Como Enterrar o Antifascismo: dos Acordos com a Polícia à Criminalização do Ingovernável

Dia 21 de julho, ocorreu uma em São Paulo uma reunião de diversos movimentos sociais e partidos ditos de oposição com órgãos públicos e as forças policiais. Os grupos presentes foram: Partido Comunista Brasileiro (PCB), Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB), Partido dos Trabalhadores Socialistas Unificados (PSTU), União Nacional dos Estudantes (UNE), Bengalas Voadoras, CSP Conlutas, União Municipal dos Estudantes Secundaristas de São Paulo (UMES) e Partido da Causa Operária (PCO).

A ata do encontro foi postada dias antes do ato na internet por um militante do PCO. Esse registro oficial permite destacar alguns aspectos extremamente relevantes para situarmos a presente criminalização de grupos anarquistas, autonomistas e/ou adeptos de ações diretas e diversidade de táticas nas manifestações de rua. Um processo histórico de criminalização e perseguição política que se intensificou depois das manifestações de junho de 2013 e se tornou o complemento macabro e securitário ao espetáculo jurídico-midiático, com ostensiva participação das redes sociais digitais, que se tornou a política na última década.

O primeiro aspecto diz respeito à jurisprudência gerada por reuniões anteriores visando evitar confrontos entre fascistas e antifascistas, em 2020. Momento no qual as torcidas antifascistas decidiram confrontar os eventos bolsonaristas que passaram a ser semanais na Avenida Paulista. Essa barganha foi capitaneado por Guilherme Boulos, líder do Movimento dos Trabalhadores sem Teto (MTST) e figura importante da Frente Povo Sem Medo. A liderança negociou um acordo com a Polícia Militar do estado de São Paulo que consistia em um revezamento, com os fascistas, dos protestos ocorridos na citada avenida. Isso, na visão de muitas pessoas, não apenas enfraqueceu a luta antifascista como teve efeito de arrefecimento da movimentação que parecia ter um enorme potencial para enfrentar o bolsonarismo na rua e barrar o fascismo.

O que vemos agora é apenas o desdobramento dessa disposição para a barganha e a negociação. A ata registra, como segundo aspecto dessa análise, uma reunião que vai muito além das exigências constitucionais para o exercício da livre manifestação. Os movimentos e partidos acordaram a possibilidade de punição com multa, estipulando a proibição tratada, daquele momento em diante, como lei, de que manifestantes com ideologias opostas ocupem o mesmo espaço ou organizem atos simultâneos. Isso obviamente estabelece um cerceamento que não permitiria que atos fascistas e intolerantes fossem impedidos de ocorrer por uma contramarcha que os repudiassem ou os atacassem, mesmo sendo atos que defendam o nazismo ou a perseguição às minorias.

Além disso, faz parecer que qualquer grupo que se manifeste no mesmo local professe a mesma ideologia, o que termina por igualar PCO e PSDB, como ideologicamente equivalentes. Pois, segundo a decisão da PM, não poderiam estar no mesmo ato. Ignora-se convenientemente que existem níveis de oposição, pacífica-se a multiplicidade das forças políticas, como se não-oposto momentaneamente, ou apenas toleráveis, significasse o mesmo, ou igual.

No entanto, lendo o documento acabamos por descobrir que, aceitando assinar esse acordo, PCO e PSDB descobrem realmente o seu grande solo comum: mediados pela Polícia Militar, eles se aceitam ideologicamente equivalentes (afinal, assinaram o documento!), em repudiar a ação direta e os atos “violentos” então atribuídos por ambos à tática de infiltração. É por repetirem esse discurso que, desde 2013, separaram os “verdadeiros manifestamente” dos “ilegítimos” e dos “vândalos“, juntamente à Polícia Militar, que vemos o que eles realmente têm em comum: aceitam a criminalização das táticas que não controlam, ajudam a criminalizar a espontaneidade da revolta e o imprevisível das manifestações populares. As organizações, mediadas pela polícia repressiva, se constituem como a polícia da paz em nome do governo das ruas.

Quem está do lado da polícia, quer sempre apagar as barricadas.

Exatamente por partilharem da separação bom e mal manifestante, que eles assinam um documento pelo qual pretendem terminar o ato com hora marcada e antes de escurecer, e pelo qual pretendem marchar em ordem previamente comunicada à polícia, como em um desfile cívico onde nada poderia fugir ao planejado e ao controlável. A segurança que eles pretendem ter é a mesma dos que temem uma modificação radical do estado de coisas agora vigente, o que eles mais querem evitar é a força da revolta popular ingovernável. E, para tanto, são ativamente coniventes ao estado de exceção, pedem por ele para garantir que nada fuja ao controle, chegando a se comprometer com que as vias públicas não possam ser obstruídas sem diálogo prévio entre os organizadores do ato e a Polícia Militar. Isso cerceia, muito além do que existe hoje na legislação e na jurisprudência vigente, o direito à livre manifestação. Imaginem, uma ação tão simples, tão primária e espontânea de um protesto popular, como fechar uma rua, não podendo ocorrer sem previamente negociação entre burocratas partidários e os burocratas armados?!

O que restaria de força, de pressão, em uma manifestação popular que não pudesse surpreender nem incomodar, fosse realmente o caso de algo assim acontecer, sem que nenhum intolerável anarquista desobedecesse o acordo firmado, obviamente sem consulta prévia?! Quem precisa de uma ditadura com uma esquerda dessas? Quem pode temer a supressão dos direitos democráticos quando o manifestódromo se tornar a regra, montando um palanque animado com carros de som feito carros alegóricos, muitos sorrisos e discursos falsos?

Os comunistas e a esquerda oficial continuam para sempre legalistas em um Estado que nunca foi e cada vez mais faz questão de sequer fingir que segue seus ritos!

Assinando este documento, os partidos políticos em questão se colocam em pleno acordo com a repressão policial ao mínimo fechamento de uma via, desde que eles não a tenham negociado com a polícia. Como se eles fossem os donos da rua e da manifestação e, realmente, pudessem controlar e conter o incomensurável sempre presente em um protesto. Qualquer ação para além da acordada, será tratada, nos diz ainda o acordo firmado e documentado, com a conivência desses senhores, seus partidos e instituições, como caso de polícia a ser investigado pelo Ministério Público.

De fato, o documento é público e a comunicação de manifestações de rua é uma rotina burocrática das representações sindicais, partidárias e de alguns movimentos sociais. Algo que eles mesmo acabam levando cotidianamente para suas formas de atuação, demonstrando, no fim, que sua forma política é apenas uma imensa burocratização da vida. No entanto, essa reunião, os termos da referida ata e as reações às contestações sobre esse acordo nas redes sociais digitais deixam evidente que as frentes são aliadas da polícia no governo das ruas e que as manifestações “Fora Bolsonaro!” estão capturadas pela disputa eleitoral que visa o controle da máquina estatal. Nada mais do que isso. Esse é o jogo.

É preciso ser explícito: se o objetivo é barrar o fascismo e impedir o fechamento do regime em uma ditadura formal, negociar com a polícia não é e nunca será o caminho.

O colaboracionismo sempre terá muitos nomes, mas se faz pelas mesmas práticas!

Fogo no legalismo!

Nem CPI, Nem Eleições: Só o Povo Nas Ruas Vai Barrar o Genocídio

A pandemia segue matando mais de mil pessoas por dia no Brasil, na maior média diária do mundo. Sem qualquer plano no nível federal para vacinar e barrar o contágio, o saldo de mortes evitáveis continuará crescendo. Pessoas em todo país começam tomar novamente as ruas para enfrentar um governo tão ou mais perigoso que a pandemia. Além do vírus e da crise social que o acompanha, o governo e o congresso promovem ataques históricos às populações indígenas, ameaçando sua permanência em suas terras e entregando o que resta das florestas para a mineração e o agronegócio.

Enquanto isso, a oposição dentro do Senado lidera uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) que busca comprovar se a negligência do governo federal foi elaborada intencionalmente para espalhar a Covid-19, com especial impacto mortífero sobre as pessoas pobres, negras e indígenas. A investigação encontra várias provas dessas práticas, além de revelar escândalos de corrupção na compra de vacinas. Com efeito, muita gente renova a esperança de que as “instituições funcionem” para punir os responsáveis por mais de meio milhão de mortes. Quem escolhe protestar nas ruas, encontra sindicatos e partidos da centro-esquerda tentando controlar e canalizar a revolta para lançar seus candidatos nas próximas eleições. Enquanto os nossos morrem, sabemos que não é possível esperar nem por punição nem por eleição.

As Instituições Estão Funcionando Normalmentee Precisamos Pará-las

A democracia é sempre apresentada como a “antítese” da ditadura e/ou do fascismo. Alega-se que a divisão dos poderes serve de freios e contrapesos para regular o poder do chefe de Estado e de governo. Acredita-se que essa fórmula da democracia moderna é suficiente para impedir que ele faça apenas o que bem entende sem limites ou consequências em caso de abuso de autoridade. Mas não é isso o que vemos na prática, especialmente nas Américas, onde praticamente todos os países foram fundados sobre a escravidão negra e o etnocídio indígena. As investigações da Comissão Parlamentar de Inquérito podem oferecer uma esperança, mas não podemos nos dar ao luxo de confiar nos ritos democráticos.

Tomemos um exemplo recente da chamada “maior democracia do mundo”: Donald Trump saiu ileso de dois processos de Impeachment, em 2020 e em 2021. Em ambos obteve a maioria dos votos no parlamento dos Estados Unidos mesmo após cometer crimes explícitos e bem documentados – como chantagear o presidente da Ucrânia para interferir nas eleições americanas e incentivar seus apoiadores a invadir o Capitólio em janeiro de 2021 com símbolos neonazistas para atacar congressistas e tentar vingar sua derrota nas urnas.

Durante as investigações de crimes eleitorais em 2019 e o primeiro processo de Impeachment de Trump em 2020, parte da população renovou sua confiança de que as instituições e a lei cumpririam a promessa de punir o presidente Trump por seusdesvios. Os protestos que marcaram o governo desde a sua posse foram dando lugar à promessa de que as autoridades resolveriam o problema. Foi somente após o assassinato de George Floyd pela polícia em maio de 2020, que as ruas tornaram a ser o principal palco da ação popular. Uma onda de levantes iniciada em Minneapolis varreu 200 cidades no país, queimando delegacias e centenas de viaturas, ocupando praças e prédios e expulsando a polícia de vizinhanças inteiras.

Manifestantes em frente à 3ª Delegacia de Minneapolis em chamas, após assassinado de George Floyd, 2020.

Figuras proeminentes do partido Democrata acusaram os movimentos insurgentes da rebelião de George Floyd de assustarem o eleitorado, de serem a imagem de “inimigo interno” perfeita para Trump se projetar nas urnas como solução para o caos político e para a crise sanitária – ambos ampliados por ele mesmo e pelas políticas que ele representa. Mas os eventos demonstraram que a população se identificava com os protestos combativos contra a violência e o racismo policial e, como resultado, a popularidade de Trump despencou.

Como afirmam camaradas dos EUA antes da eleição,

“Na verdade, se estudarmos as pesquisas ao longo de 2020, Biden consolidou sua liderança depois que a Rebelião George Floyd começou no final de maio; Trump só começou a recuperar terreno quando os protestos cessaram. Se Trump perder esta eleição e deixar de manter o poder por outros meios, muito do crédito deve ir para os rebeldes por forçarem parte da classe dominante a mudar de lado e apoiar Biden, mostrando que mais quatro anos de Trump podem tornar aos Estados Unidos ingovernável.”

Deixar claro que não haveria paz sob o governo de Trump foi uma forma de dizer que se aliar a ele é desgastar a própria imagem e uma grande quantidade de energia para manter legitimidade e controlar a rebelião. A semelhança entre a esquerda liberal, a direita conservadora e os ricos de toda espécie é que ambos preferem a paz para governar e manter as instituições e os negócios funcionando.

Não foram as instituições democráticas, e sim a coragem das pessoas enfrentando a polícia e milícias supremacistas brancos nas ruas que deixou Trump isolado, contribuiu para a queda da sua popularidade e perda de votos – algo que nenhuma investigação ou Impeachment conseguiu. Se a maior parte das pessoas tivessem aceitado não ir para as manifestações e deixar as poucas pessoas que foram lutarem sozinhas, isoladas, para serem reprimidas, a extrema-direita poderia ter se sobressaído e ganhado ainda mais confiança ocupando essas ruas ao lado das forças policiais. Ambas teriam mais legitimidade e o controle da situação para ajudar Trump a dominar o debate público e vencer a eleição.

Sem a revolta popular demolindo a imagem do governo, esses apoiadores dentro das elites ainda tentariam apoiar um segundo mandato de Donald Trump – mesmo após sua gestão catastrófica da pandemia e a tentativa de invasão do Capitólio por seus apoiadores.

