Category Archives: General

Comunicação: Infraestrutura para ações

Infraestrutura solidária para ações solidárias

Na atual situação de crise pandêmica global, recebemos solicitações de diversos lugares e contextos sobre como é possível se apoiar digitalmente e continuar seu trabalho político. Nos perguntam, por exemplo, como uma reunião, assembleia ou plenária pode ser implementada digitalmente se as pessoas não quiserem / não puderem se reunir em uma sala.
Como um coletivo de tecnologia de esquerda, queremos te ajudar a usar as ferramentas certas, mantendo mínimo padrões de privacidade e segurança. Abaixo estão algumas recomendações específicas para ferramentas que consideramos úteis para processos de trabalhos colaborativos digitais.

Comunicação em tempo real
Chamadas em grupo e videoconferências
As principais ferramentas para reuniões virtuais. Sua comunicação será criptografada e ninguém poderá ouvir, exceto os participantes.
Dicas básicas:
  • Todos os membros devem usar fone de ouvido (para evitar problemas de eco e feedback).
  • Silencie o microfone se você não estiver falando. Há uma opção de “mudo” na ferramenta de conferência.
  • Antes da conferência, 2-3 pessoas devem experimentar a plataforma e se familiarizar.
Plataformas recomendadas:
  • O Jitsi é uma plataforma gratuita para videoconferência e que pode ser usada diretamente no seu navegador. Funciona bem com até 10 a 15 participantes. Recomendamos duas instâncias de coletivos de tecnologia de esquerda.
      ⌲ Jitsi do Autistici / Inventati: https://vc.autistici.org/
      ⌲ Jitsi do Mayfirst: https://meet.mayfirst.org/ 
  • O Mumble permite chamadas em grupo maiores (sem vídeo), mesmo com mais de 100 participantes. Muito recentemente, foi criado um cliente de web para você. Uma melhor qualidade sonora pode ser alcançada com os clientes nativos para todos os principais sistemas operacionais. Toda a informação sobre o serviço Mumble aqui.
  • O Nextcloud Talk permite bate-papo por vídeo e compartilhamento de tela para no máximo 4 participantes. Você precisa de uma conta, mas também pode convidar outras pessoas com um link compartilhado. Toda a informação sobre o nosso serviço Cloud.
       ⌲ Nosso modelo: https://cloud.systemli.org
Mensagens instantâneas e grupos de bate-papo
Messengers para comunicação e coordenação rápidas são sempre importantes de qualquer maneira, mas atualmente são indispensáveis.
  • Signal é o melhor messenger de smartphone para comunicação 1:1 e grupos menores, não-públicos (até 50 participantes). Sempre que possível, use o Signal!
  • Riot.im usa o protocolo federado Matrix e permite grupos (chamados de salas) sem limite de participantes onde a criptografia tem que ser ativada nas preferências. Essas salas podem ser abertas (qualquer pessoa pode entrar) ou fechadas (somente com convite). Sua identidade não precisa estar vinculada ao seu número de telefone ou e-mail, o que é uma grande vantagem em questões de privacidade. Permite troca de arquivos, chamadas de voz e vídeo.
  • Telegam, normalmente, não recomendamos Telegram mas, para grupos grandes e públicos, infelizmente não há outra alternativa recomendável no momento. Muitas iniciativas solidárias de vizinhança estão sendo organizadas atualmente por meio de grupos de Telegram (por exemplo, Kiezkommune ou Corono-Soli-FFM). Nossa recomendação pragmática: use-o somente para esses grupos abertos, esteja ciente de que a comunicação não está protegida e, se possível, use o Telegram client da F-Droid. Pelo menos nele não há rastreadores embutidos para analisar seu comportamento comunicativo.
  • Jabber nosso panela velha que faz comida boa. O Jabber permite discussões 1 por 1 e também em grupos maiores. Você pode se comunicar em diferentes instâncias (isto é, simultaneamente no celular ou no computador com a mesma conta). Há um servidor com registro público e serviço web. Existem programas para todos os sistemas operacionais. Veja toda a informação sobre o serviço Jabber aqui.
    ⌲ Nosso servidor Jabber: https://jabber.systemli.org
Comunicação externa
  • Tickers são adequados para divulgar notícias. Com o nosso ticker, você pode mostrar seu entorno (o bairro, por exemplo) para mantê-lo informado sobre os desenvolvimentos atuais. Uma instância de ticker deve ser solicitada por e-mail. Temos o prazer de disponibilizá-lo em diferentes domínios. Todas as informações sobre o nosso serviço de ticker.
  • Mastodon é uma alternativa gratuita ao Twitter. Podemos recomendar as seguintes instâncias:
     ⌲ A instância dos camaradas holandeses do Wehost: https://social.weho.st/
     ⌲ Do ambiente do Chaos Computer Club (apenas por convite): https://chaos.social/
      
Discussões e armazenamento de conhecimento
  •  Etherpad é muito adequado para coletar conhecimentos ad-hoc e compartilhá-los para criar textos. Não requer registro, portanto não está protegido contra vandalismos. No entanto, os links podem ser criados sem permissão de escrita. Durante grandes assembléias, uma combinação de Etherpad e Mumble era suficiente. Tudo sobre o nosso serviço de pad.
      ⌲ Nossa instância: https://pad.systemli.org/
      ⌲ Riseup.net: https://pad.riseup.net/
  • Wikis são perfeitos para coleta e gerenciamento de conhecimento. Se você deseja criar uma base de conhecimento (interna ou pública), podemos fornecer a você um Wiki com o software Dokuwiki e disponibilizá-lo.
Esperamos ajudar você com as recomendações e com a infraestrutura para seu trabalho político. Também nas discussões, planejamentos de ações, coordenação da assistência da vizinhança e todos os outros modos de solidariedade.
PS: Como nossos amigos, administramos muitos outros serviços, que disponibilizamos com prazer para todas as iniciativas emancipatórias e solidárias.

