não mudaria as coisas porque seu vice-presidente assumiria o poder com o mesmo projeto político. O que geraria é um novo precedente quanto à capacidade de obter resultados do movimento social, ainda que parciais.

Ainda não há força suficiente para dobrar Guillermo Lasso, então impeachment foi considerada uma opção.

No entanto, enquanto escrevo este texto, ainda não há votos suficientes para derrubar o presidente com a morte cruzada. Ontem, Lasso retirou estrategicamente o estado de exceção para que não haja justificativa para a comoção nacional.

Conclusões

Nos levantamos novamente, desta vez temos mais experiência, mas não força suficiente para atingir os objetivos traçados. Estamos resistindo e nos defendendo da violência policial e estatal, um dia de cada vez.

Amanhã, segunda-feira, 27 de junho, começa uma nova semana de desemprego, que será decisiva. Veremos se mais sujeitos e forças sociais se unem, se a força nos bairros aumenta, se novas estratégias coletivas de luta são encontradas, se é possível colocar o governo em dificuldade novamente. Tudo ainda é desconhecido, o que é certo é que a resistência continua e que não desistimos.

Também sabemos que esse levante não vai mudar a raiz dos problemas do país, mas sabemos que o próximo levante vai ser melhor porque aqui já estamos construindo essa possibilidade. Os processos organizativos que nasceram e que sustentam a greve (cozinhas coletivas, brigadas médicas, linhas de frente, creches para crianças) estão sendo organizados e esse tecido é o que restará depois que tudo isso passar.

A raiva é grande e a vontade de vencer também. Seguimos na luta, não desistimos.


Para saber mais e acompanhar as lutas no Equador, recomendamos os canais de notícia Wambra radio, Indymedia Ecuador, Conaie comunicación, Acapana, e Revista Crisis.


Para Ler mais

PUBLICAÇÃO EM HOMENAGEM À COMPANHEIRA LUISA TOLEDO

Apresentamos uma versão em português do zine que foi publicado no território dominado pelo Estado chileno no dia 29 de março de 2022, no marco do primeiro dia dx jovem combatente após a morte da companheira Luisa Toledo Sepúlveda.

Baixe aqui em pdf


Este ano marca 38 anos do assassinato de Rafael e Eduardo Vergara Toledo, da execução de Paulina Aguirre fora de sua casa e também o dia do sequestro dos professores Manuel Guerrero e José Miguel Parada, que mais tarde foram degolados. É mais um ano de comemoração da luta ativa da juventude combatente, mas ao mesmo tempo não é mais um ano, pois é a primeira comemoração sem a presença física de Luisa. Ao tentar escrever essas letras, a sua memória não deixa de estar presente em nossas mentes, sua força e suas palavras penetram profundamente em nossos corações, porque foi ela, Luisa junto com Manuel, que não desistiu, que resistiu e lutou contra o esquecimento, a indiferença, trilhando seu próprio caminho para fazer justiça através da memória, aquela memória que foi transmitida em cada dia 29 de março, ano após ano, no memorial aos irmãos Vergara, na Villa Francia, na entrega do pão da solidariedade, da fraternidade e do empenho na luta permanente para acabar com essa sociedade podre. Foi Luisa que não nos deixou esquecer dxs jovens combatentes assassinadxs, mas também nos convidou a fazer parte da luta contra toda opressão, nos convidou a perder o medo e nos ensinou a usar a força do ódio para lutar contra nossos inimigos.

A transmissão de sua força por meio de suas sábias palavras em cada atividade, nas universidades, em cada local que a convidou. Cada vez que ele ia abraçar e conter outra mãe que teve umx filhx tiradx pelo Estado, pela polícia ou por qualquer guardião da propriedade, a mãe de Rodrigo Cisterna, de Marco Ariel Antonioletti, Claudia López, Matías Catrileo, Jonny Cariqueo, Sebastián Oversluij, Kevin Garrido, entre muitxs outrxs assassinadxs impunemente por lacaios do sistema Estado/capital.

É o exercício da memória, a nossa memória negra, do sangue dxs nossxs mortxs, das nossas façanhas de não ter nada e dar tudo, é que a nossa história é contada e alimentada e nisso Luisa Toledo foi/é aquela mulher sábia que plantou milhares de sementes rebeldes, que foram regadas com lágrimas de raiva e ódio, mas também com o abrigo de um imenso amor por todos xs jovens combatentes, pelxs encapuchadxs que hoje continuam a nascer em todo o território.

A melhor homenagem da juventude combatente é não esquecer, é o compromisso permanente do qual Luisa falava, “com a força do ódio, de alguma forma atacá-los, mesmo que seja com um cuspe, mas esteja lá e sempre contra eles”

POR TODXS XS JOVENS COMPANHEIRXS ASSASSINADXS,
POR TODXS XS JOVENS SEQUESTRADXS NAS PRISÕES,
POR TODXS XS JOVENS MUTILADXS DURANTE A REVOLTA,
GUERRA SOCIAL CONTRA O ESTADO E O CAPITAL.!

Como Mudar o Curso da História Humana – David Graeber e David Wengrow

O anarquista e antropólogo David Graeber nos deixou prematuramente em setembro de 2020 vítima da Covid-19. Em 2021 foi lançado seu último livro escrito em parceria dom David Wengrow, “The Dawn of Everything”, onde abordam de forma inovadora e crítica os estudos do surgimento da desigualdade social e sua relação com a ascensão da agricultura e das civilizações.

Graeber e Wengrow apontam que anarquistas e antitautoritários em geral, socialistas partidários de um estado centralizado e ideólogos do liberalismo burguês têm muito mais em comum do que gostariam de admitir quando recorrem a narrativas derivadas do cristianismo e de mitos como o “bom selvagem” de Rousseau para justificar suas posições políticas e suas propostas para o futuro. Partindo de uma crítica ao que célebres autores como Jared Diamond e Francis Fukuyama tomam como verdade, Graeber e Wengrow argumentam que há suficientes evidências para concluir que o surgimento da agricultura e das cidades não levou necessariamente à tirania e estados totalitários. Assim, também combatem a visão que condena anarquistas e outros revolucionários a se contentar com perspectivas de sociedades igualitárias reduzidas a pequenos bandos dispersos.

Nem nossa história nem o nosso futuro estão escritos para sempre em pedra.

Assim como fez no livro “Dívida: os primeiros 5.000 anos”, David Graeber propõe, junto com Wengrow, uma visão da história baseada em evidências concretas que não se deixa dobrar pelos preconceitos ou expectativas do pensamento social ocidental, tampouco apenas buscar utopias naquilo que convém à sua ideologia política – como fizeram anarquistas críticos da civilização ou marxistas com sua idealização de um comunismo primitivo.

Se queremos dar a fim a toda opressão e fazer surgir uma sociedade realmente emancipada, não há porque achar que estamos condenados a fazer o que algumas sociedades complexas fizeram, como se houvesse um “curso natural” para toda humanidade determinado de antemão. Nossos camaradas nos lembram, com seu trabalho de investigação que atualiza os saberes sobre nosso passado, que nem a história nem o nosso futuro estão escritos para sempre em pedra.

Facção Fictícia,
março de 2022.


Como Mudar o Curso da História Humana – David Graeber e David Wengrow

No começo havia a palavra

Por séculos temos contado a nós mesmos uma história simples sobre as origens da desigualdade social. Durante a maior parte de sua história, os humanos viveram em minúsculos bandos igualitários de caçadores-coletores. Então veio a agricultura, que trouxe com ela a propriedade privada e, então, o surgimento das cidades, que significou a emergência da civilização propriamente dita. Civilização significava muitas coisas ruins (guerras, impostos, burocracia, patriarcado, escravidão…), mas também tornou possível a literatura, a ciência, a filosofia e muitos outros grandes feitos humanos.
Quase todo mundo conhece essa história em seus traços gerais. Desde pelo menos os dias de Jean-Jacques Rousseau, ela moldou o que acreditamos ser a forma geral e a direção da história humana. Isso é importante porque essa narrativa também define o nossa percepção do que é possível politicamente. A maioria das pessoas veem civilização e, portanto, a desigualdade como uma necessidade trágica. Alguns sonham com o retorno a alguma utopia do passado, a descoberta de um equivalente industrial do “comunismo primitivo”, ou mesmo, em casos extremos, a destruição de tudo e a volta à condição de caçador-coletor. Mas ninguém desafia a estrutura básica daquela história.

Há um problema fundamental com essa narrativa.
Ela não é verdadeira.

Evidências esmagadoras da arqueologia, da antropologia e de disciplinas afins estão começando a nos dar uma ideia bem clara de como realmente teriam sido os últimos 40.000 anos da história humana e, em quase nada, ela lembra a narrativa convencional. Nossa espécie, de fato, não passou a maior parte de sua história em minúsculos bandos; a agricultura não marcou um limite irreversível na evolução social; as primeiras cidades frequentemente eram robustamente igualitárias. Ainda assim, mesmo quando pesquisadores chegam gradualmente a um consenso sobre essas questões, eles permanecem estranhamente relutantes em anunciar suas descobertas para o público – ou mesmo para estudiosos de outras disciplinas – para não falar da ausência de reflexões sobre suas implicações políticas mais amplas. Como resultado, aqueles escritores que estão pensando sobre as “grandes questões” da humanidade – Jared Diamond, Francis Fukuyama, Ian Morris e outros – ainda tomam a pergunta de Rousseau (“qual é a origem da desigualdade social?”) como seu ponto de partida, e assumem que a narrativa maior vai começar com algum tipo de queda da inocência primordial.
Propor a questão desta forma simplesmente significa fazer uma série de suposições, como a de que (1) existe algo chamado “desigualdade”, (2) que isso é um problema, e (3) que houve um tempo em que ela não existia. Desde o crash financeiro de 2008, evidentemente, e dos levantes sociais que se seguiram, o “problema da desigualdade social” esteve no centro do debate político. Parece haver um consenso entre classes políticas e intelectuais de que os níveis de desigualdade social entraram numa espiral de descontrole e que, de uma forma ou de outra, a maior parte dos problemas é resultado disso. Apontar isso tem sido visto como um desafio às estruturas globais de poder, mas é possível comparar essa situação com a forma com que questões similares teriam sido discutidas em uma geração anterior. Diferentemente de termos como “capital” ou “poder de classe”, é quase como se a palavra “igualdade” tivesse sido concebida para conduzir a medidas parciais e a compromissos. Pode-se imaginar a derrubada do capitalismo ou a quebra do poder do Estado, mas é muito difícil imaginar a eliminação da “desigualdade”. De fato, não fica óbvio até mesmo o que fazê-lo significaria, uma vez que as pessoas não são todas idênticas e ninguém particularmente gostaria que fossem.

Desigualdade é uma forma de conceber os problemas sociais apropriada para reformadores tecnocratas, o tipo de gente que presume que qualquer visão real de transformação social foi retirada da mesa de negociação política há muito tempo. O conceito permite brincar com números, argumentar a respeito de coeficientes de Gini [1] e limites de disfunção, reajustar regimes fiscais ou mecanismos de bem-estar social, ou mesmo chocar o público com cifras mostrando quão ruins as coisas estão (“vocês podem imaginar? 0,1% da população mundial controla acima de 50% da riqueza!”); tudo isso sem lidar com qualquer dos fatores dos quais as pessoas realmente reclamam no que diz respeito a tais arranjos sociais desiguais: por exemplo, que alguns conseguem transformar sua riqueza em poder sobre outros; ou que algumas pessoas são ensinadas que suas necessidades não são importantes e que suas vidas não tem nenhum valor intrínseco. Esse último caso, nós somos levados a acreditar, é somente o efeito inevitável da desigualdade e que a desigualdade é o resultado inevitável de se viver em qualquer sociedade grande, complexa, urbana e tecnologicamente sofisticada. Essa é a real mensagem política enviada pelas invocações sem fim de uma era de inocência imaginária, anterior à invenção da desigualdade: de que se nós quisermos nos livrar inteiramente de tais problemas, nós teríamos de nos livrar de alguma maneira também de 99,9 % da população da Terra e retornar a sermos minúsculos bandos de caçadores-coletores. Por outro lado, o melhor que podemos esperar é ajustar o tamanho da bota que vai pisar em nossos rostos eternamente, ou talvez forçar um pouco mais de espaço de manobra para que pelo menos alguns de nós fiquemos, temporariamente, fora do caminho dela.

As correntes dominantes das Ciências Sociais parecem agora mobilizadas para reforçar essa sensação de falta de esperança. Quase mensalmente somos confrontados com publicações que tentam projetar a atual obsessão com distribuição de renda de volta até a Idade da Pedra, nos encaminhando para uma busca por “sociedades igualitárias” definidas de tal forma que elas nunca poderiam ter existido fora de um minúsculo bando de caçadores-coletores (e possivelmente, nem mesmo ali). O que vamos fazer neste ensaio será, então, duas coisas. Primeiro, nós vamos passar um tempo selecionando o que parecem ser opiniões fundamentadas sobre tais questões, de forma a revelar como o jogo tem sido jogado, como mesmo os mais sofisticados estudiosos aparentemente terminam reproduzindo ideias convencionais, ainda no mesmo formato com que foram produzidas, digamos, na França e na Escócia de 1760. Em seguida, vamos tentar estabelecer as fundações iniciais para uma narrativa inteiramente diferente. Este será quase inteiramente um trabalho de limpeza de terreno.