Imitando as trapaças do magnata americano, Bolsonaro e sua corte miliciana prometem contestar o resultado das eleições em 2022 e já está há tempos aparelhando as instituições com mais de 6 mil militares da ativa, muitos deles generais, em altos cargos civis do governo – mais do que a própria Ditadura Civil-Militar de 1964-1985 – e comprando o apoio das polícias militares com prestígio, impunidade para crimes cometidos em serviço e crédito para compra de imóveis. Sem falar de sua campanha permanente para armar cidadãos alinhados à sua ideologia patriarcal e autoritária que já dobrou o número de armas em circulação no país. Carreatas e desfiles de motos caras complementam seu espetáculo performando uma imagem de apoio popular e ameaça à oposição no estilo gangue de macho branco ressentido.

Para entender onde Trump e Bolsonaro se encaixam na política de nossa época, devemos considerar que eles não são a morte das democracias, são sua face mais pura e sem pudores expondo os mesmos elementos policiais, securitários, racistas, genocidas, prisionais e patriarcais que governos democráticos compartilham com os regimes fascistas históricos. Para executarem seus planos autoritários e colocar a vida de milhões de pessoas em risco ainda maior, basta conquistar a maioria dos votos populares e apoio no parlamento para agir com legitimidade e total impunidade. No caso brasileiro, isso é ainda mais explícito uma vez que não houve justiça de transição nem qualquer forma de responsabilização aos militares pelas perseguições, prisões, torturas, desaparecimentos e mortes que praticaram ao longo da última ditadura¹. Hoje, Bolsonaro é apenas o maior representante do mesmo projeto ou “partido militar” que nunca deixou de controlar a República, desde sua fundação em 1889.

Sempre foi evidente, antes mesmo da vitória eleitoral, que Bolsonaro representava um projeto violento que custaria a liberdade e a vida das populações pobres e excluídas. Mas não imaginávamos as dimensões que uma pandemia adicionaria a essa tragédia. A Covid-19 se tornou uma verdadeira arma biológica na matança de pobres e não-brancos se aliando e ampliando o morticínio policial cotidiano. Com 2,7% da população mundial, Brasil já contabiliza 13% das mortes por Covid-19 no mundo. Nessa ofensiva, povos indígenas enfrentam não só a pandemia, mas incêndios na Amazônia, no Pantanal, o avanço do agronegócio, mineração ilegal e extração de madeira sem regulação ou qualquer consequência legal. Pelo contrário, legisladores estão determinados a entregar reservas indígenas ao latifúndio e ao extrativismo em nome do crescimento do PIB, como abordaremos adiante.

Seu plano de extermínio ceifou mais de meio milhão de vidas com o pretexto de salvar a economia” jogando as pessoas no trabalho, nas escolas e nos transportes lotados para se contaminarem com a Covid-19. Até agora, esse plano nada secreto de disseminação do vírus, comprovado e descrito pelo estudo de diversas instituições de pesquisa, ganhou alguma materialidade e testemunhos bem embasados durante os inquéritos da CPI, que apurou também que ao menos 400 mil mortes teriam sido evitadas se o básico tivesse sido feito para promover a prevenção.

Além disso, ficaram evidentes a censura de estudos que atestam o impacto desproporcional da Covid-19 sobre população negra e indígena, demissão ou silenciamento de servidores que se comprometem em aplicar as recomendações sanitárias que funcionaram em todo o mundo (uso de máscara, testagem, isolamento), uma campanha de boicote à vacinação e em favor da “imunidade de rebanho” aliado ao uso de remédios ineficazes contra o vírus e, mais recentemente, o atraso deliberado na compra de vacinas eficazes para poder comprar vacinas superfaturadas por intermédio de paraísos fiscais, evidenciando que a corrupção está muito bem articulada com o negacionismo científico.

Gráfico do pesquisador Pedro Hallal censurado em reunião com membros do Ministério da Saúde.

A CPI trouxe também declarações e comparações com o Holocausto em mais de um momento. Primeiro quando parlamentares compararam a busca por responsáveis pelas mortes na pandemia com o julgamento de Adolf Eichmann, oficial nazista responsável pela logística dos campos de concentração de Hitler. Em outros casos, trazendo a imagem da cidade de Manaus durante a crise de falta de oxigênio no estado do Amazonas, quando centenas de pessoas morreram sufocadas em hospitais sem ter atendimento em casos graves de Covid-19, os mortos eram enterrados em valas comuns e vieram as acusações de que a cidade foi usada como “campo de teste” para uso em massa de medicamentos ineficazes, como a cloroquina. Exagero ou não, o cenário é terrível o bastante para trazer tais paralelos no debate público.

Com esse peso trágico, a investigação no Senado atrai a atenção de quem não quer “apenas esperar 2022” e torce pelos possíveis resultados da CPI da Covid-19, assim como grande parte dos estadunidenses aguardaram em vão uma condenação de Trump ou um Impeachment. Mas o projeto colonial, patriarcal e genocida brasileiro segue mais vivo do que nunca enquanto o mesmo Congresso que investiga a gestão Bolsonaro não faz nada para barrar as leis que viabilizam seu projeto de destruição dos biomas e dos povos.

Rebeliões de um Novo Junho

Desde 29 de Maio e ao longo de Junho e Julho de 2021, movimentos sociais e centrais sindicais convocaram atos nacionais para protestar contra o governo de Jair Bolsonaro. Os protestos levaram dezenas de milhares de pessoas às ruas nas maiores capitais. Muitas pessoas compareceram carregando o nome e a foto de entes que perderam na pandemia. Blocos autônomos, formados por anarquistas, indígenas, torcidas organizadas e antifascistas em geral tomaram espaço em muitas cidades. Alguns foram mais combativos, com barricadas, pixações e ataque à propriedade dos ricos e do Estado. Aos poucos, o luto e a revolta por todas as mortes evitáveis, pela miséria e pela violência que se aprofundam vão tomando espaço.

Alguns movimentos sociais sob a hegemonia dos partidos de centro-esquerda ressoam a perigosa ideia de que somente nas eleições de 2022 poderemos nos livrar de Bolsonaro e seu governo. Lula se tornou novamente elegível após ter suas condenações anuladas por falta de provas e é apresentado como favorito nas pesquisas eleitorais para ser o novo/velho salvador da pátria. Após o grande ato de 29 de Maio, com forte repressão policial contra um ato pacífico em Recife, e os protestos de 19 de Junho, marcado por confrontos em São Paulo, tais organizações convocaram um novo ato apenas para 24 de Julho, mais de um mês depois.

Bloco Autônomo em São Paulo, dia 3 de julho.

No entanto, escândalos de corrupção envolvendo membros do governo federal comprando de vacinas superfaturadas, deram um tom de “urgência” aos atos, que foram marcados às pressas para o início de julho. Dessa forma, muitas renovaram suas esperanças nas instituições, como nas investigações durante o governo Trump nos EUA. Como reflexo, vimos as centrais sindicais, partidos e movimentos da esquerda tentando centralizar o controle e as decisões sobre quando serão os atos de rua.

Muitas pessoas, coletivos e movimentos autônomos criticaram a explícita tentativa de adiar os atos para amortecer a radicalização que começava a surgir e domesticar a revolta para não comprometer sua agenda e seus interesses eleitorais – sempre um dos riscos de depender da centralização dentro dos movimentos luta. Quando as centrais sindicais e partidos decidem que é razoável esperar mais de um mês para o próximo ato e protesto pelas centenas de milhares de mortes evitáveis para, em seguida, decidir adiantá-los quando veio à tona um escândalo de corrupção, elas estão se somando o moralismo que ergueu a extrema direita ao afirmar: a morte em massa é parte do nosso cotidiano, mas a corrupção não, essa é intolerável!

Se queremos derrubar governantes, temos que fazer isso por nossas mãos. Mesmo que o contexto nos leve apenas a conseguir meias vitórias, como um Impeachment ou a derrota eleitoral de Bolsonaro, dificilmente isso acontecerá sem as ruas em chamas. E isso implica enfrentar práticas centralizadoras e legalistas em meio a nossos próprios movimentos e exige abandonar os desejos de governar a revolta. Quando alguém tenta centralizar a influência sobre os movimentos e monopolizar o discurso de legitimidade para então distribuí-la de forma desigual entre quem parte para ação, o próximo passo é sempre a repressão policial.

Da Centralização à Polícia da Paz

Muitos movimentos sociais no Brasil dizem se inspirar na radicalidade das lutas recentes na Colômbia, nos Estados Unidos e no Chile, mesmo que para arrancar avanços pontuais – como foi o caso da nova constituição chilena ou da luta do povo colombiano para barrar a reforma tributária de Iván Duque. Mas parece que devemos sempre lembrá-los que tamanha força social só é possível respeitando e promovendo a diversidade de ações nas ruas e em cada tipo de organização. Não é deve ser aceitável criminalizar ou tentar disputar legitimidade reproduzindo o que diz a lei burguesa e sua polícia.

Assim como fazem petistas em seus delírios sobre os levantes de 2013 no Brasil, ou democratas e liberais nos EUA em 2020, a esquerda reformista e a mídia voltam a difundir boatos de que a revolta popular é sempre fruto de “infiltrados – a nova figura mítica temida por quem não tem intimidade com as ruas e teme a revolta mais do que teme a polícia. Para tanto, além de romper de vez com a narrativa que culpa quem se rebela pela repressão, é preciso eliminar do debate público a noção de que não ir paras as ruas e ficar em casa, depois de nos aglomerar no trabalho e no transporte público, é o que vai nos manter a salvo em meio a uma pandemia governada por uma extrema direita sem qualquer pudor de deixar nítido uma política genocida.

Dia 19 de junho em São Paulo, um dos primeiros atos mais combativos, ficou marcado por revelar as consequências das inclinações centralizadoras dentro dos movimentos sociais de massa que aceitam ser base eleitoral e conduzem a práticas policialescas. Membros do MTST (Movimento dos Trabalhadores Sem-Teto, de onde saiu Guilherme Boulos, candidato a presidência e à prefeitura de São Paulo) atacaram fisicamente um bloco autônomo de luta que incluía indígenas, sindicatos, indivíduos e coletivos anarquistas. Membros do MTST tentavam desfazer barricadas na avenida e denunciar pessoas para a polícia – repetindo os feitos de 2014 quando desmascararam e entregaram pessoas em um black bloc para polícia.

Tal episódio foi condenado por grande parte dos movimentos negros, indígenas e libertários. O MTST é um dos maiores movimentos do país e não é justo julgar todos os indivíduos que compõe, sendo muitos deles também indígenas e negros. Dinâmica semelhante se repetiu nos protestos de 13 de julho no Rio de Janeiro, quando membros de um partido stalinista tentaram tomar a frente do ato expulsando o bloco autônomo formado também por indígenas e anarquistas.

A tentativa de abafar organizações autônomas, não partidárias, indígenas e libertárias dentro da esquerda nas ruas mostra os riscos das práticas e métodos centralizadores e hierarquizados aplicados às dinâmicas de rua. Se blocos ou pessoas agindo autonomamente e expressando sua revolta pela perda dos mortos e pela miséria dos vivos incomodam não só a polícia, mas quem marcha ao nosso lado, então é mais provável que os movimentos abortarão qualquer rebelião muito antes que a própria polícia o faça. A disposição dos que optaram por atacar as barricadas e o protagonismo indígena e a ação de grupos autônomos, e o total silêncio de suas lideranças sobre os ocorridos apenas expõe uma faceta autoritária de parte da esquerda que aceita a revolta apenas se puder controlá-la. Fazer pressão nas ruas e causar transtorno para governantes não é tanto uma prioridade quando se quer apenas uma revolta simbólica voltada para a única forma de transformação social vista como legítima: a das urnas.

O Levante é Pela Terra

Desde o início de junho de 2021, indígenas de ao menos 25 etnias se reúnem em Brasília para protestar contra o Projeto de Lei 490/ 2007 que entrega seus territórios para a exploração econômica predatória e inviabiliza a demarcação de novas terras e incentiva a evangelização dos povos que escolheram viver isolados dos brancos e da cidade. Para ter direito às suas terras, indígenas precisam comprovar a sua posse até o dia que foi promulgada a Constituição Federal de 1988, ao fim da Ditadura Civil-Militar. Um dos maiores ataques aos povos indígenas nesse governo, mas que tem raízes nos governos anteriores e avançou bastante com o PT no poder. O projeto foi redigido em 2007 mas encarna as ambições coloniais de um país fundado sobre a conquista e extermínio indígena, que quer reverter direitos conquistados e apagar a diversidade étnica e cultural dos povos que habitam essas terras muito antes da invasão europeia. É também um avanço rumo ao “ponto de não retorno” de devastação na Amazônia, maior floresta tropical do mundo que, em 2020, teve o maior desmatamento da década e pode não se recuperar totalmente dos impactos atuais.

