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UMA SOLUÇÃO ANARQUISTA PARA O AQUECIMENTO GLOBAL

“Fico preocupado é se os brancos vão resistir. Nós estamos resistindo há 500 anos.”

– Ailton Krenak

Apresentação

por Facção Fictícia

Vivemos o auge da maior ameaça a toda forma de sustentabilidade da vida, dos biomas e das comunidades nesse planeta. Essa ameaça se chama Capitalismo, foi criada há séculos por seres humanos, e pode ser eliminada se assim quiserem os seres humanos. No entanto, mesmo abolindo esse sistema econômico-político que explora pessoas, promove genocídios, polui, degrada e envenena a terra, a água e o ar, teremos que sobreviver convivendo com as consequências de termos deixado a burguesia e o Estado chegarem tão longe. A destruição de ambientes inteiros, os venenos nos rios e em nossos corpos, as espécies que se foram, as geleiras que desapareceram e os rios que foram pavimentados, tudo isso permanecerá assim por anos. Viveremos coletando o que precisamos de ruínas e das pilhas de sucatas deixadas para trás. Tudo o que foi tirado do solo para ser jogado na superfície, nos mares e em nossos organismo não vai voltar da noite pro dia para o seu lugar de origem.

Essa inevitável constatação afeta nossas perspectivas de futuro. E é lá que residem as perspectivas revolucionárias e do fim do Capitalismo. Não existe mais uma promessa de futuro além do Capitalismo que seja apenas uma promessa de partilha e fartura, mas sim uma promessa de compartilhar a autogestão de nossas vidas em meio a recuperação da saúde dos biomas, das nossas relações e nossos corpos, após séculos de agressão e exploração. O que existe de fato é um consenso entre a comunidade científica, ativistas, instituições políticas, povos originários e pessoas tanto do campo como das cidades quanto aos riscos cada vez mais eminentes trazidos pelo aquecimento global e o impacto da industrialização e urbanização, que estão prestes a se tornarem irreversíveis.

Protesto contra o governo e os desmatamentos na Amazônia, em São Paulo, 23 de agosto de 2019.

Projetos de expansão do extrativismo para exportação de petróleo, commodities agrícolas e políticas desenvolvimentistas de aceleração do crescimento na época da gestão do PT, como a construção da usina de Belo Monte, que desalojou e impactou comunidades indígenas, milhares de pessoas que vivem no campo, mostram que governos de esquerda ou de direita enxergam a natureza e a vida humana como recursos para produzir bens de consumo. A ameaça oferecida por um governo de extrema direita, como o de Jair Bolsonaro, declaradamente inimigo do povo, das mulheres, dos povos indígenas, disposto a estimular sem pudores da violência física da repressão política e policial, consiste na intensificação das agressões que nunca deixaram de acontecer.

Queimadas aumentaram 82% em 2019 em relação ao mesmo período no ano passado no Brasil segundo o INPE. Uma fumaça de detritos causada pelos focos de incêndio florestais na região amazônica encobriu cidades do estado de São Paulo, fazendo o dia virar noite às 15h da tarde. Tudo isso no mesmo mês em que, na Islândia, pessoas organizaram o primeiro funeral, com lápide e tudo, para uma geleira declarada morta que desapareceu devido às altas temperaturas.

Cenas terríveis e trágicas, quase pitorescas, quase absurdas, nos lembram dos cenários e eventos fictícios como os do romance Não Verás País Nenhum, uma distopia social e ambiental brasileira de Ignácio de Loyloa Brandão. O livro, escrito na década de 1970 – em plena ditadura civil-militar no Brasil – descreve um regime ditatorial fictício conhecido como “civiltar”, que celebra – com datas festivas e tom ufanista – eventos como o corte da última árvore da Amazônia e declara com orgulho ter agora “um deserto maior que o do Saara”. Compondo o cenário trágico, todos os rios brasileiros estão mortos e jarros com a água de cada um dos rios extintos são expostos em um museu hidrográfico. Dunas de latas de alumínio e rodovias onde tomadas por carcaças de carros abandonados são o cenário que compõem os arredores de São Paulo. A cidade, por sua vez, sofre com súbitos bolsões de calor capazes de matar qualquer desavisado e doenças misteriosas que consomem os cidadãos, principalmente aqueles; em situação de rua. O autor alega ter se inspirado em eventos reais que pareciam absurdos, mas hoje se mostram cada vez mais reais do que nunca.

No mundo real, as notícias do aumento de queimadas na Amazônia chocaram a opinião pública ao redor do mundo, gerando indignação das pessoas e de líderes políticos como o presidente francês Emmanuel Macron que levou o tema para a reunião de cúpula do G7 e trocou farpas com Bolsonaro na mídia. No entanto, a solidariedade internacional entre povos explorados e excluídos é fundamental. Mas a intervenção de estados estrangeiros com interesses econômicos não é nada além da continuidade do colonialismo que começou em 1492. Não será nenhum governo que vai solucionar o problema dos incêndios e dos desmatamentos. O máximo que conseguirão é retardar ou diminuir a exploração, mas o Capitalismo neoliberal não aceita nada que não seja crescimento e mais crescimento, isto é: a transformação das matas e dos recursos dos solos em bens de consumo competitivos no mercado global. O que queima a Amazônia – e todo o planeta – é o latifúndio, a disputa por terras, o lucro e propriedade privada. Nada disso será tocado por nenhum governo eleito ou imposto. Uma perspectiva ambiental deve ser uma perspectiva revolucionária pelo fim do Capitalismo.

Anarquistas em protesto contra o governo e os desmatamentos na Amazônia, em São Paulo, 23 de agosto de 2019.

