Grupos de Afinidade São Gangues de Rua Com Análise – Relembrando UP AGAINST THE WALL, MOTHERFUCKERS!

“Vandalismo, Depredação e Análise”

Grupos de afinidades são grupos pequenos de pessoas que compartilham amizade, intimidade e confiança que se organizam para um fim. Na história do anarquismo, foram fundamentais para a sustentação de movimentos e revoluções inteiras, como na Federação Anarquista Ibérica durante a Revolução Espanhola, aponta o influente anarquista Murray Bookchin. Na Primeira Guerra Mundial, até mesmo o Exército Britânico optou por recrutar batalhões inteiros formados por amigos e vizinhos, os Pals Batallions, como forma de explorar a coesão fruto da afinidade e intimidade desses modelos, em oposição aos pelotões formados por desconhecidos. Na atualidade, redes grupos de afinidade organizam protestos antirracistas e radicalizam ações diretas, de apoio mútuo e assistência médica em conflitos no Brasil, nos Estados Unidos, no Chile e até revolução social em Rojava. O que demonstraria uma capacidade de adaptação e resiliência dos grupos de pessoas que se conhecem e compartilham laços profundos para lidar com situações e ambientes hostis.

No coletivo Facção Fictícia, costumamos usar  como slogan a frase “Vandalismo, Depredação e Análise”. Seu tom carrega uma ironia, mas também uma sutil referência a um contexto histórico maior e que gostaríamos compartilhar. A expressão é uma adaptação da frase “Uma Gangue de Rua com Análise” (A Street Gang with Analysis“), que era como se autodefiniam um dos coletivos artísticos, radicais e subversivos mais perigosos dos anos 60 nos Estados Unidos: os Up Against the Wall! Motherfuckers. Seu nome em português seria algo como “Mão na parede, filho da puta!” – uma frase bastante comum de se ouvir se pixar ou grafitar muros sem autorização é uma de suas atividades preferidas. Compartilharemos abaixo um de seus folhetos sobre grupos de afinidade, mas antes, gostaríamos de oferecer algum contexto histórico e apontamentos teóricos sobre o tema.

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“Nós éramos da rua. Nossa profissão foi a revolução. Foi tudo o que fizemos. Não tínhamos emprego, não éramos estudantes, tudo que fizemos foi radical. Uma militância radical. Verdadeiramente permanente. De manhã à noite, todos os dias. Dávamos comida de graça às pessoas, tínhamos um apartamento (que chamamos de “sala de jantar”) onde as pessoas podiam ficar sem pagar. Também tínhamos roupas disponíveis. Tudo o que fizemos foi de graça.”

– Ben Morea, em entrevista de 2018

Os Mutherfuckers!, como gostavam de se chamar, foram dos que levaram os grupos de afinidade aos limiares máximos da arte e da ação revolucionária. Sua cruza com os movimentos sociais mais relevantes de sua época, como os Black Panthers, mas também com grandes nomes da música e da arte, como os Surrealistas, e autores de diversos pontos do espectro radical, de Murray Bookchin aos Situacionistas. Diz a lenda que veio deles a arma que a feminista Valerie Solanas, usou para dar o tiro que quase matou Andy Warhol e que foram eles os responsáveis por expulsar a banda MC5 em suas limousines de um show gratuito comunitário por “venderem a revolução”.

Formado em Nova York em meio às agitações políticas da década de 1960, o grupo se reuniu em torno da revista Black Mask. Mais tarde assumiriam o nome “não publicável” (“unprintable name”, segundo New York Times) Up Against the Wall Motherfucker!. ou simplesmente “The Motherfuckers” e, mais tarde, “The Family”. Autoproclamados herdeiros do dadaísmo e do surrealismo, sua primeira ação pública acabou por fechar o Museu de Arte Moderna de Nova York (MoMa) em 1966 apenas divulgando que iriam até lá fazer uma intervenção, o que levou o museu a trancar as portas por medo de que fizessem qualquer coisa. Já em 1968, MoMA recebeu a exposição “Dada, Surrealism and Their Heritage”, sendo criticada por seu foco na cultura pop e pouco em seu lado político. Dessa vez, os Motherfuckers se juntaram a outros grupos como Chicago Surrealists e marcharam em 300 pessoas rumo ao museu que estava cercado pela polícia e tropas de choque. Manifestantes soltaram galinhas e bombas fedorentas dentro do museu. Mais tarde, Salvador Dalí teria admitido: “agora somos parte do establishment”.

“Não somos artistas, nem anti-artistas. Somos homens criativos – revolucionários. Como homens criativos, nos dedicamos a construir uma nova sociedade… O falso conceito de arte não pode nos conter.”

– Black Mask, nº3, janeiro de 1967

Sua prática ganguista desenvolvidas nas ruas, nos centros de detenção juvenil e em constante conflito com a polícia fez com que até mesmo os Situacionistas temessem a relação com o grupo. Os Situacionistas chegaram a criticar o “puro ativismo” e decidiu pela expulsão da revista Black Mask de seu círculo “sem que seus membros sequer tenham concordado em entrar”. Foram apresentados ao grupo francês pelo anarquista Bookchin, que mais tarde também romperia relações com o Debord e seu secto. Inspirados nos escritos dos Situacionistas sobre arte e sua crítica social radical, UATW/MF tomou a ideia de “totalidade” para sua proposta de “Revolução Total”. No entanto, a ação radical nas ruas que buscava encarnar o ódio do lúmpen proletariado como relatado no texto de Debord sobre a revolta do bairro negro de Watts, em Los Angeles de 1965, cujo os Motherfuckers levavam as últimas consequências em suas práticas de vida parecia assustar os eruditos Situacionistas que, segundo alguém que foi próximo ao movimento, Jean-Pierre Voyer, “exceto por Vienet, que era mecânico, não conseguiriam bater um prego”.

Por outro lado, movimentos radicais com tradição em ações comunitárias e disposição para a autodefesa armada, como os Panteras Negras, tinham profunda simpatia pelos Mutherfuckers. Suas ações tática e esteticamente se aproximavam dos Panthers. Segundo Gavin Grindon, “Morea foi a única pessoa branca a quem foi oferecido um título honorário filiação ao Partido dos Panteras Negras”. Grindon ressalta também que, inspirados por grupos como os Diggers de São Francisco e os próprios Panteras Negras, os UATW/MF patrulhavam os bairros seguindo e vigiando a polícia, às vezes armados com facas ou correntes de moto. Ocasionalmente, eles livravam pessoas (interrompendo uma prisão e resgatando o preso). Eles se autodenominavam ACID (Comitê de Ação para Defesa Imediata) ou ESSO (Organização de Serviços do Lado Leste). Eles também montaram lojas gratuitas, […], programas de alimentação gratuita, clínicas gratuitas ocasionais e serviços jurídicos, todos financiados principalmente por doações.

A última edição da revista Black Mask foi em 1968, marcando a mudança de nome do grupo para oficialmente Up Against the Wall Motherfucker – Uma gangue de rua com análise.

Dos debates com Murray Bookchin em décadas mais joviais e menos rabugentas de sua carreira, surgiu o termo “Grupos de Afinidade”, hoje comum entre os grupos militantes radicais. Herbert Marcuse,  que era tio de Tom “Osha” Neumann, membro dos Motherfuckers, deu uma palestra em Nova York e Ben Morea desafiou o intelectual e suas ideias sobre arte. Depois disso, alguns membros do grupo reuniram-se com Bookchin em seu apartamento e debateram junto do comunista Russel Blackwell sobre as milícias anarquistas na Revolução Espanhola de 1936, organizadas em grupos de compañeros. Na década seguinte, em 1971, protestos com dezenas de milhares de pessoas em Washington foram organizadas por uma constelação de grupos de afinidade coordenados. [GINDON, Gavin, Poetry Written in Gasoline, p. 23.]

A comunidade precisa de espaço livre. Ele precisa sobreviver, ficar louco, respirar, expandir, amar, lutar, ligar. […] Um evento Motherfucker tinha que incluir comida grátis, música, discursos espontâneos, chamada e resposta.

– Osha Newman, Up Against the Wall Motherf**ker!: A Memoir of Anarchism in the ’60s.

Afinidades: a primeira unidade de ação revolucionária

A herança do encontro entre esses militantes anti-artistas, anarquistas, socialistas, antirracistas e revolucionários para a prática dos movimentos atuais é extremamente relevante. Movimentos grandes e revoluções inteiras foram construídas com grupos e coletivos que começaram pequenos, rompendo com a norma estabelecida, se organizando para encontrar aliados e enfrentar sistemas inteiros.

Para atuar com o maior nível de segurança possível em momentos turbulentos onde é necessário agir fora dos mapas para romper o isolamento e encontrar seus pares, compartilhar cumplicidade, evitar grandes grupos ou exposição desnecessária. Essa é uma das vantagens dos grupos de afinidade. Nesse caso, nos referimos a grupos de amizade, cumplicidade e confiança, que compartilham pontos de vista comuns e interesse pelos mesmos objetivos e táticas, que desejam compartilhar tudo que é necessário para viver desde já a revolta que querem ver no mundo. Confiança, consenso, consentimento levado a um nível pessoal, face a face e não mediado. Esse tipo de grupo é uma forma de se organizar e tomar partido em grandes momentos de mobilização que rompem com os limites institucionais de movimentos sociais tradicionais, ao mesmo tempo que empoderam e encorajam a participação daquelas que não teriam legitimidade para se organizar de acordo com a mitologia marxista e das organizações de massas.

Esses grupos, em geral, não estão isolados entre si, mas em informal sintonia e, eventualmente, se encontrando com outros grupos pelo espaço das cidades, seja se descobrindo e colaborando durante um ato ou ação, seja estabelecendo uma rede de comunicação informal e boca a boca. Laços que se estreitam quando mais precisam, se dispersam quando a poeira baixa e a fumaça se dissipa mas nunca são deixados de lado para atrofiar. E nossas ações devem buscar aumentar a potência enquanto corpos e fortalecer suas conexões. Para aumentar essas potências, precisamos promover bons encontros: “a partir de agora, não aceitaremos nenhuma amizade que não seja política”.

As intervenções de rua do UATW/MF em 1966 já prefiguravam a estética Black Bloc que surgiria 20 anos depois nos movimentos de ocupação na Alemanha para se espalhar por todo o globo.

Visibilidade e Opacidade

Algumas pessoas podem atuar apenas com suas organizações, comunas ou grupos de afinidade, outras também podem estar em contato ou atuando em grupos maiores e maior mobilização e visibilidade. Mas é importante que se tenha em mente quais conexões trazem mais visibilidade (e seus riscos) para pessoas e grupos que pretendem permanecer opacos, invisíveis para o olho do poder. Importante considerar também que, se para algumas pessoas a visibilidade significa um risco, para outras ela é uma forma de proteção, que significa que se forem perseguidas e presas, contarão com possíveis mobilizações em solidariedade, o que pode ser mais embaraçoso para o Estado continuar efetuando uma escalada de prisões. Por isso é sempre mais útil para ele prender quem não tem tanta visibilidade dentro dos movimentos ou mesmo na mídia e, se possível, que esteja ligada a posturas mais radicais. Portanto, estar próximo dessas pessoas com maior visibilidade pode significar que as atenções que seriam dadas a elas, caiam sobre você e seu meio. Isso é particularmente perigoso quando essas pessoas com não dão a mínima para segurança e anonimato delas mesmas e daquelas relações com aquelas ao seu redor, ao mesmo que tempo que as convidam para somar com radicalidade em suas ações – como vimos nos principais grupos envolvidos na “luta contra o aumento” em junho de 2013 mas entre muitos outros episódios recentes da luta antifascista no Brasil contra o governo Bolsonaro.
 