No primeiro dia de protesto, 8 de junho, cerca de 800 indígenas protestavam para pressionar Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) da Câmara Deputados que aprovaria ou não a PL/490. Na porta da FUNAI, a polícia atacou com bombas e bala de borracha os indígenas quando estes apenas se reuniam e cantavam músicas tradicionais.

No dia 22, dia da votação da lei, a polícia atacou novamente indígenas na porta da Câmara dos Deputados, que revidaram com flechadas e acertaram dois policiais. O confronto adiou a votação para o dia 23, quando foi aprovada pela maioria dos deputados. Os acampamentos em Brasília continuam e já contam com quase 2 mil indígenas de 52 etinias.

Os indígenas que permaneceram em seus territórios organizaram ações solidárias junto a outros movimentos autônomos para apoiar e repercutir a luta em Brasília. Bloqueios de rodovias com pneus e fogo foram organizados no dia 25 de junho em São Paulo, por Guaranis da Terra Indígenas do Jaraguá, e no dia 28, Guajajaras, Puris, Xoklengs bloquearam uma avenida no Rio de Janeiro. O mais famoso foi, provavelmente, o bloqueio organizado pelos Pataxós no sul da Bahia no próprio dia 22, bloqueando a rodovia BR101 aos cantos de “Vamos cantar, dançar o catimbó, pra trazer o bolsonaro amarrado no cipó”.

Mais resistência é esperada em agosto para derrubar a PL/490 na Justiça. Porém, fica a lição da articulação indígena que adiou a votação na Câmara e no STF, chamando atenção e solidariedade pelo país e pelo mundo: quando parte dos movimentos sociais urbanos se destaca por desfazer e atacar quem ergue barricadas ou organiza a autodefesa, se distanciando destes para favorecer a repressão, as lutas indígenas provam que ações diretas combativas e a solidariedade entres os diversos povos e movimentos são parte fundamental da luta contra um governo e um estado genocidas.

Nenhuma Paz Pode nos Proteger 

Historicamente, movimentos fascistas como o Integralismo foram barrados pela ação direta, muitas vezes violenta, como no episódio que ficou conhecido como Batalha da Praça da Sé em 1934. Nela, anarquistas, socialistas e comunistas acabaram com um encontro Integralista no centro de São Paulo, roubaram uma metralhadora da polícia e dispersaram violentamente os fascistas, sepultando seu movimento pelas décadas que se seguiram.

Em 2020, protestos no Brasil se deram conta de que era preciso agir diretamente e começaram com chamados das torcidas organizadas e grupos antifascistas barrando atos da direita nas ruas e, posteriormente, denunciando o racismo e a violência policial – o que ganhou fôlego e inspiração com onda de protestos nos EUA. Muitos movimentos e personalidades políticas e artísticas disseram que não se juntariam aos atos e recomendaram que muitos não fossem, alegando que isso “ofereceria ao governo Bolsonaro o pretexto para uma repressão ainda maior” ou até mesmo para “um golpe” (ou auto-golpe). Como vimos durante os levantes por George Floyd, essa narrativa é falha e reacionária em si, pois coloca a responsabilidade da repressão na revolta dos oprimidos. Como se a resposta para um momento de crise e escalada autoritária fosse ainda mais passividade e submissão. Como se baixar a cabeça fosse uma estratégia válida, legítima ou efetiva para enfrentar déspotas como Bolsonaro ou Trump. Algo sem qualquer correspondência na história ou na atualidade.

Para dar fim a um governo, devemos confiar no poder da revolta popular nas ruas para conseguir isso, seja diretamente, seja como vimos nos EUA, destruindo a imagem e o apoio político e econômico de seus líderes, ameaçando a tranquilidade e os negócios de seus aliados, seja como no Chile e na Colômbia, massificando a revolta e tornando-a incontrolável, tanto para a polícia quanto para os movimentos partidários e governistas. Não devemos nos iludir, é claro, com vitórias parciais. Uma nova constituição chilena ou uma reforma policial nos EUA não são nossos objetivos revolucionários de longo prazo e, pelo contrário, podem colocar novas limitações a esses objetivos . Ainda assim, está óbvio que não conseguiremos nem mesmo uma vitória parcial, como a queda imediata de Bolsonaro, se as forças que tentam controlar, pacificar e criminalizar a revolta surgem e crescem dentro dos movimentos sociais do nosso lado das barricadas.

Se queremos a revolta popular massificada nas ruas, temos a certeza de que nem todas as pessoas participando serão parte de uma organização formal – e nem precisam ser para se juntar aos protestos. Nem toda forma de ação é prevista e planejada pelos movimentos sociais. Da Primavera Árabe aos levantes por George Floyd nos EUA, dos protestos contra Lei de Extradição em Hong Kong aos levantes contra o neoliberalismo no Chile, vários exemplos comprovam essa tese. E nem por isso tais agitações deixam de ser uma expressão legítima da revolta dos povos. Em vez de questionar a “organização” ou a “legitimidade” por trás das ações de pessoas ou grupos dispostos tomar a cidade, atacar a propriedade e se defender da polícia nas ruas, devemos nos perguntar como apoiar e oferecer ferramentas para que essa revolta se torne uma força revolucionária ainda mais perigosa para essa ordem social assassina, e ainda mais efetiva em construir alternativas duradouras.

Quanto aos perigos das ações combativas nas ruas, lembramos que no dia 29 de Maio a polícia do Recife não precisou de pretexto algum para atacar um protesto pacífico e cegar duas pessoas que nem participavam do ato. Se um bloco organizado estivesse presente para proteger manifestantes com escudos e capacidade para revidar e afastar a tropa de choque, como fazem com sucesso as linhas de frente no Chile e em Hong Kong, a presença de idosos, famílias ou pessoas com mobilidade reduzidas não seria uma justificativa para promover o pacifismo e apanhar gratuitamente da polícia. No “relógio revolucionário” dos que buscam centralização, controle e pacificação, nunca é hora de erguer barricadas e contra-atacar. Porém quando o fascismo está florescendo e tomando tanto as ruas quanto as instituições, é sinal de que nosso relógio está atrasado e já passou da hora de agir.

Combater e desarticular o fascismo envolve impedir seus eventos de acontecerem, bloquear suas marchas e carreatas para que não ocupem as ruas recrutando mais membros, desmantelar as estratégias para difundir suas ideologias e mentiras. Os atos de junho e julho mostram que milhares de pessoas estão dispostas a ocupar as ruas e impor consequências para os ricos e poderosos. Povos indígenas se articulam contra o governo mais nocivo para sua sobrevivência em décadas e mostram disposição para uma aliança popular e radicalizada.

O que beneficia um governo autoritário não são as ações radicais e combativas nas ruas, mas a falta delas. É também saber que a própria esquerda acha que a revolta popular só pode ser ação de “elementos infiltrados”. Dividindo manifestantes entre legais e ilegais, legítimos ou ilegítimos. Cavando uma divisão e agindo como polícia de si mesmo, a ala legalista da esquerda poupa dois dos principais trabalhos da repressão.

Lutar Será Crime

Nosso sistema penal já é uma máquina de moer vidas e toda prisão deve ser considerada uma questão política. A repressão durante o governo Bolsonaro, porém, vem reafirmando a perseguição ideológica de opositores. Dia 18 de março, em Brasília, Rodrigo Pilha, militante do PT, foi preso pela Polícia Federal por carregar uma faixa escrito “Bolsonaro Genocida” e só foi liberado mais de 100 dias depois ao iniciar uma greve de fome denunciando isolamento, torturas e ainda estar preso mesmo depois de ter direito ao regime semiaberto. Ele e mais quatro companheiros serão processados sob a Lei de Segurança Nacional, entulho jurídico dos tempos da Ditadura. Em São Paulo, nos protestos do dia 3 de julho, o jovem Matheus Machado foi preso arbitrariamente e levado para um presídio por 10 dias depois de achar no chão um capacete policial. Acusado de furtar o item, Matheus também seguirá respondendo em liberdade. Ambos só estão em casa depois de muita pressão popular e nas redes. O uso desses dispositivos legais para enquadrar manifestantes e militantes não é novo e foi usado em 2013 no governo Dilma. Porém, vemos um avanço e um estímulo explícito à perseguição policial e à criação de leis ainda mais duras, como o projeto de lei escrito pelo próprio Bolsonaro, quando ainda deputado em 2016, inspirada no Patriotic Act – absurdo decreto do governo de George W. Bush nos EUA após o 11 de setembro. Outro projeto em curso, a PL272, ataca diretamente a movimentos sociais, considerando crime até mesmo greves, protestos e pequenos atos de vandalismo (já tipificados como dano a propriedade), introduzindo trechos vetados pela Lei Antiterrorismo assinada por Dilma Roussef e seu governo petista logo antes de sua queda em 2016.

É inegável a relação simbiótica e de fundação do moderno projeto de democracia capitalista brasileiro com o que há de mais sombrio de sua herança colonial, escravocrata, aristocrática e ditatorial. Nas leis, na polícia e na política vivemos o resultado dessa história não superada. Especialmente quando muitos dos agentes militares e seus discípulos da época da Ditadura Civil-Militar ainda mantém seus poderes, privilégios e a noção de que podem fazer o que quiserem sem consequências.

As intenções golpistas do presidente são óbvias e muito anteriores ao seu governo. Suas ameaças serão um risco ainda maior se souber que não haverá resistência. Como ele mesmo alegou, são os militares é que “decidem se o povo vai viver numa democracia ou numa ditadura”. Se até o governo Dilma os líderes militares não costumavam opinar frequentemente sobre a política e se diziam “estarem totalmente comprometidos com a democracia”, hoje é rotina declarações que se somam ao tensionamento e às ameaças de Bolsonaro. O chefe da Aeronáutica reagiu às investigações da CPI que apontam para a corrupção de militares ligados ao governo dizendo que “homem armado não ameaça” – o que em si já é uma ameaça.

Nesse cenário, militantes bolsonaristas organizando atos, carreatas e passeios de moto, policiais milicianos aparelhados e os militares controlando a maior parte do poder Executivo representam uma ofensiva autoritária que vai da rua ao topo das forças de segurança e do governo. O atual aparelhamento das polícias militares, até então controladas a nível estadual, e o precedente de golpe orquestrado pelas polícias na Bolívia em 2019 não contribuem para perspectivas otimistas.

Bloqueio de viaduto em Belo Horizonte, 3 de julho de 2021.

Se perdermos a chance de ir para as ruas desmoralizar o governo Bolsonaro e desarticular seus apoiadores – como os povos têm feito de norte a sul do continente –, para apenas esperar uma simples vitória nas urnas em 2022 ou uma condenação após a CPI, corremos o risco de duplicar o saldo de mortes pela pandemia, aprofundar a crise social e securitária, o genocídio de negros e indígenas e ainda ter que enfrentar uma base fascista mais consolidada do que nunca nas ruas num futuro próximo. Por isso, o melhor momento para agir e barrar o fascismo é sempre agora. E a melhor forma é sempre diretamente. Não podemos esperar que o parlamento que aprova os projetos desse governo ou as mesmas elites político-econômicas que abriram as portas para o militarismo protofascista de Bolsonaro sejam aliados em nossa luta para derrubá-lo. Restaurar a política democrática-liberal não é eliminar o fascismo, é apenas voltar com ele para a caserna de onde será recrutado novamente assim que avanços sociais, mesmo que mínimos, ou revoltas populares abalarem o sono dos poderosos.

Quando ocupamos as ruas massivamente, aprendendo com nossos erros e acertos, compartilhando ferramentas para a resistência e a autodefesa, avançamos muito mais numa construção revolucionária do que quando esperamos que líderes e burocratas façam o serviço em nosso lugar. O governo cumpre seu papel assassino, as força políticas que disputam o governo querem pacificar as ruas. Só a revolta pode introduzir um elemento novo, provocar o ingovernável e fazer emergir o mundo novo que trazemos em nossos corações. Se governo é a morte, a fome e a destruição com a política que é a programação racional desses atos, sejamos a revolta ingovernável que afirma a vida e não teme a ruína, pois tudo que aí está foi construído por nós, faremos melhor sem o governo atrapalhando. Mais do que nunca, devemos bradar, nem ditadura, nem democracia, anarquia!

Sejamos quem constrói as barricadas nas ruas para enfrentar o fascismo, não as mãos pacificadoras que as desfazem.


Notas:

1: Ironicamente, em 2021 houve a primeira condenação criminal de um membro repressão da Ditadura Civil-Militar, 36 anos após seu fim. Um delegado foi condenado a 2 anos no regime semi-aberto por sequestro e cárcere privado.