Exercitar nossa capacidade de imaginar

Utopia é por definição um lugar que não existe ou é inalcançável. Logo, são inúteis. Precisamos de outros lugares possíveis. Precisamos ser capazes de imaginar um mundo diferente. É preciso compartilhar referências de sociedades funcionando sem Estado e sem Capitalismo, como a Comuna de Paris em 1871, a Revolução Russa e Ucraniana de 1917 (antes de serem traídas e esmagadas pela ditadura bolchevique), ou a Revolução Espanhola de 1936. E também os episódios atuais como o levante Zapatista no México desde 1996 e a revolução em andamento em Rojava na Síria, onde os povos nativos se levantaram em armas e milhões de pessoas organizam sua economia, seu trabalho, sua educação e a gestão de cidades, vilas e campos sem um estado ou uma economia baseada na propriedade privada dos meios de produção. Além deles, há exemplos de todas as nações indígenas ao nosso redor: Guaranis, Mundurukus, Tapajós e Krenaks e tantas outras que, há cinco séculos, resistem à expansão colonial europeia e capitalista. Todos são exemplos que anarquistas devem ter como referência de vida, organização e resistência sem Estado e contra o Estado!

Guerreiros Mundurukus sem apoio do Estado partem para a ação direta para expulsar madeireiros da Terra Indígena Sawré Mybu, no Pará.

Se usássemos nossa capacidade de inventar ou acreditar em apocalipses zumbis e desastres proféticos do cinema ou da literatura para imaginar e construir uma realidade para além do Capitalismo desde já, estaríamos em um caminho muito melhor. Hoje nosso caminho beira a descrença e a passividade. Mas não existe neutralidade em um trem em movimento correndo para um abismo. Cruzar os braços é ser conivente. Agir individualmente é insuficiente. É preciso imaginar e também buscar referências revolucionárias recentes ou tradicionais e milenares de vida autogerida, organizada e igualitária entre os povos do mundo.

Por isso, compartilhamos o texto Uma Solução Anarquista para o Aquecimento Global, do anarquista Peter Gelderloos, para que possamos exercitar nossa imaginação. Para quem gostar da ideia, recomendamos o livro de autoria desconhecida, chamado Bolo Bolo, que imagina um planeta inteiro vivendo uma era pós Capitalismo.

Para mais exemplos e referências de sociedades anarquistas revolucionárias ou povos tradicionais e indígenas vivendo e solucionando seus problemas sem chefes ou governantes –, recomendamos o livro Anarquia Funciona, também escrito por Peter Gelderloos e disponível livremente na internet. O livro aborda com exemplos históricos e factuais questões como tomada de decisão, economia, solução de conflitos, meio ambiente, crime, organização de comunidades e revolução.

Boa leitura.

“De fato, já estamos no olho do furacão. Os preços da energia subiram como consequência de já havermos alcançado o pico na produção global de petróleo e seu consequente e inevitável declínio posterior. Furacões, secas e padrões climáticos imprevisíveis tornaram-se mais frequentes e intensos, fazendo-nos sofrer as consequências do aquecimento global que nós mesmos provocamos. Enquanto isso, a qualidade do solo e da água continua a se degradar e a biodiversidade colapsa com uma taxa de extinção de espécies 10.000 vezes superior a normal. Por sua vez, a tremenda crise nos preços dos alimentos em que se vê mergulhando o mundo neste momento é a indicação mais poderosa até agora de que já não se deve esperar um retorno a situação anterior. Pelo contrario, o que vemos é a batalha final entre a necessidade infinita de crescimento do capitalismo neoliberal e os recursos limitados de um único planeta. E não é com toda a engenharia financeira ou as invenções de tecnologias de última geração que o dinheiro pode comprar que este sistema irá escapar de seu colapso inevitável. Ele atingiu o ponto de inflexão e nós somos a geração a que corresponde à duvidosa honra de viver e morrer em seus últimos espasmos.”

Uri Gordon, Presságios Sombrios: política anarquista na época do colapso

Nem utopia, nem distopia: revolução!

Uma Solução Anarquista para o Aquecimento Global

por Peter Gelderloos

Se a resposta dos “capitalistas verdes” para as mudanças climáticas somente joga mais lenha na fogueira, e se os governos em escala mundial são incapazes de resolver o problema, como anarquistas sugeririam reorganizar a sociedade para poder diminuir a quantidade de gases estufa na atmosfera e sobreviver a um mundo que já mudou?

Não há uma só posição anarquista e muitos anarquistas se negam a oferecer qualquer tipo de proposta argumentando que quando a sociedade se libertar do Estado e do Capitalismo, ela mudará organicamente e não de acordo com um anteprojeto. Além disso, a atitude policial de ver o mundo desde cima e impor mudanças é inseparável da cultura responsável por destruir o planeta e oprimir a seus habitantes.

Contudo, queremos esboçar uma possível maneira de como poderíamos organizar nossas vidas, não dando uma proposta concreta, mas sim porque as visões nos fazem mais fortes e todos nós necessitamos de coragem para romper de uma vez por todas com as instituições existentes e com as soluções falsas que nos oferecem. Seguindo os propósitos deste texto, não vou entrarem nenhum dos importantes debates com respeito a ideais – níveis apropriados de tecnologia, escala, organização, coordenação e formalização. Vou descrever como uma sociedade ecológica e antiautoritária poderia se manifestar, fluindo desde a complexidade social do momento presente. Por razões de simplicidade,tampouco entrarei em debates científicos sobre o que é e o que não é sustentável. Esses debates e a informação que apresentam são acessíveis extensamente para quem queira fazer sua própria investigação.

Baseio a descrição deste possível futuro mundo no que é fisicamente necessário e o que é eticamente desejável, em concordância com as seguintes premissas:

  • A extração de combustíveis fósseis e seu consumo devem se encerrar por completo.
  • A produção de comida industrial deve ser substituída pela colheita sustentável de comida a nível local.
  • Estruturas centralizadas de poder são inerentemente exploradoras do meio ambiente e opressivas para as pessoas.
  • A mentalidade de valor quantitativo, acumulação, produção e consumo – ou melhor dizendo, a mentalidade do mercado livre – é inerentemente exploradora do meio ambiente e opressiva para as pessoas.
  • A descentralização, a associação voluntária, a auto-organização, o apoio mútuo e a não-coerção são viáveis e funcionaram dentro e fora da civilização ocidental inumeráveis vezes.