Não quer dizer que grupos com disposição para ações mais radicais e criminosas e os grupos que atuam dentro da lei e com certa visibilidade não devam ter contato. Esse contato é estratégico para atingir a maioria dos nossos objetivos, no entanto deve ser feito com respeito às necessidades de segurança de cada parte. Além do mais, total anonimato e opacidade pode dificultar para o Estado nos encontrar, mas, ao mesmo tempo, pode nos isolar e dificultar que novas pessoas se se encontrem se tornem companheiras passem a cooperar. A repressão se beneficia quando grupos radicais se isolam em cenas reduzidas e privadas pois isso impede a adesão e a formação de uma base social de apoio e dificulta a propagação da ação direta e da solidariedade. Nosso maior desafio não é nos encarregar de táticas militares ultrassecretas, mas difundir habilidades e práticas libertárias de resistência. Não há nada melhor que atividades participativas, que ofereçam portas de entrada para novas pessoas e oportunidades para grupos existentes se unirem. Da mesma forma, anarquistas precisam equilibrar as vantagens do segredo com a necessidade de fazer circular novos formatos e energias rebeldes.
 
A guerra entre as classes invade todos os campos da vida: goste ou não, nascemos nisso e decidimos a todo o tempo como lutar. A questão é agir estrategicamente de forma a não lutar só. Isso é particularmente complicado no atual contexto de vigilância e repressão. Deve-se atuar em um grau mínimo de clandestinidade para que se possa resistir de forma significativa. Mas se o aspecto mais importante da resistência sãos as relações sociais que produzem a própria resistência, é um erro escolher formas de luta que criam bases e apoio social cada vez menores.
 
Se nossas bases sociais podem ficar menores à media que os conflitos se intensificam, pode ser mais apropriado manter guerras mais brandas que não provoquem a fúria total do Estado ou então começar uma unidade de resistência popular mais ampla do que apenas um grupo de afinidade com sua galera. Isso não quer dizer deixar de lado os grupos de afinidade, mas entender que eles devem ser um meio para catalisar a ação popular, não um fim em si mesmo. O Estado vai, normalmente, preferir desacredita e isolar grupos do que prendê-los ou matá-los. Perceber que essa é sua prioridade nos leva a defender nossas relações e conexões sociais como prioridade para nós. Podem nos espancar ou nos prender enquanto indivíduos, mas o importante é saber se manteremos vivos nossos valores e táticas.
 
Não estamos falando nenhuma novidade mas também não é um protocolo a ser seguido à risca. Estamos relatando uma forma de ser, estar e agir espontânea e ao mesmo tempo crítica. Uma forma de se encontrar, se afetar e de compartilhar cumplicidade, solidariedade e ódio contra o poder autoritário. Vimos essa forma emergir nas ruas do Brasil, no entanto é o tipo de células e redes que estiveram por trás de muitos dos maiores levantes da história recente, em diferentes países e continentes.
Capa da revista Black Mask em janeiro de 1968.

A seguir, uma tradução do panfleto sobre grupos de afinidade produzido e amplamente difundido pelos UATW/MF na década de 1960 e 70. Que sirva de inspiração para novas gerações que buscam uma profunda relação entre ética e estética, não como mera apresentação visual ou de estilo, mas como uma forma de intervir no mundo de forma radical. Se nossa arte não for revolucionária, então não é nossa revolução.

GRUPO DE AFINIDADE = UMA GANGUE DE RUA COM ANÁLISE

por Up Against the Wall! Motherfuckers

“As ideias podem criar situações de vida ou morte, mas um homem pode realmente apenas lutar e morrer por si e pela vida de seus amigos.”
– Chief Joseph

Na luta atual, formas de organização devem surgir sendo adequadas às condições modificadas que compõem a matéria real de nossos tempos. Devem ser formas suficientemente coeso para resistir à repressão; formas que podem crescer secretamente, aprendendo a se manifestar de infinitas de maneiras, para que seu modo de operação não seja cooptado pela oposição ou simplesmente seja esmagado. O grupo de afinidade é a semente/germe/essência da organização. Ela se reúne por Necessidade ou Desejo mútuos: grupos históricos coesos se unem das necessidades compartilhadas da luta pela sobrevivência, enquanto sonham com a possibilidade de amar. No período pré-revolucionário, os grupos de afinidade devem se reunir para projetar uma consciência revolucionária e desenvolver formas para lutas particulares. No próprio período revolucionário, eles emergirão como quadros armados nos centros de conflito e, no período pós-revolucionário, sugerem formas para a nova vida cotidiana.

As manifestações de massa são bem-sucedidas de duas maneiras: trazem níveis predominantes de consciência às ruas e tornam visível a quantidade de alienação ativa em nossa sociedade… e às vezes transcendem as questões de “manifestação” para se tornarem ações de massa. Como manifestações de massa, elas não conseguem avançar a natureza e as formas de nossa luta – como ações de massa (contra a polícia ou contra a propriedade), começam a definir a direção e a realidade do que nossa luta deve se tornar. “Motins” ou rebeliões são as formas mais altas de ação em massa que vimos até agora.

Folheto original sobre Grupos de Afinidade, por UATW/MF

Essas rebeliões projetam a consciência de uma comunidade em ação, uma vez que (1) libera bens e áreas geográficas e (2) envolve as forças de ocupação (PORCOS) na batalha. Essa forma também possui vantagens e limitações; e é em resposta a ambas que as pessoas estão descobrindo as possibilidades tático-teóricas de trabalhar juntas em pequenos grupos íntimos. As perspectivas para o futuro são claras em pelo menos um aspecto: os Homens e seus Porcos estão aprendendo o “controle de multidão” e estão ampliando sua resposta a todas as massas de pessoas que se dispõem a se comportar violando as “leis e a ordem” dessa sociedade. Nossos preparativos para avançar na luta devem sempre levar em conta as habilidades e tendências do inimigo. Manifestações de massa e rebeliões nos bairros continuarão a atender necessidades específicas em muitas situações… Mas, no sentido geral de luta contínua, é necessário que comecemos a agir da maneira que for mais favorável aos nossos meios e objetivos – O PEQUENO GRUPO QUE EXECUTA AÇÕES “PEQUENAS” ORQUESTRADO COM OUTROS GRUPOS PEQUENOS/AÇÕES “PEQUENAS” CRIARÃO UM CLIMA DE LUTAS GENERALIZADO EM QUE TODAS AS FORMAS DE REBELIÃO PODEM JUNTAR-SE E FORJAR A FORMA FINAL: REVOLUÇÃO…

Já vimos a resposta de pequenos grupos – as Comunas de Columbia, as Gangues Revolucionárias de Berkeley, os Comitês de Ação da França e outros até agora conhecidos apenas por suas ações (Cleveland). Nos próximos meses, esses grupos e muitos outros que se formarão enfrentam dois tipos de extrema necessidade, à medida que procuram criar a possibilidade de uma comunidade real:

(1) Desenvolvimento interno e segurança. Cada grupo continuará a criar seu próprio senso de identidade através da síntese consciente da teoria/prática; e cada grupo aplicará essa identidade à realidade existente da maneira mais eficaz.

(2) Relações externas com grupos semelhantes. Devemos começar a estabelecer as formas de comunicação e conscientização mútua que podem permitir maior mobilidade e maior resposta a crises mais do que locais. Isso significa que teremos que começar a criar uma rede de grupos de afinidade (dentro das comunidades existentes e entre essas comunidades).

Essa rede ou “Federação” deve ser caracterizada por uma frouxidão estrutural que garanta a identidade e autodeterminação de cada grupo de afinidade, bem como uma realidade organizacional que permita o máximo de ações coordenadas direcionadas à revolução total.

O conceito de grupo de afinidade de forma alguma nega a validade das ações de massa; antes, essa ideia aumenta as possibilidades revolucionárias dessas ações. A minoria ativa é capaz, porque é teoricamente mais consciente e melhor preparada taticamente, para acender o primeiro pavio e fazer os primeiros avanços. Mas é tudo. Os outros podem seguir ou não seguir… A minoria ativa desempenha o papel de um agente agitador permanente, incentivando a ação sem pretender liderar … Em certas situações objetivas – com a ajuda da minoria ativa – a espontaneidade encontra seu lugar no movimento social. É a espontaneidade que permite o avanço e não os slogans ou diretrizes dos líderes. O grupo de afinidade é a fonte de espontaneidade e de novas formas de luta.

up against the wall/MOTHERFUCKERS

341 EAST 10th St. LOWER EAST SIDE NEW YORK, NY.

“Procuramos pessoas que gostam de desenhar”

Para Saber Mais:

Análises Críticas de uma Gangue de Rua – Textos publicados originalmente nas revistas Black Mask e UAW/MF (Nova York, 1966-7).

UP AGAINST THE WALL, MOTHERFUCKERS! – Conversa com Ben Morea – Entrevista de 2018.

Como Formar Um Grupo de Afinidade – Coletivo CrimethInc.

“Sobre grupos de afinidades” – Livreto organizado por Imprensa Marginal e Instituto de Estudos Libertários

Grupos de Afinidade – Murray Bookchin

Acerca dos Grupos de Afinidade – Das Lutas e GAMA – Grupo de Afinidade e Movimentação Anarquista

Petry Written in GasolineArtigo de Gavin Grindon sobre Black Mask e UATW/MF em PDF para impressão, em inglês.

Up Against The Wall Motherfucker! – An anthology of rants, posters and more – zine em PDF para impressão, em inglês.

 

Somos Todos Antifa? Sobre a Necessidade de não Dialogar com o Fascismo

O texto a seguir é um dos artigos que integra a coletânea “ANTIFA: Modo de Usar“, livro lançado em 2020 pela editora Circuito, no qual o coletivo Facção Fictícia contribui com um artigo, traduções e uma entrevista com Mark Bray.

No momento em que as ruas voltam a ser espaço de disputa e atuação política e a radicalidade é sabotada amplamente pela esquerda, surgem manifestações de liberais e da direita que apoiou Bolsonaro a chegar ao poder depois que o mesmo fez seu maior ensaio golpista no último 7 de Setembro. Assim, parte da esquerda – que não usa tudo ao seu alcance para apoiar as lutas indígenas contra o Combo da Morte e a PL 490 – debate energicamente se deve se juntar ou não aos protestos dessa gente, ou se deve oferecer a eles uma oposição tão firme quanto ao fascismo escancarado.

É preciso ter claro que os liberais não são (nem nunca foram) aliados para barrar o avanço do fascismo, seja na base ou no topo das instituições. Os partidos e grupos liberais são os que toleram e abrem as portas para fascistas no governo – muitas vezes com apoio da centro-esquerda. Portanto, a luta contra antifascista deve ser uma luta anticapitalista que enfrente todos os possíveis aliados do fascismo.

Boa leitura.

Bloqueio do elevado Helena Greco em Belo Horizonte, 3 de julho de 2021.