DAS BARRICADAS #3 Entrevista Sobre as Lutas na Colômbia – com Editorial Piedemonte

Dando continuidade à série de entrevistas com pessoas e grupos tomando parte nos levantes no território colombiano em 2021, trazemos uma conversa com Editorial Piedemonte, de Bogotá, coletivo editorial subversivo dedicado à circulação de literatura libertária independente.

Nessa entrevista, terceira de uma série onde conversamos com coletivos atuando em solo colombiano, o coletivo aborda a atualidade do levante que já dura dois meses contra o governo de Ivan Duque e suas medidas tributárias neoliberais que afundam ainda mais na pobreza uma população já tão afetada pela pandemia da Covid-19. O saldo é brutal, com mais de 70 mortos e 300 desaparecidos oficialmente registrados nesses mais de 60 dias de greve geral. Ainda assim, o povo nas ruas prova que se submeter ao governo é mais perigoso do a pandemia. Sua bravura nas ruas levou ao cancelamento da Copa América, que foi transferida para o Brasil.

Que a sua coragem inspire nossas lutas contra o governo fascista de Jair Bolsonaro em nosso território.

Boa leitura, nos vemos nas ruas!

(Abajo, el texto en español.)


PORTUGUÊS

As notícias que nos chegam aqui no Brasil indicam que a insurreição que tomou as ruas se iniciou com uma luta contra a reforma tributária que o governo de Ivan Duque tentou implementar. Todavia, consideramos interessante levar em conta o contexto das lutas recentes nos territórios em que as insurreições acontecem, principalmente porque há menos de 2 anos as cidades colombianas já haviam sido local de manifestações multitudinárias e intensas. Sendo assim, gostaríamos que vocês comentassem um pouco sobre o processo de lutas que está ocorrendo no momento no território dominado pelo Estado colombiano e qual a relação com as lutas que antecederam esse momento.

O anúncio do pacote de reformas tributaria, trabalhista, da previdência e de saúde foi o ponto de ruptura definitivo de um precário equilíbrio na paciência dos povos que habitam estes territórios. De certo modo, os levantes recentes são uma continuação dos processos sociais desenvolvidos em 2019 contra a mesma violência neoliberal. As reformas, em termos gerais, propõem um aprofundamento dos processos de privatização da vida, ao que assistimos desde os anos 1980; um retrocesso nos direitos trabalhistas, civis e a restrição de acesso aos direitos mais fundamentais. Além disso, foi central nas manifestações populares de 2019 o rechaço à política de morte do Estado fascista colombiano: o assassinato sistemático de lutadorxs sociais (mal chamados pelos meios de “líderes sociais”) por parte das forças repressivas do Estado e dos grupos militares por meio dos quais se segue sustentando as oligarquias nestes territórios; o descumprimento dos acordos de paz firmados com a guerrilha marxista das FARC em 2016, após mais de 50 anos de insurgência, que prometiam uma reforma agrária, reparação às vítimas do conflito e reformas que de alguma maneira poderiam abrir outros cenários políticos; ademais, as lutas ambientais ganharam força nos tempos recentes ante o absoluto desprezo do Estado e do empresariado na Colômbia com toda a forma de vida não disciplinada e não produtiva. Da mesma forma, tornaram-se centrais nas lutas que ocorrem os primeiros projetos de fracking [perfuração do solo para extrair gás natural com grande impacto ambiental], a pulverização nas aéreas de cultivos de coca, os bosques e as regiões camponesas com glifosato, bem como a construção de represas e hidrelétricas que deslocam enormes populações humanas e não humanas de seus territórios.

As primeiras ações populares foram convocadas pelos setores que tradicionalmente ocuparam esse papel, o movimento estudantil e sindical reformista, e sob as estratégias e coreografias recorrentes no protesto social, como marchas e protestos nos centros das principais cidades, abaixo-assinados etc. Mas o próprio descontentamento popular rebaixou os limites destas organizações e produziu não somente outras formas de protesto, mas de organização. A forma das organizações de base, os espaços comunitários e os processos de educação popular, entre outros, nos setores marginalizados das cidades permitiram a emergência de outro tipo de situações. As cozinhas comunitárias organizadas espontânea e solidariamente, as assembleias populares autoconvocadas e as ações diretas, como bloqueios e a formação de “primeiras linhas” nos bairros, são mostras de outras potências a serem desenroladas na luta.

Gostaríamos de dizer que foi a pandemia (junto com as medidas fascistas-higienizantes) o que desarticulou essa revolta recente, mas a realidade foi que assistimos não somente a brutal repressão armada (com mais de 15 pessoas assassinadas pela polícia) e legal esperada por parte de uma ditadura, mas também o desgaste do movimento social em suas lutas e a cooptação dos protestos por parte dos sindicatos e organizações acomodadas e reformistas; a pandemia só impediu que reagíssemos com a velocidade suficiente e foram retomadas as ações que no início de 2020 começaram a decair.

Nos parece necessário também abordar os processos e ações em rechaço à brutalidade policial e à instituição depois de múltiplos abusos, jamais resolvidos, e não só no marco da mobilização social. Somente em 2020 a polícia cometeu dois massacres em Bogotá e territórios próximos. Em 4 de setembro 9 pessoas detidas em uma instalação policial em Soacha foram queimadas vivas, no que a polícia quis fazer parecer que foi um acidente ou um incêndio provocado por parte das pessoas detidas, para as quais foi negado ajuda. Em 8 de setembro Javier Ordoñez foi brutalmente assassinado por resistir a uma detenção arbitrária nas proximidades de sua casa, foi torturado em instalações da polícia. No dia seguinte o descontentamento popular se manifestou em boa parte dos bairros populares de Bogotá, sujeitos a violência sistemática da polícia, e foram destruídos vários pontos de vigilância da instituição em uma só noite. A resposta foi desmesurada, criminosa e grotesca, com 13 pessoas assassinadas pela polícia. Odiamos, cada vez mais, a polícia.

A greve geral convocada para 28 de abril deste ano atravessa todas essas lutas, alimentada também pela miséria absoluta imposta pelo Estado aos povos que vivem neste território durante a pandemia. A primazia do capital sobre toda forma de vida se expressou nos resgates aos bancos e empresas multimilionárias, na política de “austeridade” para o gasto social e no progressivo fortalecimento das criminosas formas repressivas do Estado, enquanto as pessoas passam fome nos bairros, nos campos e não há saúde ou educação decentes para quem não possa pagar. Essas revoltas e manifestações populares foram potencializadas e mantidas pela dignidade das organizações dos povos indígenas, sujeitos a um verdadeiro genocídio por ação e omissão por já há 500 anos. Sua capacidade de organização e confrontação tem sido profundamente relevante nos últimos acontecimentos.

Com isso queremos situar alguns dos pontos de apoio e tensões sobre os quais se mantém as lutas presentes.

O território conhecido como América do Sul possui um histórico bastante intenso de revoltas. Na última década, foram várias… podemos lembrar, por exemplo, da insurreição que tomou as ruas das cidades brasileiras em junho de 2013 ou do estallido social que se evidenciou no território chileno em outubro de 2019. Apesar de suas diferenças entre as forças envolvidas e dos efeitos produzidos, em geral diziam respeito a uma luta contra o aumento no custo de vida, o que significa diretamente uma luta pela vida e contra a miséria produzida pelo capitalismo e pelo Estado. E nos parece que a revolta que está ocorrendo no momento no território colombiano tem algumas características em comum. Como vocês analisam essa relação?

Acreditamos que é uma leitura precisa da situação, relacionar os levantes recentes de Abya Yala, contando também os de Equador e Bolívia, como parte de um mesmo sintoma. Os chamados “tarifaços” e “pacotaços” tem sido uma constante dos levantes populares recentes, e a partir desse primeiro rechaço começam a se manifestar realidades mais profundas e desejos que excedam as primeiras formulações desse descontentamento. Dizer “nossa luta é pela vida”, por mais essencialista que as vezes possa nos parecer, não é um slogan desproporcional quando nos deparamos com o empobrecimento permanente de nossas vidas nas engrenagens do trabalho e do desemprego, da violência, do disciplinamento e do espólio de toda forma vivente. Poderíamos reunir sob o rechaço radical ao neoliberalismo todas essas manifestações de descontentamento popular, mesmo que, em boa parte de maneira intuitiva. E aqui queremos insistir que boa parte das formas organizativas inéditas até agora são libertárias de maneira intuitiva, muitas delas baseadas no apoio mútuo e na autogestão das necessidades sem recorrer à organizações políticas tradicionais ou lideranças. Não podemos confiar cegamente nessas emergências, pois vimos como nesses espaços também podem surgir formas de poder autoritárias, mas queremos assinalar nelas a possibilidade de uma articulação e desenvolvimento das potências da prática anarquista, inclusive estando presente nestes territórios, ainda que de modo marginal.

No território dominado pelo Estado chileno, as forças moderadas tentaram colocar fim à revolta de 2019 com um processo constituinte, silenciando o fato de que centenas de compas ainda estão sequestradxs nas prisões, com penas que podem chegar a 15 anos, dezenas foram mortas e feridas. O processo ocorreu e mesmo com uma abstenção significativa, alguns setores consideraram uma vitória, como se a insurreição tivesse alcançado seu objetivo. Como vocês analisam essa tentativa de canalizar a revolta para as instituições?

Acreditamos poder ver uma constante nesse ponto inclusive com as diferenças entre os processos particulares. Sobre o caso chileno, compas anarquistas tem denunciado os interesses dos setores moderados e da própria direita na negociação da constituinte, sabem que a na vitória é melhor ficar em alerta (saben que sobre la victoria más vale estar en guardia). A tentativa de capitalizar os levantes como política eleitoral por parte de setores moderados ou de “centro” ainda encontra forte resistência nos territórios ocupados pelo estado colombiano, embora tenha começado a aparecer consignas lamentáveis do tipo “a revolução se faz nas urnas”. Nos preocupa a capacidade de captura que estes setores têm, no sentido em que não só silenciam de fato as vozes de desejos radicais dos levantes com seu manto de legitimidade democrática, como mencionam xs compas sobre o caso chileno, mas também fecham a possibilidade de debates reais e radicais que devem se dar para construir verdadeiros cenários de justiça e liberdade. A captura dos movimentos sociais por parte da institucionalidade é o aprisionamento de nossos sonhos de liberdade, representa a reviravolta para ajustar o intolerável deste sistema, abre caminho para sua Pax social. Falar de pactos sociais de reconciliação ou de “vitória” quando há companheirxs desaparecidxs, presxs, mortxs pelas mãos do estado e das oligarquias é um excesso e dá continuidade à repressão sistêmica.

Não se trata de querermos expressar nossa radicalidade pela via da negatividade absoluta, mas de que ainda há muito por se fazer. Nestes territórios, inclusive se a resistência decai, será implementada a retaliação aos elementos e setores dissidentes da sociedade pelos meios que já conhecemos. A desaparição forçada, a tortura, o encarceramento, o assassinato, não são práticas que o estado fascista colombiano tenha pudor em exercer jamais para manter sua forma; ademais, em relação às práticas de retaliação por parte do estado, é conhecida a sua associação perversa com grupos paramilitares e sua ação sistemática e sádica de eliminação de oponentes e de práticas que se oponham ou critiquem qualquer status quo imposto pelas oligarquias regionais, situação que deixa em completa ameaça xs companheiros que durante todo este tempo têm resistido. É necessário que estejamos atentxs ao que pode vir.

Toda nossa solidariedade às pessoas que sofrem em sua própria carne a violência da repressão, não façamos delxs mártires, xs queremos vivxs, alegres e resistindo nas ruas e nos campos.

A pandemia do Covid-19 tem afetado sobretudo as classes populares tanto em relação a morte por contágio quanto pelo aumento da miséria e piora nas condições de vida. Ao mesmo tempo, em algumas regiões a pandemia e o risco de infecção tem esvaziado as ruas e, de certo modo, funcionado como uma barreira para as mobilizações de rua multitudinárias. Como vocês analisam essa relação, já que a reforma tributária de Duque, por exemplo, afetaria diretamente o sistema de saúde colombiano?

Embora a pandemia, a possibilidade da própria doença, tenha mantido um grande número de pessoas fora das ruas por um tempo, a própria miséria produzida pelas insuficientes e violentas medidas do Estado as levaram às ruas para ganhar a vida, o medo de morrer de fome é maior o de morrer de uma doença desconhecida. O que foi inicialmente uma barreira também determinou a força do descontentamento social. Talvez nos setores mais abastados, que também fizeram parte do movimento social, o medo do contágio tenha sido maior, mas a indignação foi tanta que as ruas se encheram com mais força do que em 2019, sem paranoia viral. Ainda há massividade nas mobilizações e aparentemente o contágio em termos reais não aumentou como consequência. E sobre o absurdo e a violência da reforma fracassada do sistema de saúde, não pudemos fazer nada menos do que cuspir.

