“Guantánamo Calabro”: Carta de Cesare Battisti

Guantánamo Calabro

Em 16 de maio de 2021, Cesare Battisti, o ex-militante comunista italiano que se exilou no Brasil e foi extraditado ao início de 2019 da Bolívia para a Itália, escreveu do presídio de Rossano Calabro uma carta ao jornal online italiano Carmilla onde conta pela primeira vez os detalhes da extradição ilegal da qual foi vítima e o papel cumprido pelos governos italiano, brasileiro e boliviano nessa ocasião. Ele traz a discussão também por sua escolha, que gerou muitas polêmicas sobretudo na esquerda brasileira, ao se declarar culpado. Uma escolha que levou o ex-presidente Lula a se arrepender de ter-lhe dado asilo (escrevemos sobre isso no artigo “Lula só Fez Autocrítica Onde Estava Certo: Comentários à Declaração Sobre Cesare Battisti“).

Nessa carta Battisti lembra que a base legal do seu asilo não foi a inocência ou estraneidade dos fatos violentos dos quais o então grupo político dele, os Proletari Armati per il Comunismo (PAC) foi autor, mas pela natureza política desses delitos e pela persecução política da qual foi vítima na Itália. A carta oferece também a Battisti a possibilidade de refletir, criticamente e autocriticamente, sobre a dramática fase dos chamados “anos de chumbo” na Itália, a que ele define como “a degeneração de um 68 reprimido em sangue, que durou 15 anos”. Uma época da história que o governo italiano, por meio do tratamento ilegal e lesivo dos mais básicos direitos humanos ao qual somente o próprio Battisti, parece não saber ou querer ainda superar.

Iniciei, a partir de 2 de junho, uma greve de fome e médica” escreveu Cesare Battisti em um texto enviado através de sua filha ainda a ser traduzido.


 

Cesare Battisti escoltado por forças policiais ao desembarcar no aeroporto italiano

Para começar, gostaria de avisar que os próximos pontos dizem respeito a algumas passagens importantes em minha história pessoal, podem não ser exaustivos, nem afirmam sê-lo. É apenas questão de responder, embora de forma fragmentada, às perguntas mais frequentes que me foram feitas até agora por aqueles que, apesar da intoxicação da mídia, não desistiram de querer entender o meu caso. Mesmo que estes dados possam ser apenas parciais, a intenção é a de fornecer informações básicas que possam ajudar aos interessados a tirar suas próprias conclusões. Perdoe-me então, pela descontinuidade de uma edição sem pretensões de ser publicamente coerente. E em qualquer caso, dadas as circunstâncias, um discurso linear e profundo não seria possível para mim. Por esta razão, peço aos interessados para consultar meus escritos en Carmilla ou no meu último manuscrito que está sendo analisado atualmente por “Le Seuil” França.

É natural, mas também óbvio, começar da minha prisão na Itália. Durante meus 20 meses de isolamento prisional em Oristano, dos quais apenas 6 foram em um estado de semi-legalidade, alimentei a esperança de que mais cedo ou mais tarde a Instituição entenderia que não se pode punir ou vingar aplicando a um veterano dos anos 70 o status de prisioneiro de guerra de fato. Isso é o que sugere a privação de direitos estabelecida pelas leis nacionais e pelas regras do direito internacional. Em resposta a pedidos formais por motivos de tratamento desumano, citando medidas de segurança sem precedentes, que, além disso, têm sido aplicadas retroativamente há 41 anos, o Estado responde literalmente: “a documentação solicitada foi retida do seu direito de acesso”. Mas, então, nos perguntamos, qual é a possível defesa? Esta é a razão pela qual entrei em greve de fome em Oristano.

Em resposta, o Estado raivoso me transferiu para a pior prisão da Itália, me colocando à força na secção ISIS-AS2. Isso, apesar das ameaças recebidas no passado e no presente, proferidas pelas diferentes frentes jihadistas contra mim. Mas se Cesare Battisti foi designado pela Autoridade Judicial para a segurança média, não tendo o “impeditimento”1, o que ele está fazendo no AS2? Minha presença na secção ISIS implica em grandes dificuldades e pequenas margens de sobrevivência: sem nunca sair da cela para a banho de sol; limitando também a comida, já que são do ISIS os trabalhadores que a distribuem; objeto de ameaças através do portão da grade; privado de computador onde eu posso exercer a minha profissão; vigiado na frente e objeto de CED (medida disciplinar) a cada pequena reclamação; sujeito à censura, alegando suposta “atividade subversiva” (sic) e assim por diante, até ser impedido também no direito de defesa, estabelecido pelo artigo 24 da Constituição. Eu poderia encontrar meus familiares italianos, uma hora por semana quatro vezes por mês, mas, dada a distância do meu local de residência e a idade avançada dos meus irmãos, que varia de 70 a 80 anos, isso raramente acontece. Minha família que vive na França e no Brasil só posso contactá-la com chamadas de vídeo no meu celular uma vez por semana, mas então tenho que desistir das visitas presenciais. Desta forma, passo meses sem contato com meus filhos, para os quais tenho que pedir notícias por carta, quase sempre retidas pela censura porque estão escritas em uma língua estrangeira. Disseram-me até mesmo que meus filhos deveriam aprender a escrever em italiano para receber notícias de seu pai. Isso porque o censor tem dificuldade com o francês ou o português, que são as línguas maternas dos meus filhos. Esse é um tratamento desumano não só para qualquer prisioneiro, mas especialmente para alguém cujo último crime data de 41 anos atrás. E como se isso não fosse suficiente, o governo se compromete a manter um nível absurdo de periculosidade alimentando um processo de criminalização constante a ponto de poder justificar a apreensão do meu computador, onde eu estava completando um romance sobre o conflito em Rojava e o drama dos imigrantes. Apenas para se manter em sintonia com o ditame de reintegração na vida civil.

Vamos dar um passo atrás e chegar à minha fuga do Brasil. As autoridades italianas nunca aceitaram meu refúgio no Brasil. O Estado trabalhou com todas as suas forças, mas também com meios ilícitos como a corrupção e a oferta de privilégios políticos e econômicos, para obter a minha entrega fraudulenta a todo custo! O Brasil abriga uma gigantesca comunidade de origem italiana, equivalente a 35 milhões de cidadãos. Um país dentro do país! Esta importante parcela da sociedade brasileira, além de controlar alguns setores da economia, tem uma forte influência no aparato militar do brasileiro. Há numerosas figuras na ditadura de origem italiana, como o próprio Bolsonaro. Mas pouco importa se o ex-capitão Bolsonaro, que foi expulso do exército, se ele e seus acólitos são súditos inescrupulosos, se não claramente criminosos à frente de milícias sangrentas. A Itália, através da Embaixada, sempre manteve relações privilegiadas com os lobbies militares próximos a Bolsonaro. A ponto de empurrar as empresas ítalo-brasileiras a entrar ativamente na campanha presidencial de Bolsonaro. Em troca de tal amizade, Bolsonaro promete minha extradição. Embora a Constituição o impeça de fazê-lo – você não pode revogar um decreto após 5 anos de sua emissão – Bolsonaro mantém sua promessa. Ao comprar e vender influência na Suprema Corte Federal, é desavergonhadamente ignorada a Constituição e o estatuto de prescrição dos crimes atribuídos a mim, e em dezembro de 2018 é decretada a ordem de extradição.