Recentemente a onda de protestos nos EUA, que se espalhou por vários lugares do mundo, deflagrados pelo assassinato de George Floyd pela polícia, colocou novamente em cena o tema do antifascismo, levando uma quantidade enorme de coletivos e indivíduos a se declararem antifas. Essa popularização através da propaganda pelo ato pode ser de fato formadora, mas também pode ser um esvaziamento de sentido dos movimentos antifascistas, que os apaga enquanto alternativa diferenciada de luta. Dizer “somos todos antifas” é importante porque, como em outras insígnias semelhantes, aponta na direção contrária à criminalização: não há um grupo específico de pessoas que possa ser qualificado em tribunais como associação criminosa, que se possa denominar “os antifascistas”, trata-se, antes de tudo, de uma certa orientação geral prática que vários coletivos e indivíduos reivindicam. Mas dizer “somos todos antifascistas” também pode significar uma tentativa de assimilação em curso, de domesticação, de cooptação. Tal como avaliamos, a popularização do termo antifa não deve significar o apagamento dessa prática política e de sua diversidade de táticas, caso contrário essa propagação se tornaria uma diluição. O presente texto pretende contribuir para evitar tal processo, retomando o sentido da oposição fascismo/antifascismo na contemporaneidade e reforçando, particularmente, uma de suas características mais marcantes, a saber: com o fascismo não se discute, se combate.

Em tempos de governos que defendem abertamente valores fascistas, nos quais a luta antifascista chegou à consciência do público geral e a mídia corporativa se dedica a tentar explicar o que é o fascismo e o antifascismo — para muitas vezes igualar os dois ou criminalizar os antifascistas enquandrando-os como um grupo de caráter homogêneo, externo e invasor —, é preciso retomar alguns pontos importantes que sempre estiveram presentes na luta antifascista contemporânea e que podem ajudar aqueles que estão aderindo agora às lutas antifascistas.

Na contemporaneidade, a designação antifa diz respeito a uma orientação reivindicada por certos coletivos e movimentos quanto a não tolerância do fascismo de maneira alguma. Não diz respeito a um grupo específico, que pudesse ser uma organização terrorista, mas também não diz respeito a ser simplesmente contra o fascismo. Trata-se de uma orientação geral e prática preconizada por certos grupos, em sua maioria anarquistas, mas não apenas. Organizados em grupos de afinidade, são coletivos que legitimam a ação direta e que afirmam: com o fascismo não se discute, se combate diretamente. É importante notar que estes grupos têm raízes na contracultura punk dos anos 1980 e também, em alguns casos, nas torcidas organizadas de futebol, acostumadas a enfrentar a força policial diretamente. Não legitimam a luta jurídica, eleitoral ou institucional no combate ao fascismo, mas se organizam para impedir o fascismo de crescer, seja ao impedir uma manifestação fascista, seja ao impedir o fascismo no micro da sociedade. Os movimentos antifas defendem a autodefesa, a ação direta e a resistência não institucional ao fascismo. O antifascismo é uma reação à ameaça fascista e à ação violenta das forças policiais, na medida em que estas encarnam de forma evidente elementos fascistas. A violência policial racista e seus assassinatos são deflagradores recorrentes da resistência antifascista. E é interessante notar que o nascimento contemporâneo da antifa nos EUA se deu justamente em Minneapolis, onde o assassinato de George Floyd deu início à insurreição atual.[1]

O que significa a ação direta que estes coletivos reivindicam como arma primordial no combate ao fascismo? E por que, em se tratando do fascismo, ela parece ser a única possível? Em último grau, o que estamos dizendo que é intolerável quando dizemos que não dialogamos por quaisquer meios, que não negociamos o fascismo?

Primeiramente é preciso sempre desconstruir a ideia segundo a qual ação direta significa ação violenta. Uma ação é direta por não ser indireta, ou seja, por rejeitar representantes ou mediações para atingir seus objetivos. Mas não se trata aqui apenas de rejeitar a política institucional, e sim de encarnar na própria ação o objetivo buscado, rompendo com dualismos e com a separação entre meios e fins buscados. Neste sentido, organizar educação popular é ação direta; ocupar um imóvel abandonado também; tanto quanto promover eventos de contracultura e contrainformação. Adicionalmente, toda a luta na micropolítica onde o fascismo se encontra enraizado é uma luta por meio da ação direta, e aqui é preciso dizer ainda que as transformações reais, profundas, se dão de baixo para cima, no âmbito dos valores, no âmbito das práticas. Se atualmente a fascistização da nossa sociedade aparece de modo tão evidente, isso se deve em grande medida ao fato de que nunca houve uma modificação de baixo para cima naqueles valores que constituem o cerne do fascismo. E sobre isso nunca será demais lembrar as palavras de Foucault:

E não somente o fascismo histórico de Hitler e de Mussolini — que tão bem souberam mobilizar e utilizar o desejo das massas —, mas o fascismo que está em nós todos, que martela nossos espíritos e nossas condutas cotidianas, o fascismo que nos faz amar o poder, desejar esta coisa que nos domina e nos explora.[2]

Como liberar nosso discurso e nossos atos, nossos corações e nossos prazeres do fascismo? Como expulsar o fascismo que está incrustado em nosso comportamento?[3]

Os grupos antifas na contemporaneidade defendem que é um equívoco interpretar o fascismo apenas no seu sentido histórico ou como uma característica nacional específica de algum povo, como os alemães ou os italianos. O fascismo nunca desapareceu para ser revivido novamente. Ele sempre esteve entre nós em silêncio, para voltar de tempos em tempos quando as classes dominantes, amedrontadas diante de uma sociedade em completa falência política, social e econômica, como na qual vivemos, recorrem ao fascismo para salvá-la da revolução social. Para eles, o fascismo não é apenas um tipo de regime, nem uma ideologia para um regime em potencial. Ele pode ser entendido também como uma prática, um método, baseado no desejo fascista de dominar, oprimir, obliterar o outro. O fascismo também não seria uma perversão ou desvio dos valores da nossa sociedade, mas uma consequência deles. Assim o psicanalista Wilhelm Reich definiu a mentalidade fascista como aquela do homenzinho subjugado que anseia por autoridade e se rebela contra ela ao mesmo tempo. Reich afirmou que não é por acaso que todos os ditadores fascistas surgem do ambiente do homenzinho reacionário.[4] E de modo ainda mais enfático:

As minhas experiências em análise do caráter convenceram-me de que não existe um único indivíduo que não seja portador, na sua estrutura, de elementos do pensamento e dos sentimentos fascistas. O fascismo como um movimento político distingue-se de outros partidos reacionários pelo fato de ser sustentado e defendido por massas humanas.[5]

Antifascistas exibem cartazes e bandeiras tomados de Bolsonaristas durante o 7 de setembro de 2021. Local desconhecido.

O problema dos fascismos cotidianos, dos microfascismos com os quais vivemos, acaba por complicar a dicotomia fascista/antifascista. Se todos nós possuímos elementos de fascismo de alguma forma, como podemos falar de antifascismo, diferenciar e dar nome aos fascistas? “Mate o policial dentro da sua cabeça” — diz um ditado anarquista. Para os antifas, o fascismo não é uma doença ou uma patologia inata, e sim algo normalizado no nosso cotidiano, uma perversão do desejo produzida pelas formas de vida capitalista e moderna: práticas de dominação, autoritarismo e exploração que nos integram de tal jeito que não podemos simplesmente decidir sair delas. Mas nem todo mundo se torna um neonazista. Isso também demanda uma prática fascista, uma reafirmação constante do desejo fascista de oprimir e viver em um mundo opressivo. E, com certeza, o mundo contemporâneo fornece essa reafirmação. Neste sentido, nos tempos como os que vivemos, precisamos praticar o antifascismo, trabalhando para criar formas de vida não hierárquicas, construindo espaços seguros para os grupos oprimidos, redes de solidariedade contra a violência policial e de grupos fascistas, agindo diretamente para combater o avanço do fascismo nos locais em que convivemos. É importante destacar aqui que não existe um comitê central que determina as regras e as diretrizes sobre como atuar ou sobre quem deve ser considerado fascista o suficiente para ser combatido; cada grupo que escolhe se engajar numa ação antifascista deve decidir sobre as estratégias e táticas apropriadas para a situação na qual se encontra. O antifascismo é, antes de tudo, uma prática ética e coletiva de resistência, não é um código moral.

A identidade é fundamentalmente sobre distinguir-se dos outros. O antifascismo, no entanto, é para todos. Devemos tomar cuidado para não isolá-lo dentro de uma demografia específica com um código de vestimenta e linguagem específicos. Isso é primordial, porque a extrema direita está se esforçando para descrever a antifa como uma organização alienígena monolítica, hostil. Nossa tarefa não é apenas construir uma rede de grupos, mas criar um momentum antifascista que se espalhe contagiosamente por toda a sociedade, junto a as críticas e táticas necessárias para essa luta.[6]

Por meio das ações diretas, os grupos antifas têm mobilizado exatamente os elementos que podem guiar o combate cotidiano ao fascismo, como presentes no texto “Introdução à vida não fascista”. Os grupos são múltiplos e por isso libertos da paranoia da organização totalizante; são não hierárquicos e agenciados entre si também de modo não burocrático; não separam teoria e prática e não se engajam em disputas institucionais e jurídicas por poder.

Ousaríamos mesmo dizer aqui que, na medida em que se colocam fora do âmbito da representação, se afastam da mobilização de afetos tristes.[7] E é por isso que podemos dizer que suas práticas não se separam do fim almejado. E também no caso da resistência ao fascismo histórico, foram fundamentais as ações diretas, descentralizadas e as redes clandestinas.[8]

São Paulo, 3 de junho de 2021.

O avanço da chamada nova direita no mundo pode ser entendido como um reviver dos valores fascistas, que sempre estiveram aí e se espalham hoje sem muita vergonha. Quais valores e práticas são essas? Basicamente, podemos resumi-la nas seguintes características: o culto ao militarismo e ao autoritarismo; o nacionalismo, ainda que meramente discursivo, dentro de economias privatistas periféricas abertas ao capital internacional, como a nossa; um certo fundamentalismo religioso; o racismo; a misoginia; a homofobia; e uma política de segurança que estabelece a morte como modo de governo, criando inimigos internos que se configuram discursivamente de modo distinto em cada território, seja como combate ao terrorismo, ao imigrante ilegal ou ao tráfico de drogas. Por meio dessas ideias, o fascismo continuou existindo no Estado moderno. É também por meio delas que podemos entender o caráter fascista do avanço conservador na política recente. Não é correto dizer, sobretudo na realidade latino-americana, que o fascismo ficou um tempo fora de cena para retornar no seio da democracia. De fato, os elementos fascistas sempre estiveram presentes no poder por aqui, acompanharam nossa história da colonização[9] ao estado novo, passando pela ditadura militar. O que talvez nos falte seja justamente uma resistência antifascista organizada, que se entenda como tal, que identifique diretamente estes elementos como constitutivos das políticas de segurança hoje e que se insurja contra eles em todos os âmbitos das nossas vidas. Apesar de não se identificarem expressamente como fascistas, a família Bolsonaro, o bolsonarismo e tudo o que a chamada nova direita representa, na prática, se encaixam perfeitamente nesses elementos. E aqui é sempre útil lembrar o que afirmou Durruti sobre o tema:

Nenhum governo do mundo combate o fascismo até suprimi-lo. Quando a burguesia vê que o poder lhe escapa das mãos recorre ao fascismo para manter o poder de seus privilégios, e isso é o que ocorre na Espanha. Se o governo republicano tivesse desejado eliminar os elementos fascistas, podia tê-lo feito a muito tempo. Em vez disso, contemporizou, transigiu e gastou seu tempo buscando compromissos e acordos com eles. [10]

Buenaventura Durruti, 1936.