As questões com as quais estamos lidando são tão enormes e os assuntos tão importantes que anos de pesquisas e debates serão necessários para se começar a entender as suas totais implicações. Mas insistimos em uma coisa. Abandonar a narrativa da queda de uma inocência primordial não significa abandonar os sonhos de emancipação da humanidade – isto é, de uma sociedade em que ninguém pode transformar seu direito à propriedade numa forma de escravizar outros, e na qual ninguém terá de ouvir que sua vida ou necessidades não importam. Pelo contrário. A História Humana se torna um lugar muito mais interessante, apresentando muitos momentos mais de esperança do que fomos levados a imaginar, uma vez que aprendemos a jogar fora nossas correntes conceituais e a perceber o que realmente está ali.

Visões de autores contemporâneos sobre as origens da desigualdade social – ou, o eterno retorno de Jean-Jacques Rousseau

Comecemos com um esboço da sabedoria convencional no que diz respeito ao curso em linhas gerais da história humana. Ele se parece mais ou menos com o que se segue:

Conforme as cortinas se abrem para a história humana – digamos, por volta de aproximadamente duzentos mil anos atrás, com o aparecimento do Homo sapiens anatomicamente moderno – nós encontramos nossa espécie vivendo em minúsculos bandos móveis que tinham de vinte a quarenta indivíduos. Eles buscavam territórios ótimos para a caça e a coleta, seguindo rebanhos, colhendo nozes e frutas silvestres. Se os recursos se tornavam escassos, ou se tensões sociais cresciam, eles reagiam por meio do abandono do lugar e da ida para outra área. A vida para estes humanos iniciais – nós podemos pensar esse momento como a infância da humanidade – é cheia de perigos, mas também de possibilidades. As posses materiais são poucas, mas o mundo é um lugar convidativo e imaculado. A maioria trabalha apenas algumas horas por dia e o tamanho pequeno dos grupos sociais lhes permite manter um tipo de fácil companheirismo, sem estruturas formais de dominação. Rousseau, escrevendo no século XVIII, referiu-se a isso como “O Estado de Natureza”, mas hoje em dia se pressupõe que ele abrangeu realmente a maior parte da história da nossa espécie. Também é pressuposto que foi a única época em que os seres humanos conseguiram viver em genuínas sociedades de iguais, sem classes, castas, líderes hereditários ou governos centralizados.

Infelizmente, esse estado das coisas tinha de chegar ao fim. Nossa versão convencional da história do mundo coloca esse momento por volta de 10.000 anos atrás, com o encerramento da última Idade do Gelo.

Neste ponto, nós encontramos nossos atores humanos imaginários espalhados ao redor dos continentes do mundo, começando a cultivar suas próprias plantações e a criar seus próprios rebanhos. Quaisquer que sejam as causas locais (que são bastante discutidas), os efeitos são decisivos e, basicamente, os mesmos em toda parte. Anexações territoriais e a posse privada de propriedade se tornam importantes em formas previamente desconhecidas e, com elas, também os conflitos esporádicos e as guerras. A agricultura garante um excedente de alimentos, o que permite a alguns acumular riquezas e influência para além do seu grupo imediato de parentesco. Outros usufruem a liberdade de não ter de procurar comida para desenvolver novas habilidades, como a invenção de ferramentas, veículos, fortificações e armas mais sofisticadas, ou a busca pela política e pela religião organizada. Consequentemente, estes “agricultores neolíticos” rapidamente entenderam o caráter de seus vizinhos caçadores-coletores e começaram a eliminá-los ou a absorvê-los em seu novo e superior – embora menos igual – estilo de vida.

Para tornar as coisas ainda mais difíceis, ou assim segue a narrativa, a agricultura garante um aumento global nos níveis populacionais. Conforme as pessoas adentram concentrações populacionais cada vez maiores, nossos ancestrais involuntariamente dão mais um passo irreversível em direção à desigualdade, e, por volta de 6.000 anos atrás, as cidades aparecem – e nosso destino fica selado. Com as cidades vêm a necessidade de governo centralizado. Novas classes de burocratas, sacerdotes e guerreiros-políticos se instalam permanentemente em seus cargos de forma manter a ordem e garantir o suave fluxo de recursos e serviços públicos. As mulheres, tendo outrora usufruído um papel preponderante nos feitos da humanidade, são sequestradas ou aprisionadas em haréns. Prisioneiros de guerra são reduzidos a escravos. A desigualdade plena chegou e não há como se livrar dela. Mesmo assim, os contadores de histórias sempre nos asseguram, nem tudo que diz respeito ao desenvolvimento da civilização urbana é ruim. A escrita foi inventada, primeiro para manter a contabilidade estatal, mas isso permitiu que avanços excepcionais ocorressem na ciência, tecnologia e artes. Pelo preço da inocência, nós nos tornamos nossas versões modernas e agora só podemos observar com pena e inveja aquelas poucas sociedades “primitivas” e “tradicionais” de que alguma forma perderam o barco.

Essa é a narrativa que, como dissemos, forma a fundação de todo o debate contemporâneo sobre a desigualdade. Se, digamos, um expert em relações internacionais, ou um psicólogo clínico deseja refletir sobre essas questões, é provável que eles simplesmente tomem como certo que, durante a maior parte da história humana, nós vivemos em minúsculos bandos igualitários ou que o aparecimento das cidades significou também o aparecimento do Estado. O mesmo é verdade para a maioria dos livros recentes que tentam esboçar um olhar panorâmico da pré-história, de forma a tirar conclusões políticas pertinentes à nossa vida contemporânea. Consideremos The Origins of Political Order: From Prehuman Times to the French Revolution de Francis Fukuyama:

Em seus estágios iniciais, a organização política humana é similar à sociedade no nível dos bandos observável nos primatas mais avançados, como os chimpanzés. Isso pode ser considerado como uma forma pré-definida de organização social… Rousseau apontou que a origem da desigualdade política estaria no desenvolvimento da agricultura e nisso ele estava bastante correto. Uma vez que as sociedades em nível de bando são pré-agrárias, não há propriedade privada em qualquer sentido moderno. Como os bandos de chimpanzés, os caçadores-coletores habitam uma extensão territorial que guardam e pela qual ocasionalmente têm de lutar. Mas eles têm menos incentivos do que os agricultores para demarcar um pedaço de terra e dizer “isto é meu”. Se o território deles é invadido por outro grupo, ou se é infiltrado por predadores perigosos, as sociedades em nível de bando podem ter a opção de simplesmente se mudar para outro lugar por causa das baixas densidades populacionais. Sociedades em nível de bando são altamente igualitárias… A liderança é investida em indivíduos com base em qualidades como força, inteligência e confiabilidade, mas isso tende a migrar de um indivíduo para outro.

“Desde o início, os seres humanos estavam experimentando de forma consciente com diferentes possibilidades sociais.”

Jared Diamond, em O Mundo Até Ontem: O que podemos aprender com as sociedades tradicionais?, sugere que tais bandos (nos quais ele acredita que humanos ainda viviam “até um período tão recente quanto 11.000 anos trás”) incluíam “apenas algumas dúzias de indivíduos”, a maior parte deles biologicamente aparentada. Eles levavam uma existência bastante pobre, “caçando e coletando quaisquer animais e plantas selvagens que eventualmente vivessem em um acre de floresta” (Por que apenas um acre, ele nunca explica). E suas vidas sociais, de acordo com Diamond, eram invejavelmente simples. Chegava-se às decisões por meio de “discussões cara-a-cara”; havia “poucas posses pessoais” e não havia “nenhuma liderança política formal ou especialização econômica forte”. Diamond conclui que, infelizmente, é apenas dentro de tais agrupamentos primordiais que humanos alguma vez alcançaram algum grau significativo de igualdade social.

Para Diamond e Fukuyama, assim como para Rousseau alguns séculos antes, o que põe um fim naquela igualdade – em toda a parte e para sempre – foi a invenção da agricultura e dos níveis populacionais mais altos que ela sustentou. A agricultura causou a transição de “bandos” para “tribos”. A acumulação de excedente de alimentos sustentou o crescimento populacional, levando algumas “tribos” a se desenvolver em sociedades hierarquizadas conhecidas como “chefaturas”. Fukuyama pinta um quadro quase bíblico, um abandono do Éden: “Conforme minúsculos bandos de seres humanos migraram e se adaptaram a diferentes ambientes, eles começaram a sair do estado de natureza ao desenvolver novas instituições sociais”. Eles fizeram guerras por recursos. Aquelas sociedades, desengonçadas e púberes, estavam à procura de encrenca.

Era o momento de crescer, o tempo certo para escolher uma liderança adequada. Em pouco tempo, chefes se declararam reis, até mesmo imperadores. Não havia sentido em resistir. Tudo isso se tornou inevitável assim que os humanos adotaram formas complexas e grandes de organização. Mesmo quando os líderes começaram a agir de formas ruins – surrupiar o excedente agrícola para favorecer seus parentes e asseclas, fazer com que os estatutos sociais se tornassem permanentes e hereditários, coletar como troféus crânios e haréns de meninas escravas, ou arrancar o coração de rivais com facas de obsidiana – não haveria retorno. “As grandes populações”, opina Diamond, “não podem funcionar sem líderes que tomem decisões, executivos que as implementam e burocratas que administram as decisões e as leis. Infelizmente, para todos vocês leitores que são anarquistas e sonham em viver sem qualquer Estado governante, estas são as razões pelas quais seu sonho é irreal: vocês terão de encontrar um minúsculo bando ou tribo disposto a aceitá-los, onde ninguém é um estranho e onde reis, presidentes e burocratas são desnecessários”.

Uma conclusão deplorável, não apenas para anarquistas, mas para qualquer um que algum dia se perguntou se haveria alguma alternativa para o atual status quo. Mas a coisa mais notável é que, a despeito do tom arrogante, tais pronunciamentos não se baseiam em qualquer tipo de evidência científica. Não há razão para acreditar que grupos em pequena escala sejam especialmente dispostos a serem igualitários, ou que os de grande escala devam necessariamente ter reis, presidentes ou burocracias. Esses são apenas preconceitos apresentados como fatos.

No caso de Fukuyama e Diamond, pode-se, pelo menos, notar que ambos nunca receberam treinamento nas disciplinas relevantes (o primeiro é um cientista político, o outro tem um doutorado em fisiologia da vesícula biliar). Ainda assim, quando antropólogos e arqueólogos se arriscam a compor narrativas “em um quadro geral”, eles têm a estranha tendência a concluir seus ensaios com alguma pequena variação daquela de Rousseau. Em The Creation of Inequality: How our Prehistoric Ancestors Set the Stage for Monarchy, Slavery, and Empire, Kent Flannery e Joyce Marcus, dois acadêmicos eminentemente qualificados, apresentam cerca de quinhentas páginas com estudos de caso etnográficos e arqueológicos tentando resolver o enigma. Eles admitem que nossos ancestrais da Idade do Gelo tinham alguma familiaridade com instituições hierárquicas e servidão, mas insistem que eles as vivenciaram principalmente em suas relações com o sobrenatural (espíritos ancestrais e coisas afins). A invenção da agricultura, eles propõem, levou à ascensão de “clãs” demograficamente extensos ou “grupos de parentesco” e, conforme isso foi feito, o acesso aos espíritos e aos mortos se tornou uma rota para poder terreno (como exatamente, nunca fica claro). De acordo com Flannery e Marcus, o próximo grande passo no caminho da desigualdade veio quando certos membros dos clãs de talento ou renome incomuns – curandeiros e guerreiros habilidosos, ou outros tipos de figuras super esforçadas – conseguiram o direito de transmitir seus estatutos para seus descendentes, independentemente dos talentos e habilidades desses últimos. Isso definitivamente plantou as sementes e significou que, daí para frente, era só uma questão de tempo até que surgissem as cidades, a monarquia, a escravidão e o império.

A coisa curiosa sobre o livro de Flannery e Marcus é que apenas com o nascimento de Estados e impérios eles realmente apresentam alguma evidência arqueológica. Todos os momentos realmente cruciais em seu relato sobre a “criação da desigualdade” se apoiam, contrariamente, em descrições relativamente recentes de grupos de pequena escala de caçadores-coletores, pastores e agricultores, como os hadzas da Grande Fenda na África oriental, ou os nambiquaras da Floresta Amazônica. Relatos sobre tais “sociedades tradicionais” são tratados como se fossem janelas para o passado paleolítico ou neolítico. O problema é que eles não são nada do tipo. Os hadzas ou os nambiquaras não são fósseis vivos. Eles estiveram em contato com Estados e impérios, saqueadores e comerciantes por milênios, e as instituições sociais deles foram decisivamente moldadas pelas tentativas de se relacionar com eles ou evitá-los. Apenas a Arqueologia pode nos dizer o que, se houver algo, eles têm em comum com sociedades pré-históricas. Assim, enquanto Flannery e Marcus oferecem vários tipos de intuições interessantes a respeito de como as desigualdades podem ter aparecido em sociedades humanas, eles nos dão poucas razões para acreditar que essa foi a forma que isso de fato aconteceu.