O governo de esquerda cessante me garantiu contato direto com o presidente da Bolívia, Evo Morales, que pessoalmente permitiu que o fundador do MST, Juan Pedro Stedile, me recebesse na Bolívia com a concessão de refúgio político. Em uma operação combinada entre o PT (Partido dos Trabalhadores) brasileiro e o Mas (Movimento ao Socialismo) boliviano, fui transferido para Santa Cruz de la Sierra. Aqui fui entregue a um emissário do governo empregado direto do Chanceler. Enquanto esperava a papelada para refúgio, fui alojado em um Centro de Monitoramento: instalações pertencentes ao Ministério do Interior, que serviram de base para espionagem da oposição à Evo Morales! Uma dúzia de operadores de informática trabalharam lá, com os quais tive relações cordiais. De vez em quando chegava um alto funcionário do Estado, então eu tinha que ficar trancado no meu quarto no final do pátio. Tive imediatamente a impressão de que estava sendo observado a cada passo, não apenas por forças supostamente amigáveis. Quando a vigilância se tornou mais rigorosa, apontei para o Chefe de Governo que dirigia o centro, mas ele respondeu de forma evasiva. Quando eu tinha já a certeza de que tinha algo errado, fui pego a alguns passos do centro, enquanto ia às compras. De repente, todos aqueles a quem eu havia sido apresentado para a regularização do asilo tinham desaparecido.

Mesmo assim, eu não perdi as esperanças. Claramente pensei na traição de Evo Morales, mas ainda assim contava com as leis bolivianas que excluem a extradição por delitos políticos e, especialmente no meu caso, por estar prescrito de acordo com as leis bolivianas. Então, eu disse a mim mesmo, o pior que pode acontecer será cumprir algum tempo de prisão durante o processo de extradição. Em vez disso, eu deveria ter suspeitado que o que a Itália queria evitar era exatamente um julgamento regular. Os próprios policiais bolivianos da Interpol, alguns dos quais eu tinha encontrado no Centro de Monitoramento, pareciam bastante envergonhados com o que estava prestes a acontecer. Eles não tiveram dificuldade em me informar que ali tinha um monte italianos, brasileiros e agentes de outro país, que eles não queriam especificar. Eles me disseram claramente que minha pele estava sendo negociada e chamavam seus governantes de malandros. Entendi o que estavam falando na manhã seguinte. Quando uma equipe trajada de negro e com capuzes entrou e me levou para o aeroporto internacional de Santa Cruz de la Sierra.

Colocado e guardado em uma sala cujas janelas se viam da pista, eu estava observando as questões burocráticas entre um núcleo da Polícia Federal brasileira e alguns oficiais da Força Aérea Boliviana. A menos de 100 metros da pista, os motores do turbo propulsor da PF Brasil estavam aquecendo. Um pouco mais tarde eu estava acompanhando o Delegado (Comissário) e sua equipe a bordo do avião brasileiro. Em algum momento, houve um tumulto. Eles me tiraram de lá e voltamos para a mesma sala. Aqui fui entregue à polícia boliviana, enquanto os agentes brasileiros saíam sem mim. Por um momento tinha a esperança que Evo Morales tivesse dado uma contra-ordem. Uma esperança fugaz, até a chegada de um grande grupo de pessoas com cores italianas no pescoço, que me levou ao avião oficial que nos esperava muito longe na pista de pouso. Eu até tentei resistir: “É um seqüestro”, gritei. A resposta foi desarmante: “e daí? Mas desta vez funcionou”. Na Bolívia, como no Brasil, as pessoas gritaram sobre o escândalo e o vergonhoso seqüestro permitido por Evo Morales. Houveram protestos e até mesmo manifestações. Obviamente, não houve nenhuma menção a isso na Itália. Ninguém esperava que Evo Morales, já desacreditado pela base de seu partido, fosse tão longe. Mas o mais surpreendente para a covardia foi a Vice-Presidente Linera, com seu passado, que desapareceu na última hora para evitar dar explicações aos amigos comuns.

Algumas pessoas se perguntaram com razão se esses procedimentos, que não são nada menos do que fraudulentos, não podem ser denunciadas às autoridades internacionais. A esse respeito, gostaria de informar que existem atualmente três procedimentos planejados contra os delitos acima mencionados, cometidos pelo Brasil, Bolívia e Itália. Respectivamente, o primeiro é um apelo à OEA e à ONU por um ato inconstitucional na anulação de um decreto presidencial de mais de 5 anos e a separação forçada da unidade familiar – o filho menor e a esposa que permanecem no Brasil -, o segundo é um apelo à ONU contra a Bolívia por sequestro e expulsão ilegal; o terceiro é um apelo à ONU contra a Itália por receptação ilícita; um apelo ao Tribunal Europeu por tratamento desumano na prisão. Mas um procedimento de petições internacionais leva muito tempo e é urgente para mim sair do inferno de Guantanamo Calabro: eu não tenho um impedimento, o que estou fazendo no AS2?

Me dizeram que lendo “Indio”, meu último romance publicado na França, pode-se ver nas entrelinhas a intenção de lidar com o sistema de justiça italiano. Terminei o último rascunho do “Indio” quando ninguém acreditava seriamente que uma pessoa como Bolsonaro pudesse se tornar presidente. Isso quer dizer que algumas de minhas reflexões sobre o futuro incerto do eterno refugiado e perseguido são insuspeitas. A desinformação que nos últimos 15 anos me fez o monstro a ser abatido, impossibilitou qualquer tentativa de lançar luz sobre meu caminho político-militante primeiro, refugiado depois. Tiveram o cuidado de não divulgar minhas tentativas de reconciliação e pacificação com uma suposta nova realidade social na Itália. Eu acreditava que a democracia italiana tivesse amadurecido, que fosse capaz de encarar sua própria história com dignidade e consciência. Estou obviamente me referindo aos “anos de chumbo”, um capítulo dramático de nossa História relegado a uma zona de sombra e tabu, onde a revisão histórica é dominante.