Há mais de meio século, grupos anarquistas ou autonomistas denominados antifas chamam a atenção para o fato de que o fascismo não acabou com o fim da ii Guerra Mundial, até porque, como já analisava Maria Lacerda de Moura na década de 1920, é o filho predileto do Estado e do Capital. Em Fascismo – Filho dileto da igreja e do capital, a pensadora anarquista defendeu que o sistema capitalista sempre é potencialmente fascista, e demonstrou a sua relação interna com a instituição religiosa, a igreja e o clero.[11] O fascismo seria a consequência do Estado capitalista. Esta análise é extremamente atual e nos ajuda a entender como muitas das características do fascismo histórico se perpetuaram no seio das chamadas democracias representativas liberais. A história mostra, em vários momentos, que o antifascismo não deve dar os braços aos liberais, porque, quando o risco de uma revolução popular é real, estes últimos ajudarão a abrir passagem para os fascistas contra os revoltosos. Sem que a ameaça de sublevação seja real, as elites abrem as portas para líderes conservadores e aceitam a ascensão do fascismo, que mantêm sempre em seu cerne como um mal menor. [12] A impressão é de que sempre haverá um liberal ou social-democrata abrindo caminho para a extrema direita massacrar uma possível rebelião. Certamente a história não se repete, mas nos deixa lições: não se pode confiar nos meios eleitorais ou nas instituições ditas democráticas para derrotar o fascismo. E isso não apenas porque os fascistas chegam ao poder legalmente,[13] mas porque reside no cerne da representação espetacular do antissistêmico. Neste sentido, o princípio do fascismo é o extremo oposto da ação direta enquanto fim sem nenhum meio, já que nestas os meios são os fins. O fascismo é o sistema da representação tomando vida própria, se tornando absoluta, é o exercício do poder soberano em ato puro, sem necessidade de legitimação por parte do poder constituinte. Essa instituição que toma vida própria, com poderes absolutos, se apresenta falsamente como um antissistêmico, quando é de fato a encarnação do sistema. O estado de exceção que esteve sempre no cerne das democracias modernas. A ação policial com carta branca para matar é sem dúvida a sua experiência mais concreta. Neste sentido, os confrontos entre grupos fascistas e antifascistas nunca foram e não podem ser tratados como meros confrontos entre gangues rivais, tratam-se antes de confrontos com o fascismo, que é, e sempre foi, tolerado no cerne das sociedades ditas democráticas, e que é particularmente propagado hoje por setores religiosos e presente diretamente na prática das forças policiais. Talvez entender como a noção de Estado Policial é atual envolva compreender como a instituição policial encarna elementos fascistas, ainda que dentro da democracia liberal.[14] No Brasil e no mundo, a luta contra a polícia está interligada com a luta contra o fascismo. Todos os dias, nas periferias e favelas desse país, a polícia atua como um exército em guerra que ocupa territórios inimigos. O genocídio do povo negro e pobre é um projeto político de Estado. É o fascismo sendo exercido através das forças policias, dos aparatos de repressão e controle de populações.

Dos estádios às manifestações, as antifas no Brasil, desde seu surgimento, têm apontado para características fascistas das forças de segurança do Estado, sendo a luta contra a violência policial uma de suas principais bandeiras. “Não acabou, tem que acabar, eu quero o fim da polícia militar” é talvez a palavra de ordem mais repetida nas linhas de frente das manifestações compostas por antifas. Não é coincidência que o crescimento da violência policial na última década anda em conjunto com o avanço da extrema direita no mundo, além disso, é notório as fortes relações entre esses dois grupos pelo mundo todo. São diversos exemplos aos logo da história, mas não precisamos ir tão longe, basta notar como um policial trata um neonazista e como ele trata um favelado numa abordagem cotidiana.

A cada ano batemos novos recordes de mortes por policiais, enquanto as instituições ditas democráticas se tornam cada vez mais fascistizadas. Os antifas entendem que agora vivemos sob duas epidemias: a da brutalidade policial e a de Covid-19. Por isso muitos coletivos têm trabalhado desenvolvendo diversas ações diretas de solidariedade entre as comunidades e combatendo o fascismo por todos os meios necessários. Muitas dessas ações pelo Brasil estão sendo interrompidas pela brutalidade policial e pela violência do Estado que não dão trégua nem em tempos de pandemia. No Complexo da Maré e na Favela da Providência, no Rio de Janeiro, por exemplo, ações de solidariedade desse tipo foram violentamente interrompidas por operações policias que resultaram na morte de participantes das ações e de pessoas atendidas por elas.[15]

Nem todos estão do mesmo lado das barricadas.

Vivemos no país mais violento do mundo. Com uma taxa de homicídio de mais de 60 mil, a violência no Brasil atinge níveis maiores do que em vários países em guerra. Temos a polícia mais letal do mundo.[16] A cada 23 minutos, um jovem negro é assassinado nesse país, sendo a maioria pela polícia.[17] Durante a pandemia, mortes por policias aumentaram 43% no Rio de Janeiro. [18] Um aparato de repressão militar, herança da ditadura, em uma instituição que já é uma herança colonial escravocrata criou essa máquina de moer carne humana que é a polícia militar. Como se já não bastasse, também somos o país que mais mata LGBTQIA+ no mundo, os maiores assassinos de indígenas das Américas e estamos caminhando para liderar o ranking mundial de violência contra a mulher. Mas quando o assunto é a violência dos grupos antifas parece que esse pano de fundo descrito não existe. A opinião pública tende a igualar fascistas e antifascistas como extremistas equivalentes, algo muito grave, que impulsionou, em mais de uma ocasião, o crescimento do fascismo. A mídia e o governo sempre fazem o possível para deslegitimar a ação antifa. A sociedade brasileira é violenta e sanguinária, o projeto colonial genocida se estende até os dias atuais, porém nos acostumamos a ele. Praticar o o antifascismo é, em grande medida, nunca se acostumar. O antifascismo é autodefesa contra tudo isso e, assim, a tão propagada “violência antifa” é, de fato, uma contraviolência. Portanto, é de suma importância entender o antifascismo como elemento de um objetivo abolicionista e anticapitalista maior, que busca dar fim à polícia, às prisões e às hierarquias opressivas. Não ter tolerância com a intolerância não é equivalente a ser intolerante. O que não é aceito de modo algum neste caso é justamente a defesa da morte do outro, o que é um detalhe lógico, como veremos adiante.

A experiência histórica nos mostrou como certos discursos são perigosos e não devem ser tolerados porque eles se vinculam muito diretamente ao genocídio e à naturalização da barbárie. Quando grupos antifas se esforçam para impedir que eventos fascistas possam ocorrer, por exemplo, eles estão se baseando nessa experiência que nos foi legada. A mensagem dessas ações é: se algo similar começa a surgir deve ser imediatamente impedido antes que cresça. As vias normais de negociação e diálogo não só se mostraram historicamente incapazes de barrar o fascismo como, em princípio, nem poderiam fazê-lo, já que o fascismo constitui precisamente uma ruptura com essas vias. E de tal forma que tentar defender a liberdade de expressão do próprio fascismo só pode constituir-se como uma evidente contradição em termos. Não há o que argumentar quando o efeito prático é a eliminação literal de um lado da interlocução. O fascismo não pode se expressar porque se ele se expressa ninguém mais se expressa. Sua própria possibilidade discursiva precisa ser banida como absurda. Para explicar melhor este ponto, é útil uma breve análise linguística. Tomemos as seguintes afirmações:

1. Todos têm direito a expressar sua opinião;

2. Mas a opinião de alguns é justamente que: não é o caso 1;

3. Então, nem todos têm direito a expressar sua opinião.

O conjunto de proposições acima tem a forma de um paradoxo por autorreferência. O paradoxo se desfaz quando observamos que 1 não é uma mera opinião dentro do sistema de opiniões, mas é uma proposição metalinguística, ou melhor, tem um valor normativo em relação ao sistema. Isso significa dizer que ela é condição de possibilidade de haver opiniões dentro do sistema e, por isso, é uma necessidade que não pode ser negada ou colocada em questão. O fascismo funciona exatamente assim, ele não é uma opinião entre outras em um sistema, é a dissolução da possibilidade mesma de continuar havendo opiniões. Por isso não deve ser tolerado. Toda argumentação cai por terra contra o fascismo, pois não se pode argumentar com quem nega o pano de fundo sobre o qual se desenrolam argumentações. Você não pode dizer que o fascismo é simplesmente falso, você deve combater a sua própria possibilidade como dotada de significação. Pois uma vez que você tolera o fascismo, você tolera o absurdo como possível, ou seja, você destitui aquilo que deveria ser necessário deste estatuto de necessidade. E é precisamente por isso que dialogar com o fascismo já é deixá-lo vencer.


Notas:

  1. “Podemos localizar a gênese antifa na América do Norte em um pizzaria de Minneapolis, onde um grupo de skinheads antirracistas e multirraciais chamados Baldies estava reunido durante as férias de Natal em dezembro de 1987.” Bray, Mark. Antifa: o manual antifascista. Tradução Guilherme Ziggy. São Paulo: Autonomia Literário, 2019, p. 146.
  2. Foucault, Michel. “Introdução à vida não fascista”. Preface in: Gilles Deleuze e Félix Guattari. Anti-Oedipus: Capitalism and Schizophrenia. New York: Viking Press, 1977, pp. xi–xiv. Traduzido por Wanderson Flor do Nascimento.
  3. Ibidem, p. 03.
  4. Reich, Wilhelm. Psicologia de massas do fascismo (1946). Tradução Mary Boyd
    Higgins. São Paulo: Martins Fontes, 1972, p. 13
  5.  Ibidem, p. 12.
  6. Not Your Grandfather’s Antifascism. Coletivo CrimethInc., 29/08/2017. Tradu-
    zido por Erick Rosa.
  7. Ver: foucault, Michel, op. cit., pp. xi–xiv.
  8. Ver: bray, Mark, op. cit., pp. 99–100.
  9. Aqui é também interessante lembar a análise desenvolvida por Achille
    Mbembe, segunda a qual o fascismo histórico de fato aplicou à Europa os prin-
    cípios de ação que já eram utilizadas no processo colonizatório. O nazismo teria como premissas fundamentais o imperialismo colonial racista e os mecanismos desenvolvidos pela própria revolução industrial. Ver, por exemplo: mbembe, Achille. Necropolítica. Tradução Renata Santini. São Paulo: n-1, 2019, pp. 22–23.
  10. Entrevista de Buenaventura Durruti ao jornalista Van Passen, 1936.
  11. moura, Maria Lacerda de. Fascismo – Filho dileto da igreja e do capital. São
    Paulo: Paulista, 1934.
  12. Ver: bray, Mark, op. cit., pp. 54–56; pp. 61–63 e p. 70.
  13. Ver: Ibidem, pp. 247–252.
  14. Essa ideia foi desenvolvida pela autora em: jourdan, Camila. “Estado Policial
    e Estado de Exceção: notas sobre a sociedade contemporânea.” Em: Abolicionismos – Vozes antipunitivistas no Brasil e contribuições libertárias. Org. Guilherme Moreira Pires. Santa Catarina: Editora Habitus, 2020, pp. 57–68.
  15. Sobre isso, conferir: “Jovem é morto durante entrega de cestas básicas no rj;
    vizinhos criticam pm”, Uol Cotidiano, 21/05/2020. E: “Operação policial interrompe doação de cestas e deixa mais um jovem morto no rj”, Brasil de Fato, 23/05/2020.
  16. Sobre isso, conferir: “Polícia brasileira é a que mais mata no mundo, diz
    relatório”, Exame, 08/09/2015. E: “Com 62,5 mil homicídios, Brasil bate recorde de mortes violentas”, Uol Cotidiano, 05/06/2018.
  17. . Dados disponíveis em: “A cada 23 minutos, um jovem negro é assassinado no
    Brasil, diz cpi”, Flacso Brasil, 06/06/2016.
  18. Sobre isso, conferir: “Mortes por policiais crescem 43% no rj durante quaren-
    tena, na contramão de crimes”, Folha de S. Paulo, 26/05/2020.