Finalmente, vamos levar em consideração Foragers, Farmers, and Fossil Fuels: How Human Values Evolve de Ian Morris. Morris persegue um projeto intelectual levemente diferente: colocar os achados da Arqueologia, da História Antiga e da Antropologia em diálogo com o trabalho de economistas, como Thomas Pikety, sobre as causas da desigualdade no mundo moderno, ou o trabalho mais orientado para políticas governamentais de Sir Tony Atkinson, Inequality: What can be Done?. O “tempo profundo” da história humana, Morris afirma, tem algo a nos dizer sobre tais questões – mas apenas se nós estabelecermos primeiro uma medida uniforme de desigualdade aplicável através de todo a duração desse tempo. Ele consegue isso por meio da tradução dos valores dos caçadores-coletores da Idade do Gelo e agricultores neolíticos para termos familiares aos economistas dos dias de hoje, e em seguida os usa para estabelecer coeficientes de Gini, ou índices formais de desigualdade. No lugar das desigualdades espirituais ressaltadas por Flannery e Marcus, Morris nos dá uma visão inapelavelmente materialista, dividindo a história humana nos três grandes F’s do título do livro [2]. Todas as sociedades, ele sugere, tem um nível ótimo de desigualdade social – um “nível espiritual” embutido para usar o termo de Pickett e Wilkinson – que é apropriado para seus modos predominantes de extração de energia.
Em um artigo de 2015 para o New York Times, Morris, na verdade, nos dá números, receitas primordiais quantificadas em dólares americanos e fixadas em relação aos valores correntes de 1990 [3]. Ele também pressupõe que os caçadores-coletores da primeira Idade do Gelo vivessem em sua maior parte em minúsculos bandos móveis. Como resultado, eles consumiam muito pouco, o equivalente, ele sugere, a cerca de U$1,10 por dia. Consequentemente, eles também apresentariam um coeficiente de Gini de cerca de 0,25 – isto é, um nível quase tão baixo quanto é possível ir – uma vez que há pouco excedente ou capital que pudesse ser tomado por alguma possível elite. Sociedades agrárias – e para Morris isso inclui tudo, desde Çatalhöyük, a aldeia neolítica de 9.000 anos atrás, até a China de Kublai Khan ou a França de Luís XIV – eram mais populosas e bem sucedidas, com um consumo médio entre U$1.50-$2.20 por dia por pessoa, e uma propensão à acumulação de excedentes de riqueza. Mas a maioria das pessoas trabalhava ainda mais duro, sob condições claramente inferiores, de forma que sociedades agrárias tenderiam a níveis muito maiores de desigualdade.

Sociedades com combustível fóssil deveriam ter transformado tudo isso ao nos libertar dos esforços do trabalho manual e ao nos levar de volta na direção de coeficientes de Gini mais razoáveis, mais próximos daqueles dos ancestrais caçadores-coletores – e, por um tempo, pareceu que isso estava começando a acontecer, mas por alguma estranha razão, que Morris não entende completamente, as coisas entraram novamente em marcha ré, e a riqueza está novamente sendo sugada e caindo nas mãos da minúscula elite global.

Se os desdobramentos da história econômica nos últimos 15.000 anos e a vontade popular servem de algum tipo de guia, o nível “correto” de desigualdade após o imposto de renda parece se localizar entre 0,25 e 0,35, e o nível de desigualdade de riqueza entre 0,70 e 0,80. Muitos países estão neste momento no limite superior destas faixas ou acima delas, o que sugere que o senhor Piketty está de fato correto ao prever problemas futuros.

Está claramente na ordem do dia invencionices tecnocráticas!

Deixemos as prescrições de Morris de lado e olhemos apenas para uma cifra: a renda paleolítica de U$ 1,10 por dia. De onde exatamente ela veio? Aparentemente, o cálculo está baseado no valor calórico de consumo alimentar diário. Mas se estamos comparando isso às rendas diárias de hoje, não deveríamos também incluir na conta todas as outras coisas que os caçadores-coletores conseguiam de graça, mas pelas quais nós mesmos temos de pagar: segurança, resolução de litígios, educação primária, cuidado dos mais velhos, medicina, todos gratuitos, sem mencionar os custos do entretenimento, da música, da narrativa de histórias, e dos serviços religiosos? Mesmo quando se trata de comida, nós devemos considerar a qualidade: afinal, nós estamos falando de uma produção 100% orgânica [4], lavada com a mais pura água mineral de fontes naturais. Muito da renda contemporânea é absorvida por hipotecas e aluguéis, mas se considerarmos os preços das melhores áreas reservadas para acampamento no Paleolítico ao longo da Dordonha ou do Vézère, sem mencionar as valiosíssimas aulas de pintura em rochas murais e de escultura em marfim – e todos aqueles casacos de pele! Certamente tudo isso deve custar insanamente acima daqueles U$ 1,10 por dia, mesmo em dólares de 1990. Não é por acaso que Marshall Sahlins se referia aos caçadores-coletores como “a sociedade afluente original”. Uma vida dessas hoje não seria barata.

Isso tudo é assumidamente um pouco tolo, mas é esse mesmo o nosso ponto: ao se reduzir a história do mundo a coeficientes de Gini, necessariamente se sucederão coisas tolas. E também coisas deprimentes. Morris ao menos demonstra que algo está fora do lugar com os recentes aumentos crescentes da desigualdade global. Em contraste, Walter Scheidel levou o estilo Piketty de interpretações da história humana até as últimas e infelizes consequências em seu livro de 2017, The Great Leveler: Violence and the History of Inequality from the Stone Age to the Twenty-First Century, chegando à conclusão de que não há realmente nada que se possa fazer com relação à desigualdade. A Civilização invariavelmente coloca uma pequena elite no poder que vai comendo cada vez mais e mais do bolo. A única coisa que em qualquer época foi capaz de os derrubar foi a catástrofe: guerras, doenças, alistamento em massa, sofrimento e morte indiscriminados. Medidas parciais nunca funcionaram. Então, se não se deseja voltar a viver em cavernas, ou morrer em um holocausto nuclear (que também se pressupõe que resulte nos sobreviventes vivendo em cavernas), é necessário aceitar a existência de Warren Buffet e Bill Gates.

A alternativa liberal? Flannery e Marcus, que abertamente se identificam com a tradição de Jean-Jacques Rousseau, terminam sua investigação com a seguinte sugestão benéfica:

Uma vez, tratamos deste assunto com Scotty McNeish, um arqueólogo que passou 40 anos estudando evolução social. Perguntamos como a sociedade poderia se tornar mais igualitária? Depois de uma breve consulta a seu velho amigo Jack Daniels, McNeish respondeu: “Coloque os caçadores e coletores no comando”.

Mas nós realmente corremos para nossas correntes de ferro?

A coisa realmente estranha no que diz respeito a essas invocações sem fim do inocente Estado de Natureza de Rousseau e à queda do estado de graça é que Rousseau nunca afirmou que o Estado de Natureza realmente aconteceu. Era tudo um experimento intelectual. Em seu Discurso sobre a origem e os fundamentos da desigualdade entre os homens (1754), de onde se origina a maior parte da narrativa que estamos contando (e recontando), ele escreveu:

As pesquisas com as quais nós vamos nos debruçar nesta ocasião não devem ser vistas como verdades históricas, mas apenas como raciocínios hipotéticos e condicionais, mais adequados a ilustrar a natureza das coisas do que a mostrar a sua origem verdadeira.

O “Estado de Natureza” de Rousseau nunca foi pensado para ser um estágio do desenvolvimento. Não era para ser o equivalente da “Selvageria”, que inicia os esquemas evolucionários dos filósofos escoceses como Adam Smith, Ferguson, Millar, ou, mais tarde, de Lewis Henry Morgan. Estes estavam interessados em definir níveis de desenvolvimento social e moral, correspondendo a transformações históricas nos modos de produção: caça e coleta, pastoralismo, agricultura, indústria. O que Rousseau apresentou foi, em contraste, mais próximo de uma parábola. Como ressaltou Judith Shklar, a renomada cientista política de Harvard, Rousseau estava realmente tentando explorar o que ele considerava ser o paradoxo da Política humana: que, de alguma forma, nosso impulso inato para a liberdade nos leva, repetidamente, a uma “marcha espontânea em direção à desigualdade”. Nas palavras do próprio Rousseau: “Todos correram para suas correntes de ferro, acreditando assegurar sua própria liberdade, pois, embora tivessem razão suficiente para ver as vantagens das instituições políticas, eles não tinham a experiência necessária para prever os perigos que dali viriam”. O imaginário Estado de Natureza é apenas uma forma de ilustrar o argumento.

Rousseau não era um fatalista. O que os seres humanos fazem, assim pensava, eles podem desfazer. Poderíamos nos libertar das correntes, só não seria fácil. Shklar sugere que a tensão entre “possibilidade e probabilidade” (a possibilidade da emancipação dos seres humanos, a probabilidade de que nós nos coloquemos novamente sob alguma forma de servidão voluntária) era a força impulsora central dos escritos sobre desigualdade de Rousseau. Tudo isso pode parecer um pouco irônico uma vez que, depois da Revolução Francesa, muitos críticos conservadores responsabilizaram pessoalmente Rousseau pela guilhotina. O que trouxe o Terror, eles diziam, foram precisamente a sua fé ingênua na bondade inata da humanidade e sua crença que uma ordem social mais igualitária poderia simplesmente ser imaginada por intelectuais e imposta sobre a “vontade geral”. Mas pouquíssimos dentre aqueles personagens do passado, agora ridicularizados como românticos e utópicos, eram realmente ingênuos. Karl Marx, por exemplo, afirmava que o que nos faz humanos é nosso poder de reflexão imaginativa – diferentemente das abelhas, nós imaginamos as casas nas quais gostaríamos de viver e só então começamos a construí-las – mas ele também acreditava que não se poderia fazer o mesmo com a sociedade, tentando impor sobre ela um modelo arquitetônico. Fazer isso seria cometer o pecado do “socialismo utópico”, pelo qual ele só nutria desprezo. Em lugar disso, revolucionários deveriam apreender o sentido das forças estruturais mais amplas que moldavam o curso da história mundial e fazer uso das suas contradições subjacentes: por exemplo, o fato de que indivíduos proprietários de fábricas precisam desfalcar seus trabalhadores para competir, mas se todos eles forem muito bem sucedidos ao fazê-lo, ninguém será capaz de pagar pelo que as fábricas produzem. Ainda assim, tamanho é o poder de dois mil anos de Escrituras que, mesmo quando realistas teimosos começam a falar sobre o vasto panorama da história humana, eles retornam a alguma variação do Jardim do Éden – a Queda do Estado de Graça (usualmente, como no Gênesis, por causa de uma busca inconsequente pelo Conhecimento); a possibilidade de Redenção. Os partidos políticos marxistas rapidamente desenvolveram sua própria versão da narrativa, fundindo o Estado de Natureza de Rousseau e a ideia de desenvolvimento por etapas do Iluminismo escocês. O resultado foi uma fórmula para a história do mundo que começa com o “comunismo primitivo”, superado pela aurora da propriedade privada, mas que está destinado a retornar algum dia.

Devemos concluir que os revolucionários, mesmo com todos os seus ideais visionários, não tenderam a ser particularmente imaginativos, especialmente quando se tratou de vincular o passado, o presente e o futuro. Todos insistem em continuar contando a mesma narrativa. Provavelmente não é coincidência que, hoje, os movimentos revolucionários mais vitais e criativos na aurora do novo milênio – os zapatistas de Chiapas e os Curdos de Rojava são apenas os exemplos mais óbvios – são aqueles que simultaneamente se enraízam em um passado profundamente tradicional. Em lugar de imaginar alguma utopia primordial, eles podem se alimentar de uma narrativa mais complexa e mista. De fato, parece haver um reconhecimento crescente, em círculos revolucionários, de que liberdade, tradição e imaginação sempre estiveram e estarão entrelaçadas de maneiras que nós não entendemos completamente. É hora do resto de nós os alcançarmos e começarmos a considerar o que seria uma versão não-bíblica da história da humanidade.

Como o curso da história (passada) pode mudar agora

O que, então, a pesquisa arqueológica e antropológica realmente nos ensinou do tempo de Rousseau até agora?