Só para mencionar algumas tentativas de aproximação, a mais séria e formal foi enquanto eu estava na prisão em Brasília, durante o longo processo de extradição. Após algumas reuniões com o pessoal da Embaixada da Itália, onde fiz uma proposta de diálogo para o governo italiano. Foi num momento em que eu já estava certo de não ser extraditado. Propus-lhes que eu aceitaria voluntariamente a extradição se o Governo estivesse disposto a abrir um debate, com pessoal qualificado, para finalmente fazer uma avaliação histórica do período da luta armada, “a degeneração de um 68 reprimido em sangue, que durou 15 anos”. O pessoal da embaixada, ou seja, os espiões, prometeram informar, mas nunca mais apareceram. Enquanto isso, eu também tinha iniciado uma correspondência com Alberto Torreggiani – sabemos que ele foi ferido por seu próprio pai durante o ataque dos PAC (Proletários Armados para o Comunismo, NdT), no qual eu não participei. A correspondência com Alberto Torreggiani, que hoje ele nega por ordem do Estado, ou simplesmente influenciado por reacionários justicialistas, era parte de uma intenção mais articulada de aproximação com as famílias das vítimas dos PAC. Isso no quadro da criação de um clima favorável para retornar, sem ódio, às responsabilidades de todos os componentes do conflito e, quem sabe, finalmente virar aquela página maldita dos “anos de chumbo”. Infelizmente, esta tentativa também colidiu com a intolerância feroz de certos setores políticos e didáticos sempre prontos a alimentar o ódio por interesses partidários obscuros. Não se pode não assistir com desconfiança as pontuais declarações públicas dos parentes das vítimas (obviamente sempre falamos apenas de um lado da barricada) alguns dos quais provavelmente nem tinham nascido na época: 41 anos atrás! E porquê sempre culpar o Battisti, como se tivesse sido ele quem inventou a luta armada? Enquanto os fascistas sob as ordens de alguma instituição estão se divertindo e ninguém grita na rua? Ou será justamente para proteger os assassinos em massa que temos que queimar uma testemunha, para que a desinformação sobre esses anos seja totalmente efetiva.

A praga do Estado nos faz lembrar que devemos ficar calados. A pergunta que deveria ser feita por aquelas pessoas inconscientes que, com raiva nos olhos, exigem a execução para Cesare Battisti, deveria ser mais ou menos esta: “Por que até 2003 ninguém se importava com ele?” Quando Cesare Battisti ainda era apenas mais um entre as dezenas de refugiados italianos ao redor do mundo? Numa época em que ele publicava livros e artigos também na Itália e recebia visitas de personalidades italianas ligadas ao mundo político, cultural e até institucional? O que aconteceu em determinado momento, de modo que de repente ele se tornou o “monstro”, a ponto de alimentar o ódio dos parentes das vítimas – que estava até então adormecido? – e da mídia malandra? É absurdo que nenhum desses justicialistas pense em se perguntar. No entanto, a resposta é simples: Battisti escreve, fala na televisão, dá entrevistas e debates na arena internacional, investiga o passado, é autocrítico, mas ao mesmo tempo denuncia uma guerra civil que o Estado desencadeou e combateu com bombas nas praças e uma repressão sem precedentes. E tem permanecido reticente com a História.

A luta armada na Itália não nasceu em alguma mente pervertida e não foi praticada por quatro desesperados. Ela surgiu de um grande movimento cultural e político que não podia suportar a opressão de um Estado corrupto e assassino. Um milhão de pessoas nas ruas e todos os cúmplices revolucionários. 6.000 pessoas condenadas; cerca de 60.000 denunciadas; mais de 100 grupos armados organizados; centenas os mortos, a maioria deles nas fileiras revolucionárias. Esse é o contexto social no qual os PAC nasceram. Não foi um partido armado, mas a expressão horizontal combatente da ampla frente de protesto, nas fábricas, no território e na educação nacional. Que seu ideal era comunista é claro pelo próprio nome (Proletários Armados pelo Comunismo), mas eles não tinham a intenção de invadir o Palácio de Inverno, nem de tomar o poder do Estado. Eram núcleos difusos e independentes que respondiam à sua maneira à injustiça desenfreada, à extrema direita que se armava em defesa dos privilégios do capital. Fortificados pela ideia de que o verdadeiro comunismo não poderia ser o expresso pela União Soviética, ao contrário, mas simplesmente aquele de uma sociedade futura inevitável, livre e igualitária, imaginada com extrema clareza no “Manifesto” de Marx e Engels. Apenas isso, sem mais sem menos. Que o momento histórico e o uso de armas tivesse sido correto ou não, os fatos e todos os militantes conscienciosos o disseram. Entre os quais eu me coloco em termos inequívocos. Pode-se admitir o erro, sem cair na indecência daqueles que se iludem de que podem compensar por tudo declarando seu arrependimento. Nunca uma palavra foi tão denegrida. Tenho demasiado respeito pela história e pelas vítimas que ela fez para pensar em me esconder atrás de uma camada de hipocrisia.

Pensava-se que a Itália tivesse superado certas fraquezas e estivesse pronta para enfrentar sua própria História. Em vez disso, 40 anos depois, através de suas mais altas representações, ainda oferece aos cidadãos o mesmo show ignóbil, com a presa arrastada entre a multidão enfurecida; os insultos dos caçadores que evocam a presa; os selfie dos ministros; a folia da televisão; Battisti na arena; desfrute agora Povo! Aqui estão as torturas sofridas, depois de um sequestro triunfantemente reivindicado. A tal ponto que até o Tribunal de Cassação julgou mais ou menos nesses termos: “se a Bolívia cometeu um ilícito, não nos importa, eles nos deram Battisti e nós o levamos”. Nós o levaremos! Mas então vocês são uns traficantes! Mas não basta apreendê-lo e trazê-lo de volta para a prisão. Ele também deve ser tratado como um prisioneiro de guerra sem a proteção do estatuto. Não podemos legalmente dar-lhe 41 bis e impedimento? Não importa, nós os damos a ele de fato, mantendo-o isolado e impedindo-o de receber o tratamento que lhe permitiria ter acesso aos benefícios reservados a todos os presos. E se ele reclamar, nós o linchamos utilizando a mídia; nós o colocamos contra a vingança popular; aplicamos censura; lhe tiramos o seu computador para trabalhar; o colocamos na secção do ISIS onde ele será forçado a permanecer em isolamento voluntário. Aí está a tortura!