Nota: Esse artigo será atualizado sempre que necessário. Última atualização: 18 de março de 2020.


Mais informações:

A REVOLTA – essa ingovernável que perturba o sono dos governantes

Não começou em junho, não vai terminar em 2022!

As manifestações de junho de 2013 não foram um acontecimento monolítico. Sua beleza e complexidade estão justamente nesse truísmo. Teve junho antes de junho, teve junho depois de junho. Teve o junho de São Paulo, que foi diferente do que aconteceu no Rio de Janeiro que, por sua vez, teve desdobramentos diferentes do junho gaúcho e mineiro, assim como foram diferentes as manifestações no Espírito Santo, no Pará, no Ceará ou em Goiás e assim por diante. Os explicadores de junho de 2013 de todas as “vertentes” são os que se arvoram a ser coveiros da revolta que segue em curso. O fogo por vezes arrefece,  mas sua brasa segue sob as cinzas e qualquer vento pode reanimar a chama. Junho está sendo. Isso é lembrado a cada momento na política brasileira. Por isso, os melhores textos sobre junho de 2013 são análises de seus efeitos tratando-o como acontecimento e relatos da ordem do testemunho.

Tanto o que se convencionou chamar de direita, quanto o que se chama de esquerda odeiam junho de 2013. Mas a esquerda que governava à época odeia mais e por motivo bem simples: junho desvalorizou seu principal capital político parcimoniosamente acumulado desde a chamada abertura política. Capital este habilidosamente negociado com os dirigentes das elites nacionais e estrangeiras: o controle das ruas. A esquerda partidária e governista jamais perdoará as revoltas de junho por terem implodido seu bezerro de ouro.

Por isso, não surpreende que 2020 já começou com o “terraplanismo político” da blogsfera petista. Esta decidiu difamar publicamente uma militante que foi presa e perseguida insinuando que ela teria envolvimento com o fascismo e com o atentado ao prédio da produtora de vídeos de comédia Porta dos Fundos. Sites como DCM, Revista Fórum e os ventríloquos petistas na internet atacam de forma canalha e desonesta uma pessoa que teve sua vida destruída pela perseguição política nos governos PT. E assim, fazendo coro com as vozes da extrema direita. Nessa hora a tal polarização desaparece rapidinho. O mote, desta vez, foi um vídeo de 2013 em solidariedade a vários manifestantes presos na época. Nada é dito sobre 2013. E, desta maneira, usar o vídeo como meio de difamar pessoas e movimentos sociais diz mais sobre o caráter e o oportunismo de certa militância de esquerda do que sobre as pessoas que aparecem em um vídeo de 6 anos atrás.

Se vocês não lembram, nós lembraremos de como junho começou!

Quando a blogsfera petista traça uma caricatura para criminalizar as pessoas que estiveram nas ruas em junho de 2013, faz isso por medo de uma revolta popular incontrolável como as que explodiram em 2019 e ainda ocorrem no momento presente em vários lugares do mundo. Mas essa criminalização é feita também por ressentimento do que a revolta expôs de forma escandalosa: é preciso uma transformação radical. É evidente, pelo que se observa em nossos vizinhos do continente, que a revolta popular é a única resposta possível ao fascismo crescente com o qual foram e são coniventes todos os governos. Incluso o partido da ordem em junho de 2013, pois ele ajudou a implementar medidas que favoreceram tal fascismo: a política de segurança pública, a lei antiterrorismo e os projetos de cidades excludentes que acompanharam os megaeventos no Brasil, em especial no Rio de Janeiro. E as remoções nada mais eram do que uma parte desse projeto, que foi colocado em curso pelo governo do PT em aliança com o PMDB. Talvez seja essa a parte da história que mais gostariam de apagar. E era a resistência a essas remoções que se estava apoiando naquele momento, nada além disso.

Então vamos lá, mais uma vez retomar 2013. Haviam fascistas nas manifestações? Grupos de extrema direita? Sim, haviam! Extremamente minoritários, mas estavam lá, assim como outras forças políticas tentando tragar a revolta popular para suas pautas, seja para dizer que era tudo contra apenas a corrupção, seja para dizer que o povo queria a reforma política – ainda que gritássemos por revolução.

Ora, quando há uma revolta múltipla, com mais de um milhão nas ruas, é natural que as forças políticas estabelecidas tentem cooptar essa revolta para os seus interesses previamente estabelecidos pelo jogo político. Mas o mais importante sobre 2013 é que isso não deu certo, não deu certo para ninguém.