Nos chegam vários vídeos e imagens do terrorismo de Estado com assassinatos, torturas e outras formas de agressão por parte da polícia colombiana. Sabemos que isso não é um fato isolado, pois esta é uma ação regular de todos os Estados, sobretudo quando uma mobilização ataca a ordem e a paz dos ricos. Como se estrutura a policia colombiana e como tem sido o histórico de repressão policial às manifestações?

Nos territórios ocupados pelo estado colombiano a polícia é uma instituição militar, o contexto do conflito interno de mais de 60 anos de duração, somado às estratégias de contra-guerrilha orientadas pelos EUA e a Guerra contra as drogas tem feito a instituição parte do mesmo aparato. A polícia não responde em última instância à uma autoridade civil de Estado no Ministério do Interior, como fariam outras polícias, mas ao Ministério da Defesa (de Guerra). Parte das demandas de quem pretende uma reforma se centra neste fato estrutural, na desmilitarização da polícia. A doutrina do inimigo interior rege sobre todas as suas ações.

A midiatização dos assassinatos, torturas e demais incontáveis abusos por parte das forças repressivas do estado colombiano tem permitido não investigações legais aos responsáveis (demasiadamente inúteis sob a captura institucional do fascismo), mas a tomada de consciência massiva do agir criminoso da polícia, de maneira incontestável. As estratégias de manipulação dos meios de comunicação hegemônicos tem sido profundamente afetadas no interior destes territórios pelos relatos diretos das pessoas envolvidas nesses atos, inclusive sob a censura e o cerco midiático que nos foram impostos. Boa parte dos fatos registrados tem como responsável o Escuadrón Móvil Anti Disturbios (Esmad), criado em 99 como unidade de polícia destinada ao controle de manifestações com uso de armas “menos letais” e obedecendo os parâmetros internacionais de repressão na democracia. Em seus primeiros 20 anos de ação cometeu 59 assassinatos confirmados (pela mesma justiça estatal, fato não menor) no contexto das lutas sociais, além de mutilar, estuprar e ferir uma quantidade incalculável de pessoas. Muitos outros registros de brutalidade policial recentes se centram nas zonas próximas e no interior dos Centros de Atención Inmediata (CAI), utilizados como estações de patrulha e vigilância dentro dos bairros das cidades, e que tem operado como centros de tortura, estupros, capturas ilegais e assassinatos.

Existe algum debate sobre a autodefesa nas ruas? Existe algum debate dos movimentos e coletivos em relação a abolição da policia, por exemplo?

O rechaço à polícia se deslocou progressivamente dos “indivíduos isolados e corruptos” para a própria instituição. É óbvio que os setores moderados demandam do estado, não a abolição da polícia, mas uma reforma, pois veem nela uma instituição com funções sociais que nós não podemos jamais reconhecer. As pessoas e coletividades mais ou menos críticas que recebem alguma atenção por parte dos meios hegemônicos se expressam nesse sentido, tal como xs políticxs que se referem à necessidade de transformação da polícia e pedem a defesa e limpeza da própria instituição. Só no interior das coletividades antiautoritárias está se dando o debate em torno da abolição da polícia. Inclusive na demanda de várias das Primeiras Líneas está sendo pedido apenas uma reforma.

Sobre a autodefesa é um debate complexo, por uma parte desde o mesmo fato de nomear a prática em um contexto no qual os paramilitares e seu projeto fascista esvaziaram de potencia radical o próprio termo (nomeando-se Autodefensas Unidas de Colombia). Acreditamos que é um debate necessário, quando cresce a violência repressiva de maneira sistêmica, fazermos a pergunta sobre a necessidade e as formas de nos protegermos de maneiras não somente defensivas. As Primeras Líneas são uma mostra do debate em cenários amplos, em 2019 o exercício começou em setores estudantis não habituados ao uso da violência, sem conhecimentos práticos para exercê-la ou realmente se defender dela para além de capacetes e escudos, organizadxs sobre um discurso de defesa e, muitas vezes, devemos lembrar, em oposição às práticas e identidades de grupos que reivindicam a ação direta e a violência desde distintos lugares da radicalidade já há tempos. Nestes dois anos, as práticas das Primeras Líneas têm se transformado, se compreendeu à força sobre a capacidade de resposta à repressão estatal. Mesmo que o debate vá para além dos cenários de defesa nas mobilizações, acreditamos que na maioria dos casos não está presente fora destas perspectivas.

Por fim, nos interessa muito as diferentes expressões do anarquismo na região conhecida como América do Sul. Portanto, gostaríamos que vocês falassem um pouco sobre as forças envolvidas nas lutas anárquicas da região colombiana.

Nestas terras não existiu historicamente um movimento anarquista de massas, como no Brasil, na Bolívia, no Chile ou na Argentina, mas tem estado presente ao longo de todos os levantes e protestos desde o início do século XX. O anarquismo está presente de forma marginal nas lutas operárias, nas individualidades que entraram ou saíram dos processos guerrilheiros, no trabalho de artistas, jornalistas, algumas editoras, organizações educativas, grupos de combate de rua e ação direta, bem como demais manifestações de desejo por outros mundos. Assistimos nestas insurreições também a proliferação de ideias e pulsões anarquistas, os cenários de agitação de difusão do pensamento ácrata tem sido menos relevantes que as ações que os grupos tem impulsionado acompanhando estes processos de lutas sociais. Tem sido por meio das práticas que proliferam as ideias e se fortalecem. O acompanhamento e promoção de assembleias locais e populares, as campanhas de solidariedade com xs companheirxs em luta através da arrecadação de fundos, alimentos e insumos de primeiros socorros, o trabalho educativo e organizativo dos coletivos de Educação Popular e a beleza das cozinhas populares, que nos reúnem em torno do alimento para seguir resistindo, são algumas destas práticas que fazem visíveis as forças vivas do anarquismo em momentos como o atual. Apesar do anarquismo seguir sendo uma ideia marginal na prática política, são muitas as individualidades e coletivos voltados para a ação desde práticas antiautoritárias, solidárias e autogeridas.

Por isso, agradecemos a solidariedade que representa esta entrevista, a escuta e difusão em outras regiões golpeadas como nós por esta miséria e de pé, como nós, contra ela. Esperamos que o que tenhamos a dizer daqui pra frente nos distancie cada vez mais da denúncia e que possamos falar com mais força do que conseguimos, do que faremos nosso com nossas próprias forças.

Que viva a anarquia!


PARA SABER MAIS:

Colômbia Perdeu o Medo – A Revolta Segue em Todo o País Enfrentando a Violência de Estado

Video: Revolta e repressão na Colombia, por coletivos Antimídia e Submedia

DAS BARRICADAS #1: MUROS QUE GRITAM, PEDRAS QUE VOAM – entrevista com Taller la Parresia sobre o levante na Colômbia

DAS BARRICADAS #2: Entrevista Sobre as Lutas na Colômbia – com Unión Libertaria Estudiantil y del Trabajo


EN ESPAÑOL

Las noticias que nos llegan indican que la insurrección que tomó las calles comenzó con una lucha contra la reforma tributaria que el gobierno de Iván Duque intentó aplicar . Sin embargo, nos parece interesante tener en cuenta el contexto de las recientes luchas en los territorios donde se producen las insurrecciones, sobre todo porque hace menos de dos años las ciudades colombianas ya habían sido escenario de masivas e intensas manifestaciones. Por lo tanto, nos gustaría que comentaras un poco sobre el proceso de luchas que se está dando actualmente en el territorio dominado por el Estado colombiano y cuál es la relación con las luchas que precedieron a este momento.

El anuncio del paquete de reformas, tributaria, laboral, pensional y de salud, fue el punto de quiebre definitivo de un precario equilibrio en la paciencia de los pueblos que habitan estos territorios. De cierta manera, los levantamientos recientes son una continuación de los procesos sociales desarrollados en el 2019 contra la misma violencia neoliberal. Las reformas, en términos generales, proponen una profundización de los procesos de privatización de la vida, a los que asistimos desde los años 80; un retroceso en los derechos laborales, civiles y la restricción del acceso a los derechos más fundamentales. Además de ello, fue central en las manifestaciones populares del 2019 el rechazo a la política de muerte del Estado fascista colombiano: el asesinato sistemático de luchadorxs sociales (mal llamadxs por los medios “líderes sociales”) por parte de las fuerzas represivas del estado y los grupos paramilitares por medio de los cuales se siguen sustentando las oligarquías en estos territorios; el incumplimiento de los acuerdos de paz firmados con la guerilla marxista de las FARC en 2016, tras más de 50 años de insurgencia, que prometían una reforma agraria, reparación a las víctimas del conflicto y reformas que de alguna manera podrían abrir otros escenarios políticos; además, las luchas ambientales han cobrado fuerza en los tiempos recientes ante el absoluto desprecio del estado y el empresariado en colombia hacia toda forma de vida no disciplinada y no productiva, asimismo los primeros proyectos de fracking,la fumigación aérea de los cultivos de coca,los bosques y el campesinado con glifosato, y la construcción de represas e hidroeléctricas que desplazan inmensas poblaciones humanas y no humanas de sus territorios, se han hecho una parte central de las luchas que nos convocan.

Las primeras acciones populares fueron convocadas por los sectores que tradicionalmente han ocupado ese papel, el movimiento estudiantil y sindical reformista, y bajo las estrategias y coreografías recurrentes en la protesta social, como marchas y plantones hacia el centro de las ciudades principales, pliegos de peticiones, etc. Pero el propio descontento popular rebasó los límites de estas organizaciones y produjo no sólo otras formas de protesta sino de organización. La fuerza de las organizaciones de base, los espacios comunitarios y los procesos de educación popular, entre otros, en los sectores marginalizados de las ciudades, permitieron la emergencia de otro tipo de situaciones. Las ollas populares organizadas espontánea y solidariamente, las asambleas populares autoconvocadas y las acciones directas, como los bloqueos y la formación de “primeras líneas” en los barrios son muestra de otras potencias a ser desarrolladas en la lucha.

Nos gustaría decir que fue la pandemia (junto con las medidas fascisto-higienizantes) lo que desarticuló esta revuelta reciente, pero la realidad fue que asistimos no sólo a la brutal represión armada (con más de 15 personas asesinadas por la policía) y legal esperada por parte de una dictadura, sino al desgaste del movimiento social en sus luchas y a la cooptación de la protesta por parte de los sindicatos y organizaciones acomodadas y reformistas; la pandemia sólo impidió que reaccionáramos con la velocidad suficiente y fueran retomadas las acciones que a comienzos del 2020 comenzaban a decaer.
Nos parece necesario también abordar los procesos y acciones en rechazo a la brutalidad policial y la institución después de los múltiples abusos, jamás resueltos, y no sólo en el marco de la movilización social. Sólo en el 2020 la policía cometió dos masacres en Bogotá y territorios cercanos, el 4 de septiembre fueron quemadas vivas 9 personas detenidas en una instalación policial en Soacha, en lo que la policía ha querido hacer parecer como un accidente o un incendio provocado por parte de las personas detenidas, a las cuales se les negó el auxilio. El 8 de septiembre fue brutalmente asesinado Javier Ordoñez por resistirse a una detención arbitraria en las cercanías de su vivienda y torturado en instalaciones de la policía. Al día siguiente, el descontento popular se manifestó en buena parte de los barrios populares de Bogotá, sujetos a la violencia sistemática de la policía, y fueron destruidos varios de los puntos de vigilancia de la institución en una sola noche. La respuesta fue desmesurada, criminal y grotesca, 13 personas asesinadas por la policía. Odiamos, cada vez más entre nosotrxs, a la policía.

La huelga general convocada para el 28 de abril de este año recoge todas estas luchas, alimentada además por la miseria absoluta impuesta por el Estado durante la pandemia a los pueblos que habitamos estos territorios. La primacía del capital sobre toda forma de vida ha sido expresada en los rescates a los bancos y empresas multimillonarias, en la política de “austeridad” para el gasto social y en el progresivo fortalecimiento de las criminales fuerzas represivas del estado, mientras la gente pasa hambre en los barrios, en los campos y no hay salud o educación decentes para quien no pueda pagarlas. Estas revueltas y protestas populares han sido además potenciadas y mantenidas por la dignidad de las organizaciones de los pueblos indígenas, sujetos a un verdadero genocidio por acción y omisión desde hace 500 años. Su capacidad de organización y confrontación ha sido profundamente relevante en los hechos recientes.
Con esto queremos situar algunos de los puntos de apoyo y tensiones sobre los cuales se mantienen las luchas presentes.