Bom, a primeira coisa é que perguntar-se sobre “as origens da desigualdade social” é provavelmente o lugar errado para se começar. Com efeito, nós não temos nenhuma ideia de como era a maior parte da vida social humana antes do início do chamado Paleolítico superior. Muito da evidência disponível inclui fragmentos dispersos de rochas, ossos e alguns outros materiais duráveis trabalhados. Diferentes espécies de hominídeos coexistiam; não está claro se qualquer analogia etnográfica seria aplicável. A imagem começa a ficar um pouco mais focalizada durante o próprio Paleolítico superior, que começa por volta de 45.000 anos atrás e engloba o ápice da glaciação e do esfriamento global (c. 20.000 anos atrás) conhecido como Último Máximo Glacial. Esta última grande Era do Gelo foi seguida pelo início de condições mais quentes e pela retração gradual das camadas de gelo, levando à nossa atual época geológica, o Holoceno. Condições mais clementes se seguiram, criando o estágio no qual o Homo Sapiens – tendo já colonizado muito do Velho Mundo – completou sua marcha para o Novo, alcançando as costas meridionais das Américas por volta de 15.000 anos atrás.

E o que realmente sabemos sobre este período da história humana? Muito das evidências substanciais mais remotas sobre a organização social humana no Paleolítico deriva da Europa, onde nossa espécie se estabeleceu ao lado do Homo neanderthalensis, antes da extinção deste último, por volta de 40.000 a.C. (muito provavelmente a concentração de dados nesta parte do mundo reflete mais uma distorção histórica da investigação arqueológica, do que qualquer coisa de excepcional no que diz respeito à própria Europa). Naquela época, e durante o Último Máximo Glacial, as partes habitáveis da Europa na Idade do Gelo pareciam mais como o Parque Nacional de Serengeti na Tanzânia do que qualquer habitat europeu atual. Ao sul das camadas de gelo, entre a tundra e os litorais florestais do Mediterrâneo, o continente estava dividido entre vales e estepes cheios de animais para caça, atravessados sazonalmente por rebanhos migratórios de veados, bisões e mamutes lanosos. Estudiosos da pré-história vêm há décadas chamando a atenção – com, aparentemente, pouco efeito – que os grupos humanos habitando esses ambientes não tinham nada em comum com aqueles bandos alegremente simples, igualitários, de caçadores-coletores, ainda rotineiramente imaginados como sendo nossos ancestrais remotos.

Para começar, há a existência incontestável de alguns ricos sepultamentos, datando desde as profundezas da Idade do Gelo. Alguns destes, como as covas de 25.000 anos de idade de Sungir, a leste de Moscou, são conhecidas há muitas décadas e são correspondentemente famosas. Felipe Fernandez-Armesto, que resenhou Creation of Inequalty para o Wall Street Journal [5], expressa um compreensível espanto com a omissão: “embora eles saibam que o princípio hereditário precede a agricultura, o Sr. Flannery e a Sra. Marcus não conseguem se livrar da ilusão rousseauniana de que ele teria começado com a vida sedentária. Consequentemente, eles desenham um mundo sem herança de poder antes de cerca de 15.000, ignorando, ao mesmo tempo, um dos mais importantes sítios arqueológicos para esse propósito”. Pois, enterrado no permafrost sob o assentamento paleolítico de Sungir estava a cova de um homem de meia idade, como observa Fernandez Armesto, com “sinais estonteantes de honra: braceletes de marfim de mamute polido, uma diadema ou chapéu de dentes de raposa e quase 3.000 contas de marfim laboriosamente esculpidas e polidas. Alguns metros dali, em uma cova idêntica, “estavam duas crianças, com cerca de 10 e 13 anos de idade, respectivamente, adornadas com presentes funerários comparáveis – incluindo, no caso da mais velha, 5.000 contas tão finas quanto as do adulto (embora levemente menores) e uma lança maciça esculpida a partir de marfim”.

Tais achados parecem não ter um lugar significativo em quaisquer dos livros considerados até agora. Menosprezá-los, ou reduzi-los a notas de rodapé, seria mais perdoável se Sungir fosse um achado isolado. Mas não é. Sepultamentos ricos comparáveis são agora verificados desde os abrigos nas rochas e assentamentos abertos do Paleolítico superior através de toda a Eurasia ocidental, do rio Don até a Dordonha. Entre eles, encontramos, por exemplo, a Dama de Saint-Germain-la-Rivière, com 16.000 anos de idade, revestida de ornamentos feitos de dentes de jovens cervos caçados a 300 km de distância, no país Basco; e os sepultamentos da costa ligúria – tão antigos quanto Sungir – incluindo “O Príncipe”, um jovem homem cujos enfeites incluem um cetro de pederneira exótica, bastões de chifres de alce e um cocar ornado com conchas perfuradas e dentes de veado. Tais achados apresentam estimulantes desafios de interpretação. Fernandez-Armesto está correto ao dizer que estas são provas de “poder hereditário”? Qual seria o estatuto social desses indivíduos durante suas vidas?

Não menos intrigante é a evidência esporádica mas tentadora de que a arquitetura monumental data do Último Máximo Glacial. A ideia de que alguém possa medir a “monumentalidade” em termos absolutos é certamente tão tola quanto a ideia de quantificar o gasto em dólares e centavos na Idade do Gelo. É um conceito relativo, que faz sentido apenas dentro de uma escala particular de valores e experiências anteriores. O Pleistoceno não tem equivalentes diretos na escala das Pirâmides de Gizé ou do Coliseu romano. Mas ele tem edifícios que, pelos padrões da época, só poderiam ser considerados trabalhos públicos, implicando projetos sofisticados e a coordenação do trabalho em uma escala impressionante. Entre eles estão as chocantes “casas mamute”, construídas com couro estendido sobre armações feitas de presas, exemplos – datando desde 15.000 anos atrás – que podem ser encontrados ao longo do transepto da franja glacial que alcança todo o caminho da atual Cracóvia até Kiev.

Ainda mais espantosos são os templos rochosos de Göbekli Tepe, escavados ao longo de 20 anos atrás na fronteira entre a Turquia e a Síria e ainda objetos de um furioso debate científico. Datados de cerca de 11.000 anos atrás, precisamente no final da Idade do Gelo, eles incluem pelo menos 20 recintos megalíticos construídos sobre os agora desérticos flancos das planícies de Harã. Cada um deles era construído com pilares de pedra calcária com mais de 5m de altura e pesando até uma tonelada (padrões dignos de Stonehenge, mas 6.000 anos antes). Quase todos os pilares em Göbekli Tepe são notáveis obras de arte, com inscrições em relevo de animais ameaçadores se projetando da superfície, com seus genitais masculinos ferozmente expostos. Aves de rapina esculpidas aparecem combinadas com imagens de cabeças humanas decapitadas. As esculturas comprovam habilidades escultóricas, sem dúvida elaboradas num meio mais maleável que seria a madeira (outrora amplamente disponível nas bases das Montanhas Tauro), antes de serem aplicadas ao leito rochoso de Harã. Intrigantemente e a despeito do seu tamanho, cada uma dessas estruturas maciças teve um tempo de vida relativamente curto, concluído com um grande banquete e o preenchimento rápido de suas paredes: hierarquias elevadas aos céus, só para serem imediatamente demolidas. E os protagonistas neste desfile pré-histórico com banquetes, construções e destruições, eram caçadores-coletores, de acordo com nossos melhores conhecimentos, vivendo apenas com recursos selvagens.

O que, então, devemos tirar disso tudo? Uma resposta dos estudiosos tem sido abandonar completamente a ideia de uma Idade do Ouro igualitária, e concluir que o autointeresse racional e a acumulação de poder são forças duradouras por trás do desenvolvimento social humano. Mas isso também não funciona. As evidências para desigualdade institucional nas sociedades da Idade do Gelo, seja na forma de grandes sepultamentos, seja na de construções monumentais, é apenas esporádica. Os sepultamentos aparecem separados literalmente por séculos e por centenas de quilômetros. Mesmo se responsabilizarmos a irregularidade da evidência por isso, ainda temos de nos perguntar por que a evidência é tão irregular, afinal, se qualquer um desses “príncipes” da Idade do Gelo tivessem se comportado como, digamos, os “príncipes” da Idade do Bronze, estaríamos encontrando fortificações, armazéns, palácios – todos os aparatos de Estados emergentes. Em lugar disso, ao longo de dezenas de milhares de anos, nós vemos monumentos e magníficos sepultamentos, mas pouca coisa que indique o desenvolvimento de sociedades hierarquizadas. Além disso, há outros fatores, ainda mais estranhos, como o fato de que a maior parte desses funerais “principescos” incluem indivíduos com notáveis anomalias físicas, que hoje seriam considerados gigantes, corcundas ou anões.

Uma observação mais ampla da evidência arqueológica sugere uma chave para desvendar o dilema. Ela está nos ritmos sazonais da vida social pré-histórica. A maior parte dos sítios paleolíticos discutidos até aqui estão associados a evidências de períodos anuais ou bienais para reuniões, conectados à migração dos rebanhos dos animais de caça – sejam mamutes lanosos, bisões das estepes, renas, ou (no caso de Göbekli Tepe) gazelas – assim como ciclos de pesca e colheita de nozes. Em momentos menos favoráveis do ano, sem dúvida, pelo menos alguns dos nossos ancestrais da Idade do Gelo realmente viviam e caçavam e coletavam em bandos minúsculos. Mas há evidências esmagadoras mostrando que em outros momentos eles se congregavam em massa dentro do tipo de “micro-cidades” encontradas por Dolní Věstonice na bacia da Morávia ao sul de Brno, banqueteando-se com a superabundância de recursos selvagens, e praticando complexos rituais, empreendimentos artísticos ambiciosos e comércio de longa distância com minerais, conchas marinhas e peles de animais. Os equivalentes europeus ocidentais destes sítios de reuniões sazonais seriam os grandes abrigos rochosos do Périgord francês e da costa da Cantábria, com suas famosas pinturas e inscrições, que similarmente formavam parte de uma rota anual de encontro e dispersão.

Tais padrões de vida social persistiram até muito tempo depois da “invenção da agricultura” supostamente ter mudado tudo. Novas evidências têm mostrado que alternações desse tipo podem ser a chave para entender os famosos monumentos neolíticos das planícies de Salisbury, e não apenas em termos do simbolismo do calendário. Stonehenge, ao que parece, era apenas a última em uma sequência bem longa de estruturas rituais, erigidas em madeira assim como em pedra, conforme as pessoas convergiam para a planície vindo de cantos remotos das Ilhas Britânicas, em momentos significativos do ano. Escavações cuidadosas têm mostrado que muitas dessas estruturas – agora plausivelmente interpretadas como monumentos aos progenitores de poderosos dinastias neolíticas – eram desmontadas depois de poucas gerações de suas construções. Ainda mais espantosamente, esta prática de erigir e desmontar grandes monumentos coincide com um momento em que os povos da Britânia, tendo adotado a economia agrária neolítica da Europa continental, parecem ter deixado para trás pelo menos um aspecto crucial dela, abandonando a produção de cereais e revertendo – por volta de 3.000 a.C. – para a coleta de castanhas como fonte básica de alimentos. Mantendo seus rebanhos de gado, com os quais eles se banqueteavam sazonalmente na região próxima de Durrington Walls, os construtores de Stonehenge provavelmente não eram nem caçadores-coletores, nem agricultores, mas sim um tipo de meio-termo. E, se algum tipo de corte real tinha domínio sobre a temporada festiva, quando eles se encontravam em grandes números, ela necessariamente teria de estar dissolvida durante a maior parte do ano, quando as mesmas pessoas retornavam ao estado de dispersão por toda a ilha.

Por que essas variações sazonais são importantes? Porque elas revelam que, desde o início, os seres humanos estavam experimentando de forma consciente com diferentes possibilidades sociais. Antropólogos descrevem sociedades desse tipo como possuindo uma “morfologia dupla”. Marcel Mauss, escrevendo no começo do século XX, observou que a sociedade dos inuítes circumpolares, “assim como muitas outras sociedades…possui duas estruturas sociais, uma no verão, outra no inverno, e que ela tem paralelamente dois sistemas de leis e de religião”. Nos meses de verão, os inuítes se dispersavam em pequenos bandos patriarcais em busca de pesca em água fresca e renas, cada um deles sob a autoridade de um único ancião homem. A propriedade era possessivamente demarcada e os patriarcas exerciam um poder coercitivo, algumas vezes até mesmo tirânico, sobre seus semelhantes. Mas durante os longos meses de inverno, quando as focas e as morsas se arrebanhavam pelos litorais do Ártico, outra estrutura social inteira assumia o controle conforme os inuítes se reuniam para construir grandes casas de encontro de madeira, ossos de baleias e pedras. Dentro delas, as virtudes da igualdade, altruísmo e vida coletiva prevaleciam; a riqueza era compartilhada; maridos e esposas trocavam de parceiros sob a égide de Sedna, a Deusa das Focas.

Outro exemplo eram os caçadores coletores nativos da costa noroeste do Canadá, para quem o inverno – não o verão – era o tempo em que a sociedade se cristalizava em sua forma mais desigual, de forma espetacular. Palácios feitos de placas de madeira apareciam ao longo da costa da Columbia Britânica, com nobres hereditários sendo cortejados por pessoas comuns e escravos, organizando os grandes banquetes conhecidos como potlatch. Contudo, essas cortes aristocráticas se dispersavam para o trabalho na temporada de pesca durante o verão, se transformando em formações menores de clãs, ainda com hierarquias, mas com uma estrutura diferente e menos formal. Neste caso, as pessoas ainda adotavam nomes diferentes durante o verão e o inverno, literalmente se transformando em outras pessoas, dependendo da época do ano.