Chegamos agora à minha escolha pessoal de julgamento. Estava dizendo que há vários anos eu vinha cogitando uma solução decente para pôr fim a esta perseguição, onde as forças políticas italianas não poupavam meios coercitivos ou pressões. A propósito, devo salientar que minhas declarações de inocência – nunca dirigidas às autoridades, somente à mídia – apenas apareceram depois de 2004 na França, e isso para forçar o Estado italiano a admitir o uso desviante da Justiça nos julgamentos da luta armada. Antes disso, e depois, eu nunca havia negado minha filiação ao PAC, assumindo as responsabilidades políticas. A responsabilidade criminal deveria ter sido provada primeiro no tribunal, antes de emitir sentenças de prisão perpétua e esperar por confissões tardias. Portanto, deve ficar claro que os países que aceitaram meu pedido de refúgio nunca o fizeram, e não poderiam tê-lo feito, com base a uma suposta declaração de inocência – como falsamente declarado pelo oportunista Lula – mas exclusivamente por causa da natureza política do crime.

Pensei seriamente em uma solução coletiva dos nossos anos 70. O clima político na Itália não era o ideal, mas eu sabia da existência de personalidades e tendências dentro do mundo judiciário que, tendo lutado na linha de frente na guerra contra o “terrorismo” – como dizem hoje em dia – conheciam bem o assunto e não tinham interesse em recorrer à propaganda obscurantista para entender a realidade dos fatos. Certas pistas me disseram que estas pessoas, ou correntes de pensamento, ainda esperavam que um dia pudéssemos virar estas tristes páginas da história com dignidade e respeito pela memória nacional. Posso citar a este respeito o pensamento do magistrado emérito Giuliano Turone, juiz examinador do julgamento sobre os PAC, que em seu livro “O caso Battisti” afirma mais ou menos nestes termos: “Paradoxalmente, aceitando suas responsabilidades políticas e penais, poderia ser apenas Cesare Battisti a tornar possível finalmente rever e encerrar este capítulo da história”. As palavras podem não ser as mesmas, mas o sentido é este. Movido por este sentimento, alimentado pela esperança de que 40 anos eram já muito tempo e que a democracia italiana tinha que ter amadurecido e que o Estado também era um administrador forte e responsável, decidi confiar na justiça e chamei o promotor de Milão. Aquela minha deposição em 23 de março de 2019 foi uma escolha dolorosa. Estava longe da Itália desde 1981, e meus contatos com o belpaese eram reduzidos a poucos membros da família e ao editor. Não podia imaginar que, além da histeria da mídia, eu ainda pudesse despertar a vingança do Estado. Com a enorme dificuldade de ter que voltar a um julgamento que havia sido arquivado por décadas, sem nenhum fato novo para contribuir, exceto pelas ressalvas agora impossíveis sobre minhas próprias responsabilidades. Não me restava nada para fazer a não ser tomar o pacote completo, porém, criminalmente, não teria peso. Diante da escolha de enfrentar um julgamento histórico, e eu não fui o único a acreditar nisso, que sentido teria em mergulhar no código penal 40 anos depois?

Fui condenado a duas penas perpétuas e seis meses de prisão solitária por ter sido considerado culpado de praticamente todos os crimes cometidos pelo PAC, incluindo quatro atentados mortais. Onde a minha presença física no local do crime não podia ser provada, fui considerado o instigador. Devo talvez ressaltar que em tal conflito, os instigadores não existem e, se existissem, teríamos que procurá-los entre o povo? Em qualquer caso, certamente não poderia ter sido eu.

Eu admiti tudo. Reiterei minha autocrítica pela escolha de ter participado da luta armada, porque foi política e humanamente desastrosa. Mas eu não o tinha dito mil vezes ao longo de todos estes anos? Não tinha nada a arrepender-me porque, errado ou não, não se pode mudar com uma visão a posteriori o significado de eventos historicamente definidos por um contexto social específico. Seria absurdo dizer que não poderia ter sido evitado, mas sei que o movimento revolucionário não se esquivou de assumir suas responsabilidades. Não podemos dizer o mesmo por parte do Estado. Também não tinha nada a pedir em troca de minha confissão. Não teria sido legalmente exigido e bastava para mim que tivesse sido aplicada a lei, como para qualquer outro condenado sem o terrível “impedimento”, para ter acesso a algum benefício futuro reservado a todos.

Em resumo, é como dizer, tudo bem, vocês ganharam e eu estou aqui para testemunhar os cantos de vitória imerecida. Mas, uma vez terminada a festa, caro Estado democrático, vamos todos nos comprometer a reabilitar a história violada, enquanto eu cumpro minha sentença, de acordo com os termos das leis nacionais e das regras internacionais da humanidade como qualquer outro condenado? Pura ilusão. Depois de ter ostentado para o mundo inteiro o fruto de uma caçada suja, cantado uma vitória obtida por engano sobre o sangue das vítimas e a honra barrada da História, o Estado dos remendos não se contradiz e mostra sua verdadeira face. Ela se entrega aos bócios da forca, cavalga a onda populista, sacrifica até mesmo a palavra das autoridades que a serviram, mesmo quando não a mereciam.

Este é o sentimento que me acompanhou de Oristano a Guantanamo Calabro, à mercê do ISIS e submetido a um tratamento digno de uma ditadura militar. Mas não perdi a esperança e estou certo de que a justiça e a verdade prevalecerão.

1 No texto original é ergastolo ostativo, que poderia ser traduzido com “prisão perpétua hostil”. É a exceção à regra na medida em que não permite qualquer tipo de benefício ou recompensa para a pessoa condenada. A prisão perpétua hostil é infligida a indivíduos altamente perigosos que cometeram certos crimes (por exemplo, seqüestro com o propósito de extorsão ou associação mafiosa) e é o que é conhecido como o “fim da sentença nunca”.

DAS BARRICADAS #2: Entrevista Sobre as Lutas na Colômbia – com Unión Libertaria Estudiantil y del Trabajo

Esta é a segunda parte de uma série de entrevistas com individualidades, coletivos e organizações anárquicas de diferentes regiões do território dominado pelo estado colombiano.

Dessa vez com a Unión Libertaria Estudiantil y del Trabajo.


As notícias que nos chegam aqui indicam que a insurreição que tomou as ruas se iniciou com uma luta contra a reforma tributária que o governo de Ivan Duque tentou implementar. Todavia, consideramos interessante levar em conta o contexto das lutas recentes nos territórios em que as insurreições acontecem, principalmente porque há menos de 2 anos as cidades colombianas já haviam sido local de manifestações multitudinárias e intensas. Sendo assim, gostaríamos que vocês comentassem um pouco sobre o processo de lutas que está ocorrendo no momento no território dominado pelo Estado colombiano e qual a relação com as lutas que antecederam esse momento.