O Relógio Sempre Atrasado de Quem Teme a Revolta – ou Como os Protestos de 2021 Foram Enterrados

Presenciamos a maior pandemia que o mundo viu em um século. No Brasil, com quase 600 mil mortos, uma crise econômica, desemprego, aumento da população em situação de rua, a fome crescente e uma crise institucional com ameaças de “ruptura” e golpe militar toda semana. O governo e os ricos parecem querer zombar de nós com lucros recordes para bancos e novos bilionários surgindo no país em meio a uma crise sanitária que acabou com mais de 4 milhões de vidas em todo o planeta – e segue matando – enquanto filas se formam em açougues onde pessoas esperam comprar ossos e outros restos para ter o que comer.

Ainda há pouco, países vizinhos na América Latina são tomados por revoltas e pressão popular nas ruas contra os custos de vida e a perda de direitos pelo modo de gestão neoliberal, enquanto por aqui prevalece um grande esforço dentro da própria esquerda para manter a ordem social e a paz nas ruas.

Motivos para revoltar-se nunca faltaram, mas agora eles transbordam! E muitos ainda se perguntam: por que a rebelião não tomou as ruas de todas as cidades, trancando vias, queimando carros, destruindo lojas e delegacias, incendiando carros e viaturas como fizeram companheiras e companheiros em Santiago, Bogotá e Minneapolis? Temos os mesmos ingredientes básicos: reformas econômicas sufocantes, ataques a direitos básicos, uma pandemia tornada plano de extermínio e violência policial racista com números de guerra.

Ainda assim, é possível que tenhamos jogado no lixo a única chance desde o início desse governo de massificar uma radicalização em escala nacional. Os únicos capazes de romper o cerco e demonstrar força e articulação são os povos indígenas ocupando Brasília de forma inédita e exemplar para defender seus territórios à espoliação capitalista. Mas estão lutando praticamente sozinhos.

A janela de oportunidade parece ter se fechado e pode ser que levará muito tempo para se abrir novamente. Porém, para além de colocar a culpa e a responsabilidade em um outro, ou apenas no que de fato está sendo feito por nossos inimigos, devemos pensar o que nós temos feito — ou deixado de fazer.

“Ao contrario do que alguns pensam, a gente não tem medo da morte. Se tivéssemos, não estaríamos aqui, armados de arco e flecha e sem colete à prova de balas… não estaríamos aqui de peito aberto em meio a esta cidade”

— Indígena em ato em São Paulo, quando STF ia julgar o Marco Temporal.

Inimigos da autonomia

Nas lutas contra o aumento das tarifas de transporte público em 2013 e contra a Copa em 2014, a organização autônoma de movimentos veteranos das lutas antiglobalização, como MPL e inúmeras assembleias horizontais, foram capazes de mobilizar pessoas em dezenas de cidades de forma inédita, passando longe do controle dos partidos e centrais sindicais pacificadas pelo governo do PT. As ocupações de escolas por secundaristas em 2015/16, mostrou que uma geração muito mais jovem se organizando pela primeira vez também pode adicionar elementos novos e uma diversidade de táticas (ocupações, marchas, eventos) em uma mesma luta e obter grande sucesso. Desde então, não conseguimos arrancar grandes vitórias dentro da perspectiva de uma luta autônoma.

Nas atuais lutas contra o governo Bolsonaro e a catástrofe da Covid-19, a centro-esquerda têm mantido sua hegemonia reformista e garantido seus interesses eleitorais nos chamados e na organização dos atos pelo Brasil.

Movimentos que se organizam por fora da agenda dos partidos ou das grandes centrais sindicais – especialmente sob o guarda-chuva petista como a CUT– são ainda minoritários e até grandes e importantes movimentos sociais como o MST se submeteram ao mesmo imobilismo reformista. Mesmo assim, os movimentos autônomos e independentes foram pioneiros e protagonizaram várias tentativas de radicalizar as lutas com diversos coletivos, movimentos e blocos autônomos tomando a iniciativa em diferentes cidades.

No início da pandemia em 2020, de Porto Alegre a Belo Horizonte, torcidas organizadas antifascistas foram as primeiras organizações a chamar atos para barrar e confrontar carreatas e eventos bolsonaristas enquanto todo resto da esquerda ainda só sabia repetir um “fique em casa” acrítico, fazendo de tudo para evitar o enfrentamento com a extrema-direita. Em 2021, de Londrina a Salvador, blocos de luta organizando anarquistas, comunistas e indígenas compuseram os atos chamados pelas centrais sindicais e suas coalizões.

Tais mobilizações tiveram mérito em levar pessoas para as ruas, divulgar as pautas e imagem da luta antifascista, além de reforçar o potencial de articulação e ação política das torcidas organizadas. Eles romperam o silêncio para dizer que a onda fascistóide é tão ou mais perigosa que o vírus. Muitas pessoas obrigadas a se aglomerar todo dia nos transportes públicos e no trabalho, ficar em casa para assistir fascistas tomarem as ruas para legitimar esse governo e sua crise parecia uma péssima ideia. Mas ainda é preciso avaliar os motivos que impediram tais mobilizações de manter o fôlego para se manter nas ruas e ampliar a adesão.

“Lutamos contra eles escrevendo cartas para que não tenhamos que enfrentá-los com os punhos. Lutamos com os punhos para que não tenhamos que enfrentá-los com facas. Lutamos com facas para que não precisemos enfrentá-los com armas. Lutamos com armas para que não tenhamos que enfrentá-los com tanques.”

— “Murray” de Baltimore, citado no  livro Manual Antifa de Mark Bray.

Após apontar os caminhos para uma autocrítica autonomista ainda a ser desenvolvida, não podemos deixar de avaliar o contexto político e as organizações para além dos nossos círculos autônomos ou radicais. Nesses quesitos, as frentes amplas partidárias reformistas foram mais eficientes em mobilizar simultaneamente atos por todo o país. Muito disso é devido à sua enorme estrutura, tempo de atuação e recursos – os custos para divulgação, aluguel de carros de som, combustível, drones para filmagem, etc. chegaram à cifra dos 40 mil reais em Belo Horizonte e mais de 100 mil reais em São Paulo, segundo os próprios organizadores em assembleias. Recursos que, além de impossíveis de serem empregados por movimentos autônomos em uma única cidade, são também uma prova do imenso desperdício inerente às formas tradicionais de protesto organizado de cima para baixo, pensados de forma quantitativa onde uma estrutura com veicular e sonora cerca, dita o passo e abafa as vozes de corpos que poderiam ser ouvidos e enfrentar seus inimigos de classe com muito quase zero investimento do próprio bolso – e causando muito mais prejuízo aos patrões.

É importante analisar o papel das frentes amplas que foram formadas desde a luta contra o impeachment de Dilma Roussef e como esse tipo de organização tem funcionado como um grande entrave na luta. O Fora Bolsonaro™(reforçamos aqui ironicamente a exclusividade da marca) reuniu a Frente Povo Sem Medo(composta majoritariamente por MST, PSOL, UP, PCB, dentre outros), Frente Brasil Popular(PT, MST, CUT, dentre outros) e a Povo Na Rua, Fora Bolsonaro (uma tentativa de partidos como UP e PCB de darem novos rumos aos protestos), além dos poucos independentes e autonomistas.

Nas discussões e assembleias ficou claro que a ala Brasil Popular fez de tudo para arrefecer o que já não parecia caminhar para a radicalidade. A decisão de adiar os protestos para um a cada mês depois e seu boicote claro as datas tiradas para além do seu controle reforçam esse diagnóstico. As reuniões das Fora Bolsonaro Nacional™ demonstravam claramente que grande parte dos que compunham o movimento oficial não queriam que os protestos se massificassem e saíssem do seu controle.

Qual foi o papel da CUT, a maior central sindical da América Latina, nos últimos atos que foram construídos no Brasil, se não a sabotagem de alto nível, desarticulação profissional e desmobilização esforçada? Enquanto diversos setores como os Correios são privatizados, professores e funcionários públicos passam por uma precarização cada vez maior, a CUT permanece extremamente recuada.

Não havia motivos ou desculpas para que uma grande greve geral não fosse convocada desde o início da pandemia. Porém, sabemos por qual razão isso não foi nem será feito: optou-se esperar até que Lula eventualmente possa ser eleito em outubro de 2022. Quem pode esperar até lá? Quando a revolta estourar nas ruas e nem mesmo essa esquerda cúmplice dos patrões e da lei puder controlá-la, seremos nós que estaremos nas ruas.

Na luta contra esse governo, sua base fascista, o neoliberalismo e a vida no capitalismo em si, aqueles que, como fizeram membros MTST e PCB, desfazem barricadas e agridem quem as ergue, são inimigos de classe. Também o são aqueles que se sentaram com a polícia e os partidos de direita em São Paulo para negociar e combinar o que é permitido e legítimo fazer em um protesto, jogando na fogueira qualquer movimento organizado ou revoltas espontâneas que possam surgir. São falsos críticos do capitalismo pois não fazem sua crítica com ações concretas quando é a hora, apenas aguardam, tramam e agem quando convém à sua agenda por entrar na máquina estatal. E pior: se colocam no caminho de quem tem disposição para agir, declarando-os inimigos. Nossa leitura apenas aceita e reforça tal declaração.

Revolta, revolução e muita confusão

Do nosso lado das barricadas, é preciso reconhecer que perdemos também tempo e oportunidades em debates e confusões sobre a “conjuntura ideal para luta” ou as “condições para radicalização”. Muito se questionou sobre “o que a revolta constrói a longo prazo”, de “que adianta uma greve geral ou radicalizar agora” enquanto a população está “sem trabalho ou na total informalidade e precarização” — como se essa não fosse a realidade permanente da população. Os argumentos mais desonestos afirmam que “a ação direta combativa nas ruas daria o pretexto ideal para Bolsonaro dar um golpe” ou instaurar um estado de exceção — como se a elite precisasse de pretextos para explorar, escravizar reprimir ou agir na exceção e não o fizessem diariamente.

Muitas dessas avaliações derivam de uma análise dogmática ou ideológica das lutas, mais preocupadas em encontrar sinais de etapas revolucionárias em revoltas pontuais. Algo disso vem das narrativas que movimentos radicais compartilham, onde as mobilizações e levantes ocorrerão de forma crescente até que a ordem social venha abaixo por uma revolução. No primeiro caso, deixamos de enxergar o que as ruas dizem, as oportunidades imprevistas que se abrem para as pequenas vitórias. No segundo, ignoramos uma tendência em que as lutas avançam e sofrem refluxos, momentos de mobilizações e vitórias, momentos de repressão e também de reação – quando inimigos avançam sua agenda reacionária ou fascista. Algo que nossa geração conhece por experiência.