Talvez o mais impressionante, em termos de reversões políticas, sejam as práticas das confederações tribais do século XIX nos Grandes Planaltos Americanos – ex-agricultores ou agricultores ocasionais que adotavam uma vida nômade de caçadores. No fim do verão, pequenos e móveis bandos de Cheyenne e Lakota iriam se congregar em grandes assentamentos para organizar as preparações logísticas para a caçada de búfalos. Nesse momento mais sensível do ano, eles escolhiam uma força policial que detinha plenos poderes coercitivos, incluindo o direito de aprisionar, chibatar, ou multar quaisquer ofensores que pusessem os procedimentos em perigo. E ainda assim, como o antropólogo Robert Lowie observou, esse “inequívoco autoritarismo” operava em uma base estritamente temporária e sazonal, sendo substituído por formas mais ‘anárquicas’ de organização uma vez que a temporada de caça – e os rituais coletivos que a seguiam – estivesse encerrada.

A academia nem sempre avança. Algumas vezes ela anda para trás. Cem anos atrás, a maior parte dos antropólogos entendia que aqueles que vivem principalmente de recursos naturais e selvagens não estavam, normalmente, restritos a “bandos” minúsculos. Essa ideia é realmente um produto dos anos 1960, quando bosquímanos Kalahari e pigmeus Mbuti se tornaram a imagem preferida da humanidade primordial tanto para a audiência da televisão quanto para pesquisadores. Como resultado, nós vimos o retorno das etapas evolucionárias, não tão diferentes da tradição do Iluminismo escocês: essa é, por exemplo, a fonte de onde vem a inspiração de Fukuyama, quando eles escreve que a sociedade está evoluindo estavelmente de “Bandos”, para “Tribos”, “Chefaturas” e finalmente o tipo de “Estados” complexos e estratificados em que nós vivemos hoje – usualmente definidos pelo monopólio “do uso legítimo da força coercitiva”. Por essa lógica, contudo, os Cheyenne e os Lakota deveriam estar “evoluindo” de bandos diretamente em Estados a cada novembro, e então “involuindo” outra vez na primavera. A maior parte dos antropólogos agora reconhece que essas categorias são inadequadas, e ainda assim, ninguém propôs uma forma alternativa para pensar sobre a história mundial em termos mais amplos.

De forma bem independente, as evidências arqueológicas sugerem que nos ambientes altamente sazonais da última Idade do Gelo, nossos ancestrais remotos estavam se comportando de formas amplamente similares: alternando entre diferentes arranjos sociais, permitindo o aparecimento de estruturas autoritárias durante certas épocas do ano, sob a condição de que elas não poderiam durar; a partir do entendimento de que nunca qualquer ordem social em particular seria fixa ou imutável. Dentro da mesma população, seria possível, às vezes, viver no que pareceria ser, à distância, um bando ou uma tribo, e outras vezes, uma sociedade com muitas das características que nós identificamos agora com os Estados. Com tal flexibilidade institucional vem a capacidade de sair das fronteiras de qualquer estrutura social dada; de fazer e desfazer os mundos políticos em que vivemos. Se nada mais, isso ao menos explica os “príncipes” e “princesas” da última Idade do Gelo, que aparecem, em seu magnifico isolamento, como personagens de algum tipo de conto de fadas ou drama de época. Talvez eles fossem isso mesmo de forma quase literal. Se eles realmente reinaram, talvez tenha sido com os reis e rainhas de Stonehenge, apenas durante uma temporada.

Tempo para repensar

Os autores modernos tem a tendência de usar a pré-história como uma tela para trabalhar problemas filosóficos: os humanos são fundamentalmente bons ou maus, cooperativos ou competitivos, igualitários ou hierárquicos? Como resultado, eles também tendem a escrever como se 95% da história da nossa espécie, as sociedades humanas tivessem sido essencialmente iguais. Mas mesmo 40.000 anos é um período de tempo muito, muito longo. Parece inerentemente possível, e a evidência confirma, que os mesmos humanos pioneiros que colonizaram a maior parte do planeta também experimentaram uma enorme variedade de arranjos sociais. Como frequentemente era apontado por Claude Levi-Strauss, os Homo sapiens iniciais não eram apenas fisicamente iguais aos humanos modernos, eles também eram nossos pares intelectuais. Na verdade, a maioria era provavelmente mais consciente dos potenciais da sociedade do que as pessoas são em geral hoje em dia. Em lugar de ficar inertes em algum tipo de inocência primordial, até que de alguma forma o gênio da desigualdade fosse retirado da lâmpada, nossos ancestrais pré-históricos parecem ter tido sucesso em trazê-lo para fora e para dentro regularmente, restringindo a desigualdade a encenações de época, construindo deuses e reinos da mesma forma que faziam com seus monumentos, e então alegremente os desconstruindo uma vez mais.
Se é assim, então a questão real não é “quais são as origens da desigualdade social?”, tendo vivido tanto tempo de nossa história variando entre diferentes sistemas políticos, mas sim “como foi que ficamos tão presos?”. Isso é bem distante da ideia de que as sociedades pré-históricas vagaram cegamente em direção a correntes institucionais que as aprisionaram. Também está bem longe das profecias desanimadoras de Fukuyama, Diamond, Morris e Scheidel, nas quais qualquer forma “complexa” de organização social significa necessariamente que elites minúsculas assumam o controle dos recursos fundamentais e comecem a espezinhar todas as outras pessoas. A maior parte das ciências sociais trata estes prognósticos sombrios como verdades auto-evidentes. Mas elas claramente não têm base. Então é razoável que nos perguntemos: quais outras preciosas verdades devem ser agora atiradas na lata de lixo da história?

Um bom número, na verdade. Nos anos 1970, o brilhante arqueólogo David Clarke predisse que, com a pesquisa moderna, quase todos os aspectos do velho edifício da evolução humana, “as explicações sobre o desenvolvimento do homem moderno, domesticação, metalurgia, urbanização e civilização – podem se revelar como armadilhas semânticas e miragens metafísicas”. Aparentemente ele estava certo. Informações agora transbordam de todos os cantos do globo, baseada em cuidadosos trabalhos de campo com caráter empírico, técnicas avançadas de reconstrução climática, datação cronométrica e análises científicas de restos orgânicos. Os pesquisadores estão examinando materiais etnográficos e históricos a partir de uma nova luz. E quase toda essa nova pesquisa vai contra a narrativa familiar da história mundial. Ainda assim, as mais notáveis descobertas permanecem restritas ao trabalho de especialistas, ou têm de ser expostas à força por meio da leitura nas entrelinhas das publicações científicas. Vamos então concluir com algumas das nossas próprias manchetes: apenas algumas, para apresentar um pouco daquilo com que a nova, a emergente, história mundial está começando a se parecer.

A primeira bomba na nossa lista diz respeito às origens e à difusão da agricultura. Não há mais qualquer apoio à visão de que ela marcou uma transição maior para as sociedades humanas. Naquelas partes do mundo em que animais e plantas foram inicialmente domesticados, não houve de fato qualquer “troca” discernível do caçador-coletor paleolítico para o agricultor neolítico. A “transição” de uma vida a partir de recursos naturais e selvagens para uma vida baseada na produção de alimentos levava, tipicamente, um período de tempo da ordem de três mil anos. Enquanto a agricultura permitia a possibilidade de uma concentração mais desigual de riqueza, na maioria dos casos, isso só começou a acontecer milênios depois do seu início. Nesse meio tempo, as pessoas em áreas tão distantes como a Amazônia e o Crescente Fértil, no Oriente Médio, experimentavam com diferentes amplitudes de práticas agrícolas, um “jogo agrário” se vocês quiserem, alternando anualmente entre modos de produção, da mesma forma que eles alternavam suas estruturas sociais. Além disso, a “difusão da agricultura” para áreas secundárias, como a Europa – tão frequentemente descrita em termos triunfalistas, como o início de um declínio inevitável na caça e na coleta – parece ter sido um processo altamente tênue, que algumas vezes falhava, levando ao colapso demográfico dos agricultores, não dos caçadores-coletores.

Claramente não faz mais sentido usar sentenças como “a Revolução Agrária” ao lidar com processos com duração e complexidade tão desmedidas. Uma vez que não houve um estado edênico, do qual os primeiros agricultores teriam dado seus primeiros passos no caminho da desigualdade, faz ainda menos sentido falar da agricultura como a demarcação das origens da hierarquia e da propriedade privada. Pelo contrário, é entre as populações – os povos mesolíticos – que recusaram a agricultura ao longo dos séculos quentes do Holoceno inicial que nós encontramos um fortalecimento da estratificação; ao menos, se sepultamentos opulentos, guerras predatórias e a construção de monumentos são sinais de alguma coisa. Em alguns dos casos, como no Oriente Médio, os primeiros agricultores parecem ter conscientemente desenvolvido formas alternativas de comunidade, que acompanhassem os modos de vida com trabalho mais intensivo. Essas sociedades neolíticas pareciam notavelmente igualitárias quando comparadas às dos vizinhos caçadores coletores, com um aumento dramático na importância econômica e social das mulheres, claramente refletida na vida ritual e na arte (contraste-se aqui as representações femininas de Jericó e Çatalhöyük com as esculturas hiper-masculinas de Göbekli Tepe).

Outra bomba: “civilização” não chega em um pacote fechado. As primeiras cidades do mundo não emergiram simplesmente em um punhado de lugares, junto com sistemas de governo centralizado e controle burocrático. Na China, por exemplo, sabemos agora que, por volta de 2500 a.C., assentamentos de 300 hectares ou mais existiram nas partes inferiores do rio Amarelo, mais de mil anos antes da fundação da primeira dinastia real (Shang). Do outro lado do Pacífico, e mais ou menos na mesma época, centro cerimoniais de magnitude impressionante foram descobertos no vale do Rio Supe no Peru, notavelmente no sítio de Caral: restos enigmáticos de plazas e plataformas monumentais submergidas, quatro milênios mais antigas do que o Império Inca. Tais descobertas recentes indicam quão pouco ainda se sabe realmente sobre a distribuição e a origem das primeiras cidades, e quão mais antigas essas cidades podem ser em relação aos sistemas de governo autoritário e de administração letrada que outrora se presumiu serem necessárias para sua fundação. E nas terras mais estabelecidas do coração da urbanização – Mesopotâmia, o Vale do Indo, a Bacia do México – há evidências crescentes de que as primeiras cidades foram conscientemente organizadas em linhas igualitárias, com conselhos municipais mantendo autonomia significativa em relação aos governos centrais. Nos primeiros dois casos, cidades com sofisticadas infraestruturas cívicas floresceram durante mais de meio milênio, sem qualquer traço de sepultamentos reais ou monumentos, exércitos permanentes ou quaisquer outros meios de coerção em larga escala, nem qualquer sugestão de controle burocrático direto sobre as vidas da maioria dos cidadãos.

Apesar do que diz Jared Diamond, não há absolutamente qualquer evidência de que estruturas de governo de cima para baixo são a consequência necessária de organizações em larga-escala. Apesar do que diz Walter Scheidel, simplesmente não é verdade que classes governantes, uma vez estabelecidas, só podem ser retiradas do poder por meio de catástrofes. Para tomar apenas um exemplo bem documentado: por volta de 200 d.C. a cidade de Teotihuacan no vale do México, com uma população de 120.000 (uma das maiores do mundo na época), parece ter passado por uma transformação profunda, abandonando templos-pirâmides e sacrifícios humanos e se reconstruindo como uma vasta coleção de villas confortáveis, todas quase do mesmo tamanho. Ela permaneceu assim talvez por cerca de 400 anos. Mesmo na época de Cortés, o México central era ainda residência de cidades como Tlaxcala, governada por um conselho eleito no qual os membros eram periodicamente chibatados pelos cidadãos para serem lembrados de quem estava no comando em última instância.

As peças estão todas aí para se criar uma história mundial inteiramente diferente. Na maior parte do tempo, nós estamos excessivamente cegos por nossos preconceitos para ver as implicações. Por exemplo, quase todo mundo hoje em dia insiste que a democracia participativa ou a igualdade social pode funcionar em uma pequena comunidade ou em um grupo de ativistas, mas não pode ser ampliada para qualquer coisa como uma cidade, uma região ou um Estado-nacional. Mas a evidência ante nossos olhos, se escolhermos olhar para ela, sugere o oposto. Cidades igualitárias, ou mesmo confederações regionais são lugares comuns do discurso histórico. Famílias e unidades domésticas [6] igualitárias não são. Uma vez que se tome o veredito histórico, nós veremos que as perdas mais dolorosas de liberdades humanas começaram em pequena escala – no nível das relações de gênero, de grupos etários, da servidão doméstica – o tipo de relações que contém de uma vez só a maior intimidade e as formas mais profundas de violência estrutural. Se realmente queremos entender como inicialmente se tornou aceitável para alguns transformarem riqueza em poder e para outros terem de escutar que suas necessidades e suas vidas não importam, é aqui que devemos procurar. Aqui, também, nós prevemos, é onde vai ter de ser realizado o mais difícil trabalho para criar uma sociedade emancipada.