Bem-vindas ao futuro. Ninguém imaginaria que a sociedade global seria desta maneira. Sua característica mais definitiva é sua heterogeneidade. Algumas cidades foram abandonadas, árvores crescem através de suas avenidas, rios fluem onde antes o asfalto cobria a terra e os arranha-céus se desmoronam enquanto capivaras pastam em meio ao cimento rachado.

Outras cidades prosperam, porém mudaram a ponto de se tornarem irreconhecíveis. Terraços, lotes vazios e avenidas foram convertidas em hortas. Árvores frutíferas e nozes formam fileiras em cada quadra. Galos cantam a cada amanhecer. Em torno de um décimo das ruas – as grandes vias – permanecem pavimentadas ou asfaltadas, ônibus funcionando com biodiesel passam com frequência. Outras ruas foram amplamente ocupadas por jardins e hortas, embora ciclovias cortem o centro delas. Os únicos edifícios que tem eletricidade durante as vinte e quatro horas do dia são os centros de tratamento de água, os hospitais e as estações de rádio. Os teatros e os edifícios comunitários obtém energia em rodízio somente até atarde para que possam ficar abertos para noites de cinema ou outros eventos. Praticamente todos tem velas e lamparinas, e é assim que sempre há alguma luz em muitas janelas até tarde. Porém não é nada parecido com o que era antes. Na noite é possível ver as estrelas no céu e as crianças ficam boquiabertas quando os mais velhos lhes dizem como as pessoas haviam abandonado esse prazer.

A eletricidade é produzida por uma rede de usinas de energia que queimam desperdícios agrários (como espigas de milho, por exemplo), por meio de alguns biocombustíveis e através de uma quantidade reduzida de turbinas eólicas e painéis solares. Porém a cidade funciona com só uma fração do que usava anteriormente .As pessoas aquecem e resfriam seus lares por meio de um design solar e eficiente, sem eletricidade alguma. Nas regiões mais frias, as pessoas complementam isso no inverno com a queima de combustíveis renováveis, porém as casas estão bem isoladas e os fornos estão projetados com a máxima eficiência, por isso não é necessário muito. As pessoas também cozinham em fornos a base de combustíveis ou, em climas mais temperados, com fornos solares. Algumas cidades que utilizam mais eletricidade para a indústria manufatureira e para manter formas de geração de eletricidade renovável (solar, eólica e energia das marés e correntezas dos rios) também cozinham com eletricidade. Muitos edifícios tem uma lavadora coletiva, sem secadoras e todas as vestes são secadas como antigamente: em uma corda de varal.

Ninguém tem um refrigerador, embora cada edifício ou apartamento tenha um congelador comunal. As pessoas guardam alimentos perecíveis como iogurtes, ovos e legumes em uma geladeira portátil ou no porão, e comem alimentos frescos ou enlatados. Elas colhem nas hortas de suas quadras a metade do que consomem. Quase todos os alimentos que consomem são colhidos a vinte milhas de onde vivem. Nenhum alimento é geneticamente modificado ou produzido com químicos e todos são produzidos pelo seu sabor e nutrição, não por sua perenidade e facilidade de transporte. Em outras palavras, todos os alimentos tem um melhor sabor e as pessoas são muito mais saudáveis. Doenças cardíacas, diabetes e câncer, alguns dos maiores assassinos da sociedade capitalista, desaparecem. Os supervírus, criados durante o capitalismo, que mataram milhões de pessoas durante o colapso desapareceram em sua maior parte e o uso de antibióticos quase chegou ao fim. As pessoas vivem em condições mais saudáveis globalmente e tem sistemas imunológicos mais fortes. As viagens globais não são nem tão frequentes nem tão aceleradas. As pessoas também tem uma maior consciência com respeito ao meio ambiente e uma conexão pessoal com a biorregião porque se alimentam do que se produz em temporada e o do que se colhe localmente, e também porque são elas mesmas quem os colhem.

Cada casa tem um banheiro de compostagem e uma pia, porém não há esgoto. Se tornou uma espécie de regra subentendida ao redor do mundo que cada comunidade deve assumir a responsabilidade por seus próprios dejetos com bacias de evapotranspiração. Livrar-se de resíduos jogando-os rio abaixo tornou-se o maior tabu. As relativamente poucas fábricas restantes usam fungos e micróbios em grandes terrenos florestais ao redor das zonas industriais para corrigir qualquer eventual contaminação que produzam. Os bairros convertem seus dejetos em adubo ou combustível. A quantidade de água é limitada, porém os edifícios estão equipados com coletores de água da chuva para as hortas e para fazer faxinas. As vivências que excedem em muito a cota recomendada de uso de água são publicamente surpreendidas. A cota recomendada não é imposta, é simplesmente uma sugestão compartilhada por quem trabalha nos consórcios de tratamento das águas, baseada na quantidade de água que a cidade está permitida desviar da fonte principal e em concordância com todas as comunidades que compartilham a fonte.

Na maioria das cidades, as pessoas organizam assembleias periódicas para a manutenção de hortas, estradas, ruas, edifícios, creches e para mediar conflitos. As pessoas também participam de reuniões em qualquer sindicato ou projeto infraestrutural que desejam dedicar seu tempo. Estes podem incluir o consórcio de água, as cooperativas de transporte, o consórcio de eletricidade, os hospitais, a união de construtores, as fábricas ou as enfermarias (a maioria dos tratamentos médicos é realizado por herbalistas, naturopatas, homeopatas, acupunturistas, massoterapeutas, parteiras e outros especialistas que atendem a domicílio). A maioria destas organizações são descentralizadas ao máximo, confiando a indivíduos e pequenos grupos de trabalho a realização de suas tarefas, embora quando necessário, se coordene através de reuniões que normalmente funcionam como assembleias abertas usando o consenso, com uma preferência por compartilhar perspectivas e informação sem tomar decisões sempre que possível. Algumas vezes, reuniões interregionais (como por exemplo, a reunião de comunidades que compartilham a fonte de água), são organizadas com uma estrutura de delegações, ainda que as reuniões sempre estejam abertas a todo mundo, e sempre procuram chegar a decisões que satisfaçam a todos já que não há instituições coercitivas e qualquer tipo de coerção é reprovada por tentar “trazer de volta os velhos tempos”.