“Uma parte desta sociedade tem absoluto interesse em que a ordem siga reinando; a outra, em que tudo se derrube o mais rápido possível. Decidir de que lado está é o primeiro passo.” – Ai Ferri Corti

A revolta seguiu não tragável e foi nisso que ela se tornou incontrolável; e foi por isso que julgaram preciso criminalizá-la. Ora, quando se apoiou o indivíduo que deu um soco no secretário de obras do governo Paes, em meio a uma manifestação contra remoções, quem se estava apoiando? O indivíduo integralista, o indivíduo fascista, o indivíduo masculinista ou qualquer um dos seus outros predicados desconhecidos pelas pessoas que o apoiaram? Claro que não. O que estava sendo defendido era a soltura de manifestantes, incluindo o que deu um soco na cara do secretário durante uma remoção – era a ação e não o indivíduo que estava sendo apoiada. Não houve nenhum apoio ao fascismo ou qualquer posição política individual de tal sujeito. Se essa ação não fosse defendida, deveríamos defender a criminalização dos que lutavam contra as remoções – é isso que se espera? Nem é possível se supor que se deva conhecer bem todos aqueles que foram criminalizados por ações éticas antes de se defender a ação contra a criminalização. E contra as remoções, que uma autoridade ganhe um soco na cara não é nada: mereceu sim, mereceu muito. Daí depois se descobre que essa pessoa defende o integralismo, o governo Bolsonaro, o golpe militar… Bom, nada disso se segue da sua ação de dar um soco na cara daquele comandava as remoções, não há nada ser lamentado neste apoio pontual a uma ação e não a um indivíduo.

Mas nós vivemos o tempo das construções de narrativas capazes de forjar absurdos pelas mídias sociais, dos indivíduos que valem mais do que as ações, dos personalismos, das fake news, das guerras discursivas. Todas as pessoas na história recente assistiram o advento do fascismo contemporâneo caminhar junto à defesa da terra plana e das mamadeiras de pirocas. A política institucional representativa cresce pela tendência ao espetáculo. Mas qual diferença fundamental há em acreditar nas mamadeiras de pirocas ou em que 2013 foi orquestrado pela CIA? A política institucional tenta negar a realidade concreta porque a teme. Desde o levante popular, a esquerda institucional tenta associar a revolta que não controla à direita, tentando apagar a posição política que não se enquadra no que é tragável pelos seus objetivos eleitorais. Nessa narrativa, a culpa pela ascensão do fascismo é daqueles que radicalizaram as ruas. O certo seria aceitar a linha do grande “messias” que nos trará a paz através da conciliação de classes. Pra essa “esquerda”, a única política legitima é dos grandes acordos de gabinete. Tenta com isso obscurecer também que aqueles que sempre lutaram até o fim contra o fascismo sem concessões e que disputaram a despolitização das ruas em 2013 foram as forças políticas autônomas e anarquistas. Mas ainda assim as greves e as insurreições em resistência se espalham pelo mundo diante de uma esquerda institucional falida que abre espaço cada vez mais para o fortalecimento da extrema direita.

ALERJ, 2013: a única forma coerente de adentrar os palácios.

Por tudo isso, mais uma vez, o que gostaríamos de dizer é que essa realidade concreta permanece aí apesar dos discursos ruminantes – e ela é mais forte do que qualquer fake news espetacular que se consiga propagar. Quando a revolta popular chegar, tal como se espalhou pela América Latina e pelo mundo nos tempos recentes, a política feita por eles será impotente. A potência de 2013 jamais deixou de existir, mesmo com a criminalização, mesmo com a repressão, mesmo com as bobagens que escrevem. E assim como a terra não para de girar porque alguns dizem que ela é plana, a insurreição não se mata com discursos vazios. Absurdos não se combatem com argumentos, mas com ações.

Poderíamos seguir e especular o quanto essa “polêmica” atende aos interesses eleitorais da força hegemônica à esquerda. Como isso pode ser um meio de manter em seu lugar suas linhas auxiliares. Mas esta disputa não nos diz respeito como anarquistas. Como diz o ditado: “eles que são brancos que se entendam”. A nós, só interessa a revolta e nossa solidariedade aos amigos e amigas de luta que são alvo da má fé da esquerda institucional e seu rebanho de internet.

E seguiremos afirmando: 
Todo preso é um preso político!
Nenhum governo combate o fascismo até o final, pois recorre a ele sempre que se sente ameaçado!
Paz entre nós, guerra aos senhores e aos funcionários dos senhores!

Fogo nos fascistas! O fogo da revolta!

Nas ruas nos vemos, nas ruas reconhecemo-nos!

POR UMA NOVA DÉCADA DE LUTA!

Santiago, novembro de 2019

O ano de 2019 foi longo e muito produtivo para o coletivo Facção Fictícia e toda a rede de projetos editoriais, movimentos anarquistas/anticapitalistas com quem trabalhamos.

Encerramos o ano e a década felizes por participar de grandes produções dedicadas a narrar, repensar e provocar as lutas sociais por um mundo livre de estados, do capital e toda forma de opressão. Produzimos conteúdo não apenas sobre as mobilizações, mas de dentro dessas mobilizações nas quais nos envolvemos – sejam ocupações por moradia, nas mobilizações por melhores condições de vida e toda forma de protesto e ação direta que busca construir nosso poder de organização e luta para além e em confronto com o estado e o mercado.