As lutas de cada território estão sujeitas ao contexto, aos costumes e às necessidades de cada lugar, já que isso influência no pensamento e na posição política de cada habitante. O entorno de rebeldia que estamos vivendo desde 28 de abril deste ano se dá pela acumulação de exigências e demandas que foram feitas nos anos anteriores em cada uma das regiões. As demandas dos trabalhadores, estudantes, camponeses, indígenas, mulheres e dissidências sexuais seguem sendo as mesmas que há 20 anos. As pessoas viram ser traída a sua confiança não apenas no governo de Ivan Duque, esse é um problema de tempos atrás, com a diferença de que no período do atual presidente a violência estatal aumentou, a precarização do trabalho está mais vigente que nunca.

A confiança traída pela burocracia sindical nas manifestações anteriores tem sido o detonador para que a população colombiana inicie sua organização mediante assembleias, que apensar de não serem reconhecidas como um instrumento legítimo dentro da estrutura política do país, é sim um instrumento no qual o povo se sente representado.

O território conhecido como América do Sul possui um histórico bastante intenso de revoltas. Na última década, foram várias… podemos lembrar, por exemplo, da insurreição que tomou as ruas das cidades brasileiras em junho de 2013 ou do estallido social que se evidenciou no território chileno em outubro de 2019. Apesar de suas diferenças entre as forças envolvidas e dos efeitos produzidos, em geral diziam respeito a uma luta contra o aumento no custo de vida, o que significa diretamente uma luta pela vida e contra a miséria produzida pelo capitalismo e pelo Estado. E nos parece que a revolta que está ocorrendo no momento no território colombiano tem algumas características em comum. Como vocês analisam essa relação?

Os povos do mundo inteiro têm uma luta em comum, cujo horizonte é a liberdade e a dignidade. No caso da América do Sul temos em comum, além dos aspectos já mencionados, a invasão europeia disfarçada de descobrimento, que levou ao quase extermínio total das populações indígenas que habitavam esta parte do mundo. O ar de luta que se respira no sul do continente é parte de um exercício de memória das novas gerações e a luta contra o silêncio que no qual os mais velhos tiveram que padecer. A luta é pela liberação do continente invadido por europeus e pelas políticas inumadas do Estado norte-americano.

Por outro lado, as redes sociais têm nos permitido conhecer táticas de luta e organização utilizadas em outros países, o que levou à criação das chamadas primeiras, segundas, terceiras e quartas linhas de defesa e luta durante as manifestações.

A pandemia do Covid-19 tem afetado sobretudo as classes populares tanto em relação a morte por contágio quanto pelo aumento da miséria e piora nas condições de vida. Ao mesmo tempo, em algumas regiões a pandemia e o risco de infecção tem esvaziado as ruas e, de certo modo, funcionado como uma barreira para as mobilizações de rua multitudinárias. Como vocês analisam essa relação, já que a reforma tributária de Duque, por exemplo, afetaria diretamente o sistema de saúde colombiano?

Embora seja verdade que Covid-19 é um vírus que se tornou uma pandemia, não devemos desconhecer o uso que o Estado tem dado a ele como mecanismo de controle da população. Devo esclarecer que o sistema de saúde colombiano sempre foi uma miséria, os trabalhadores da saúde não tem condições laborais dignas. Somado a isso, monopólios burgueses fizeram da saúde do povo colombiano um negócio, portanto as classes populares tiveram de escolher entre a morte por Covid ou a morte por fome, sendo obrigadas a sair para trabalhar de maneira informal e expor suas vidas.

Quero informar com grande alegria que a reforma de saúde que o governo pretendia implantar foi derrubada graças às manifestações que, em muitos casos, as pessoas deram suas vidas nas ruas.

Nos chegam vários vídeos e imagens do terrorismo de Estado com assassinatos, torturas e outras formas de agressão por parte da polícia colombiana. Sabemos que isso não é um fato isolado, pois esta é uma ação regular de todos os Estados, sobretudo quando uma mobilização ataca a ordem e a paz dos ricos. Como se estrutura a policia colombiana e como tem sido o histórico de repressão policial às manifestações?

A polícia colombiana está configurada de maneira hierárquica. No escalão mais alto se encontram os oficiais, seguido de suboficiais e por último ficam os agentes e soldados de patrulha dessa instituição. O corpo armado segue as indicações do Ministério da Defesa.

As manifestações são reprimidas principalmente por um setor da polícia chamado ESMAD (Escuadrón Móvil Anti Disturbios), armado com trajes blindados, escudos, capacetes e armas letais. Apesar de o Ministério da Defesa afirmar que a polícia atua sob todos os protocolos estabelecidos, nas manifestações temos companheiras e companheiros assassinados por esse esquadrão, com ações que vão desde armas de fogo até morte por espancamento. O ESMAD foi implementado na prefeitura de Andrés Pastrana em Bogotá como uma medida temporária, isso já faz 22 anos. Ao que parece, não foi nada temporário.

A maior parte da repressão foi vivida pelo movimento estudantil, desde aproximadamente os anos 60 do século passado se registram mortes em manifestações. Cabe ressaltar que os policiais contam com grande impunidade e encobrimento do Estado.

Existe algum debate sobre a autodefesa nas ruas? Existe algum debate dos movimentos e coletivos em relação a abolição da policia, por exemplo?

O debate geralmente se dá entre a autodefesa popular e as classes altas que sempre vem com maus olhos quando o silêncio da miséria é interrompido nas ruas. Nos bairros populares sempre se sofreu o abuso policial, portanto a defesa dos manifestantes frente aos corpos policiais sempre é justificada e aprovada pelos manifestantes, ainda que as vezes haja certas discordâncias. A ação direta das pessoas se dá como resposta à repressão policial.

A reforma policial sempre é um perigo nas petições das assembleias, até agora temos 52 pessoas mortas nas ruas, esperamos desta vez conseguir se não a abolição desse corpo de assassinos, ao menos levar a cabo uma reforma. Devemos isso às pessoas que já não estão mais entre nós.

Por fim, nos interessa muito as diferentes expressões do anarquismo na região conhecida como América do Sul. Portanto, gostaríamos que vocês falassem um pouco sobre as forças envolvidas nas lutas anárquicas da região colombiana.

A anarquia na Colômbia tem uma grande história, mas foi apagada pelas versões oficiais, incluindo a do Partido Comunista. A Greve das Bananeiras, Ferroviários e o Grêmio Petroleiro do século passado foi movida por anarquistas. O pensamento libertário é muito comum entre a juventude colombiana, ainda que se deva reconhecer que existem algumas carências de organização. Isso tem mudado nas manifestações atuais, o povo responde com uma estrutura horizontal, dada de maneira espontânea e instintiva.

Enquanto ULET, estamos influenciados sobretudo pelo anarcossindicalismo de origem espanhola, mas não desconhecemos que estamos em um contexto totalmente diferente e que nossa prática deve estar de acordo com o território em que vivemos e lutamos.