Como o poder está sempre num nível local, na medida do possível, a grande maioria das decisões é tomada por indivíduos ou grupos pequenos que compartilham afinidades e trabalham juntos regularmente. Uma vez que não há ênfase para controlar e acumular poder impondo homogeneidade ou singularidade de resultados, as pessoas descobrem que a maior parte da coordenação pode ocorrer organicamente,com gente diferente tomando diferentes decisões e resolvendo por si mesmas como reconciliar suas decisões com as dos demais.

Embora as sociedades de hoje estão estruturadas para criar sentimentos de comunidade e mutualidade, existe também espaço para a privacidade e solidão. Muitos bairros tem cozinhas comunais e salas de jantar, porém as pessoas podem cozinhar e comer por si mesmas, quando lhes der vontade – e elas normalmente o fazem. Algumas sociedades tem muitos chuveiros públicos, e outras não, dependendo das diferenças culturais. A comunização forçada em experimentos passados de utopias socialistas não existem nesse mundo. A propriedade privada foi abolida no sentido clássico dos meios de produção que as pessoas necessitam para sua sobrevivência, porém, qualquer um pode ter quantos objetos pessoais elas conseguirem – roupas, brinquedos, reservas de doces e outras iguarias, uma bicicleta, etc.

Quanto menor a comunidade, maior a probabilidade dela operar com uma economia de dádiva – qualquer coisa que você não use pode dar como um presente, reafirmando seus laços sociais e aumentando a quantidade de objetos em circulação – a qual é talvez a economia mais comum e de mais larga trajetória na história do ser humano. Além do nível de bairro, ou quando se trata de objetos raros ou que não são produzidos localmente, as pessoas podem negociar. Os sindicatos de algumas cidades podem utilizar um sistema de cupons para a distribuição de coisas que escasseiam ou que são de produção limitada. Se você trabalha no sindicato de eletricidade, por exemplo, pode obter um número de cupons que podem ser usados para conseguir coisas da fábrica de bicicletas ou de alguma fazenda fora da cidade.

Os itens mais comumente produzidos nas fábricas são bicicletas, ferramentas de metal, roupa, papel, equipamentos médicos, biodiesel e vidro. Mais comum que a fábrica é a oficina, onde as pessoas fabricam quaisquer tipo de coisa, com uma qualidade maior e em um ritmo mais lento e digno e saudável. As oficinas usualmente usam materiais reciclados (afinal, há muitos centros comerciais antigos e cheios de lixo e sucata) para fabricar coisas como brinquedos, instrumentos musicais, roupas, livros, rádios, geradores de eletricidade, bicicletas e partes de automóveis.

O trabalho não é obrigatório, porém quase todo mundo trabalha. Quando não se tem chefes é possível fazer coisas que são úteis e que têm significado, as pessoas tendem a desfrutar do trabalho. Aqueles que não contribuem trabalhando de nenhuma forma são muitas vezes desprezados ou excluídos dos aspectos mais agradáveis de viver em sociedade, porém nunca é aceitável negar a alguém comida ou tratamento médico. Pelo motivo de não ajudarem a seus próximos, é pouco provável que consigam boas comidas, consultas médicas, massagens ou acupuntura a menos que tenham um problema específico que as impeçam de trabalhar. Porém nunca serão deixadas morrer de fome. É uma pequena gasto de recursos para a comunidade, porém nada com parado como parasitismo de chefes, políticos e forças policiais do passado.

Não há mais polícia. Geralmente, as pessoas estão armadas e treinadas em autodefesa, e a vida de todos inclui atividades que incentivam sentimentos coletivos ou comunais de interesse próprio. As pessoas dependem da cooperação e do apoio mútuo para sobreviver e serem felizes, deste modo aqueles que estragam seus laços sociais, acabam se isolando e prejudicam a si mesmos. As pessoas lutaram para derrotar seus opressores. Derrotaram a polícia e as forças armadas das classes dirigentes, e recordam essa vitória. O imperativo de nunca voltar a sermos governados forma uma grande parte da identidade hoje em dia. Não serão intimidados por ocasionais psicopatas ou quadrilhas de mafiosos.

Em suma, a cidade tem uma insignificante pegada ambiental. Uma grande concentração de pessoas vive em uma área determinada, que contudo contém uma grande biodiversidade, com muitas espécies de plantas e animais vivendo juntas. Não produzem poluição que não sanem elas mesmas. Usam água de fontes, porém muito menos que uma cidade capitalista, e em acordo com outras comunidades que usam as mesmas fontes. Produzem gases estufa através da queima de combustível, porém a quantidade é menor do que a absorvida da atmosfera pela sua própria agricultura (pois todos os combustíveis são de origem agrária, e o carbono que produzem é o mesmo que essas plantas removeram da atmosfera enquanto cresciam). Quase toda a comida local é produzida de forma sustentável. Existe uma pequena quantidade de produção industrial, porém a grande parte dela usa materiais reciclados.

Fora da cidade, o mundo está ainda mais transformado. Desertos, selvas, montanhas, pântanos, tundras e outras áreas que não podem sustentavelmente suportar altas populações humanas regressaram a seu estado natural. Nenhum tipo de programa governamental foi necessário para criar reservas naturais, simplesmente não valia a pena permanecer nestes lugares quando a produção de combustíveis fósseis parou. Em muitas destas, as pessoas vivem como caçadores-coletores, levando a cabo a mais inteligente forma de economia possível nesta biorregião e tornando a noção convencional do que é futurístico de cabeça.