Santiago, Chile, 2019

Escrevemos essa nota enquanto as ruas ainda ardem em Hong Kong, no Chile e na Grécia, mostrando que o neoliberalismo não venceu e a história dos de baixo ainda vai contar seu fim. Escrevemos enquanto a fumaça da guerra social ainda sobe em meio à resistência dos povos da Amazônia e de Rojava. E nos deixa muito contentes saber que pudemos compartilhar experiências e ouvir relatos em primeira mão das barricadas da Comuna de Quito e das trincheiras da revolução na Síria com a Comuna Internacionalista em Rojava. Pudemos também relembrar ações de libertação animal em São Roque em 2013 com testemunho pessoais de quem esteve na linha de frente. E publicamos nossos textos em diferentes portais e em pelo menos cinco línguas!

Quito, outubro de 2019

Além do trabalho escrito, pegamos muita estrada em 2019. No primeiro semestre colaboramos na turnê com Vitalist International e a editora Glac por 3 estados do Brasil, visitando centros sociais, culturais debatendo organização de base e paralelos possíveis entre Américas do Sul e do Norte.

Entre os meses junho e julho, realizamos uma grande turnê com o coletivo CrimethInc. passando por 15 cidades em 7 estados e pelo distrito federal, para lançar o livro impresso Da Democracia à Liberdade, que traduzimos e produzimos em parceria com os coletivos Subta e No Gods No Masters. Ao todo, foram 21 eventos, passando por centros sociais, ocupações, sedes de sindicatos, universidades, centros de pesquisa e alguns lugares inusitados. A proposta era levar tanto as ideias do livro como promover debates com pessoas e grupos organizados em lutas sociais em lugares tão diversos. Foi uma grande experiência visitar e compartilhar aprendizados, estratégias e histórias com quem luta para construir um mundo além do Capitalismo.

Turnês com Vitalist e Crimethinc em 2019

Escrevemos uma introdução que acompanha o livro Chamada da editora Glac. Chamada reúne manifestos e chamados anônimos como o italiano Ai Ferri Corti e o estadunidense Como Iniciar um Incêndio e dentre outros. Além disso, o livro conta com artigos que comentam e analisam esses chamados e sua relevância para a luta anticapitalista no século XXI. Assim, nós que desde 2013 estamos organizando e lançando publicações subterrâneas, copiáveis e pirateáveis, pudemos contribuir em 2019 com o lançamento de dois livros de maior tiragem que achamos muito importantes. Seguimos também contribuindo com dois artigos em mais uma edição da Revista Fagulha.

Nossas parcerias renderam frutos para além dos livros e textos. O coletivo Antimídia registrou e transformou as apresentações da turnê com CrimethInc. em ótimos vídeos para continuarmos o debate. Tanto a fala sobre o livro Da Democracia à Liberdade quanto a apresentação sobre A Resistência Anarquista na Era Trump podem ser vistas a qualquer momento por quem não conseguiu comparecer pessoalmente em alguma das atividades que realizamos. Aproveitem e vejam mais alguns dos ótimos vídeos realizados pelo coletivo Antimídia em seu blog antimidia.noblogs.org.


A próxima década tem tudo para ser de muitos conflitos sociais e decisiva para barrar o avanço dos novos movimentos de direita e aspiração fascista que estão em ascensão em praticamente todos os continentes. Do mesmo modo, precisaremos oferecer soluções para além da cooptação eleitoral que o próximo ano promete: partidos de esquerda ou conservadores e grupos liberais tentarão drenar a radicalidade das ruas para nos vender o menor denominador comum através das urnas. Não cairemos nessa armadilha!

A direita que está agora no poder dá aos movimentos radicais e anticapitalistas a chance de mostrarem formas de luta e objetivos que não dependem de relação com o Estado. Rompendo o laço (ou a cooptação) que os movimentos sociais mantinham com a esquerda no controle do Estado e dificulta, mesmo que por um tempo, a identificação que os movimentos e as pessoas podem ainda ter com o aparato estatal e suas narrativas progressistas, democráticas e institucionais.

No fim das contas, sabemos que nem a esquerda, nem muito menos a direita no comando do Estado serão capazes de minimizar os impactos de uma economia neoliberal globalizada, cada vez mais brutal e excludente. A frustração atingirá eleitores de Bolsonaro e sua turma de forma ainda mais violenta que atingiu quem votou no PT e agora mudou de lado. Precisamos ter consciência desse pêndulo de atração e insatisfação que reúne a simpatia das massas hora à direita, hora à esquerda em períodos eleitoras. Em momentos de crise neoliberal, pode ser útil assumir reformas apresentadas pela esquerda institucional para incluir os pobres nas linhas de crédito e consumo ou a um relativo bem-estar. Mas quando é o momento de retomar as rédeas e os lucros da elite, populistas, neoliberais ou fascistas serão sempre uma opção para a retomada do total controle do Estado.