El territorio conocido como Sudamérica tiene una historia muy intensa de revueltas. En la última década ha habido varias… podemos recordar, por ejemplo, la insurrección que tomó las calles de las ciudades brasileñas en junio de 2013 o el llamado estallido social que se hizo evidente en territorio chileno en octubre de 2019. A pesar de sus diferencias entre las fuerzas implicadas y los efectos producidos, en general se trataba de una lucha contra el aumento del coste de la vida, lo que significa directamente una lucha por la vida y contra la miseria producida por el capitalismo y el Estado. Y nos parece que la revuelta que se está ocurriendo actualmente en territorio colombiano tiene algunas características en común. ¿Cómo analizan esta relación?

Creemos que es una lectura precisa de la situación, el relacionar los levantamientos recientes de Abya Yala, contando también los de Ecuador y Bolivia, como parte de un mismo síntoma. Los llamados “tarifazos” y “paquetazos” han sido una constante de los levantamientos populares recientes, y a partir de ese primer rechazo comienzan a manifestarse realidades más profundas y deseos que exceden las primeras formulaciones de ese descontento. Decir “nuestra lucha es por la vida”, por más esencialista que pueda a veces parecernos, no es una consigna desproporcionada cuando nos enfrentamos al empobrecimiento permanente de nuestras vidas en los engranajes del trabajo y el desempleo, de la violencia, el disciplinamiento y el despojo de toda forma viviente. Podríamos reunir bajo el rechazo radical del neoliberalismo a todas estas manifestaciones de descontento popular, aunque aún en buena parte, de manera intuitiva. Y aquí quisiéramos insistir en que buena parte de las formas organizativas inéditas hasta ahora en estos escenarios son libertarias de manera intuitiva, muchas de ellas basadas en el apoyo mutuo y la autogestión de las necesidades sin recurrir a organizaciones políticas tradicionales o a liderazgos. No podemos confiar ciegamente en estas emergencias, porque hemos visto cómo en estos espacios también pueden surgir formas de poder autoritarias, sino queremos señalar en ellas la posibilidad de una articulación y desarrollo de las potencias de la práctica anarquista, incluso siendo su presencia en estos territorios todavía marginal.

En el territorio dominado por el Estado chileno, las fuerzas moderadas intentaran poner fin a la revuelta de 2019 con un proceso constituyente, silenciando el facto de que centenas de compas aún están secuestradxs en las prisiones, con condenas que pueden llegar hasta 15 años, decenas fueran muertas y heridas. El proceso ocurrió y mesmo con una abstención significativa, algunos sectores consideraran una victoria, como se la insurrección tuviese alzado su objetivo. Como ustedes analizan esta tentativa de canalizar la revuelta a las instituciones?

Creemos poder ver una constante en ello, incluso con las diferencias entre los procesos particulares. Sobre el caso chileno, lxs compañerxs anarquistas han denunciado los intereses de los sectores moderados y de la propia derecha en la negociación de la constituyente, saben que sobre la victoria más vale estar en guardia. El intento de capitalizar los levantamientos en la política electoral por parte de sectores moderados o “de centro” es aún resistido con fuerza en los territorios ocupados por el estado colombiano, aunque han comenzado a aparecer consignas lamentables del tipo “la revolución es en las urnas”. Nos preocupa la capacidad de captura que tienen estos sectores, en el sentido en que no sólo silencian de facto las voces y deseos radicales de los levantamientos con su manto de legitimidad democrática, como mencionan lxs compas para el caso chileno, sino que también cierran la posibilidad de debates reales y radicales que han de darse para construir verdaderos escenarios de justicia y libertad. La captura de los movimientos sociales por parte de la institucionalidad es la clausura de nuestros sueños de libertad, representa la vuelta de tuerca para ajustar lo intolerable de este sistema, abre el camino para su Pax social. Hablar de pactos sociales de reconciliación o de “victoria” cuando hay compañerxs desaparecidxs, encarceladxs, muertxs a manos del estado y las oligarquías, es un exceso y continúa con la sistematicidad de la represión. No se trata de que queramos expresar nuestra radicalidad por la vía de la negatividad absoluta sino de que hay aún mucho por hacer.

En estos territorios, incluso si decae la resistencia, será implementada la retaliación a los elementos y sectores disidentes de la sociedad por los medios que ya conocemos. La desaparición forzada, la tortura, el encarcelamiento, el asesinato no son prácticas que el estado fascista colombiano haya tenido pudor en ejercer jamás para mantener su forma; además,en relación con éstas prácticas de retaliación de parte del estado, es conocida la manguala perversa con grupos paramilitares y su accionar de eliminación sistemática y sádica de contradictores y prácticas que se opongan o critiquen cualquier statu quo impuesto por las oligarquías regionales, situación que deja en completa vulnerabilidad a lxs compañerxs que duranten todo este tiempo han resistido. Es necesario que estemos atentxs a lo que puede venir.

Toda nuestra solidaridad para quienes hoy sufren en carne propia la violencia de la represión, no hagamos de ellxs mártires, lxs queremxs vivxs, alegres y resistiendo en las calles y los campos.

La pandemia de Covid-19 ha afectado, sobre todo, a las clases populares tanto por el número de muertes como por el aumento de la miseria y el empeoramiento de las condiciones de vida. Al mismo tiempo, el riesgo de infección ha vaciado las calles en algunas regiones y ha actuado como una barrera para las grandes movilizaciones callejeras. ¿Cómo analiza esta relación, ya que una de las reformas que Duque pretende implementar afectaría directamente al sistema de salud colombiano?

Si bien la pandemia, la posibilidad de la enfermedad en sí, mantuvo a un gran número de personas fuera de las calles durante un tiempo, la propia miseria producida por las medidas insuficientes y violentas del Estado las llevaron a la calle a buscarse la vida, siendo mayor el miedo a morir de hambre que de una enfermedad desconocida. Lo que en un principio fue una barrera determinó también la fuerza del descontento social. Quizás en sectores más acomodados, que también han sido parte del movimiento social, el miedo al contagio ha sido mayor pero ha sido tal la indignación que las calles se han llenado con más fuerza que en el 2019, sin paranoias virales. Hay aún masividad en las movilizaciones y al parecer el contagio en términos reales no ha incrementado por ello.

Y sobre el absurdo y la violencia de la fallida reforma a la salud no podríamos menos que escupir.

Hemos recibido varios videos e imágenes de terrorismo de Estado con asesinatos, torturas y otras formas de agresión por parte de la policía colombiana. Sabemos que no se trata de un hecho aislado, ya que es una acción habitual de todos los Estados, especialmente cuando una movilización ataca el orden y la paz de los ricos. ¿Cómo está estructurada la policía colombiana y cuál ha sido la historia de la represión policial contra las manifestaciones?

En los territorios ocupados por el estado colombiano la policía es una institución militar, el contexto del conflicto interno con más de 60 años de duración, sumado a las estrategias de contraguerrilla orientadas por EEUU y la Guerra contra las drogas, han hecho de la institución parte del mismo aparato. La policía no responde en última instancia a la autoridad civil del Estado en el Ministerio del Interior, como harían otras policías, sino al Ministerio de Defensa (de Guerra). Parte de las demandas de quienes pretenden una reforma se centran en este hecho estructural, en la desmilitarización de la policía. La doctrina del enemigo interno rige sobre todo su accionar.

La mediatización de los asesinatos, torturas y demás incontables abusos por parte de las fuerzas represivas del Estado colombiano ha permitido no investigaciones legales a los responsables (inútiles por demás bajo la captura institucional del fascismo) sino la toma de conciencia masiva del accionar criminal de la policía, de manera incontestable. Las estrategias de manipulación de los medios de comunicación hegemónicos han sido profundamente afectadas al interior de estos territorios por los testimonios directos de las personas involucradas en estos hechos, incluso bajo la censura y el cerco mediático que nos han sido impuestos. Buena parte de los hechos registrados tienen como responsable al Escuadrón Móvil Anti Disturbios (Esmad), creado en el 99 como unidad de policía destinada al control de las manifestaciones con el uso de armas “menos letales” y obedeciendo los estándares internacionales de represión en democracia. En sus primeros 20 años de acción cometió 59 asesinatos confirmados (por la misma justicia estatal, hecho no menor) en el contexto de la protesta social, además de mutilar, violar y herir a una cantidad incalculable de personas. Muchos otros de los registros de brutalidad policial en el marco actual se centran en zonas cercanas y al interior de los Centros de Atención Inmediata (CAI) apostados como estaciones de patrullaje y vigilancia al interior de los barrios en las ciudades, y que han operado como centros de tortura, violación, capturas ilegales y asesinato.

¿Hay algún debate sobre la autodefensa en las calles? ¿Hay algún debate por parte de los movimientos y colectivos sobre la abolición de la policía, por ejemplo?

El rechazo a la policía se ha desplazado progresivamente de los “individuos aislados y corruptos” a la propia institución. Es claro que los sectores moderados demandan del Estado, no la abolición de la policía, sino una reforma, porque ven en ella una institución con funciones sociales que nosotrxs no podemos reconocer jamás. Las personas y colectividades más o menos críticas que reciben alguna atención por parte de los medios hegemónicos se expresan en este sentido, al igual que lxs políticxs que se refieren a la necesidad de la transformación de la policía y piden la defensa y limpieza de la propia institución. Sólo al interior de las colectividades antiautoritarias se está dando el debate en torno a la abolición de la policía. Incluso en las demandas de varias de las Primeras Líneas se está pidiendo apenas una reforma.

Sobre la autodefensa, el debate es complejo, por una parte desde el mismo hecho de nombrar la práctica, en un contexto en donde los paramilitares y su proyecto fascistizante vaciaron de potencia radical a la palabra misma(nombrándose Autodefensas Unidas de Colombia). Creemos que es un debate necesario, cuando crece la violencia represiva de manera sistemática, hacernos la pregunta sobre la necesidad y las formas de protegernos de maneras no sólo defensivas. Las Primeras Líneas son una muestra del debate en escenarios amplios, en el 2019 el ejercicio comenzó desde sectores estudiantiles no habituados al uso de la violencia, sin conocimientos prácticos para ejercerla o defenderse realmente de ella, más allá de algunos cascos y escudos y organizadxs bajo un discurso de defensa, y muchas veces, debemos recordarlo, en oposición a las prácticas e identidades de grupos que reivindican la acción directa y la violencia desde distintos lugares de la radicalidad desde hace ya tiempo. En estos dos años, las prácticas de las Primeras Líneas se han transformado, se ha comprendido, a las malas, la necesidad de la capacidad de respuesta a la represión estatal. Aunque el debate va más allá de los escenarios de defensa de las movilizaciones, creemos que en la mayoría de escenarios no está presente aún fuera de estas perspectivas.

Por último, nos interesan mucho las diferentes expresiones del anarquismo en la región conocida como Sudamérica. Así que nos gustaría que hablaras un poco sobre las fuerzas involucradas en las luchas anárquicas en la región colombiana.

En estas tierras no ha existido históricamente un movimiento de masas anarquista, como en Brasil, Bolivia, Chile o Argentina, pero ha estado presente a lo largo de todos los levantamientos y protestas desde principios del siglo XX. El anarquismo ha estado presente de forma marginal en las luchas obreras, en individualidades que entraron o salieron de los procesos guerrilleros, en el trabajo de artistas, periodistas, algunas editoriales, organizaciones educativas, grupos de combate callejero y acción directa y demás manifestaciones del deseo por otros mundos. Asistimos en estos estallidos también a la proliferación de ideas y pulsiones anarquistas, los escenarios de agitación y difusión del pensamiento ácrata han sido menos relevantes que las acciones que los grupos han impulsado acompañando estos procesos de luchas sociales, ha sido a través de las prácticas que proliferan las ideas y se hacen fuertes. El acompañamiento y promoción de asambleas locales y populares, las campañas de solidaridad con lxs compañerxs en lucha a través de la recolección de fondos, alimentos e insumos de primeros auxilios, el trabajo pedagógico y organizativo de los colectivos de Educación Popular y la belleza de las ollas populares, que nos reúnen en torno al alimento para seguir resistiendo, son algunas de estas prácticas que hacen visibles las fuerzas vivas del anarquismo en escenarios como el actual.

Pese a que el anarquismo sigue siendo una idea marginal en la práctica política, son muchas las individualidades y colectivos volcados a la acción desde prácticas antiautoritarias, solidarias y autogestivas.

Por ello agradecemos la solidaridad que representa esta entrevista, la escucha y difusión en otras regiones golpeadas como nosotrxs por esta miseria y de pie, como nosotrxs, contra ella. Esperamos que lo que tengamos que decir de aquí en adelante nos distancie cada vez más de la denuncia y podamos hablar con más fuerza de lo que hemos logrado, de lo que haremos nuestro con nuestras propias fuerzas.