Algumas comunidades rurais são autossuficientes, sustentadas com a agricultura e a pecuária, ou mais intencionalmente com a permacultura. Muitas pessoas que deixaram as cidades durante o colapso formaram estas comunas e são mais felizes e saudáveis do que durante o capitalismo. Algumas das comunidades permaculturais são compostas de unidades familiares mais tradicionais, com cada família ocupando uma dois acres de terra, estendido sem uma distribuição homogênea sobre um vasto território. Outras compreendem um núcleo densamente povoado, com centenas de habitantes vivendo em doze acres de campos intensamente cultivados, rodeados por árvores frutíferas e campinas com frutas, nozes e gado, rodeados por sua vez por um anel de bosques naturais que servem como um cinturão ecológico, e com o espaço para um ocasional corte de árvores e caça de animais. Estas comunidades rurais são quase completamente autossuficientes, tem uma relação sustentável com a terra, fomentam uma alta biodiversidade, e sua emissão de gases de efeito estufa facilmente equivale a zero.

As comunidades rurais nos pequenos raios em torno das das cidades levam a cabo uma agricultura intensiva, ajudada por alguns produtos manufaturados, em uma relação simbiótica com seus vizinhos urbanos. Cada semana, utilizando carruagens ou caminhonetes a biodiesel, trazem comida e biocombustíveis até um bairro específico da cidade, e levam de volta compostagem (a maioria proveniente de banheiros, já que os restos de comida servem para alimentar as aves urbanas). Com este nutritivo composto, vidros para estufas, ferramentas de metal e o ocasional uso de tratores ou arados mecânicos compartilhados entre várias pequenas fazendas, é possível produzir altos rendimentos todo o ano sem destruir a terra nem depender de químicos ou combustíveis fósseis. Elas cultivos intercalados e outros métodos derivados da permacultura para preservar o estado saudável da terra e evitar pragas. As fazendas contam com árvores frutíferas e pequenos bosques, e por isso há uma grande biodiversidade, incluindo grande quantidade de aves que se alimentam de insetos. Já que não praticam a monocultura, as pestes e as doenças não se expandem tão incontrolavelmente como na agricultura industrial capitalista. O uso de plantas nativas, diferentes espécies, a proteção do solo, e a preservação de bosques também mitigam o impacto das secas e do clima extremo causado pelas mudanças climáticas.

Ainda existe uma quantidade aceitável de transporte entre biorregiões. As cidades estão conectadas por meio de trens a biodiesel e as pessoas cruzam regularmente os oceanos em barcos que funcionam com energia eólica. Uma quantidade de finida de comércio interregional funciona desta maneira, porém o transporte interregional serve, principalmente, para permitir o movimento das pessoas, ideias e identidades. As pessoas se locomovem menos do que nos últimos dias de capitalismo, porém, por outro lado, não tem que se preocupar por seguir os caprichos da economia que as obrigava a se mudar para longe em busca de trabalho. As biorregiões são quase completamente autossuficientes economicamente e as pessoas encontram o sustento necessário. Se querem partir é porque querem viajar para ver o mundo e são livres para fazê-lo porque as fronteiras deixaram de existir.

A comunicação de longa distância funciona principalmente através de rádio. A maioria das comunidades urbanas e semi-urbanas tem telefone e internet. A produção altamente tóxica de computadores quase acabou, porém algumas poucas cidades usam métodos inovadores e mais limpos para produzir computadores em uma escala mínima e mais lenta. No entanto, existem suficientes peças em circulação e a maioria dos bairros podem manter alguns computadores funcionando se assim desejam. Muitas pessoas da zona rural vivem o suficientemente perto de uma cidade para ter acesso a estas formas de comunicação de vez em quando. Ainda é possível receber notícias de todo o mundo e continuar a cultivar uma identidade parcialmente global.

A base econômica da sociedade se diversificou bastante dentro de cada comunidade linguística. Em outras palavras, uma pessoa pode viver em uma comuna agrícola com um nível de tecnologia muito similar ao da sociedade ocidental no século dezenove, mas na vizinhança existe um bosque habitado por caçadores-coletores. E, algumas vezes por ano, essa pessoa pode visitar uma cidade organizada por sindicatos e assembleias, onde há eletricidade, ônibus, uma estação de trem ou um porto, onde se pode ver filmes ou ler o blog de alguém que está no outro lado do planeta. Imagens e notícias ao redor do mundo passam por cada comuna regularmente. Se fala o mesmo idioma e se compartilha uma cultura e história similar com estas comunidades que são, no entanto, muito diferentes entre si. O resultado disso é que uma identidade exclusivamente separatista e isolada, que poderia trazer problemas como o renascimento de comportamentos dominadores e imperialistas, é constantemente balanceada pelo crescimento de uma identidade global e a mescla com membros tão diferentes de uma comunidade ampla. Na verdade, já que a maioria das comunidades linguísticas se estendem bem mais além de uma biorregião e já que as pessoas desfrutam de uma mobilidade social sem precedentes, cada indivíduo decide, quando chega a uma certa idade, se quer viver na cidade, no campo ou nos bosques. Não somente as fronteiras não existem entre nações artificialmente construídas; as fronteiras sociais tampouco detém o movimento entre diferentes categorias identitárias e culturais.

Para as pessoas mais velhas, esta forma de vida se assemelha ao paraíso, mesclado com os sombrios detalhes da realidade – conflitos, trabalho duro, desamores e pequenos dramas. Os jovens simplesmente pensam que este tipo de vida é resultado de um senso comum.

Ecada ano, o mundo se cura um pouco mais dos estragos causados pelo capitalismo industrial. Novas áreas retornam ao estado silvestre e a quantidade de bosques e zonas úmidas aumenta, enquanto que áreas altamente povoadas se tornam ecossistemas saudáveis graças a jardinagem, a permacultura e a eliminação dos carros. Os níveis de gases de efeito estufa se reduzem lentamente, pela primeira vez em décadas, o carbono retorna aos solos, aos bosques e zonas úmidas, a novas áreas urbanas verdes; e a queima de combustíveis fósseis é erradicada. Mais de um terço das espécies no planeta se extinguiram antes das pessoas mudarem a maneira de viver, porém agora que a perda de habitat foi invertida, muitas espécies voltam a se proliferar. Enquanto a humanidade não esquece a lição mais difícil que já aprendeu, em alguns milhões de anos e a biodiversidade do planeta será tão grande como sempre foi.