Quando falamos de revolta popular e vitórias pontuais, temos como exemplo as vitórias em 2013 contra a tarifa no Brasil e, mais recentemente, no Chile, quando em 2019 uma luta dos estudantes e trabalhadoras também contra aumento nas tarifas abriu caminho para uma onda de protestos contra o modelo neoliberal que culminou numa vitória histórica que derrubou a constituição da era Pinochet. Sejam nesses exemplos, ou nas lutas por George Floyd nos EUA ou contra a Lei de Extradição em Hong Kong, as ondas de revolta são exemplares e inspiradoras, mas muito distante de um verdadeiro processo revolucionário que pode promover uma mudança profunda nas estruturas de comando da sociedade.

Revolta, por mais que necessária, não é o mesmo que revolução — nem necessariamente conduz imediatamente a uma revolução. Não há motivos para gastarmos horas em análises de conjuntura se não for para nos engajar e apoiar uma luta dos de baixo, mesmo que pontual, por ela não corresponder ao “previsível” desenvolvimento das “etapas” para uma radicalização.

Sabemos muito bem que para levantes como de 2013 no Brasil ou 2020 no Chile e nos EUA abrirem caminho para uma revolução, será preciso um longo caminho de construção de estruturas comunais, articulando muito mais gente, recursos e territórios. Algo que, como ensinam os povos de Rojava a Chiapas, é custoso, contraditório, incompleto e atrai permanente embate com nossos inimigos.

Mas avaliar tendências históricas ou recentes e nos preparar para assumir posturas coerentes aos nossos princípios não significa nos limitar a uma rígida análise dogmática sobre as lutas e transformações sociais. Deixar de enxergar padrões e tendências na história, para acreditar em leis pretensamente científicas é um erro imobilizador.

Aqueles que esperam “a conjuntura ideal”, não reconhecem o papel da revolta e esperam pelas “leis naturais da revolução”, querem compreender as “leis” que regem a sociedade como quem avalia as propriedades dos astros ou dos minerais. Preferem não agir para não ter que apostar no desconhecido, imensurável ou previsível – aquilo que não podem controlar. Por isso, ao preferir as previsíveis “leis da revolução”, acabam do lado das previsíveis leis da polícia e da burguesia: vão atacar, sabotar, denunciar e entregar elementos que desafiam ambas.

“A ironia da história universal põe tudo de cabeça para baixo. Nós, os ‘revolucionários’, os ‘subversivos’, prosperamos muito melhor com os meios legais do que com os ilegais e a subversão.”

– Frederich Engels, Prefácio de ‘As Lutas de Classes em França’

É preciso abertura aos sinais de nossos tempos e apostar no que não conhecemos ou podemos controlar. Quem só quer encontrar uma “legalidade científica” para agir por transformação social, nunca luta de fato e apenas espera pela autorrealização da “dialética histórica”. Assim como os marxistas ortodoxos apenas esperam pelo resultado da contradição capitalista, abrindo mão da subversão e da ideia de revolução para respeitar a lei do estado e disputar seus cargos democraticamente, os novos sacerdotes “apreendendo” e “revelando” as regras dos movimentos sociais e dos protestos de rua nunca acreditam ser “a hora certa de radicalizar”. E quando o fascismo marcha com cada vez mais novos membros nas ruas e mais poder nas instituições, é porque, como já dissemos, seu relógio está mais do que atrasado.

Muito mais tragédias e muito mais oportunidades foram perdidas por quem teme o imprevisível do que por aqueles que acham que leis claras como as da termodinâmica poderiam ser aplicadas na sociedade, para prever e antecipar eventos. Talvez por isso que, de 1917 a 2020, radicais são quase sempre pegos de surpresa pelos levantes sociais.

Para momentos de efervescência nas ruas, precisamos de ideias e ferramentas práticas que deem suporte àquelas pessoas que, por sofrerem a perda e as sequelas de uma tragédia como a pandemia, a fome e a exclusão sistemáticas, se erguem e tomam iniciativa sem nada mais do que a disposição para negar e atacar materialmente essa ordem.

Se nenhuma conjuntura é favorável, ataque!

Se não ficou claro, diremos: uma das únicas “regras” que reconhecemos é que governos não recuam sem a pressão das ruas em chamas, das barricadas, dos bloqueios, das lojas saqueadas, palácios vandalizados e sem uma resposta proporcional à violência policial de forma generalizada. O maior protesto antiguerra da história, nos EUA em 2003, não surtiu efeito algum contra a invasão do Iraque pois se comportou e respeitou a lei e a ordem. Mas quando 200 cidades viram delegacias e prédios inteiros em chamas em 2020, as mídias e os políticos adicionaram até mesmo o fim da polícia na sua lista de debates — debate até então restrito aos movimentos mais radicais.

A única vez que a pauta única e imediata contra o aumento das tarifas dos transportes obteve uma vitória em escala nacional no Brasil nas últimas décadas foi quando, em 2013, movimentos autônomos chamaram o povo para as ruas sem pretensão de controlar ninguém, e confrontos e vandalismo tomaram centenas de cidades pelo país sem se submeter ao legalismo sindical e partidário.

O trabalho de base, a militância cotidiana que constrói laços e supre as necessidades imediatas da população não necessariamente são ameaçados quando há um levante em curso. Aliás, podem ser fundamentais para prover solidariedade, apoio material e convocar mais gente para manter as mobilizações por mais tempo. Mas não devem ser pretexto para algum movimento escolher o lado da lei, da polícia, da ordem e dos 1% no controle, assassinando com fome e bala os de baixo. Ninguém precisa estar em todas as formas de luta, ação e organização. Mas quando um black bloc, uma barricada, uma primera línea surge para revidar à agressão policial e atacar as estruturas de poder, cabe aos que se organizam previamente e se dizem revolucionárias apoiar e, no mínimo, prestar total solidariedade com a revolta dos de baixo.

Guy Debord ressaltou as revoltas no bairro negro de Watts, Los Angeles, em 1965, quando um incidente de trânsito culminou em dez dias de confrontos, saques e vandalismo. Segundo o autor, aquela foi “uma revolta contra a mercadoria, contra o mundo da mercadoria e do trabalhador-consumidor hierarquicamente submisso aos padrões da mercadoria. Os negros de Los Angeles […] tomam ao pé da letra a propaganda do capitalismo moderno […]. Querem possuir imediatamente todos os objetos expostos e abstratamente disponíveis porque querem usá-los. Desta maneira, recusam o valor de troca, a realidade mercantil que é seu molde […]. O homem que destrói as mercadorias demonstra sua superioridade humana sobre aquelas.” E continua: “a produção mercantil, assim que deixa de ser comprada, transforma-se em criticável e modificável em todas as suas formas particulares.”

Debord nos lembra que a revolta popular contra a opressão é, sem dúvida, a forma de crítica mais sofisticada possível. Onde ela surgir, devemos apoiar. Se não fisicamente, reforçando sua legitimidade e sua necessidade para uma transformação social.

Ainda assim, nem tudo é uma questão de quanta depredação ou quantas pessoas organizadas temos para lutar e arriscar suas vidas e sua liberdade para chegarmos a alguma mudança social. Da mesma forma, nem tudo que “vem do povo” também deve ser imediatamente aceito como desejável. O machismo e o fascismo podem vir do povo e podem ser o resultado de séculos de uma construção social e cultural. A revolta prática contra medidas impostas de cima para baixo, treina a organização e a ação de quem já se organiza, mas também convida novas pessoas a tomarem posição e avança debates: seja pelo fim da polícia, pelo acesso à cidade, seja sobre machismo dentro da esquerda ou os limites do reformismo.

Como disse Mark Bray sobre os protestos nos EUA em 2020, “não há nem longe membros suficientes ou grupos Antifa nos Estados Unidos para promover o que estamos vendo”. Essa é uma constatação básica que nos lembra que a revolta nos EUA foi uma revolta generalizada e do povo. Mas especialmente, da população negra e pobre. Por mais que gostemos de ver anarquistas, antifascistas e demais radicais marcando presença como uma força social potente, ela ainda é hoje uma força marginal capaz, quando muito, de influenciar e auxiliar as revoltas. Mas as pessoas que vão para as ruas em momentos como esse não são militantes experientes deliberando formalmente o que é “mais responsável” a se fazer.

Portanto, não existe “conjuntura favorável” para a luta dos oprimidos e todos os momentos oferecerão vantagens e desafios. Não existe momento em que a revolta pode acontecer sem “o risco de um golpe”, “de mais repressão” ou de “dar lugar a uma onda fascista”. Todos esses elementos estão sempre presente em maior ou menor grau. Não agir de forma combativa por “não ser essa a vontade da maioria” é esquecer que levantes e revoluções são trabalho de minorias da população. Nem 3% dos habitantes foram as ruas do Brasil em 2013 ou dos vários países durante a Primavera Árabe – e conhecemos bem o efeito devastador desse “pequeno número”. Não é por acaso que, da França em 1848 ao Chile de 2021, eleições e plebiscitos são uma ótima ferramenta para frear insurreições e transformar movimentações revolucionárias em reformas pacificadoras.

Nesse tema, ficamos com as palavras de camaradas da Teia dos Povos em agosto de 2021:

 Nossos povos fizeram Palmares, os Redutos do Contestado, Canudos, Calderão de Santa Cruz do Deserto, a Balaiada, a Cabanagem… nossos povos são rebeldes e não esperam conjuntura boa para lutar. Zumbi, Antônio Conselheiro, Manuel Balaio não poderiam esperar a mudança de governantes para agirem. Isto é muito sério, minha gente. Se queremos que o derradeiro dia de luta chegue, precisamos hoje amolar as foices, hastear as bandeiras e fazer uma boa roça que nos dê sustança para a batalha. A palavra da hora é autodefesa! O derradeiro dia não chegará se não mostrarmos desde já que é possível, que já soubemos e ainda sabemos fazer. E para isto, não tenham dúvidas, é fundamental a aliança de povos. Nenhum partido, organização ou povo pode unificar tantos povos heterogêneos com sua forma de agir. Então, que tenhamos uma aliança heterogênea, desde baixo, à esquerda e por terra e território.

Esta não é uma carta, é um convite à resistência, um convite a se aprumar para a guerra!”

—Teia dos Povos, “Só nos resta a GUERRA

Conclusão: 3 lados de um conflito global

A direita no poder dá aos movimentos radicais e anticapitalistas a chance de mostrarem formas de luta e objetivos que não dependem de relação com o estado. Rompendo o laço (ou a cooptação) que os movimentos sociais mantinham com a esquerda no governo e dificulta, mesmo que por um tempo, a identificação que os movimentos e muitas pessoas podem ainda ter com o aparato estatal e suas narrativas democráticas e institucionais.

No fim das contas, sabemos que nem a esquerda, nem muito menos a direita no comando do Estado serão capazes de minimizar os impactos de uma economia neoliberal globalizada, cada vez mais brutal e excludente. Se a luta indígena é a única a não recuar no Brasil hoje, é porque sabe que não adianta esperar por outro governo, o estado é sempre inimigo dos povos e das florestas e um aliado do capital. Não surpreende que nos governos petistas não houve demarcações que garantissem o acesso às terras indígenas hoje ameaçadas com a proposta do Marco Temporal, além de ter sido o governo de Dilma Rousseff que promoveu enormes ataques à Amazônia e seus povos com a construção de Belo Monte e um dos menores números de terras reconhecidas.