¡Que viva la anarquía!

“Guantánamo Calabro”: Carta de Cesare Battisti

Guantánamo Calabro

Em 16 de maio de 2021, Cesare Battisti, o ex-militante comunista italiano que se exilou no Brasil e foi extraditado ao início de 2019 da Bolívia para a Itália, escreveu do presídio de Rossano Calabro uma carta ao jornal online italiano Carmilla onde conta pela primeira vez os detalhes da extradição ilegal da qual foi vítima e o papel cumprido pelos governos italiano, brasileiro e boliviano nessa ocasião. Ele traz a discussão também por sua escolha, que gerou muitas polêmicas sobretudo na esquerda brasileira, ao se declarar culpado. Uma escolha que levou o ex-presidente Lula a se arrepender de ter-lhe dado asilo (escrevemos sobre isso no artigo “Lula só Fez Autocrítica Onde Estava Certo: Comentários à Declaração Sobre Cesare Battisti“).

Nessa carta Battisti lembra que a base legal do seu asilo não foi a inocência ou estraneidade dos fatos violentos dos quais o então grupo político dele, os Proletari Armati per il Comunismo (PAC) foi autor, mas pela natureza política desses delitos e pela persecução política da qual foi vítima na Itália. A carta oferece também a Battisti a possibilidade de refletir, criticamente e autocriticamente, sobre a dramática fase dos chamados “anos de chumbo” na Itália, a que ele define como “a degeneração de um 68 reprimido em sangue, que durou 15 anos”. Uma época da história que o governo italiano, por meio do tratamento ilegal e lesivo dos mais básicos direitos humanos ao qual somente o próprio Battisti, parece não saber ou querer ainda superar.

Iniciei, a partir de 2 de junho, uma greve de fome e médica” escreveu Cesare Battisti em um texto enviado através de sua filha ainda a ser traduzido.


 

Cesare Battisti escoltado por forças policiais ao desembarcar no aeroporto italiano

Para começar, gostaria de avisar que os próximos pontos dizem respeito a algumas passagens importantes em minha história pessoal, podem não ser exaustivos, nem afirmam sê-lo. É apenas questão de responder, embora de forma fragmentada, às perguntas mais frequentes que me foram feitas até agora por aqueles que, apesar da intoxicação da mídia, não desistiram de querer entender o meu caso. Mesmo que estes dados possam ser apenas parciais, a intenção é a de fornecer informações básicas que possam ajudar aos interessados a tirar suas próprias conclusões. Perdoe-me então, pela descontinuidade de uma edição sem pretensões de ser publicamente coerente. E em qualquer caso, dadas as circunstâncias, um discurso linear e profundo não seria possível para mim. Por esta razão, peço aos interessados para consultar meus escritos en Carmilla ou no meu último manuscrito que está sendo analisado atualmente por “Le Seuil” França.

É natural, mas também óbvio, começar da minha prisão na Itália. Durante meus 20 meses de isolamento prisional em Oristano, dos quais apenas 6 foram em um estado de semi-legalidade, alimentei a esperança de que mais cedo ou mais tarde a Instituição entenderia que não se pode punir ou vingar aplicando a um veterano dos anos 70 o status de prisioneiro de guerra de fato. Isso é o que sugere a privação de direitos estabelecida pelas leis nacionais e pelas regras do direito internacional. Em resposta a pedidos formais por motivos de tratamento desumano, citando medidas de segurança sem precedentes, que, além disso, têm sido aplicadas retroativamente há 41 anos, o Estado responde literalmente: “a documentação solicitada foi retida do seu direito de acesso”. Mas, então, nos perguntamos, qual é a possível defesa? Esta é a razão pela qual entrei em greve de fome em Oristano.

Em resposta, o Estado raivoso me transferiu para a pior prisão da Itália, me colocando à força na secção ISIS-AS2. Isso, apesar das ameaças recebidas no passado e no presente, proferidas pelas diferentes frentes jihadistas contra mim. Mas se Cesare Battisti foi designado pela Autoridade Judicial para a segurança média, não tendo o “impeditimento”1, o que ele está fazendo no AS2? Minha presença na secção ISIS implica em grandes dificuldades e pequenas margens de sobrevivência: sem nunca sair da cela para a banho de sol; limitando também a comida, já que são do ISIS os trabalhadores que a distribuem; objeto de ameaças através do portão da grade; privado de computador onde eu posso exercer a minha profissão; vigiado na frente e objeto de CED (medida disciplinar) a cada pequena reclamação; sujeito à censura, alegando suposta “atividade subversiva” (sic) e assim por diante, até ser impedido também no direito de defesa, estabelecido pelo artigo 24 da Constituição. Eu poderia encontrar meus familiares italianos, uma hora por semana quatro vezes por mês, mas, dada a distância do meu local de residência e a idade avançada dos meus irmãos, que varia de 70 a 80 anos, isso raramente acontece. Minha família que vive na França e no Brasil só posso contactá-la com chamadas de vídeo no meu celular uma vez por semana, mas então tenho que desistir das visitas presenciais. Desta forma, passo meses sem contato com meus filhos, para os quais tenho que pedir notícias por carta, quase sempre retidas pela censura porque estão escritas em uma língua estrangeira. Disseram-me até mesmo que meus filhos deveriam aprender a escrever em italiano para receber notícias de seu pai. Isso porque o censor tem dificuldade com o francês ou o português, que são as línguas maternas dos meus filhos. Esse é um tratamento desumano não só para qualquer prisioneiro, mas especialmente para alguém cujo último crime data de 41 anos atrás. E como se isso não fosse suficiente, o governo se compromete a manter um nível absurdo de periculosidade alimentando um processo de criminalização constante a ponto de poder justificar a apreensão do meu computador, onde eu estava completando um romance sobre o conflito em Rojava e o drama dos imigrantes. Apenas para se manter em sintonia com o ditame de reintegração na vida civil.

Vamos dar um passo atrás e chegar à minha fuga do Brasil. As autoridades italianas nunca aceitaram meu refúgio no Brasil. O Estado trabalhou com todas as suas forças, mas também com meios ilícitos como a corrupção e a oferta de privilégios políticos e econômicos, para obter a minha entrega fraudulenta a todo custo! O Brasil abriga uma gigantesca comunidade de origem italiana, equivalente a 35 milhões de cidadãos. Um país dentro do país! Esta importante parcela da sociedade brasileira, além de controlar alguns setores da economia, tem uma forte influência no aparato militar do brasileiro. Há numerosas figuras na ditadura de origem italiana, como o próprio Bolsonaro. Mas pouco importa se o ex-capitão Bolsonaro, que foi expulso do exército, se ele e seus acólitos são súditos inescrupulosos, se não claramente criminosos à frente de milícias sangrentas. A Itália, através da Embaixada, sempre manteve relações privilegiadas com os lobbies militares próximos a Bolsonaro. A ponto de empurrar as empresas ítalo-brasileiras a entrar ativamente na campanha presidencial de Bolsonaro. Em troca de tal amizade, Bolsonaro promete minha extradição. Embora a Constituição o impeça de fazê-lo – você não pode revogar um decreto após 5 anos de sua emissão – Bolsonaro mantém sua promessa. Ao comprar e vender influência na Suprema Corte Federal, é desavergonhadamente ignorada a Constituição e o estatuto de prescrição dos crimes atribuídos a mim, e em dezembro de 2018 é decretada a ordem de extradição.


O governo de esquerda cessante me garantiu contato direto com o presidente da Bolívia, Evo Morales, que pessoalmente permitiu que o fundador do MST, Juan Pedro Stedile, me recebesse na Bolívia com a concessão de refúgio político. Em uma operação combinada entre o PT (Partido dos Trabalhadores) brasileiro e o Mas (Movimento ao Socialismo) boliviano, fui transferido para Santa Cruz de la Sierra. Aqui fui entregue a um emissário do governo empregado direto do Chanceler. Enquanto esperava a papelada para refúgio, fui alojado em um Centro de Monitoramento: instalações pertencentes ao Ministério do Interior, que serviram de base para espionagem da oposição à Evo Morales! Uma dúzia de operadores de informática trabalharam lá, com os quais tive relações cordiais. De vez em quando chegava um alto funcionário do Estado, então eu tinha que ficar trancado no meu quarto no final do pátio. Tive imediatamente a impressão de que estava sendo observado a cada passo, não apenas por forças supostamente amigáveis. Quando a vigilância se tornou mais rigorosa, apontei para o Chefe de Governo que dirigia o centro, mas ele respondeu de forma evasiva. Quando eu tinha já a certeza de que tinha algo errado, fui pego a alguns passos do centro, enquanto ia às compras. De repente, todos aqueles a quem eu havia sido apresentado para a regularização do asilo tinham desaparecido.

Mesmo assim, eu não perdi as esperanças. Claramente pensei na traição de Evo Morales, mas ainda assim contava com as leis bolivianas que excluem a extradição por delitos políticos e, especialmente no meu caso, por estar prescrito de acordo com as leis bolivianas. Então, eu disse a mim mesmo, o pior que pode acontecer será cumprir algum tempo de prisão durante o processo de extradição. Em vez disso, eu deveria ter suspeitado que o que a Itália queria evitar era exatamente um julgamento regular. Os próprios policiais bolivianos da Interpol, alguns dos quais eu tinha encontrado no Centro de Monitoramento, pareciam bastante envergonhados com o que estava prestes a acontecer. Eles não tiveram dificuldade em me informar que ali tinha um monte italianos, brasileiros e agentes de outro país, que eles não queriam especificar. Eles me disseram claramente que minha pele estava sendo negociada e chamavam seus governantes de malandros. Entendi o que estavam falando na manhã seguinte. Quando uma equipe trajada de negro e com capuzes entrou e me levou para o aeroporto internacional de Santa Cruz de la Sierra.

Colocado e guardado em uma sala cujas janelas se viam da pista, eu estava observando as questões burocráticas entre um núcleo da Polícia Federal brasileira e alguns oficiais da Força Aérea Boliviana. A menos de 100 metros da pista, os motores do turbo propulsor da PF Brasil estavam aquecendo. Um pouco mais tarde eu estava acompanhando o Delegado (Comissário) e sua equipe a bordo do avião brasileiro. Em algum momento, houve um tumulto. Eles me tiraram de lá e voltamos para a mesma sala. Aqui fui entregue à polícia boliviana, enquanto os agentes brasileiros saíam sem mim. Por um momento tinha a esperança que Evo Morales tivesse dado uma contra-ordem. Uma esperança fugaz, até a chegada de um grande grupo de pessoas com cores italianas no pescoço, que me levou ao avião oficial que nos esperava muito longe na pista de pouso. Eu até tentei resistir: “É um seqüestro”, gritei. A resposta foi desarmante: “e daí? Mas desta vez funcionou”. Na Bolívia, como no Brasil, as pessoas gritaram sobre o escândalo e o vergonhoso seqüestro permitido por Evo Morales. Houveram protestos e até mesmo manifestações. Obviamente, não houve nenhuma menção a isso na Itália. Ninguém esperava que Evo Morales, já desacreditado pela base de seu partido, fosse tão longe. Mas o mais surpreendente para a covardia foi a Vice-Presidente Linera, com seu passado, que desapareceu na última hora para evitar dar explicações aos amigos comuns.

Algumas pessoas se perguntaram com razão se esses procedimentos, que não são nada menos do que fraudulentos, não podem ser denunciadas às autoridades internacionais. A esse respeito, gostaria de informar que existem atualmente três procedimentos planejados contra os delitos acima mencionados, cometidos pelo Brasil, Bolívia e Itália. Respectivamente, o primeiro é um apelo à OEA e à ONU por um ato inconstitucional na anulação de um decreto presidencial de mais de 5 anos e a separação forçada da unidade familiar – o filho menor e a esposa que permanecem no Brasil -, o segundo é um apelo à ONU contra a Bolívia por sequestro e expulsão ilegal; o terceiro é um apelo à ONU contra a Itália por receptação ilícita; um apelo ao Tribunal Europeu por tratamento desumano na prisão. Mas um procedimento de petições internacionais leva muito tempo e é urgente para mim sair do inferno de Guantanamo Calabro: eu não tenho um impedimento, o que estou fazendo no AS2?