Essa consciência nos ajudará a apresentamos nossas propostas e mostrar de que lado lutamos e resistimos contra todos os que estão no poder do Estado e do Capital, usando seu aparato policial contra nós da base da pirâmide. Não esquecemos que foi no governo do PT que vimos um aparelho repressivo contra movimentos sociais e a ocupação das favelas serem levadas adiante como nunca. Tudo isso feito de forma a dar legitimidade para tais ações e instituições militarizadas que agora Bolsonaro – assim como Temer – herdou para usar contra movimentos sociais e toda a população.

Sendo assim, fazemos coro junto aos que entendem o cenário dos conflitos sociais em escala global não como apenas no embate binário entre direita/esquerda, conservadores/progressistas, bolsonarista/petistas. Existem ao menos três lados nos conflitos globais se delineando hoje, dentre os quais podemos nos situar de acordo com a perspectiva de ação e proposta para futuro:

  • Neoliberais de todos os tipos, de Hillary Clinton nos EUA a partidos supostamente esquerdistas como o SYRIZA na Grécia, Podemos na Espanha e o Partido dos Trabalhadores no Brasil. Embora discordem dos detalhes, todos compartilham um objetivo comum de usar a governança estatal global em rede para estabilizar o mundo em prol do Capitalismo.
  • Nacionalistas como Trump, Erdogan, Bolsonaro, Netanyahu e extremistas como o grupo Estado Islâmico, que deixaram claro que não se incomodam com a construção de estados genocidas e a eliminação de povos – sejam indígenas, negros, LGBTTTQI, imigrantes, mexicanos, curdos ou palestinos. Essa categoria também inclui Assad, Putin e outros demagogos que – como os neoliberais – costumam estar em desacordo uns com os outros, mas todos buscam a mesma visão de um mundo pós-neoliberal de etnoestados concorrentes entre si.
  • Movimentos sociais radicais de libertação que buscam promover a autodeterminação pluralista e igualitária, com base na autonomia e na solidariedade. Anarquistas, Zapatistas e a revolução em Rojava são exemplos que se encaixam nessa categoria, mesmo que grande parte também tenha um caráter nacionalista.

Nesse cenário, onde o conflito social não é mais binário, mas se divide em três, movimentos sociais anticapitalistas precisam reunir forças e desenvolver suas próprias narrativas e estratégias para difundir conhecimento, apoio, solidariedade e coordenação. É nessa perspectiva que buscaremos manter e ampliar nosso campo de trabalho no ano e na década que se inicia.

Por uma nova década de luta! Pelo fim do estado, do capital, do racismo, sexismo e toda forma de opressão!

BLACK BLOCS E LIBERTAÇÃO ANIMAL – 6 Anos da Ação em São Roque em 2013

Bons exemplos mas não um modelo pronto

Em outubro de 2013, exatos 6 anos atrás, um protesto contra o uso de animais em testes realizados em um laboratório no interior do estado de São Paulo se transformou em uma das mais emblemáticas ações diretas daquele ano que mudou o cenário político e os movimentos sociais no Brasil. O evento por si só já chama a atenção pelo tamanho e pela eficiência, ainda mais no contexto brasileiro, pouco familiarizado com ações radicais pela libertação animal com uma perspectiva anticapitalista. Acreditamos ser importante revisitar tais acontecimentos para aprender com suas limitações e desenvolver seus acertos no que diz respeito a diversidade de táticas, coordenação de diferentes movimentos, radicalidade e contundência da ação que pode inspirar outros grupos e novas campanhas.

A ação em São Roque:

Após dias acorrentadas nos portões do Instituto Royal, na cidade de São Roque, denunciando o uso e o assassinato de animais com técnicas como a vivissecção (cortar animais ainda vivos e sem anestesia para experimentações), ativistas atraíram a atenção da mídia e de outras organizações para a causa. E na madrugada do dia 18 daquele mês a manifestação se tornou uma ação de resgate dos animais que libertou quase 200 cães da raça beagle e dezenas de ratos. Toda a ação foi fotografa e filmadas pelas participantes.

Do lado de fora do laboratório, a estrada foi tomada por barricadas logo pela manhã. Uma viatura da polícia militar e um carro da imprensa foram queimados por manifestantes. Algumas pessoas menos acostumadas com a dinâmica de resistência em protestos de rua ainda tentaram formar uma barreira para proteger os carros de emissoras de TV da destruição, mas não adiantou. Do lado de dentro, jaulas foram esvaziadas, computadores, documentos e materiais de pesquisa foram destruídos. Paredes pixadas por símbolos da Frente de Libertação Animal (ALF) e ruas tomadas por Black Blocs que montaram barricadas para impedir que a tropa de choque chegasse ao laboratório e prendesse manifestantes.

Carro de emissora de TV depredada e viatura da Polícia Militar incendiada na estrada em frente ao laboratório.

Para muitas pessoas ali, era como se enfim chegasse o dia que toda uma geração de movimentos pela libertação animal, anticapitalistas e anarquistas sonharam e trabalharam para ver. Era o momento em que táticas radicais se encontram, convergem permitindo que movimentos distintos, com táticas distintas, operassem em conjunto para uma ação efetiva. Foi possível atingir tanto seu objetivo imediato (resgatar os animais e impor consequências ao laboratório pelo uso e tortura dos mesmos), quanto objetivos de médio e longo prazo (o fechar o laboratório e a educar a opinão pública sobre o tema). A ação chamou a atenção do público geral e tomou as notícias em todo o país, provocando uma mudança inédita no imaginário das pessoas sobre o que é possível fazer em uma ação direta pelos animais e educando as pessoas sobre o quão perverso e inútil são os testes em animais e o uso dos animais para qualquer fim. Tudo isso devido a uma janela de possibilidades aberta nas ruas em junho de 2013 nos grandes levantes contra o aumento das passagens no transporte público.