Não podemos deixar que a frustração com o governo Bolsonaro reabilite o projeto petista e pacifique as ruas novamente. Precisamos evitar esse pêndulo de atração e insatisfação que reúne a simpatia das massas hora à direita, hora à esquerda em períodos eleitoras.

Em momentos de crise neoliberal, pode ser útil para a elite assumir reformas apresentadas pela esquerda institucional para incluir os pobres nas linhas de crédito e consumo ou a um relativo bem-estar. Mas quando é o momento de retomar as rédeas e os lucros, neoliberais se aliam a fascistas para a retomada do controle total do estado.

Por isso é fundamental lembrar de lutamos e resistimos contra todos os que disputam pelo controle do Estado e do Capital, e que irão sempre usar seu aparato policial contra nós da base da pirâmide. Não esquecemos que foi no governo do PT que vimos um aparelho repressivo contra movimentos sociais e a ocupação das favelas serem levadas adiante como nunca. Tudo isso feito de forma a dar legitimidade para tais ações e instituições militarizadas que agora Bolsonaro herdou para usar contra movimentos sociais e toda a população.

O cenário dos conflitos sociais em escala global não se reduz apenas ao embate binário entre direita/esquerda, conservadores/progressistas, bolsonaristas/petistas. Existem ao menos três grande lados nos conflitos globais se delineando hoje, dentre os quais podemos nos situar de acordo com a perspectiva de ação e proposta para futuro:

1. Neoliberais de todos os tipos, dos Democratas nos EUA a partidos supostamente esquerdistas como o SYRIZA na Grécia, Podemos na Espanha e o Partido dos Trabalhadores no Brasil. Embora discordem dos detalhes, todos compartilham um objetivo comum de usar a governança estatal global em rede para estabilizar o mundo em prol do Capitalismo.

2. Nacionalistas como Trump, Erdogan, Bolsonaro e extremistas como o grupo Estado Islâmico ou o Talibã, que deixaram claro que não se incomodam com a construção de estados genocidas e a eliminação de povos – sejam indígenas, negros, LGBTTTQI, imigrantes, mexicanos, curdos ou palestinos. Essa categoria também inclui Assad, Putin e outros demagogos que – como os neoliberais – costumam estar em desacordo uns com os outros, mas todos buscam a mesma visão de um mundo pós-neoliberal de etnoestados concorrentes entre si.

3. Movimentos sociais radicais de libertação que buscam promover a autodeterminação pluralista e igualitária, com base na autonomia e na solidariedade. Anarquistas, Zapatistas e a revolução em Rojava são exemplos que se encaixam nessa categoria, mesmo que grande parte também tenha um caráter nacionalista.

Nesse cenário, onde o conflito social não é mais binário, mas se divide em três, movimentos sociais anticapitalistas precisam reunir forças e desenvolver suas próprias narrativas e estratégias para difundir conhecimento, apoio, solidariedade e coordenação. É nessa perspectiva que buscaremos manter e ampliar nosso campo de trabalho.

Movimentos autônomos, anarquistas, indígenas, antifascistas e outros fora da asa e da agenda eleitoral da centro-esquerda, devem romper o cerco, construir suas bases e estruturas para luta ou serão sempre usados como linha de frente quando for conveniente fazer oposição e rifados na hora de disputar a legitimidade necessária para ocupar cargos no estado.

Se compomos frentes amplas ou “unificadas” em luta contra Bolsonaro ou qualquer fascista no presente, não devemos nos iludir achando que nossa diferença de objetivos finais não trará contradições e conflitos agora. Se as bases do PCB ou MTST vão agredir manifestantes radicais nas ruas, Lula e seus iguais tampouco são aliados. São parte dos que querem amaciar as relações no capitalismo para perpetuá-lo ao máximo, tornando a sua queda ainda mais dura – seja com um golpe fascista, catástrofes climáticas ou, provavelmente, uma combinação de ambos.

Lula, que percorre o Brasil num clima de pré-campanha não oficial, não pronunciou nenhuma palavra em apoio a luta indígena contra a PL 490, o Marco Temporal e todos chamado Combo da Morte contra os povos e florestas. Seu compromisso, como já sabemos, é com a gestão “humanizada” do capital. Em declarações públicas e na internet, está mais preocupado em elogiar e fazer referências ao legado de Getúlio Vargas, ditador golpista que colaborou com a Alemanha de Hitler e fez de tudo para esmagar o movimento operário. O lado de Lula e do PT é o lado do estado e da polícia, das UPP’s, de Belo Monte, ocupação do Haiti, paralisação da reforma agrária, lucro recorde dos bancos e dos empresários.

Não podemos esperar por um partido ou um único salvador para fazer recuar esse governo e sua base fascista e militarizada. Lula pode até vencer em 2022, mas a minoria de apoiadores de Bolsonaro, repleta de milicianos e neonazistas, não vão baixar a guarda nem se desfazer das milhares de novas armas em circulação graças às políticas e propaganda do presidente. Mas sem uma oposição de base, organizada nas ruas e em toda a sociedade, o fascismo nunca recua. E, como aponta Mark Bray, uma minoria fascista já é risco suficiente.

A linha está traçada nesse conflito de 3 lados. Apenas um quer liberdade dos povos, as florestas de pé e os rios limpos. Não há outra palavra: estamos em guerra pela vida.

Post Scriptum:

Enquanto escrevemos esse breve texto, nos deparamos com mais uma reunião da esquerda de São Paulo, a direita e as forças policiais. Enquanto as forças bolsonaristas e o próprio presidente vem encarando o 7 de Setembro como uma data central para demonstrar suas forças na rua, inclusive ventilando por muitos meios a possibilidade de um golpe, a esquerda novamente se finge de morta e decide organizar um ato imóvel no Vale do Anhagabau  em São Paulo (colocando a culpa novamente na tática black bloc), em Belo Horizonte o Grito de Excluídos após reunião com a PM mudou o local de concentração para evitar conflitos com a direita, por todo o país a esquerda tem recuado em seus locais tradicionais de protesto para que a direita marche tranquilamente.

Dias atrás o conhecido deputado federal e ícone de esquerda Marcelo Freixo, disse que a esquerda não deveria dar mais motivos para que o Bolsonaro agisse com violência.

O próprio ex-presidente Lula afirmou que não iria nas manifestações de 7 de setembro, já que a cúpula do PT decidiu que é mais importante deixar Bolsonaro “derretendo” (e levando com ele o país) do que fazer uma real oposição. Enquanto isso o atual presidente disse que

De tanto fingir-se de morta, talvez essa esquerda já esteja!


Ilustrações por Francisco Papas Fritas — não deixe que a revolta seja apenas uma bela imagem como essas, ou apenas um retrato nos livros de história.


Mais informações:

 

A Construção do Presente e o Anarquismo Construtivo – por Tomás Ibanez

Este texto a seguir, extraído do livro “Anarquismo é Movimento“, de Tomás Ibanez, coloca em questão a distinção, propagada por Murray Bookchin e ainda muito influente nos meios anarquistas atuais, entre anarquismo social e anarquismo como estilo de vida. Tomas Ibañez explora os limites dessa distinção no que se refere ao próprio sentido histórico do anarquismo, que sempre operou na destituição das dualidades próprias à política da representação. De fato, chamar algo de ‘mero estilo de vida’ significa na maioria das vezes um qualitativo depreciativo, quase um xingamento, que procura situar por oposição aqueles assim adjetivados na esfera do não-sério; não-organizado ou não-comprometido. Ibañez, por outro lado, problematiza a própria noção de organização assim definida como uma idealização, mostrando que de fato não existe jamais um grupo, seja de afinidade, seja voltado à realização de uma atividade qualquer pontual, que esteja totalmente desorganizado, pois existem níveis de organização determinados por aquilo a que se deseja ou necessita. O desejo da organização ideal, única, totalizante é muitas vezes um fetiche oriundo de nossa educação institucional e estatal, que não nos permite ver a organização estabelecida pela prática concreta. Adicionalmente, a separação entre ‘social’ e ‘estilo de vida’ é filha da separação entre público e privado; político e pessoal; vida e gestão da vida, entre outras… separações estas que se estabelecem sempre já desqualificando um dos seus termos, até que a vida concreta mesma seja colocada na esfera do ‘nenhum valor em si’, pois o seu valor estaria sempre no âmbito abstrato das suas representações, seja política ou econômica, organizadas. Mas é justamente contra estas separações rígidas, no capitalismo; no Estado e na representação, que nós anarquistas nos insurgimos. É justamente a distinção entre o viver e o organizar a vida que nós recusamos. Sendo assim, Ibañez nos ajuda a ver que refundar essas distinções danosas no seio da luta libertária só pode nos levar à confusão ou à criação de microestados em nossos meios. A multiplicidade das práticas anarquistas e suas potências estão em não separar a luta da vida, que é talvez o que constitui sua maior força. Em máximo grau, nós anarquistas queremos uma sociedade na qual não estejam separados o modo de viver do próprio viver, e é por isso que em nossa prática não precisamos opor rigidamente o social ao ‘estilo de vida’. Muito por outro lado, desejamos uma política que vem, e que não se separa da vida, que é antes de tudo uma forma de viver.

Trecho do artigo A Construção do Presente e o Anarquismo Construtivo, no livro Anarquismo é Movimento (Intermezzo, 2015)

A importância de revisar as práticas de dessubjetivação hoje coloca diretamente em questão a famosa dicotomia que Murray Bookchin estabeleceu, em meados da década de 1990, entre anarquismo social e anarquismo de estilo de vida, pois os dois tipos de anarquismo, longe de serem opostos, estão de fato intimamente ligados. Com efeito, a necessária construção de uma subjetividade diferente através das lutas, sejam elas de uma perspectiva global ou local, implica que não existe um anarquismo social que não carregue componentes existenciais fortes e que não existe um anarquismo de estilo de vida que não esteja impregnado de componentes sociais. Apesar disso, costuma-se dizer que, ao contrário do que acontece com as revoltas ancoradas na questão social, as revoltas classificadas como existenciais são totalmente inócuas para o sistema porque, embora ultrapassem a esfera estritamente privada, não deixam de ficar presas a espaços confinados que não podem perturbar o bom funcionamento do sistema.

No entanto, este não é exatamente o caso. Se o anarquismo – que também é, acima de tudo, diriam alguns, um modo de ser, um modo de viver e sentir, uma forma de sensibilidade e, portanto, uma opção claramente existencial – representa um problema para o sistema, é, em parte, porque ele opõe uma forte resistência, não só contra sua intimidação repressiva, mas, acima de tudo, contra suas manobras de sedução e integração. Na verdade, apesar das exceções óbvias, acontece com bastante frequência que aqueles que foram profundamente marcados por uma experiência anarquista permanecem irrecuperáveis ​​para sempre.

Ao manter viva sua alteridade irredutível em relação ao sistema, eles obviamente representam um perigo para ele. Não é apenas que eles o desafiam permanentemente com sua mera existência, mas também servem como um retransmissor para o nascimento de novas sensibilidades rebeldes. Isso guarda alguma relação com o que Christian Ferrer, um bom amigo e filósofo anarquista que vive na Argentina, costumava me dizer: “O anarquismo não se ensina e não se aprende nos livros – embora possam ajudar – mas se espalha por contágio; e quando alguém está infectado, na maioria das vezes, é para sempre.