Baixe o pdf do livro completo aqui.

David Graeber foi um dos mais influentes anarquistas da virada do século, antropólogo e autor de diversos textos e livros relevantes como “Trabalhos de Merda”, “Dívida” e “Ação Direta”. Participante ativo do Movimento Occupy nos EUA, foi um dos primeiros a chamar a atenção internacional para a experiência revolucionária em Rojava, visitando o território diversas vezes. Faleceu em 2020 vítima da Covid-19.

David Wengrow é arqueólogo e professor de Arqueologia Comparada no Instituto de Arqueologia da University College London e co-autor do livro “The Dawn of Everything”, junto de Graeber, lançado em 2021 após o falecimento do colega.

Tradução para português por de Uiran Gebara da Silva, revisão e edição por Facção Fictícia.


Notas:

[1]: NE: O Índice de Gini, criado pelo matemático italiano Conrado Gini, é um instrumento para medir o grau de concentração de renda em determinado grupo.Ele aponta a diferença entre os rendimentos dos mais pobres e dos mais ricos.

[2]: NT: em português perde-se o trocadilho: Caçadores-coletores, Agricultores e Combustíveis fósseis.

[3]: ‘To Each Age Its Inequality’ by Ian Morris. New York Times, 9 July 2015. Cf.

[4]: NT: “organic Free range produce” no original.

[5]: ‘It’s Good To Have a King’ by Felipe Fernández-Armesto. Wall Street Journal, 10 May 2012. Cf.

[6]: NT: household, ou lar, que não tem uma tradução convencional na língua portuguesa.

 

Guerra e Anarquistas: Perspectivas Antiautoritárias na Ucrânia

Enquanto os povos de todo o planeta ainda buscam alívio da pior pandemia do século, a Rússia de Vladimir Putin decidiu invadir a Ucrânia, levando a sombra da guerra de volta para o território europeu e reanimando os pesadelos da ameaça nuclear para todo o globo. No meio desses embate entre gigantes da geopolítica e da história mundial é fácil perder ou esquecer das vozes que quem está no solo desse campo de batalha e vêm tendo suas vidas, famílias e esperanças despedaçadas.

Justamente para impedir esse silenciamento, o coletivo CrimethInc. acionou contatos, reunindo depoimentos de militantes anarquistas e antifascistas em território russo e ucraniano, relatando suas resistências e o que é possível fazer para não serem meras vítimas ou espectadores da história. Essas pessoas decidiram tomar partido e se organizar coletivamente de acordo com seus princípios antiautoritários e de luta por um mundo livre da opressão capitalistas e estatal.

A invasão russa coloca questões espinhosas para anarquistas em todo o mundo. Como nos opomos à agressão militar russa sem simplesmente entrar na agenda dos Estados Unidos e de outros governos? Como continuamos a nos opor aos capitalistas e fascistas ucranianos sem ajudar o governo russo a elaborar uma narrativa para justificar a intervenção direta ou indireta? Como priorizamos tanto a vida quanto a liberdade das pessoas comuns na Ucrânia e nos países vizinhos?

E se a guerra não for o único perigo aqui? Como evitamos reduzir nossos movimentos a subsidiárias de forças estatistas sem nos tornarmos irrelevantes em um momento de conflito crescente? Como continuar a nos organizar contra todas as formas de opressão mesmo em meio à guerra, sem adotar a mesma lógica dos militares de Estado?

Se anarquistas vão trabalhar ao lado de grupos estatistas – como já ocorreu em Rojava e em outros lugares – isso torna ainda mais importante articular uma crítica ao poder estatal e desenvolver uma estrutura diferenciada para avaliar os resultados de tais experimentos.

Ukraine: Between Two Fires – Crimethinc.

O fato é: existem grupos antiautoritários, anarquistas e antifascistas em solo ucraniano resistindo como povo ao massacre da Rússia. Precisamos ouvir diretamente suas vozes e apoiar – e não ceder à meros delírios conspiracionistas se passando como rigorosas analises geopolíticas.


Este texto foi composto em conjunto por ativistas antiautoritários ativos da Ucrânia. Não representamos uma organização, mas nos reunimos para escrever este texto e nos preparar para uma possível guerra.

Além de nós, o texto foi editado por mais de dez pessoas, incluindo participantes dos eventos descritos no texto, jornalistas que verificaram a veracidade de nossas afirmações e anarquistas da Rússia, Bielorrússia e Europa. Recebemos muitas correções e esclarecimentos para escrever o texto mais objetivo possível. Se a guerra estourar, não sabemos se o movimento antiautoritário sobreviverá, mas tentaremos fazê-lo. Entretanto, este texto é uma tentativa de deixar a experiência que acumulámos online.

No momento, o mundo está discutindo a guerra entre a Rússia e a Ucrânia. Precisamos esclarecer que a guerra entre a Rússia e a Ucrânia vem acontecendo desde 2014.

Mas vamos começar do começo.

Os Protestos da Praça Maidan, em Kiev

Em 2013, protestos em massa começaram na Ucrânia, desencadeados pelos espancamentos da Berkut (forças especiais da polícia) contra manifestantes estudantis que estavam insatisfeitos com a recusa do então presidente Viktor Yanukovych em assinar o acordo de associação com a União Europeia. Esse espancamento funcionou como um chamado à ação para muitos segmentos da sociedade. Ficou claro para todos que Yanukovych havia cruzado a linha. Os protestos acabaram levando o presidente a fugir.

Na Ucrânia, esses eventos são chamados de “A Revolução da Dignidade”. O governo russo o apresenta como um golpe nazista, um projeto do Departamento de Estado dos EUA e assim por diante. Os próprios manifestantes eram uma multidão heterogênea: ativistas de extrema-direita com seus símbolos, líderes liberais falando sobre valores europeus e integração europeia, ucranianos comuns que saíram contra o governo e alguns esquerdistas. Sentimentos antioligárquicos dominaram entre os manifestantes, enquanto oligarcas que não gostavam de Yanukovych financiaram o protesto porque ele, junto com seu círculo íntimo, tentou monopolizar grandes negócios durante seu mandato. Ou seja, para outros oligarcas, o protesto representou uma chance de salvar seus negócios. Além disso, muitos representantes de empresas de médio e pequeno porte participaram do protesto porque o pessoal de Yanukovych não permitiu que eles trabalhassem livremente, exigindo dinheiro deles. As pessoas comuns estavam insatisfeitas com o alto nível de corrupção e condutas arbitrárias da polícia. Os nacionalistas que se opuseram a Yanukovych alegando que ele era um político pró-Rússia se reafirmaram significativamente. Expatriados bielorrussos e russos juntaram-se aos protestos, percebendo Yanukovych como amigo dos ditadores Alexander Lukashenko, na Bielorrússia, e Vladimir Putin, na Rússia.

Se você viu vídeos dos atos na Praça Maidan, deve ter notado que o alto grau de violência: manifestantes não tinham para onde voltar, então tiveram que lutar até o fim. Os policiais da Berkut rolaram as granadas de efeito moral com porcas que produziam feridas com estilhaços após a explosão, atingindo pessoas nos olhos; é por isso que havia tantas pessoas feridas. Nos estágios finais do conflito, as forças de segurança usaram armas militares letais – matando 106 manifestantes.

Em resposta, manifestantes produziram granadas e explosivos DIY e trouxeram armas de fogo para Maidan. A fabricação de coquetéis molotov lembrava linhas de produção.

Nos protestos de Maidan em 2014, as autoridades usaram mercenários (titushkas), lhes deram armas, coordenaram-nos e tentaram usá-los como uma força leal organizada. Houve brigas com eles envolvendo paus, martelos e facas.

Ao contrário da opinião de que as lunas na Praça Maidan foram uma “manipulação da UE e da OTAN”, os partidários da integração europeia pediram um protesto pacífico, ridicularizando os manifestantes combativos como fantoches. A União Europeia e os Estados Unidos criticaram as ocupações de edifícios governamentais. É claro que forças e organizações “pró-ocidentais” participaram do protesto, mas não controlaram todo o protesto. Várias forças políticas, incluindo a extrema direita, interferiram ativamente no movimento e tentaram impor sua agenda. Rapidamente se alinharam e se tornaram uma força organizadora, graças ao fato de terem criado os primeiros destacamentos de combate e convidado todos a se juntarem a eles, treinando-os e dirigindo-os.

No entanto, nenhuma das forças era absolutamente dominante. A principal tendência era que fosse uma mobilização de protesto espontânea dirigida contra o regime corrupto e impopular de Yanukovych. Talvez o Maidan possa ser classificado como uma das muitas “revoluções roubadas”. Os sacrifícios e esforços de dezenas de milhares de pessoas comuns foram usurpados por um punhado de políticos que chegaram ao poder e ao controle da economia.

O Papel dos Grupos Anarquistas nos Protestos de 2014

Apesar do fato de que os movimentos anarquistas na Ucrânia têm uma longa história, durante o reinado de Stalin, todos que estavam ligados a anarquistas de alguma forma foram reprimidos e o movimento morreu e, consequentemente, a transferência de experiência revolucionária foi interrompida. O movimento começou a se recuperar na década de 1980 graças aos esforços dos historiadores, e na década de 2000 recebeu um grande impulso devido ao desenvolvimento de subculturas e do antifascismo. Mas em 2014, ainda não estava pronto para sérios desafios históricos.

Antes do início dos protestos, anarquistas eram ativistas individuais ou dispersos em pequenos grupos. Poucos argumentaram que o movimento deveria ser organizado e revolucionário. Das organizações conhecidas que estavam se preparando para tais eventos, havia a Confederação Revolucionária de Anarco-Sindicalistas Makhno (RCAS Makhno), mas no início dos tumultos, ela se dissolveu, pois os participantes não conseguiram desenvolver uma estratégia para o nova situação.

Os eventos na Praça Maidan foram como uma situação em que as forças especiais invadem sua casa e você precisa tomar medidas decisivas, mas seu arsenal consiste apenas em letras punk, veganismo, livros de 100 anos e, na melhor das hipóteses, a experiência de participar do antifascismo de rua e dos conflitos sociais locais. Consequentemente, houve muita confusão, enquanto as pessoas tentavam entender o que estava acontecendo.

Na época, não foi possível formar uma visão unificada da situação. A presença da extrema-direita nas ruas desencorajou muitos anarquistas a apoiar os protestos, pois não queriam ficar ao lado dos nazistas do mesmo lado das barricadas. Isso trouxe muita controvérsia ao movimento; algumas pessoas acusaram aqueles que decidiram se juntar aos protestos fascistas.

Anarquistas que participaram dos protestos estavam insatisfeitos com a brutalidade da polícia e com o próprio Yanukovych e sua posição pró-Rússia. No entanto, eles não poderiam ter um impacto significativo nos protestos, pois estavam essencialmente na categoria de forasteiros.

No final, anarquistas participaram da revolução Maidan individualmente e em pequenos grupos, principalmente em iniciativas voluntárias/não combativas. Depois de um tempo, eles decidiram cooperar e fazer suas próprias “centena” (um grupo de combate de 60 a 100 pessoas). Mas durante o registro do destacamento (um procedimento obrigatório na Maidan), anarquistas em menor número foram dispersos pelos participantes de extrema-direita com armas. Anarquistas permaneceram, mas não tentaram mais criar grandes grupos organizados.

Entre os mortos no Maidan estava o anarquista Sergei Kemsky que, ironicamente, foi classificado como herói post-mortem da Ucrânia. Ele foi baleado por um franco-atirador durante a fase intensa do confronto com as forças de segurança. Durante os protestos, Sergei fez um apelo aos manifestantes intitulado “Você ouve, Maidan?” em que delineou possíveis caminhos para desenvolver a revolução, enfatizando os aspectos da democracia direta e da transformação social. O texto está disponível em inglês aqui.

Reunião de um esquadrão anarquista.

O Início da Guerra: a Anexação da Crimeia

O conflito armado com a Rússia começou há oito anos, na noite de 26 para 27 de fevereiro de 2014, quando o prédio do Parlamento da Crimeia e o Conselho de Ministros foram tomados por homens armados desconhecidos. Eles usavam armas, uniformes e equipamentos russos, mas não tinham os símbolos do exército russo. Putin não reconheceu o fato da participação dos militares russos nesta operação, embora mais tarde o tenha admitido pessoalmente no documentário de propaganda “Criméia: o caminho para a pátria”.

Homens armados em uniformes sem insígnias bloqueando uma unidade militar ucraniana na Crimeia em 9 de março de 2014.

Aqui, é preciso entender que na época de Yanukovych, o exército ucraniano estava em condições muito ruins. Sabendo que havia um exército russo regular de 220.000 soldados operando na Crimeia, o governo provisório da Ucrânia não se atreveu a enfrentá-lo.