Uma vida digna substituiu o lucro como o novo termômetro social e, em um golpe a todos os engenheiros do planejamento social, todo mundo pode fazer suas próprias metas e determinar por si mesmos como alcançá-las. As pessoas recuperaram a habilidade de se alimentar e de fazer suas próprias casas, e as comunidades individuais mostraram que elas são as que se encontram melhor situadas para projetar um modo de sustentabilidade adaptado as condições locais e as várias mudanças resultantes do aquecimento global. Era algo tão óbvio. A única solução que todos os que se beneficiavam com uma economia que gerava mudanças climáticas nunca discutiram era as que poderiam realmente funcionar.

Durante a maior parte do tempo, as pessoas não acreditavam em quem tentava alertar sobre as mudanças climáticas, sobre o colapso ecológico, e outros problemas criados pelo governo e pelo capital – os mesmos que clamavam soluções radicais. Ao final, viram que a melhor decisão que tomaram em suas vidas foi a de parar de confiar naqueles que estão no poder, os responsáveis por todos esses problemas, e ao invés disso começar a confiar em si mesmas e se partirem para a ação.

A esses leitores que duvidam da possibilidade desta visão, podem dar uma olhada em “Campos, Fábricas e Oficinas”, de Peter Kropotkin, onde cientificamente se mostra uma proposta similar já há mais de cem anos. Também podem prestar atenção em como a terra nativa onde vivem foi organizada antes da colonização. De onde eu venho a Confederação Powhatan manteve a paz e coordenou o comércio entre várias nações no sul da Bahia de Chesapeake, na costa atlântica dos Estados Unidos. Ao norte, os Haudensaunne mantiveram a paz entre cinco, e logo seis nações, por cem anos. Ambos grupos suportaram uma alta densidade populacional mediante a horticultura intensiva e pescando sem degradar o meio ambiente.

Onde agora vivo, em Barcelona, os trabalhadores tomaram a cidade e as fábricas e geriram tudo por si mesmos em 1936. E onde estou escrevendo este artigo, em Seattle, houve uma greve geral de um mês em 1919 e os trabalhadores também se provaram capazes de se organizar e manter a paz. Não é um sonho. É uma possibilidade iminente, porém somente se tivermos a coragem de acreditar nela!

São Paulo, 23 de agosto de 2019.
UM OUTRO FIM DO MUNDO É POSSÍVEL!

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MONTE SUA BANQUINHA: um guia para pirataria e autogestão

Fim de ano é, tradicionalmente, a época das Feiras do Livro Anarquista em diversos lugares do Brasil e do mundo. Editoras, coletivos e movimentos se organizam para expor e fazer circular as publicações produzidas ao longo do ano em eventos que reúnem pessoas de diversos lugares para debater, estreitar laços e trocar experiências. Mas, para além das grandes feiras e encontros, é importante sempre poder compartilhar conhecimento, história, notícias e teorias revolucionárias da forma mais ampla e acessível. Seja fisicamente com livros, jornais, zines e panfletos, ou digitalmente para que qualquer pessoa possa ler, compartilhar e reproduzir instantaneamente um conteúdo sem qualquer custo. Para ajudar quem quer distribuir materiais de uma forma estratégica bolamos esse pequeno guia.

Nosso coletivo editorial se espalha e se conecta em rede pelo continente e pelo mundo com a proposta de fazer circular obras impressas, mas também uma versão digital, para que todas possam ler e imprimir em casa, na escola, faculdade ou no trabalho quando o chefe não está vendo.

Dinheiro não será o problema

Dinheiro não deve ser uma barreira para o acesso ao conhecimento. Portanto, se alguém não pode pagar por um livro ou qualquer publicação, tiramos dela capítulos ou reproduzimos obras inteiras e disponibilizamos aqui para que qualquer pessoa possa ler e copiar. Buscamos trabalhar, criar conteúdo e peças gráficas com pessoas que compartilhem dos mesmos princípios de livre acesso para que tudo o que escrevemos, traduzimos ou editamos esteja sempre livre de direitos autorais nem fique presa em uma loja que só se abre se você tiver dinheiro no bolso. No entanto, montamos banquinhas, lojas online e participamos de feiras onde vendemos nossos materiais. E sabemos que muitas pessoas fazem o mesmo com materiais que disponibilizamos. Encaramos isso como uma vaquinha, onde quem pode pagar para apoiar doando ou comprando materiais, custeia a impressão e a circulação de nossas publicações. E quem não pode pagar, tem a chance de pegar cópias gratuitas ou livre acesso do pdf de qualquer publicação que desejar.

A revolução não será fotocopiada!

Como impulsionar sua distribuidora ou outros projetos:

Distribuir zines e livros revolucionários não é e nem será uma atividade que fazemos buscando apenas um lucro pessoal. Mas é possível que isso seja sustentável e nos permita aprimorar nossos projetos editoriais ou mesmo realizar outros projetos totalmente novos. Por isso encorajamos as pessoas a se apropriarem de todo material digital ou de qualquer cópia impressa que tenha parado em suas mãos: COPIE, REPRODUZA, DIFUNDA!

1. Separe um dinheiro. Não precisa ser muito: com 10 ou 20 reais você consegue montar uma banquinha interessante e atraente.

2. Encontre a copiadora mais barata da cidade, copie o máximo possível de zines, livros e revistas e monte uma banquinha em uma feira, centros sociais, em eventos, sindicatos ou escolas. Não tenha receio de pechinchar, pedir desconto conforme a quantidade de cópias aumentar. Não precisamos explorar quem trabalha fazendo cópias, mas também não precisamos aceitar preços superfaturados.

3. Faça as contas de quanto custou cada publicação. Será o valor da cópia multiplicado pelo numero de páginas. Cada folha A4 tem dois lados a serem copiados! Então calcule o valor de cada publicação individualmente.
Se fizermos um zine de 20 páginas, ele será composto por 5 folhas, e cada folha tem 2 lados. Sendo assim, 10 cópias. Se a cópia custar 0,10 centavos, o custo por cada zine de 20 páginas será de 1,00 real.