A invasão do Instituto Royal é um exemplo emblemático mas que também desperta curiosidade e demanda reflexão. Como nas ruas tomadas na luta contra o aumento em todo o país em junho daquele ano, a batalha em São Roque contou com a presença de uma grande diversidade de pessoas. Diferentes idades, posições políticas, classes sociais e também diferentes táticas e modos de luta e organização: ativistas que defendem o “bem estar animal” (ou que focam sua ação apenas em cães e gatos) estavam lado a lado com grupos veganos anticapitalistas. Personalidades da TV ou manifestantes de classe média que defendem a causa animal protegidas atrás de barricadas feitas por Black Blocs anarquistas. Um mosaico de inúmeras formas e contextos de luta se aliaram com um objetivo comum. A articulação prévia de longos dias foi organizada por um número reduzido de pessoas e catalisou a luta que surgiu de forma espontânea para centenas de pessoas que aderiram ao movimento imediatamente após um chamado aberto para a ação direta. Uma estratégia improvisada e repentina se tornou a principal arma contra uma polícia despreparada e incapaz de prever os movimentos de pessoas determinadas a agir.

Animais foram resgatados, o laboratório declarou falência e o impacto nas leis e na opinião pública foi maior do que todo o ativismo estritamente legalista ou outros protestos simbólicos contra a empresa durante os cinco anos anteriores: até o início de 2014, novas leis que regulam e restringem o uso de animais em testes foram aprovadas, incluindo a proibição desse tipo de teste para cosméticos em todo o país. O que nos prova que mesmo quando as pessoas querem apenas reformas, novas leis ou o fim de uma instituição opressiva, é melhor demonstrar força popular para realizar essas mudanças por nossas própria ações do que pedir pacificamente e esperar a boa vontade de poderosos. Se nos mostrarmos irredutíveis e com disposição para ação, as autoridades vão correr para nos atender antes que consigamos algo por nossa conta. Nesse momento é que os movimentos devem buscar ainda mais força para dobrar as autoridades.

Manifestantes rompendo as barreias policiais e ativistas resgatando cães dentro das dependências do Instituto Royal.

A invasão ao Instituto Royal serve com um exemplo de sucesso obtido quando a organização de longo prazo encontra a imprevisibilidade de ações imediatas, inovadoras e capazes de mudar de táticas para encontrar uma brecha no sistema, antes que a repressão policial seja capaz de reagir à altura. Questionando o discurso tradicional das lutas sociais legalistas, vimos que a diversidade de táticas e de formas de organização, quando aliadas, podem ser a chave para vitórias que tornam possível o que era até mesmo impensável.

Ainda assim, o episódio é um bom exemplo e não um modelo ou receita a serem seguidos metodicamente. Mais do que buscar respetir suas táticas e etapas de ação, é preciso entender e assimiliar as posturas que permitiram o sucesso da ação. Mesmo conflituosa e divergente para muitas pessoas que participaram, a ação mostra que uma diversidade de táticas e frentes de luta diferentes pode ser muito mais eficientes, tanto a curto quanto a longo prazo. Diferentes níveis de luta, como ação direta e confronto com forças de repressão, mídia independente e autônoma, comissões legais e porta-vozes, ajudam a distribuir a legitimidade dos movimentos e torna difícil a tentativa do Estado de isolar e silenciar “minorias infiltradas” ou “grupos radicais” do resto da luta. Essa harmonia e cumplicidade entre formas diferentes de ação se mostrou muito efetiva para libertar os animais, impor danos ao laboratório e não dividir o movimento entre “legítimos” e “ilegítimos”, “legais” ou “ilegais”, impedindo que as autoridade encontrassem divisões fáceis entre participantes que permitisse isolar e prender quem realizou ações ilegais de invasão, dado a propriedade.

O sucesso imediato e a continuidade do debate sobre o uso de animais como objetos e sua condição de propriedade em um sistema capitalista conseguem ir para além do reformismo bem-estarista (que visa apenas regular o uso de animais) e desafia o moralismo burguês dos movimentos abolicionistas (que lutam para que nenhum animal seja considerado propriedade) que se baseiam, muitas vezes, em princípios pacifistas como valores absolutos.

Black Blocs formando um cordão de proteção para bloquear o avanço da polícia em direção ao laboratório.

É necessário sempre repensar táticas, ser capaz de inovar e sempre fazer uma autocrítica. Não há problema na radicalização das ações antiautoritárias e de libertação. O problema não é atacar ferozmente o sistema, mas sim não continuar atacando. Somente a radicalização aliada ao debate sobre uma diversidade de táticas e discursos pode impedir que a legitimidade das lutas seja determinada pela mídia, pelo Estado ou por ativistas privilegiados – empresários, apresentadoras de TV e políticos – que buscam sequestrar lutas sociais organizadas por pessoas anônimas ou invisibilizadas como forma de acumular ainda mais poder e privilégios.