Após a ocupação, muitos moradores enfrentaram uma repressão que continua até hoje. Nossos camaradas também estão entre os alvos da repressão. Podemos rever brevemente alguns dos casos mais importantes. O anarquista Alexander Kolchenko foi preso junto com o ativista pró-democrático Oleg Sentsov e transferido para a Rússia em 16 de maio de 2014; cinco anos depois, eles foram libertados como resultado de uma troca de prisioneiros. O anarquista Alexei Shestakovich foi torturado, sufocado com um saco plástico na cabeça, espancado e ameaçado de represálias; ele conseguiu escapar. O anarquista Evgeny Karakashev foi preso em 2018 por uma repostagem no Vkontakte (uma rede social); ele continua preso.

Anarquista Alexander Kolchenko após troca de prisioneiros.

Desinformação

Comícios pró-Rússia foram realizados em cidades de língua russa perto da fronteira. Os participantes temiam a OTAN, os nacionalistas radicais e a repressão contra a população de língua russa. Após o colapso da URSS, muitas famílias na Ucrânia, Rússia e Bielorrússia tinham laços familiares, mas os eventos em Maidan causaram uma séria divisão nas relações pessoais. Aqueles que estavam fora de Kiev e assistiam à TV russa estavam convencidos de que Kiev havia sido capturada por uma junta nazista e que havia expurgos da população de língua russa por lá.

A Rússia lançou uma campanha de propaganda usando as seguintes mensagens: “castigadores”, ou seja, nazistas, estão vindo de Kiev para Donetsk, eles querem destruir a população de língua russa (embora Kiev também seja uma cidade predominantemente de língua russa). Em suas declarações de desinformação, os propagandistas usaram fotos da extrema direita e espalharam todo tipo de fake news. Durante as hostilidades, uma das fraudes mais notórias apareceu: a chamada crucificação de um menino de três anos que teria sido preso a um tanque e arrastado pela estrada. Na Rússia, essa história foi transmitida em canais estatais e viralizou na Internet.

Notícias falsas de um canal russo. Uma mulher conta como viu as execuções e a crucificação de um menino de três anos.

Em 2014, em nossa opinião, a desinformação desempenhou um papel fundamental na geração do conflito armado: alguns moradores de Donetsk e Lugansk estavam com medo de serem mortos, então pegaram em armas e chamaram as tropas de Putin.

Conflito Armado no Leste da Ucrânia

“O gatilho da guerra foi puxado”, em suas próprias palavras, por Igor Girkin, coronel da FSB (a agência de segurança do Estado, sucessora da KGB) da Federação Russa. Girkin, um defensor do imperialismo russo, decidiu radicalizar os protestos pró-Rússia. Ele cruzou a fronteira com um grupo armado de russos e (em 12 de abril de 2014) tomou o prédio do Ministério do Interior em Slavyansk para tomar posse de armas. As forças de segurança pró-russas começaram a se juntar a Girkin. Quando surgiram informações sobre os grupos armados de Girkin, a Ucrânia anunciou uma operação antiterrorista.

Uma parte da sociedade ucraniana determinada a proteger a soberania nacional, percebendo que o exército tinha pouca capacidade, organizou um grande movimento voluntário. Aqueles que eram um pouco competentes em assuntos militares tornaram-se instrutores ou formaram batalhões voluntários. Algumas pessoas se juntaram ao exército regular e aos batalhões de voluntários como voluntários humanitários. Eles arrecadaram fundos para armas, alimentos, munições, combustível, transporte, aluguel de carros civis e afins. Muitas vezes, os participantes dos batalhões voluntários estavam armados e melhor equipados do que os soldados do exército estatal. Esses destacamentos demonstraram um nível significativo de solidariedade e auto-organização e, na verdade, substituíram as funções estatais de defesa territorial, permitindo que o exército (que estava mal equipado na época) resistisse com sucesso ao inimigo.

Os territórios controlados pelas forças pró-russas começaram a encolher rapidamente. Então o exército regular russo interveio.

Podemos destacar três pontos cronológicos principais:

  1. Os militares ucranianos perceberam que armas, voluntários e especialistas militares estavam vindo da Rússia. Portanto, em 12 de julho de 2014, eles iniciaram uma operação na fronteira ucraniana-russa. No entanto, durante a marcha militar, os militares ucranianos foram atacados pela artilharia russa e a operação falhou. As forças armadas sofreram pesadas perdas.
  2. Os militares ucranianos tentaram ocupar Donetsk. Enquanto avançavam, foram cercados por tropas regulares russas perto de Ilovaisk. Pessoas que conhecemos, que faziam parte de um dos batalhões de voluntários, também foram capturadas. Eles viram os militares russos em cara a cara. Após três meses, eles conseguiram retornar como resultado de uma troca de prisioneiros de guerra.
  3. O exército ucraniano controlava a cidade de Debaltseve, que tinha um grande entroncamento ferroviário. Isso interrompeu a estrada direta que liga Donetsk e Lugansk. Na véspera das negociações entre Poroshenka (o presidente da Ucrânia na época) e Putin, que deveriam iniciar um cessar-fogo de longo prazo, as posições ucranianas foram atacadas por unidades com o apoio de tropas russas. O exército ucraniano foi novamente cercado e sofreu grandes perdas.
Combatentes voluntários realizando ações em Ilovaisk em 2014.

Por enquanto (a partir de fevereiro de 2022), as partes concordaram com um cessar-fogo e uma ordem condicional de “paz e silêncio”, que é mantida, embora haja violações consistentes. Várias pessoas morrem todos os meses.

A Rússia nega a presença de tropas russas regulares e o fornecimento de armas para territórios não controlados pelas autoridades ucranianas. Os militares russos que foram capturados afirmam que foram colocados em alerta para um exercício, e só quando chegaram ao seu destino perceberam que estavam no meio da guerra na Ucrânia. Antes de cruzar a fronteira, eles removeram os símbolos do exército russo, como seus colegas fizeram na Crimeia. Na Rússia, os jornalistas encontraram cemitérios de soldados caídos , mas todas as informações sobre suas mortes são desconhecidas: os epitáfios nas lápides indicam apenas as datas de suas mortes com o ano de 2014.

Apoiadores das Repúblicas não Reconhecidas

A base ideológica dos oponentes do Maidan também era diversa. As principais ideias unificadoras eram o descontentamento com a violência contra a polícia e a oposição aos tumultos em Kiev. As pessoas que foram criadas com narrativas culturais russas, filmes e música tinham medo de que língua russa fosse destruída. Apoiadores da URSS e admiradores de sua vitória na Segunda Guerra Mundial acreditavam que a Ucrânia deveria estar alinhada com a Rússia e estavam descontentes com a ascensão de nacionalistas radicais. Os adeptos do Império Russo perceberam os protestos de Maidan como uma ameaça ao território do Império Russo. As ideias desses aliados podem ser explicadas com esta foto mostrando as bandeiras da URSS, do Império Russo e da fita de São Jorge como símbolo da vitória na Segunda Guerra Mundial. Poderíamos retratá-los como conservadores autoritários, defensores da velha ordem.

As bandeiras da URSS, o Império Russo e a fita de São Jorge como símbolo da vitória na Segunda Guerra Mundia.

O lado pró-Rússia consistia de policiais, empresários, políticos e militares que simpatizavam com a Rússia, cidadãos comuns assustados com notícias falsas, vários indivíduos de extrema direita, incluindo patriotas russos e vários tipos de monarquistas, imperialistas pró-Rússia, a Força-Tarefa grupo “Rusich”, o grupo PMC [Companhia Militar Privada] “Wagner”, incluindo o notório neonazista Alexei Milchakov, o recém-falecido Egor Prosvirnin, fundador do projeto de mídia nacionalista russo chauvinista “Sputnik e Pogrom”, e muitos outros . Havia também esquerdistas autoritários, que celebravam a URSS e sua vitória na Segunda Guerra Mundial.

A Ascensão da Extrema Direita na Ucrânia

Como descrevemos, a ala direita conseguiu ganhar simpatia durante o Maidan organizando unidades de combate e estando pronta para enfrentar fisicamente o Berkut. A presença de armas militares permitiu-lhes manter sua independência e forçar outros a contar com eles. Apesar de usarem símbolos abertamente fascistas, como suásticas, ganchos de lobo [wolf hooks], cruzes celtas e logotipos da SS, era difícil desconsiderá-los, pois a necessidade de combater as forças do governo Yanukovych fez com que muitos ucranianos clamava pela cooperação com eles.

Após os protestos em Maidan, a direita reprimiu ativamente os comícios das forças pró-russas. No início das operações militares, eles começaram a formar batalhões de voluntários. Um dos mais famosos é o batalhão “Azov”. No início, era composto por 70 combatentes; agora é um regimento de 800 pessoas com seus próprios veículos blindados, artilharia, companhia de tanques e um projeto separado de acordo com os padrões da OTAN, a escola de sargentos. O batalhão Azov é uma das unidades mais eficazes em combate do exército ucraniano. Havia também outras formações militares fascistas, como a Unidade Voluntária Ucraniana “Setor Direito” [Pravyi Sektor] e a Organização dos Nacionalistas Ucranianos, mas elas são menos conhecidas.

Como consequência, a direita ucraniana acumulou uma má reputação na mídia russa. Mas muitos na Ucrânia consideraram aquilo que era odiado na Rússia como um símbolo de luta na Ucrânia. Por exemplo, o nome do nacionalista Stepan Bandera, considerado um colaborador nazista na Rússia, foi usado ativamente pelos manifestantes como forma de zombaria. Alguns se autodenominavam Judaico-Banderanos para trollar os defensores das teorias de conspiração judaicas/maçônicas.

Com o tempo, a trollagem saiu do controle. Os direitistas usavam abertamente símbolos nazistas; partidários comuns do Maidan afirmavam que eles próprios eram banderianos que comiam bebês russos e faziam memes nesse sentido. A extrema direita chegou ao mainstream: eles foram convidados a participar de programas de televisão e outras plataformas de mídia corporativa, nos quais foram apresentados como patriotas e nacionalistas. Os partidários liberais do Maidan ficaram do lado deles, acreditando que os nazistas eram uma farsa inventada pela mídia russa. De 2014 a 2016, qualquer um que estivesse pronto para lutar foi abraçado, seja um nazista, um anarquista, um chefão de um sindicato do crime organizado ou um político que não cumpriu nenhuma de suas promessas.

Combatentes de extrema direita com uma suástica e uma bandeira da OTAN. O batalhão Azov tem uma atitude negativa em relação à OTAN; atualmente, os EUA não fornecem armas para Azov.

A ascensão da extrema-direita se deve ao fato de que ela se organizou melhor em situações críticas e foi capaz de sugerir métodos eficazes de combate a outros rebeldes. Os anarquistas forneceram algo semelhante na Bielorrússia, onde também conseguiram ganhar a simpatia do público, mas não em uma escala tão significativa quanto a extrema direita na Ucrânia.

Em 2017, depois que o cessar-fogo começou e a necessidade de combatentes radicais diminuiu, o SBU (Serviço de Segurança da Ucrânia) e o governo do estado cooptaram o movimento de direita, prendendo ou neutralizando qualquer pessoa que tivesse uma perspectiva “anti-sistema” ou independente sobre como desenvolver o movimento de direita – incluindo Oleksandr Muzychko, Oleg Muzhchil, Yaroslav Babich e outros.

Hoje, ainda é um grande movimento, mas sua popularidade está em um nível comparativamente baixo e seus líderes são afiliados ao serviço de segurança, polícia e políticos; eles não representam uma força política realmente independente. As discussões sobre o problema da extrema-direita estão se tornando mais frequentes dentro do campo democrático, onde as pessoas estão desenvolvendo uma compreensão dos símbolos e organizações com as quais estão lidando, em vez de descartar silenciosamente essas preocupações.

Atividade de Anarquistas e Antifascistas Durante a Guerra

Com a eclosão das operações militares, surgiu uma divisão entre aqueles que são pró-ucranianos e aqueles que apoiam a chamada DNR/LNR (“República Popular de Donetsk” e “República Popular de Luhansk”).

Houve um sentimento generalizado de “diga não à guerra” dentro da cena punk durante os primeiros meses da guerra, mas não durou muito. Vamos analisar os campos pró-ucranianos e pró-russos.

Pró-Ucrainianos

Devido à falta de uma organização massiva, os primeiros voluntários anarquistas e antifascistas foram para a guerra individualmente como combatentes individuais, médicos militares e voluntários. Eles tentaram formar seu próprio time, mas por falta de conhecimento e recursos, esta tentativa não teve sucesso. Alguns até se juntaram ao batalhão Azov e à OUN (Organização dos Nacionalistas Ucranianos). As razões eram mundanas: eles se juntaram às tropas mais acessíveis. Consequentemente, algumas pessoas se converteram à política de direita.

Batalhão anarquista na Ucrânia [legendas em espanhol]

As pessoas que não participaram das batalhas arrecadaram fundos para a reabilitação de feridos no leste e para a construção de um abrigo antiaéreo em um jardim de infância localizado perto da linha de frente. Havia também uma ocupação chamada “Autonomy” em Kharkiv, um centro social e cultural anarquista aberto; naquela época, eles se concentravam em ajudar os refugiados. Eles forneceram moradia e uma feira grátis permanente, consultando os recém-chegados e direcionando-os para recursos e realizando atividades educacionais. Além disso, o centro tornou-se um local de discussões teóricas. Infelizmente, em 2018, o projeto deixou de existir.