4. Quanto cobrar? O que fazemos é normalmente vender um zine pelo dobro do seu preço de custo. Se cada zine custa 1 real, podemos vendê-lo por 2 reais. Assim, o dinheiro que foi investido pode retornar para sua fonte de origem, seja um caixa pessoal, seja empréstimo de um coletivo ou qualquer outro lugar.

5. Reserve o lucro. O dinheiro do lucro, pode ser separado para virar um caixinha ou fundo de reserva sempre que for necessário fazer mais cópias. Ou se a sua ideia não é ter sempre uma banquinha, mas financiar uma outra causa, use os materiais que você reproduziu para vender, tire o preço do custo para retornar a sua origem e use o excedente para alguma outra campanha ou projeto (um protesto, uma obra em uma ocupação, fazer mais cópias, financiar uma publicação, etc.). Nesse caso, planejar com antecedência e participar de feiras ou eventos maiores costuma ter mais retorno. Se for do interesse das pessoas envolvidas e não comprometer sua segurança, deixe claro que o dinheiro das vendas e das doações será revertido para a causa que vocês querem apoiar.

6. Tenha uma caixinha para receber doações. Mesmo que normalmente estejamos em meio a pessoas que, como nós, tem empregos péssimos – ou nenhum emprego –, há sempre uma ou mais pessoas dispostas a ajudar um pouco mais iniciativas relevantes. Então, tenha um espaço e deixe claro que sua banquinha aceita doação para continuar fazendo um bom trabalho.

7. Tenha materiais gratuitos à disposição. Muitas pessoas serão céticas a princípio e não vão querer dar dinheiro para apoiar projetos que ainda não conhecem. E sempre encontramos pessoas que querem comprar materiais informativos e revolucionários, mas não estão com um tostão no bolso. Para ambos os casos é importante ter panfletos e folhetos gratuitos disponíveis para que as pessoas saibam do seu projeto, dos seus princípios ou do assunto que estão tratando na banquinha, como anarquismo, feminismo, antifascismo, libertação animal e todas as causas possíveis.
Faça a contabilidade incluindo os custos de materiais que serão dados de graça. Sejam panfletos que serão sempre gratuitos, ou mesmo publicações maiores como livros ou zines que devem ir para as mãos de pessoas ou grupos que precisam de materiais e não podem pagar por eles no momento.

8. Se organize, planeje, construa com mais pessoas e grupos estimulando solidariedade e apoio mútuo. Uma banquinha, uma loja ou uma distribuidora de materiais subversivos não deve ser um fim em si mesmo, do contrário, é só mais uma pequena empresa individual. Conecte seu projeto a iniciativas revolucionárias maiores e mais amplas. Promova debates, busque aplicar as ideias e os conhecimentos que estão difundindo, leve seus materiais para protestos, ocupações, centros sociais e onde mais estiverem pessoas lutando por transformação social.

Esperamos que essas dicas sejam úteis e vocês possam distribuir os nossos materiais e o de outros coletivos. Tanto para que a informação continue a circular sem nós e que vocês possam impulsionar novos projetos e movimentos revolucionários.

Nos vemos nas ruas!


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BASTA DE GUERRA NO NORTE DA SÍRIA! Tomar as ruas no Dia X por Rojava

[Poster em PDF]

Uma revolução começou em Rojava há sete anos, mudando radicalmente a vida de milhões de pessoas. O povo curdo uniu-se a diversos outros povos da região e se organizou em conselhos autônomos, comunas e cooperativas, libertando-se assim da ditadura do regime de Bashar al-Assad. Em particular, a organização autônoma das mulheres tornou-se a força motriz por trás da revolução social e política da região. Durante a luta contra o Estado Islâmico, desenvolveu-se um projeto multiétnico e multirreligioso singular, que hoje garante a coexistência pacífica de milhões de curdos, árabes, assírios, yazidis, armênios, cristãos e muçulmanos. Este projeto, nomeado de Federação Democrática do Nordeste da Síria, está assentado na Crescente Fértil, uma das regiões mais ricas em recursos naturais da região, e é um exemplo único da construção de um governo pacífico e democrático no Oriente Médio. Por tudo isso, tal experimento revolucionário sempre foi visto como um problema para os poderes regionais (notadamente pelos governo de Assad na Síria e Erdoğan na Turquia) e imperialistas (de um lado por Putin, que vê Turquia e Síria como aliados estratégicos da Rússia e por outro a posição ambígua dos EUA) .

RiseUp 4 Rojava e Palestina!

Nos últimos dias e semanas, as ameaças da Turquia contra a Federação Democrática do Nordeste da Síria atingiram um novo nível. O governo de Erdoğan anunciou que está pronto para invadir Rojava, território autônomo e autogerido no norte da Síria, o que pode reacender a guerra civil no país. O presidente Erdoğan quer massacrar aquelas pessoas que derrotaram o DAESH, grupo jihadista, terrorista e fascista conhecido como Estado Islâmico. Tanques e canhões pesados já estão esperando na fronteira turca, os caças F-16 estão prontos e o exército de ocupação turco está se preparando para acabar com a Federação Democrática. No seu rastro, existem milhares de membros de facções islâmicas esperando para marchar para Rojava e o nordeste da Síria. Isto significa o mesmo que vemos todos os dias em Afrin, parte do território de Rojava que foi ocupado pela Turquia em janeiro de 2018: assassinato, estupros, torturas, a expulsão da população local e a reorganização de grupos extremistas islâmicos sob proteção do Estado turco. Uma nova guerra levaria a Síria e todo o Oriente Médio a um novo caos e expulsaria centenas de milhares de pessoas pelas tropas turcas e de seus mercenários islâmicos.

Mas se o governo turco e seus capangas esperam que seus sonhos de genocídio se tornem realidade, eles não levaram em conta a resistência das Unidades de Defesa das Mulheres (YPJ) e as Unidades de Defesa do Povo (YPG) – e especialmente a resistência do povo no norte e no leste da Síria. Aqueles que derrotaram DAESH através do sacrifício de milhares de mártires e a resistência corajosa da população defenderão as áreas autogovernadas contra uma invasão turca.