Não é equivocado dizer que as manifestações que se vivem na atualidade aqui na Colômbia sejam de caráter anarquista, mesmo que não recebam tal etiqueta. O clamor popular se acumula por meio de assembleias e horizontalidade nos diferentes espaços.

PARA SABER MAIS:

DAS BARRICADAS #1: MUROS QUE GRITAM, PEDRAS QUE VOAM – entrevista com Taller la Parresia sobre a insurreição na região colombiana

Colômbia Perdeu o Medo – A Revolta Segue em Todo o País Enfrentando a Violência de Estado

Video: Revolta e repressão na Colombia, por coletivos Antimídia e Submedia


Abajo, la versión original de la entrevisa en español.

Las noticias que nos llegan indican que la insurrección que tomó las calles comenzó con una lucha contra la reforma tributaria que el gobierno de Iván Duque intentó aplicar . Sin embargo, nos parece interesante tener en cuenta el contexto de las recientes luchas en los territorios donde se producen las insurrecciones, sobre todo porque hace menos de dos años las ciudades colombianas ya habían sido escenario de masivas e intensas manifestaciones. Por lo tanto, nos gustaría que comentaras un poco sobre el proceso de luchas que se está dando actualmente en el territorio dominado por el Estado colombiano y cuál es la relación con las luchas que precedieron a este momento.

Las luchas de cada territorio están sujetas al contexto, costumbres y necesidades de cada lugar, ya que esto influye en el pensamiento y posición política de cada habitante. El entorno de rebeldía que estamos viviendo desde el 28 de abril del presente año se da por la acumulación de exigencias y peticiones que se habían dado en años anteriores en cada una de las regiones. Las demandas de los obreros, estudiantes, campesinos, indígenas, mujeres y disidencias sexuales siguen siendo las mismas que hace mas de 20 años. Las personas han visto traicionada su confianza no solo en el gobierno de Ivan Duque, este es un problemas de tiempo atrás, con la diferencia en que en el periodo del actual presidente la violencia Estatal ha crecido, la precarización laboral esta más vigente que nunca.

La confianza traicionada por la burocracia estatal en anteriores protestas ha sido el detonante para que la población colombiana inicie su organización mediante asambleas, que si bien no son reconocidas como un instrumento legitimo dentro de la estructura política que tiene el país si es una instrumento en el que el pueblo se siente representado.

El territorio conocido como Sudamérica tiene una historia muy intensa de revueltas. En la última década ha habido varias… podemos recordar, por ejemplo, la insurrección que tomó las calles de las ciudades brasileñas en junio de 2013 o el llamado estallido social que se hizo evidente en territorio chileno en octubre de 2019. A pesar de sus diferencias entre las fuerzas implicadas y los efectos producidos, en general se trataba de una lucha contra el aumento del coste de la vida, lo que significa directamente una lucha por la vida y contra la miseria producida por el capitalismo y el Estado. Y nos parece que la revuelta que se está ocurriendo actualmente en territorio colombiano tiene algunas características en común. ¿Cómo analizan esta relación?

Los pueblos del mundo entero tienen una lucha en común, cuyo horizonte es la libertad y la dignidad. En el caso de Sudamérica tenemos en común además de los dos aspectos anteriormente mencionados, la invasión europea disfrazada de descubrimiento que lleva a casi el total exterminio de las poblaciones indígenas que habitante para aquella época esta parte del mundo. El aire de lucha que se respira en el sur del continente es parte de un ejercicio de memoria de las nuevas generaciones y la lucha contra el silencia que tuvieron que padecer los mayores. La lucha es por la liberación del continente invadido por europeos y víctima de políticas inhumanas del Estado Norteamericana.

Por otro lado, las redes sociales nos han permitido conocer tácticas de luchas y organización empleadas en otros países, lo que ha llevado a la creación de las primeras, segunda, tercera y cuarta línea de defensa y luchas durante las manifestaciones.

La pandemia de Covid-19 ha afectado, sobre todo, a las clases populares tanto por el número de muertes como por el aumento de la miseria y el empeoramiento de las condiciones de vida. Al mismo tiempo, el riesgo de infección ha vaciado las calles en algunas regiones y ha actuado como una barrera para las grandes movilizaciones callejeras. ¿Cómo analiza esta relación, ya que una de las reformas que Duque pretende implementar afectaría directamente al sistema de salud colombiano?

Si bien es cierto que el COVID-19 es un virus hecho pandemia, no debemos desconocer el uso que el Estado ha dado a este como mecanismo de control de la población. Debo aclarar que el sistema de salud colombiano siempre ha sido una miseria, el personal medico no tiene condiciones laborales dignas. Adicional a esto, monopolios burgueses han hecho de la salud del pueblo colombiano un negocio, por lo anterior las clases populares han tenido que escoger entre la muerte por covid o la muerte por hambre, viéndose obligados a salir a trabajar de manera informal exponiendo sus vidas.

Quiero informarles con gran alegría que la reforma a la salud que pretendía implantar el gobierno ha sido tumbada gracias a las manifestaciones, que en muchos casos han puesto su vida en las calles.

Hemos recibido varios videos e imágenes de terrorismo de Estado con asesinatos, torturas y otras formas de agresión por parte de la policía colombiana. Sabemos que no se trata de un hecho aislado, ya que es una acción habitual de todos los Estados, especialmente cuando una movilización ataca el orden y la paz de los ricos. ¿Cómo está estructurada la policía colombiana y cuál ha sido la historia de la represión policial contra las manifestaciones?

La policía colombiana, esta conformada de manera jerárquica en el escalón mas alto se encuentran oficiales, seguido de suboficiales y por último quedan los agentes y patrulleros de dicha institución. Este cuerpo armada sigue las indicaciones del ministerio de defensa.

Las manifestaciones se ven reprimidas principalmente por una dependencia de la policía llamada ESMAD (Escuadrón móvil Anti Disturbios), armados con trajes blindados, escudos, cascos y armas letales. Aunque según el Ministerio de Defensa el cuerpo policial actúa bajo todos los protocolos establecidos, en las manifestaciones tenemos compañeros y compañeras asesinados por este escuadrón con acciones que van desde arma de fuego hasta muerte a golpes por parte de los uniformados. El ESMAD fue implementado en la Alcaldía de Andrés Pastrana en Bogotá como una medida temporal, esto hace 22 años. Al parecer no fue temporal.

La mayor parte de la represión la ha vivido el movimiento estudiantil, desde aproximadamente los años 60 del siglo pasado se registran muertes en manifestaciones. Cabe aclarar que la policías cuenta con gran impunidad y encubrimiento del Estado.

¿Hay algún debate sobre la autodefensa en las calles? ¿Hay algún debate por parte de los movimientos y colectivos sobre la abolición de la policía, por ejemplo?