Todas essas ações foram iniciativas individuais de pessoas e grupos particulares. Eles não aconteceram no âmbito de uma única estratégia.

Um dos fenômenos mais significativos desse período foi uma antiga grande organização nacionalista radical, “Autonomnyi Opir” (Resistência Autônoma). Eles começaram a se inclinar para a esquerda em 2012; em 2014, eles haviam se deslocado tanto para a esquerda que membros individualmente se autodenominavam “anarquistas”. Eles enquadraram seu nacionalismo como uma luta pela “liberdade” e um contrapoto ao nacionalismo russo, usando o movimento zapatista e os curdos como modelos. Comparados com os outros projetos da sociedade ucraniana, eles eram vistos como os aliados mais próximos, então alguns anarquistas cooperavam com eles, enquanto outros criticavam essa cooperação e a própria organização. Os membros da AO também participaram ativamente de batalhões de voluntários e tentaram desenvolver a ideia de “anti-imperialismo” entre os militares. Também defenderam o direito das mulheres de participar da guerra; membros femininos da AO participaram das operações de combate. AO auxiliou centros de treinamento preparando combatentes e médicos, ofereceu-se para o exército e organizou o centro social “Citadel” em Lviv, onde os refugiados foram acomodados.

Moscou, 2014: Anarquistas marchando contra a agressão russa.

Pró-Russos

O imperialismo russo moderno baseia-se na percepção de que a Rússia é a sucessora da URSS – não em seu sistema político, mas em termos territoriais. O regime de Putin vê a vitória soviética na Segunda Guerra Mundial não como uma vitória ideológica sobre o nazismo, mas como uma vitória sobre a Europa que mostra a força da Rússia. Na Rússia e nos países que controla, a população tem menos acesso à informação, então a máquina de propaganda de Putin não se preocupa em criar um conceito político complexo. A narrativa é essencialmente a seguinte: os EUA e a Europa tinham medo da URSS forte, a Rússia é a sucessora da URSS e todo o território da ex-URSS é russo, os tanques russos entraram em Berlim, o que significa que “Podemos fazer de novo” e mostraremos à OTAN quem é o mais forte aqui, a razão pela qual a Europa está “apodrecendo” é porque todos os gays e emigrantes estão fora de controle lá.

Adesivos muito populares na Rússia em 2014 e 2015. A inscrição diz “Podemos fazer isso de novo”.

A base ideológica que mantinha uma posição pró-russa entre a esquerda foi o legado da URSS e sua vitória na Segunda Guerra Mundial. Como a Rússia alega que o governo de Kiev foi tomado pelos nazistas e pela junta, os oponentes da Maidan se descreveram como combatentes contra o fascismo e a junta de Kiev. Essa marca induziu simpatia entre a esquerda autoritária – por exemplo, na Ucrânia, incluindo a organização “Borotba”. Durante os eventos mais significativos de 2014, eles primeiro assumiram uma posição legalista e depois uma posição pró-Rússia. Em Odessa, em 2 de maio de 2014, vários de seus ativistas foram mortos durante confrontos de rua. Algumas pessoas deste grupo também participaram dos combates nas regiões de Donetsk e Lugansk, e algumas delas morreram lá.

“Borotba” descreveu sua motivação como o desejo de lutar contra o fascismo. Eles chamaram a esquerda europeia a se solidarizar com a “República Popular de Donetsk” e a “República Popular de Luhansk”. Depois que o e-mail de Vladislav Surkov (estrategista político de Putin) foi hackeado, foi revelado que os membros de Borotba haviam recebido financiamento e eram supervisionados pelo povo de Surkov.

Os comunistas autoritários da Rússia abraçaram as repúblicas separatistas por razões semelhantes.

A presença de apoiadores de extrema direita no Maidan também motivou antifascistas apolíticos a apoiar o “DNR” e o “LNR”. Novamente, alguns deles participaram dos combates nas regiões de Donetsk e Lugansk, e alguns deles morreram lá.

Entre os antifascistas ucranianos, havia antifascistas “apolíticos”, pessoas subculturalmente afiliadas que tinham uma atitude negativa em relação ao fascismo “porque nossos avós lutaram contra ele”. Sua compreensão do fascismo era abstrata: eles próprios eram muitas vezes politicamente incoerentes, sexistas, homofóbicos, patriotas da Rússia e afins.

A ideia de apoiar as chamadas repúblicas ganhou amplo apoio da esquerda na Europa. Os mais notáveis ​​entre seus apoiadores foram a banda de rock italiana “Banda Bassotti” e o partido alemão Die Linke. Além de arrecadar fundos, a Banda Bassotti fez uma turnê para “Novorossia”. Estando no Parlamento Europeu, Die Linke apoiou a narrativa pró-Rússia de todas as formas possíveis e organizou videoconferências com militantes pró-Rússia, indo para a Crimeia e as repúblicas não reconhecidas. Os membros mais jovens do Die Linke, assim como a Fundação Rosa Luxembourg (a fundação do partido Die Linke), sustentam que essa posição não é compartilhada por todos os participantes, mas é transmitida pelos membros mais proeminentes do partido, como Sahra Wagenknecht e Sevim Dağdelen.

Banda Bassotti em Donetsk, 2014.

A posição pró-russa não ganhou popularidade entre anarquistas. Entre as declarações individuais, a mais visível foi a posição de Jeff Monson, lutador de MMA dos Estados Unidos que possui tatuagens com símbolos anarquistas. Anteriormente, ele se considerava um anarquista, mas na Rússia trabalha abertamente para o partido governante Rússia Unida e é deputado na Duma.

Para resumir o campo da “esquerda” pró-Rússia, vemos o trabalho dos serviços especiais russos e as consequências da incapacidade ideológica. Após a ocupação da Crimeia, funcionários do FSB russo conversaram com antifascistas e anarquistas locais, oferecendo-lhes permissão para continuar suas atividades, mas sugerindo que eles deveriam incluir a ideia de que a Crimeia deveria ser parte da Rússia em sua agitação. Na Ucrânia, existem pequenos grupos informativos e ativistas que se posicionam como antifascistas enquanto expressam uma posição essencialmente pró-russa; muitas pessoas suspeitam que eles trabalham para a Rússia. Sua influência é mínima na Ucrânia, mas seus membros servem aos propagandistas russos como “denunciantes”.

Há também ofertas de “cooperação” da embaixada russa e de membros pró-russos do Parlamento como Ilya Kiva. Eles tentam jogar com a atitude negativa em relação aos nazistas como o batalhão Azov e oferecem pagar às pessoas para mudar sua posição. No momento, apenas Rita Bondar admitiu abertamente receber dinheiro dessa maneira. Ela costumava escrever para meios de comunicação de esquerda e anarquistas, mas devido à necessidade de dinheiro, ela escreveu sob um pseudônimo para plataformas de mídia afiliadas ao propagandista russo Dmitry Kiselev.

Na própria Rússia, estamos testemunhando a eliminação do movimento anarquista e a ascensão de comunistas autoritários que estão expulsando anarquistas da subcultura antifascista. Um dos momentos recentes mais indicativos é a organização de um torneio antifascista em 2021 em memória do “soldado soviético.”

A Situação Atual dos Anarquistas na Ucrânia e Novos Desafios

A posição de forasteiro durante os protestos em Maidan e a guerra teve um efeito desmoralizante no movimento. O alcance anarquista foi prejudicado quando a propaganda russa monopolizou a palavra “antifascismo”. Devido à presença dos símbolos da URSS entre os militantes pró-russos, a atitude em relação à palavra “comunismo” foi extremamente negativa, de modo que até a combinação “anarco-comunismo” foi vista negativamente. As declarações contra a ultradireita pró-ucraniana lançam uma sombra de dúvida sobre anarquistas aos olhos das pessoas comuns. Havia um acordo tácito de que a ultradireita não atacaria anarquistas e antifascistas se eles não exibissem seus símbolos em comícios e afins. A direita tinha muitas armas nas mãos. Essa situação gerou um sentimento de frustração; a polícia não funcionava bem, então qualquer um poderia ser facilmente morto sem consequências. Por exemplo, em 2015, o ativista pró-russo Oles Buzina foi morto. Tudo isso encorajou os anarquistas a abordar o assunto com mais seriedade.

Uma rede underground radical começou a se desenvolver a partir de 2016; notícias sobre ações radicais começaram a aparecer. Surgiram materiais anarquistas radicais que explicavam como comprar armas e como fazer construir abrigos e guardar suprimentos, ao contrário dos materiais antigos que apenas a coquetéis molotov.

No meio anarquista, tornou-se aceitável ter armas legais. Vídeos de campos de treinamento anarquistas usando armas de fogo começaram a surgir. Ecos dessas mudanças chegaram à Rússia e à Bielorrússia. Na Rússia, o FSB liquidou uma rede de grupos anarquistas que possuíam armas legais e praticavam airsoft. Os presos foram torturados com corrente elétrica para forçá-los a confessar o terrorismo e sentenciados a penas que variavam de 6 a 18 anos. Na Bielorrússia, durante os protestos de 2020, um grupo rebelde de anarquistas sob o nome de “Bandeira Negra” foi detido enquanto tentava atravessar a fronteira bielorrusso-ucraniana. Eles tinham uma arma de fogo e uma granada com eles; de acordo com o testemunho de Igor Olinevich, ele comprou a arma em Kiev.

Grupo rebelde anarquista “Bandeira Negra”

A abordagem ultrapassada da agenda econômica dos anarquistas também mudou: se antes, a maioria trabalhava em empregos mal remunerados “mais próximos dos oprimidos”, agora muitos estão tentando encontrar um emprego com bom salário, na maioria das vezes no setor de TI.

Grupos antifascistas de rua retomaram suas atividades, realizando ações de retaliação em casos de ataques nazistas. Entre outras coisas, eles realizaram o torneio “No Surrender” entre os combatentes antifa e lançaram um documentário intitulado “Hoods”, que fala sobre o nascimento do grupo antifa de Kiev (Legendas em inglês).

O antifascismo na Ucrânia é uma frente importante, porque além de um grande número de ativistas de ultradireita locais, muitos nazistas notórios se mudaram para cá vindos da Rússia (incluindo Sergei Korotkikh e Alexei Levkin) e da Europa (como Denis “White Rex ” Kapustin), e até dos EUA (Robert Rando). Anarquistas têm investigado as atividades da extrema direita.

Existem grupos ativistas de vários tipos (anarquistas clássicos, anarquistas queer, anarcofeministas, Food Not Bombs, eco-iniciativas e afins), bem como pequenas plataformas de informação. Recentemente, um canal antifascista apareceu no Telegram @uantifa, duplicando suas publicações em inglês.

Hoje, as tensões entre os grupos estão gradualmente se amenizando, pois recentemente houve muitas ações conjuntas e participação comum em conflitos sociais. Entre os maiores deles está a campanha contra a deportação do anarquista bielorrusso Aleksey Bolenkov (que conseguiu ganhar um julgamento contra os serviços especiais ucranianos e permanecer na Ucrânia) e a defesa de um dos distritos de Kiev (Podil) de batidas policiais e ataques da ultradireita.

Ainda temos muito pouca influência na sociedade em geral. Isso ocorre em grande parte porque a própria ideia de uma necessidade de organização e estruturas anarquistas foi ignorada ou negada por muito tempo. (Em suas memórias, Nestor Makhno também reclamou dessa deficiência após a derrota dos anarquistas). Grupos anarquistas foram rapidamente derrubados pelo SBU [Serviço de Segurança da Ucrânia] ou pela extrema direita.

Agora saímos da estagnação e estamos nos desenvolvendo e, portanto, estamos antecipando uma nova repressão e novas tentativas do SBU para assumir o controle do movimento.

Nesta fase, nosso papel pode ser descrito como as abordagens e visões mais radicais no campo democrático. Se os liberais preferem se queixar à polícia em caso de ataque da própria polícia ou da extrema direita, anarquistas se oferecem para cooperar com outros grupos que sofrem de problema semelhante e vêm em defesa de instituições ou eventos se houver a possibilidade de um ataque.

Anarquistas estão agora tentando criar laços horizontais populares na sociedade, baseados em interesses comuns, para que as comunidades possam atender às suas próprias necessidades, incluindo autodefesa. Isso difere significativamente da prática política ucraniana comum, na qual muitas vezes é proposta a união em torno de organizações, de representantes ou da polícia. Organizações e representantes são muitas vezes subornados e as pessoas que se reuniram em torno deles continuam enganadas. A polícia pode, por exemplo, defender eventos LGBT, mas não vai tolerar se essas ativistas se juntarem a um protesto contra a brutalidade policial. Na verdade, é por isso que vemos potencial em nossas ideias – mas se uma guerra estourar, o principal será novamente a capacidade de participar de conflitos armados.


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