Todos nós devemos fazer a nossa parte e cumprir nossa responsabilidade de defender essa revolução!

A cooperação militar, econômica e diplomática entre a Turquia, os EUA, a OTAN e os países europeus deve ser denunciada e atacada politicamente. Não há apoio para Erdogan, seu regime e sua guerra! Nenhum suprimento de armas, nenhuma ajuda financeira ou política para as ações genocidas da Turquia!

Se os movimentos democráticos e progressistas decidirem colocar a questão em suas agendas, na mídia, nas ruas, nas fábricas, empresas e salas de aula de seus países, poderemos desenvolver uma força comum contra os planos de guerra da Turquia. Temos de construir uma resistência política permanente capaz de impedir a cooperação com o fascismo turco nos demais países.

Está chegando o Dia X, o começo de uma invasão turca: tomem as ruas, realizem ações, ocupem, perturbem e bloqueiem! Mostre aos responsáveis nos escritórios do governo e nos locais de trabalho o que você acha da guerra deles! Juntos podemos parar a guerra de agressão da Turquia! Nenhuma guerra contra o norte da Síria!

A revolução no nordeste da Síria sairá vitoriosa, todo fascismo será esmagado!

Mais informações:

riseup4rojava.org

internationalistcommune.com

 

[Poster em PDF]

TODAS CONTRA BOLSONARO E A NOVA DIREITA!

No dia primeiro de janeiro de 2019, Jair Bolsonaro assumirá a presidência do Brasil. Sua candidatura, seu governo e seus aliados representam o que há de pior em qualquer sociedade: o autoritarismo, o sexismo, o racismo, a homofobia e a xenofobia. O capitalismo aliado a práticas com fortes tendências fascistas!

O novo presidente já mostrou que as minorias políticas serão os principais alvos de seu governo: a classe trabalhadora e pobre, as mulheres, a população negra e periférica, toda comunidade LGBTTIQ, os povos indígenas e imigrantes terão ainda mais direitos ameaçados e suas vidas colocas em risco.

Usando notícias falsas, boatos e distorções dos fatos, Bolsonaro e seus apoiadores foram capazes de influenciar milhões de pessoas e fugir de todos os debates sobre seus projetos e ideias.

Ele representa um risco aos ecossistemas ao querer acabar com leis e acordos ambientais, negando a existência do aquecimento global e planejando entregar reservas ecológicas e terras indígenas ao agronegócio e ao mercado internacional. Escândalos envolvendo sua equipe apenas mostram que Bolsonaro usará da mesma corrupção que os governos anteriores.

Suas visões políticas foram amplamente elogiadas por supremacistas brancos como David Duke da Ku Klux Klan e sua corrida eleitoral apoiada por Steve Bannon, estrategista de campanha de Donald Trump, presidente americano que Bolsonaro promete total subserviência.

Portanto, não é possível esperar: 2019 deve ser um ano de luta ainda mais intensa. Convidamos a todas e todos, comunidades, movimentos, coletivos, associações, estudantes, trabalhadores e trabalhadoras e quem não tem trabalho para a organizar uma luta ampla e para além da política partidária. A polarização entre direita e esquerda no nível eleitoral tem servido de distração e colocado projetos de poder semelhantes como aparentemente opostos. Enquanto isso, deixa intacta a raiz do problema que se encontra no Estado e na forma capitalista da sociedade.

Devemos lembrar que as leis antiterroristas que criminalizam protestos e movimentos sociais foram criadas e aplicadas durante o governo dito de esquerda de Lula e Dilma Rousseff. E agora, serão aprimoradas e usadas pelo governo de Bolsonaro para neutralizar qualquer oposição popular nas ruas.

Nas palavras do próprio Bolsonaro: as oposições e também as todas as formas de ativismo estarão banidas do país. A violência policial será ainda mais intensa e a turba influenciada por seus discursos de ódio que saíram do armário em sua campanha, não voltará para lá. Eles também estarão nas ruas agora!

Não podemos recuar. Estivemos nas ruas contra o aumento das passagens e a Copa das Confederações em 2013, contra os impactos da Copa do Mundo em 2014 e das Olimpíadas em 2016. Nas ocupações das escolas em 2015 enfrentando os cortes da educação. Nas escolas e instituições culturais ocupadas contra as medidas de Michel Temer em 2016. Em 2017 e 2018 em todas as greves, ocupações e marchas contra o atual governo.

É necessário tomar novamente as ruas para resistir, deslegitimar e expor os absurdos defendidos por Bolsonaro como uma ameaça a todas as pessoas, para o meio ambiente e para as gerações futuras.

Estaremos nas ruas com protestos, organização popular, ação direta. Convidamos agora para essa luta, todas e todos aqueles que sistematicamente vem sido prejudicados por governos e pelo capitalismo durante toda sua vida, e também aqueles que agora serão ainda mais atingidos e desejam resistir ao governo de extrema-direita de Jair Bolsonaro, combatendo os grupos autoritários, conservadores, neoliberais e fascistas que estão tomando às ruas e as instituições políticas nos últimos anos.

Desde o dia da sua posse, primeiro de janeiro, ocuparemos as ruas contra toda e qualquer medida imposta pelo seu governo. A luta pela terra, por moradia, pela nossa existência, por justiça e igualdade deverá ser mais intensa do que nunca. Estaremos também nos dias históricos das lutas populares:

oito de março, dia da mulher; 19 de abril, dia da resistência indígena; primeiro de maio, dia dos trabalhadores e trabalhadoras; 28 de junho, dia do orgulho LGBTTIQ; sete de setembro e o grito dos excluídos; 20 de novembro dia da consciência negra.

Será preciso tomar toda oportunidade de demonstrar que não existe consenso. A maioria da população não votou em um governo autoritário, que abre as portas para maior militarização da sociedade, para o fascismo e para a supremacia branca e patriarcal.

Não iremos parar de lutar até que o Estado e o capitalismo caiam!

Em 2019, Bolsonaro e seus aliados não terão descanso!