El debate generalmente se da entre la autodefensa popular y las clases altas que siempre ven con malos ojos cuando el silencio de la miseria se interrumpe en las calles. En los barrios popular siempre se ha sufrido el abuso policial por lo tanto la defensa de los manifestantes frente a los cuerpos policiales siempre es justificado y aprobada por los manifestantes, aunque a veces se dan discrepancias. La acción directa de los manifestantes se da como respuesta a la represión policial.

La reforma policial siempre es un pliego en las peticiones de las asambleas, a la fecha llevamos 52 muertos en las calles, esperamos esta vez lograr si no la abolición de este cuerpo de asesinos si llevar a cabo una reforma. Se lo debemos a los que ya no están.

Por último, nos interesan mucho las diferentes expresiones del anarquismo en la región conocida como Sudamérica. Así que nos gustaría que hablaras un poco sobre las fuerzas involucradas en las luchas anárquicas en la región colombiana.

La anarquía en Colombia tiene gran historia, pero ha sido borrada por las versiones oficiales e incluso del Partido Comunista. La huelga de las bananeras, ferroviarios y gremio petrolero del siglo pasado fue movida por anarquistas. El pensamiento libertario es muy común en la juventud colombiana, aunque se debe reconocer que se ha caracterizado por la carencia de organización. Esto ha cambiado en las actuales manifestaciones el pueblo responde a una estructura horizontal, dada de manera espontánea e instintiva.

En cuanto a la ULET, estamos influenciados principalmente por el Anarcosindicalismo de origen español, pero no desconocemos que estamos en un contexto totalmente diferente y que nuestra practica debe ser acorde en el territorio en el que vivimos y luchamos.
No es desacertado decir que las manifestaciones que se viven en la actualidad en Colombia son de carácter anarquista, aunque no reciban dicha etiqueta. El clamor popular se recoge mediante asambleas y horizontalidad en los diferentes espacios.

Algumas breves reflexões em torno da luta pelxs prisioneirxs da revolta

Seguindo com a difusão das lutas que ocorrem no território dominado pelo Estado chileno e da campanha pela liberdade imediata e sem restrições de compas anarquistas que caíram antes e durante a insurreição que queimou as ruas daquela região em outubro de 2019, publicamos uma tradução de um texto lançado originalmente em espanhol no canal anticarcerário Refractario, em fevereiro de 2021.

Pela abolição da sociedade carcerária, pela liberação total!

Que viva a anarquia!


Como sabemos, a revolta iniciada em outubro de 2019 não nos trouxe somente belas e enriquecedoras experiências de combate ao Estado e de rachadura nas relações de autoridade, mas também uma longa lista de mortes, torturas, violações, mutilações e prisões.

Durante os primeiros dias, o número de pessoas envolvidas na revolta que ingressavam nas prisões aumentou rapidamente de dezenas a centenas, até chegar ao ápice de milhares. Em dezembro de 2019 o Estado mantinha atrás das grades 2500 delas, acusadas de participar de uma ou outra forma em ações da revolta.

Com o passar do tempo, muitas conseguiram sair com prisão domiciliar ou outras medidas cautelares, pois a maioria estava presa principalmente por delitos considerados menores (desordem, saques etc.). Permaneceram em prisão preventiva principalmente as acusadas de incêndio e portes de bomba molotov, sendo mantidas reclusas em distintas prisões do país, literalmente desde Arica até Punta Arena. Em fevereiro de 2021, sem existir um número exato, não mais de 200 devem ser aquelas que se encontram atrás das grades, mesmo que um alto número esteja em prisão domiciliar ou outras medidas.

Desde o primeiro dia da revolta quem questionou e enfrentou permanentemente a prisão identificou não somente a iminente realidade de quem caíu por conta da repressão, mas também a necessidade de continuar com força a luta pelxs prisioneirxs subversivxs em situações de completa ruptura com a ordem estabelecida. Foi assim que em 27 de novembro de 2019 distintas individualidades anarquistas e antiautoritárias chamaram uma manifestação em frente ao Centro de Justicia, onde se dizia “A quantidade de presxs rebeldes neste momento é impressionante e estão arriscando condenações muito longas. É necessário instalar o discurso anticarcerário antes que seja tarde demais…” e finalizava com a frase “Porque poderia ser qualquer pessoa. Fogo nas prisões, liberdade a nossxs presxs da revolta de outubro e da guerra social”.

Logo, com o passar do tempo se foram formando distintas coordenadorias e instâncias de apoio axs prisioneirxs da revolta de forma mais ou menos permanente, tanto a nível regional como nacional. Durante os momentos ápices da revolta, aquelas orgânicas funcionaram a todo vapor tanto no apoio concreto como na difusão e agitação, muitas vezes sem dar conta da imensa quantidade de prisões, das dificuldades de manter contato com seu entorno e da permanente entrada de novas pessoas no cárcere.

As fortes medidas repressivas instauradas em março de 2020 com a desculpa da pandemia golpearam profunda e inegavelmente o ritmo dos enfrentamentos nas ruas. Assim foi como, nos meses mais agudos de confinamento e prisão, essas persistentes iniciativas mantiveram viva a necessidade de apoio axs presxs da revolta e a visibilidade de suas diferentes situações particulares. Quando as ruas voltaram a ser tomadas de forma massiva e com vitalidade pelxs rebeldes, o tema dxs prexs políticxs da revolta 1 já estava completamente instalado.

Foi justamente no contexto do plebiscito por uma nova constituição (setembro-outubro-novembro) que não apenas surgiram inúmeros grupos de apoio axs prisioneirxs da revolta, mas também grande parte das assembleias territoriais e individualidades voltaram seu interesse ao tema das prisões. Após o plebiscito essa realidade se tornou inegável, talvez movidas pela culpa de ter apoiado a institucionalização da revolta, com certa vergonha de quem votou nas urnas do poder (incluindo várixs “anarquistas”) ou talvez pelo “dever democrático” de resolver o tema das prisões da revolta às portas de um novo processo. O certo é que o assunto realmente se espalhou por toda parte, transbordando qualquer organização que tivesse algum caráter específico de apoio às pessoas presas. Desde então a situação dxs prisioneirxs da revolta adquiriu um protagonismo, passando a ser parte dos principais pontos de mobilização das ruas.

Vasculhando becos sem saída

No final de 2020 começou a ser gestada, por parte de alguns setores, a necessidade de buscar uma “solução política” axs presxs da revolta e, em função dessa necessidade, ir trabalhando em sua criação, gestão e, óbvio, sua administração.

A “solução política” assume que o encarceramento de quem participou da revolta se deve a motivações políticas e por isso uma das possibilidades de sua liberação seria de caráter político-administrativo, muito mais do que jurídico. Tudo isso considerando a enorme quantidade de pessoas processadas e as diferentes situações que englobam xs presxs da revolta.