Me dizeram que lendo “Indio”, meu último romance publicado na França, pode-se ver nas entrelinhas a intenção de lidar com o sistema de justiça italiano. Terminei o último rascunho do “Indio” quando ninguém acreditava seriamente que uma pessoa como Bolsonaro pudesse se tornar presidente. Isso quer dizer que algumas de minhas reflexões sobre o futuro incerto do eterno refugiado e perseguido são insuspeitas. A desinformação que nos últimos 15 anos me fez o monstro a ser abatido, impossibilitou qualquer tentativa de lançar luz sobre meu caminho político-militante primeiro, refugiado depois. Tiveram o cuidado de não divulgar minhas tentativas de reconciliação e pacificação com uma suposta nova realidade social na Itália. Eu acreditava que a democracia italiana tivesse amadurecido, que fosse capaz de encarar sua própria história com dignidade e consciência. Estou obviamente me referindo aos “anos de chumbo”, um capítulo dramático de nossa História relegado a uma zona de sombra e tabu, onde a revisão histórica é dominante.

Só para mencionar algumas tentativas de aproximação, a mais séria e formal foi enquanto eu estava na prisão em Brasília, durante o longo processo de extradição. Após algumas reuniões com o pessoal da Embaixada da Itália, onde fiz uma proposta de diálogo para o governo italiano. Foi num momento em que eu já estava certo de não ser extraditado. Propus-lhes que eu aceitaria voluntariamente a extradição se o Governo estivesse disposto a abrir um debate, com pessoal qualificado, para finalmente fazer uma avaliação histórica do período da luta armada, “a degeneração de um 68 reprimido em sangue, que durou 15 anos”. O pessoal da embaixada, ou seja, os espiões, prometeram informar, mas nunca mais apareceram. Enquanto isso, eu também tinha iniciado uma correspondência com Alberto Torreggiani – sabemos que ele foi ferido por seu próprio pai durante o ataque dos PAC (Proletários Armados para o Comunismo, NdT), no qual eu não participei. A correspondência com Alberto Torreggiani, que hoje ele nega por ordem do Estado, ou simplesmente influenciado por reacionários justicialistas, era parte de uma intenção mais articulada de aproximação com as famílias das vítimas dos PAC. Isso no quadro da criação de um clima favorável para retornar, sem ódio, às responsabilidades de todos os componentes do conflito e, quem sabe, finalmente virar aquela página maldita dos “anos de chumbo”. Infelizmente, esta tentativa também colidiu com a intolerância feroz de certos setores políticos e didáticos sempre prontos a alimentar o ódio por interesses partidários obscuros. Não se pode não assistir com desconfiança as pontuais declarações públicas dos parentes das vítimas (obviamente sempre falamos apenas de um lado da barricada) alguns dos quais provavelmente nem tinham nascido na época: 41 anos atrás! E porquê sempre culpar o Battisti, como se tivesse sido ele quem inventou a luta armada? Enquanto os fascistas sob as ordens de alguma instituição estão se divertindo e ninguém grita na rua? Ou será justamente para proteger os assassinos em massa que temos que queimar uma testemunha, para que a desinformação sobre esses anos seja totalmente efetiva.

A praga do Estado nos faz lembrar que devemos ficar calados. A pergunta que deveria ser feita por aquelas pessoas inconscientes que, com raiva nos olhos, exigem a execução para Cesare Battisti, deveria ser mais ou menos esta: “Por que até 2003 ninguém se importava com ele?” Quando Cesare Battisti ainda era apenas mais um entre as dezenas de refugiados italianos ao redor do mundo? Numa época em que ele publicava livros e artigos também na Itália e recebia visitas de personalidades italianas ligadas ao mundo político, cultural e até institucional? O que aconteceu em determinado momento, de modo que de repente ele se tornou o “monstro”, a ponto de alimentar o ódio dos parentes das vítimas – que estava até então adormecido? – e da mídia malandra? É absurdo que nenhum desses justicialistas pense em se perguntar. No entanto, a resposta é simples: Battisti escreve, fala na televisão, dá entrevistas e debates na arena internacional, investiga o passado, é autocrítico, mas ao mesmo tempo denuncia uma guerra civil que o Estado desencadeou e combateu com bombas nas praças e uma repressão sem precedentes. E tem permanecido reticente com a História.

A luta armada na Itália não nasceu em alguma mente pervertida e não foi praticada por quatro desesperados. Ela surgiu de um grande movimento cultural e político que não podia suportar a opressão de um Estado corrupto e assassino. Um milhão de pessoas nas ruas e todos os cúmplices revolucionários. 6.000 pessoas condenadas; cerca de 60.000 denunciadas; mais de 100 grupos armados organizados; centenas os mortos, a maioria deles nas fileiras revolucionárias. Esse é o contexto social no qual os PAC nasceram. Não foi um partido armado, mas a expressão horizontal combatente da ampla frente de protesto, nas fábricas, no território e na educação nacional. Que seu ideal era comunista é claro pelo próprio nome (Proletários Armados pelo Comunismo), mas eles não tinham a intenção de invadir o Palácio de Inverno, nem de tomar o poder do Estado. Eram núcleos difusos e independentes que respondiam à sua maneira à injustiça desenfreada, à extrema direita que se armava em defesa dos privilégios do capital. Fortificados pela ideia de que o verdadeiro comunismo não poderia ser o expresso pela União Soviética, ao contrário, mas simplesmente aquele de uma sociedade futura inevitável, livre e igualitária, imaginada com extrema clareza no “Manifesto” de Marx e Engels. Apenas isso, sem mais sem menos. Que o momento histórico e o uso de armas tivesse sido correto ou não, os fatos e todos os militantes conscienciosos o disseram. Entre os quais eu me coloco em termos inequívocos. Pode-se admitir o erro, sem cair na indecência daqueles que se iludem de que podem compensar por tudo declarando seu arrependimento. Nunca uma palavra foi tão denegrida. Tenho demasiado respeito pela história e pelas vítimas que ela fez para pensar em me esconder atrás de uma camada de hipocrisia.

Pensava-se que a Itália tivesse superado certas fraquezas e estivesse pronta para enfrentar sua própria História. Em vez disso, 40 anos depois, através de suas mais altas representações, ainda oferece aos cidadãos o mesmo show ignóbil, com a presa arrastada entre a multidão enfurecida; os insultos dos caçadores que evocam a presa; os selfie dos ministros; a folia da televisão; Battisti na arena; desfrute agora Povo! Aqui estão as torturas sofridas, depois de um sequestro triunfantemente reivindicado. A tal ponto que até o Tribunal de Cassação julgou mais ou menos nesses termos: “se a Bolívia cometeu um ilícito, não nos importa, eles nos deram Battisti e nós o levamos”. Nós o levaremos! Mas então vocês são uns traficantes! Mas não basta apreendê-lo e trazê-lo de volta para a prisão. Ele também deve ser tratado como um prisioneiro de guerra sem a proteção do estatuto. Não podemos legalmente dar-lhe 41 bis e impedimento? Não importa, nós os damos a ele de fato, mantendo-o isolado e impedindo-o de receber o tratamento que lhe permitiria ter acesso aos benefícios reservados a todos os presos. E se ele reclamar, nós o linchamos utilizando a mídia; nós o colocamos contra a vingança popular; aplicamos censura; lhe tiramos o seu computador para trabalhar; o colocamos na secção do ISIS onde ele será forçado a permanecer em isolamento voluntário. Aí está a tortura!

Chegamos agora à minha escolha pessoal de julgamento. Estava dizendo que há vários anos eu vinha cogitando uma solução decente para pôr fim a esta perseguição, onde as forças políticas italianas não poupavam meios coercitivos ou pressões. A propósito, devo salientar que minhas declarações de inocência – nunca dirigidas às autoridades, somente à mídia – apenas apareceram depois de 2004 na França, e isso para forçar o Estado italiano a admitir o uso desviante da Justiça nos julgamentos da luta armada. Antes disso, e depois, eu nunca havia negado minha filiação ao PAC, assumindo as responsabilidades políticas. A responsabilidade criminal deveria ter sido provada primeiro no tribunal, antes de emitir sentenças de prisão perpétua e esperar por confissões tardias. Portanto, deve ficar claro que os países que aceitaram meu pedido de refúgio nunca o fizeram, e não poderiam tê-lo feito, com base a uma suposta declaração de inocência – como falsamente declarado pelo oportunista Lula – mas exclusivamente por causa da natureza política do crime.

Pensei seriamente em uma solução coletiva dos nossos anos 70. O clima político na Itália não era o ideal, mas eu sabia da existência de personalidades e tendências dentro do mundo judiciário que, tendo lutado na linha de frente na guerra contra o “terrorismo” – como dizem hoje em dia – conheciam bem o assunto e não tinham interesse em recorrer à propaganda obscurantista para entender a realidade dos fatos. Certas pistas me disseram que estas pessoas, ou correntes de pensamento, ainda esperavam que um dia pudéssemos virar estas tristes páginas da história com dignidade e respeito pela memória nacional. Posso citar a este respeito o pensamento do magistrado emérito Giuliano Turone, juiz examinador do julgamento sobre os PAC, que em seu livro “O caso Battisti” afirma mais ou menos nestes termos: “Paradoxalmente, aceitando suas responsabilidades políticas e penais, poderia ser apenas Cesare Battisti a tornar possível finalmente rever e encerrar este capítulo da história”. As palavras podem não ser as mesmas, mas o sentido é este. Movido por este sentimento, alimentado pela esperança de que 40 anos eram já muito tempo e que a democracia italiana tinha que ter amadurecido e que o Estado também era um administrador forte e responsável, decidi confiar na justiça e chamei o promotor de Milão. Aquela minha deposição em 23 de março de 2019 foi uma escolha dolorosa. Estava longe da Itália desde 1981, e meus contatos com o belpaese eram reduzidos a poucos membros da família e ao editor. Não podia imaginar que, além da histeria da mídia, eu ainda pudesse despertar a vingança do Estado. Com a enorme dificuldade de ter que voltar a um julgamento que havia sido arquivado por décadas, sem nenhum fato novo para contribuir, exceto pelas ressalvas agora impossíveis sobre minhas próprias responsabilidades. Não me restava nada para fazer a não ser tomar o pacote completo, porém, criminalmente, não teria peso. Diante da escolha de enfrentar um julgamento histórico, e eu não fui o único a acreditar nisso, que sentido teria em mergulhar no código penal 40 anos depois?

Fui condenado a duas penas perpétuas e seis meses de prisão solitária por ter sido considerado culpado de praticamente todos os crimes cometidos pelo PAC, incluindo quatro atentados mortais. Onde a minha presença física no local do crime não podia ser provada, fui considerado o instigador. Devo talvez ressaltar que em tal conflito, os instigadores não existem e, se existissem, teríamos que procurá-los entre o povo? Em qualquer caso, certamente não poderia ter sido eu.

Eu admiti tudo. Reiterei minha autocrítica pela escolha de ter participado da luta armada, porque foi política e humanamente desastrosa. Mas eu não o tinha dito mil vezes ao longo de todos estes anos? Não tinha nada a arrepender-me porque, errado ou não, não se pode mudar com uma visão a posteriori o significado de eventos historicamente definidos por um contexto social específico. Seria absurdo dizer que não poderia ter sido evitado, mas sei que o movimento revolucionário não se esquivou de assumir suas responsabilidades. Não podemos dizer o mesmo por parte do Estado. Também não tinha nada a pedir em troca de minha confissão. Não teria sido legalmente exigido e bastava para mim que tivesse sido aplicada a lei, como para qualquer outro condenado sem o terrível “impedimento”, para ter acesso a algum benefício futuro reservado a todos.

Em resumo, é como dizer, tudo bem, vocês ganharam e eu estou aqui para testemunhar os cantos de vitória imerecida. Mas, uma vez terminada a festa, caro Estado democrático, vamos todos nos comprometer a reabilitar a história violada, enquanto eu cumpro minha sentença, de acordo com os termos das leis nacionais e das regras internacionais da humanidade como qualquer outro condenado? Pura ilusão. Depois de ter ostentado para o mundo inteiro o fruto de uma caçada suja, cantado uma vitória obtida por engano sobre o sangue das vítimas e a honra barrada da História, o Estado dos remendos não se contradiz e mostra sua verdadeira face. Ela se entrega aos bócios da forca, cavalga a onda populista, sacrifica até mesmo a palavra das autoridades que a serviram, mesmo quando não a mereciam.

Este é o sentimento que me acompanhou de Oristano a Guantanamo Calabro, à mercê do ISIS e submetido a um tratamento digno de uma ditadura militar. Mas não perdi a esperança e estou certo de que a justiça e a verdade prevalecerão.

1 No texto original é ergastolo ostativo, que poderia ser traduzido com “prisão perpétua hostil”. É a exceção à regra na medida em que não permite qualquer tipo de benefício ou recompensa para a pessoa condenada. A prisão perpétua hostil é infligida a indivíduos altamente perigosos que cometeram certos crimes (por exemplo, seqüestro com o propósito de extorsão ou associação mafiosa) e é o que é conhecido como o “fim da sentença nunca”.