Então eu entendo que o anarquismo social, também chamado de anarquismo organizado, e o anarquismo de estilo de vida estão mutuamente implicados. Com efeito, é esse o caso na medida em que, por um lado, o desafio que representa a adoção de um estilo de vida diferente daquele preconizado pelo sistema instituído e a recusa em participar nas suas normas e valores constituem uma forma de luta que corrói sua pretensão de hegemonia ideológica e que gera conflito social, quando o sistema toma medidas normalizadoras ou quando dissidentes realizam atividades hostis. Em qualquer caso, o anarquismo de estilo de vida produz efeitos de mudança social que, às vezes, podem ser notáveis. Por outro lado, é óbvio que ninguém pode lutar pela emancipação coletiva e se engajar em lutas sociais sem afetar profundamente seu estilo de vida e modo de ser. Acontece também que as duas formas de anarquismo frequentemente coincidem no terreno das lutas concretas.

Isso não impede que certos setores do movimento anarquista se esforcem para erguer barreiras entre essas duas formas de praticar o anarquismo. É porque estou convencido de que essas barreiras enfraquecem o anarquismo que gostaria de argumentar aqui brevemente contra aqueles que se esforçam para consolidá-las: em geral, aqueles que são classificados, na maioria das vezes contra sua vontade, como partidários do anarquismo estilo de vida – que incluiria a maioria dos neo-anarquistas – mostra pouca beligerância com a diferenciação das correntes ideológicas libertárias e se sente pouco interessada nas lutas internas dentro do movimento. Em vez disso, são os defensores do anarquismo social ou anarquismo organizado – que se sobrepõe, em grande medida, às orientações comunistas libertárias – que se esforçam para estender seu raio de influência dentro do movimento e confinar os anarquistas estilo de vida às suas margens. São, portanto, os seus argumentos que gostaria de discutir aqui, mas não sem antes especificar alguns pontos para evitar mal-entendidos. É óbvio que o anarquismo “sem adjetivos”, só é sustentável como tal se estiver comprometido com a justiça social e a liberdade entre iguais. O anarquismo não só deve denunciar a exploração e as desigualdades sociais, mas também combatê-las com a maior eficácia possível; deve estar presente entre aqueles que se envolvem nessas lutas e deve tentar expandir sua influência entre aqueles mais diretamente afetados pelas injustiças do sistema. Nada a dizer, portanto, contra os esforços feitos por certos anarquistas para se organizarem especificamente a fim de ajudar a desenvolver melhor essas lutas, muito pelo contrário. No entanto, também é óbvio que o anarquismo social ou organizado muitas vezes transmite suposições e práticas políticas que o distanciam sub-repticiamente de suas raízes libertárias, seja porque adota estruturas insuficientemente horizontais – senão no papel, pelo menos na prática -, seja porque se deixa tentar por uma certa vanguarda, seja também porque é propenso a desenvolver práticas sectárias, entre outras coisas.

O capitalismo é, por hipótese, nosso inimigo mais direto e não temos que lhe dar trégua. A luta contra ele constitui um requisito inalienável para o anarquismo. No entanto, considerando a diversidade de natureza cultural ou outra que caracteriza os mais de sete bilhões de seres humanos que povoam a Terra, não é razoável pensar que nossos valores e nossos modelos sociais possam refletir as preferências das pessoas. Perspectivas totalizantes não nos sustentam, portanto, nem dentro da estrutura do vasto “mundo mundial”, é claro, nem dentro da estrutura de uma sociedade particular.

Se não quisermos ressuscitar as ilusões escatológicas, devemos admitir que aqueles entre nós que se engajam nas batalhas pela emancipação nunca conhecerão o sucesso final dessas batalhas, nem o advento do tipo de sociedade com que sonhamos. O que conheceremos será apenas a experiência dessas lutas e seus resultados nunca definitivos. Consequentemente, o anarquismo, social ou não, organizado ou não, está, em última instância, modificando o presente – uma modificação necessariamente local e parcial – na qual devemos apostar, fazendo ouvidos moucos aos cantos das sereias totalizantes, e abandonando as ilusões escatológicas: se o comunismo libertário generalizado não pode ser estabelecido, nem toda a humanidade, nem uma sociedade particular, ser anarquista, o que pode o anarquismo reivindicar e o que nos resta?

Bem, mesmo assim, ainda temos a luta contra a dominação em suas múltiplas facetas, e isso inclui, é claro, o domínio da esfera econômica, embora vá além desta amplamente. Ficamos também com a transformação do presente, sempre localizada e parcial, mas radical, e isso inclui também a nossa própria transformação. E nos resta, enfim, a saída de nosso confinamento, de nosso gueto, para atuar junto com os outros, não para convencê-los, mas para aceitá-los; não por uma preocupação estratégica, mas por princípios.

Agir com outras pessoas? Pois é, camaradas que lutam no seio do anarquismo que se proclama “organizado”, agir com os outros, como vocês costumam fazer, e isso os honra, também significa agir com anarquistas que não se inscrevem sob a bandeira de organizações que afirmam ser “anarquismo social”, mas que, longe de se refugiarem na esfera privada, são também comprometido com lutas radicais. Na verdade, como quase sempre acontece com as dualidades, a dicotomia sugerida por Bookchin distorce a realidade porque não existem duas categorias de anarquismo, mas um continuum. Encontramos, em um extremo, um anarquismo de estilo de vida retraído em si mesmo e totalmente indiferente às lutas sociais, enquanto, no outro extremo, existe um anarquismo social impenetrável à qualquer coisa que não seja a luta social contra o capital. Entre esses dois extremos, se desenrola uma extensão onde estão representadas todas as dosagens entre os dois tipos de anarquismo.

O que cria a dicotomia, pela simples razão de que só deixa em aberto duas possibilidades, é a possibilidade de pertencer ou não a uma determinada organização. Mas se a dicotomia se origina desse fato, obviamente não pode funcionar dizer que o “anarquismo social” se encontra de um lado, e que o que se encontra do outro não é social.

O mesmo ponto pode ser aplicado à expressão “anarquismo organizado”. Não existe anarquismo organizado, por um lado, e um que não é, por outro lado. É claro que você tem que se organizar e que o desenvolvimento de qualquer tipo de atividade coletiva exige sempre alguma forma de organização, bem como o desdobramento de determinada atividade organizacional, mesmo que seja apenas para editar algumas folhas ou para debater um tema. Portanto, a questão não é organizar ou não, mas como organizar? E a resposta é que, para sabermos nos organizar, é preciso sabermos a razão pela qual queremos nos organizar. Isso condiciona a forma da organização.

O modelo tradicional pressupõe a criação de uma estrutura permanente, estável e abrangente, articulada em torno de bases programáticas e objetivos comuns de caráter suficientemente geral para que a estrutura tenha uma perspectiva temporal ampla. É um modelo pouco condizente com as condições sociais atuais, e que perdeu muito de sua eficácia, em tempos que correm sob o signo da velocidade, caracterizados pela rapidez das mudanças. A realidade atual exige modelos muito mais flexíveis, mais fluídos, orientados por objetivos simples de coordenação para realizar tarefas concretas e específicas. Na medida em que, para ser eficaz, a forma da organização deve ser adaptada à natureza das tarefas e aos objetivos para os quais é criada, e na medida em que estes são diversos e, por vezes, variáveis ​​e transitórios, é uma multiplicidade de formas organizacionais que devem coexistir da maneira mais complementar possível, não hesitando em desaparecer ou transformar-se ao ritmo das mudanças e acontecimentos sociais.

A questão da organização provavelmente deve ser repensada e ressignificada, no estilo do que aconteceu com o conceito de ‘revolução’, não para proclamar a ausência ou inutilidade da organização, mas para renovar seu conceito, suas formas e suas práticas. É claro que o fascínio atualmente exercido, em certos setores militantes, pelo antigo modelo de organização – criado como uma panaceia para aumentar a eficácia e difusão do anarquismo – não facilita em nada essa tarefa. Os esforços dedicados à construção de uma organização anarquista e a prioridade dada a essa tarefa se desviam de outras tarefas focadas mais diretamente nas lutas, e alimentam a ilusão de que as dificuldades que afligem as lutas atuais se devem principalmente à ausência de uma grande organização libertária e que irão desaparecer assim que esta vier à luz.

A preocupação com a organização e a atividade organizacional deve ser constante para que as atividades coletivas possam ser desenvolvidas. No entanto, isso é muito diferente de tentar construir uma organização. É por isso que o uso da expressão “anarquismo organizado” é enganoso. Esta expressão se refere, na realidade, ao anarquismo enquadrado em uma organização clássica, ou ao anarquismo focado no esforço de construir tal organização,e sugere que, não importa quão altamente organizados certos grupos ou coletivos anarquistas sejam para realizar tarefas concretas e específicas, eles não fazem parte do anarquismo organizado.

Expressão enganosa, mas também perigosa, porque introduz, como quase todas as dicotomias, uma dissimetria de valores e uma hierarquia entre os dois polos da dualidade criada. Assim, uma vez que organizar é obviamente um valor positivo, o anarquismo válido é o anarquismo organizado e o outro tipo de anarquismo é desprezível. Obviamente, a diferença entre eles não se deve ao fato de serem organizados ou não, ambos o são, mas porque um faz parte de determinada organização ou busca construí-la, e o outro não. Mas, é claro, se as coisas fossem ditas dessa forma, o efeito avaliativo e hierárquico que emana da expressão “anarquismo organizado” se perderia e o chamado para construir “a organização” seria enfraquecido. Minha maneira de tratar essa questão não deveria ser interpretada como um apelo por um anarquismo travado na esfera individual e relutante a qualquer ação organizada. Com efeito, questionar a dicotomia criada pela referência ao anarquismo social e ao anarquismo organizado não significa dizer que o anarquismo não deva atingir uma projeção social e, mais precisamente, uma projeção nos movimentos sociais. Se o anarquismo ressurgiu hoje, é justamente porque esteve presente nas grandes mobilizações populares deste início de século; e é óbvio que, se o anarquismo quer ter algum tipo de validade, deve permear o mais amplo movimento social possível – como, por exemplo, o anarquismo espanhol fez até o final dos anos 1930. Isso implica, é claro, que esses movimentos não podem ser compostos principalmente por anarquistas, nem devem ser especificamente anarquistas. Essa impregnação libertária, pela presença de militantes anarquistas, bem como de pessoas e grupos que atuam de forma libertária, mesmo que não se definam como tal, pode ser observada mais recentemente nas mobilizações massivas que não param de crescer e se radicalizar na França, de 2008 até hoje; contra a construção de um aeroporto em Notre-Dame-de-Landes, na Bretanha; ou nas mobilizações contra despejos na Espanha. Se o anarquismo contemporâneo muda, é precisamente porque está envolvido, com outros grupos, nas lutas atuais e porque incorpora ao seu próprio passado as principais características dessas lutas. Em sintonia com essas lutas, o neo-anarquismo participa de seu imaginário e incorpora alguns de seus aspectos a um imaginário anarquista que não pode deixar de ser modificado. Em última análise, o anarquismo que muda é o anarquismo que luta e que luta no presente.

 


Para Ler Mais:

O Anarquismo como Catapulta: Entrevista com Tomás Ibáñez

“Anarquismo es Movimiento” – livro completo em espanhol