Para compreender um pouco mais de como foi a luta por trás das barricadas e por baixo das máscaras, publicamos aqui dois relatos escritos por pessoas que estiveram na invasão do laboratório. Elas contam como foram esses momentos de luta e descrevem sua importância para ações futuras. É preciso mais debates e, principalmente, mais ações que desafiam as leis e as “receitas de bolo” revolucionárias.

Por uma luta de libertação animal e humana total, radical e anticapitalista!

Primeiro Relato:

Em meio ao instável cenário político que veio após os protestos de junho de 2013, ativistas pelos direitos animais começaram uma campanha para fechar o Instituto Royal, um laboratório localizado no interior do estado de São Paulo conhecido pelos testes em animais e pelas práticas de vivissecção.

Após alguns dias atraindo atenção para o assunto e para esse estabelecimento em particular, a noite que mudaria como a mídia, a população e até legisladores encaram a vivissecção estava por vir. E sua história seria escrita através da ação direta. Naquela noite, em especial, as pessoas se reuniam em frente ao portão do laboratório atraídas pelas notícias que circulavam nas mídias sociais. No momento que cheguei àquela área rural cortada por estradas de terra e algumas poucas casas, a polícia estava guardando os portões e podíamos ver funcionários e seguranças privados andando dentro do prédio. Caminhões entravam e saíam, aparentemente, levando documentos e animais por medo de uma invasão. Mas essa não era uma ação da Frente de Libertação Animal (ALF). Pessoas de todos os tipos estavam presentes. Algumas só se importavam com os beagles, outras com apenas cães e gatos em geral, outras eram ativistas dos direitos animais. Black Blocs também estavam lá e até apresentadoras de TV que apoiam causas animais chegaram pois a mídia começou a divulgar que uma invasão estaria para acontecer. O que fez com que a mídia burguesa aparecesse e também mais pessoas em geral.

A polícia logo ficou em menor número e claramente incapaz de lidar com o fenômeno que tomava forma ali. É importante lembrar que São Roque fica a uma hora de qualquer cidade maior. Em poucas horas éramos muitas à postos naquela estrada sem saída cercada de mato. A estrada termina em um portão com uma largura que cabe 15 pessoas enfileiradas. De repente não parecia mais ser uma barreira e a polícia já demonstrava não estar preparada para a situação. O que pode dizer que eles poderiam reagir de forma desproporcional, mas como não se tratava do batalhão de choque, era mais provável que iriam apenas recuar. Especialmente devido à diversidade da multidão composta por senhoras de cinquenta ou sessenta anos junto a estudantes e pessoas vestidas como um Black Bloc.

Por volta da meia noite os carros do laboratório não conseguiam mais sair pelo portão e os latidos dos cães nos lembrava que as pessoas do lado de fora não eram as únicas apreensivas. Redes sociais funcionavam fortalecendo centenas de nós que estavam ali. Às duas da manhã, no dia 18 de outubro, ficou óbvio que haveria uma invasão. Bastou alguém tomar a iniciativa de começar a bater no cadeado do portão com uma pedra para que todo mundo ver que estava na hora. O portão já estava sendo derrubado enquanto gente cortava as cercas e a multidão pressionava em todas as possíveis entradas.

Rodovia que leva ao laboratório bloqueada por manifestantes.

Entramos! Uma pequena estrada leva ao prédio principal, com mais portas a serem quebradas e arrombadas. A polícia só conseguia olhar e a mídia estava lá dentro também com as câmeras ligadas. A maioria das pessoas usava máscaras como em um resgate aberto. Algumas de nós, que temiam o que podia acontecer depois, tínhamos o cuidado de cobrir nossos rostos.

Um por um, quase 200 beagles foram transportados no colo subindo o morro até onde, há poucos minutos, havia um portão onde outras ativistas esperavam com seus carros – praticamente todo mundo chegou lá de carro porque não havia outro meio de transporte para o local a essa hora da noite. Quem libertava os cães de suas jaulas não sabia para onde eles estavam sendo levados. O que importava era que estavam sendo libertos da exploração. Isso foi útil quando ativistas que estavam lá dentro sob o foco das câmeras começaram a ser identificados e sofrer acusações por roubar “propriedade privada”. Como argumentamos, as chamadas “propriedades” nunca foram tomadas como posse daquelas pessoas que os tiraram de lá.

Pessoas carregam cães um a um para fora do Instituto.

Um grupo de advogados voluntários se formou para defender quem era identificado e uma rede clandestina de veterinárias se dispuseram a remover chips que poderiam identificar animais adotados. Curiosamente, um deputado que atua na área de bem estar animal também estava presente durante o resgate, atraído pela presença da mídia e pela multidão de ativistas. Ele adotou dois beagles que passaram a morar em sua casa e poucos dias depois a mídia estava lá para filmar os cães e contar sua história. Em seu benefício, a lei brasileira diz que um membro do congresso não pode ser acusado desse tpo de crime enquanto exerce seu mandato. Para pessoas menos privilegiadas, podíamos apenas ter a companhia de alguns beagles que sofreram abusos, com sinais de mutilação e traumas psicológicos que às vezes são difíceis de notar.

A invasão foi realmente uma cena caótica, sem planejamento prévio, nenhuma direção e, provavelmente, não é um modelo a ser repetido. Sua espontaneidade foi a mágica que fez com que tudo fosse possível. Sua diversidade foi um fator que fez os números de participantes possíveis e a repressão impossível. A compaixão de todo mundo presente foi a força que ampliou seu significado para além dos indivíduos salvos.

Poucas semanas depois, após extensiva e persistente cobertura da mídia sobre o assunto, leis começaram a ser propostas na cidade, no estado e no país. A prefeitura mandou trancar o laboratório e manifestantes mantiveram a pressão até que o Instituto Royal anunciou seu fechamento no dia seis de novembro. Ainda assim, eles recusavam a liberar os animais que ainda estavam lá durante o primeiro resgate. Então uma nova e legítima ação da ALF realizada no dia 13 de novembro por uma pequena célula resgatou os 300 ratos que ainda estavam lá e nenhum animal esteve presente para testemunhar os últimos momentos do Instituto Royal.

Interior do laboratório atacado durante a madrugada.

Vídeo da segunda invasão ao Instituto Royal para resgatar ratos que ainda estavam presos.

Tendo em vista as elevadas e irreparáveis perdas e os danos sofridos em decorrência da invasão realizada no último dia 18 – com a perda de quase todo o plantel de animais e de aproximadamente uma década de pesquisas -, bem como a persistente instabilidade e a crise de segurança que colocam em risco permanente a integridade física e moral de seus colaboradores, os associados concluíram que está irremediavelmente comprometida a atuação do Instituto Royal para dar continuidade à realização pesquisa científica e testes mediante utilização de animais. Por este motivo, o Instituto decidiu encerrar suas atividades na unidade de São Roque”

Declaração do Instituto Royal em 06/11/2013 sobre seu fechamento.

Segundo Relato:

Nós fomos de carro de São Paulo a São Roque em três pessoas no segundo dia de manifestação. Ativistas que retiraram os cães ficaram a noite toda lá e, no dia seguinte, iriam retirar os roedores que restaram. Eu cheguei em São Paulo pela manhã e nós chegamos no instituto no começo da tarde, a Rodovia Raposo Tavares já estava interditada pela Polícia Militar muito antes. Chegando lá havia muito tumulto e uma divisão bem clara: de um lado, ativistas pacifistas pelos cães com faixas e dizeres cristãos, se recusando a cobrir o rosto e mantendo distância do conflito com a Tropa de Choque. Do outro, pessoas de máscaras e bandanas iam de encontro a linha policial. A polícia parecia estar evitando o conflito e focando na porta do instituto, que já estava fortemente protegida pela PM para evitar a segunda entrada dos militantes. Uma viatura foi incendiada e logo após outro carro de uma emissora de TV também estava em chamas. A polícia interviu muito após isso para tentar dispersar a manifestação e me juntei a um grupo que se formou para tentar entrar no instituto através da mata em volta. Pulamos uma cerca e tentamos dar a volta para entrar pela parte de trás onde não havia policia, mas havia helicópteros sobrevoando o local e nos encondemos em uma casa abandonada. De lá chegamos perto dos limites do instituto para encontrar com uma segurança privada, sem identificação e portando de armas de fogo.

Polícia ataca manifestantes e Black Blocs formam barricadas pare resistir e responder à agressão policial em frente ao laboratório.

A PM percebeu a tentativa de entrar por trás e começou a perseguir alguns manifestantes dentro da mata. O grupo inicial havia se dividido em vários por não concordar em como entrar no instituto. Havia ainda ativistas que se recusam a cobrir o rosto por insistir em que resgatar animais não consistia em crime. E foi esse o sentimento que persistiu do começo ao fim.

Considerando que as pessoas que organizaram a manifestação inicial são pacifistas e cristãs, houve muita desorganização por conta desse racha ideológico. As pessoas pacifistas colocaram muito em risco a identidade e segurança de quem se dispôs a entrar no instituto e enfrentar a polícia.

Polícia tenta dispersar a multidão sem sucesso.

Por fim, encurralados, saímos da mata muito longe do instituto e fomos cercadas por bombas de gás. A manifestação foi se dispersando no fim da tarde e só nos restou o plano de voltar em outra ocasião.

Havia pessoas de várias partes do país. Todas as placas, cercas, carros e estruturas no perímetro do instituto foram destruídas. Em comparação a junho de 2013, houve muito mais organização, disposição em se arriscar e união. Todos presentes nas ações radicais sabiam claramente qual era o objeto e que tal objeto era extremamente legítimo. Motivadas de maneira quase emotiva, as pessoas viram claramente que aquilo era apenas o começo e que a PM não era capaz de frustrar nossas tentativas, tamanha a presença e vontade de muitas pessoas dispostas a libertar aqueles animais por quaisquer meios necessários. Esse evento inspirou o resgate das chincilas em Itapecirica e outras ações. E independente de rachas ideológicos, foi possível conciliar a disposição dos Black Blocs em se arriscar com a força legalista para fechar o instituto Royal permanentemente e proteger as pessoas que tiveram suas identidades expostas.

Um acontecimento sem precedentes no Brasil e uma semente que, acredito eu, ainda vá germinar em forma de um Frente pela Libertação Animal concreta.