Com essa premissa, vários interesses começaram a confluir, construindo uma saída institucional em relação às prisões. De um lado se encontrava uma fração dos poderosos, partidos políticos e administradores das estruturas, que buscavam capitalizar politicamente essa mobilização, voltar a legitimar e se validar politicamente, bem como respaldar seus próprios candidatos a constituintes. A aposta destes setores é a desmobilização e a paz social após “solucionar” o problema dxs prisioneirxs políticxs, continuar com a institucionalização da revolta e limpar o processo constituinte.

De outro lado se encontram os distintos grupos e coletivos que nasceram nos últimos meses em apoio axs presxs políticxs da revolta, vários deles com partidos políticos ou candidatos constituintes por trás (basta cavar um pouquinho – não muito, só um pouco – para se da conta, para poder ver suas bandeiras), que somado a algumas organizações, buscam se legitimar frente aos poderosos (daí as inumeráveis e entediantes cartas escritas aos partidos, políticos, instituições etc. há mais de um ano), desejosos de mais democracia e mais direitos. São os excluídos desejosos de serem incluídos nas estruturas de dominação, quem não busca destruir a ordem imperante, mas reformar e melhorar o funcionamento de suas engrenagens.

Como evidência de tudo isso podemos ver, em novembro de 2020, a gestação de um “Grupo de iniciativa por la Liberación de los presos políticos”, que obviamente não se refere a todas as pessoas que poderiam ser consideradas presas políticas, mas somente, exclusiva e excludentemente aquelas presas durante a revolta. Aquela iniciativa está (ou estava) conformada por Agrupación de Familiares de Presos Políticos Santiago 1, Agrupación de Familiares y Amigos de Presos de Políticos, Agrupación de Familiares y Amigos de Prisioneros Políticos Guacoldas, Agrupación de Prisioneros Políticos de la Granja em conjunto com uma série de deputados do Partido Comunista, Revolución Democrático e Partido Progresista.

Já não se buscava mais forçar uma saída política, como ocorre com inumeráveis greves de fome, mobilizações de rua ou lutas intermediarias, mas diretamente ser parte do grupo e auxiliar os poderosos. Como boa negociação da mão do poder, muitos desses grupos foram se transmutando e acomodando suas posições a medida que foram caminhando com os poderosos, como veremos mais adiante.

Presxs da revolta

Como é sabido, a realidade dxs presxs da revolta é diversa e distinta, como o é e tem sido a própria revolta: estudantes, periféricxs, conscientes, posições revolucionárias, democratas, indignação, cidadanismo, apoio à nova constituição, contra todas as constituições etc.

Acreditar em uma identidade própria ou uma forma lógica das pessoas presas no contexto da revolta não somente é irreal e poderia implicar em uma falsificação histórica, mas gera continuamente o choque contra a muralha dos fatos. As contínuas petições/recomendações/sugestões para que xs presxs da revolta se organizem, buscando comparar com outros momentos de encarceramento massivo (ditadura ou durante a década de 1990) são completamente distantes da realidade. E isso não por uma mudança no grau de repressão e nem pelas modificações na realidade carcerária entre gendarmes e presxs, nem tampouco pelo tipo de prisão, mas justamente pelas diferentes trajetórias e posicionamentos das pessoas. Muitas vezes existindo posturas completamente distintas, contraditórias ou atém mesmo antagônicas tanto políticas como no cotidiano.

É esta a realidade dxs presxs da revolta e sua dinâmica a nível nacional. Da mesma forma existe uma série de particularidades em cada prisão e inclusive em cada módulo, onde muitas vezes existe um desconhecimento da história recente (ou inclusive atual) da prisão política ou até mesmo de outras realidades de prisioneirxs da revolta no mesmo território.

Em maio de 2020, “Algunos anarquistas presos en el módulo 14 de santiasco 1” alertavam sobre a “danosa ‘romantização’ que a rua e a luta deram a este módulo de ‘manifestantes’. Os ânimos da luta não somente se dissolveram na rua, houve um efeito real na capacidade de coordenação entre nós e o exterior”.

É dentro desta grande variedade que existem exceções que levantaram distintas iniciativas dentro, desde bibliotecas, barrotazos 2 e gestos que xs permite se posicionar de uma ou outra maneira.

Na atualidade, desde o plano prático, nos encontramos com pequenos grupos de presxs em regiões e uma quantidade maior em Santiago, principalmente na prisão/empresa (concedida) Santiago 1. Grande parte de quem caiu por ações associadas à revolta começou a habitar o módulo 14, destinado em um primeiro momento exclusivamente para elxs, e logo em seguida foram transferidxs para o módulo 12, onde estão até hoje. Quem caiu após a quarentena, durante o recrudescimento das manifestações, começou a habitar o módulo 3, isso sem falar dos vários casos de prisioneirxs da revolta que se encontram dispersos em outros módulos por distintas circunstâncias.

Ainda no sentido prático, várias pessoas conseguiram sair com a modificação de medida cautelar, outras aceitaram um julgamento abreviado e conseguiram cumprir sua pena em “liberdade vigiada”, há também aquelas que acabaram de ser presas e outras (até agora somente um punhado) foram condenadas à prisão. A realidade é sumamente dinâmica e versátil entre xs presxs da revolta.

Apesar de terem saído alguns textos escritos por elxs, alguns assinados, outros anônimos e alguns agrupados como “Presxs Subversivxs em Resistência”, a família adquiriu um papel relevante tanto como porta-voz como na integração de determinadas instâncias.

Indulto/Anistia

Antes de continuar, uma breve e simples definição a respeito destas medidas excepcionais do Estado de intervir em um processo jurídico: o Indulto “perdoa” a pena do delito, do já condenado; enquanto que a Anistia “perdoa” o próprio delito pelo qual a pessoa é processada. O Indulto assume que houve um delito e um castigo, mas é o castigo que se perdoa enquanto que a Anistia assume que realmente o delito não foi tal devido à condições especiais do contexto no qual ocorreram.

Apesar de inicialmente os distintos grupos começaram a avaliar a possibilidade de uma saída política, ela sempre foi pensada mediante mobilizações de rua, as denúncias e a agitação levariam o poder a um caminho no qual a Anistia parecia ser a saída mais adequada para a situação dxs presxs da revolta.

Ao que parece, a criação e as negociações no interior do “Grupo de iniciativa” fizeram com que, rapidamente, vários discursos e posições se transmutassem. Desse modo alguns grupos tiveram que abandonar a sua defesa da Anistia como também reescrever seus panfletos e/ou declarações. Agora a Anistia não serviria e nem seria possível, mas o melhor caminho seria o Indulto. E porque? Alguns setores das velhas organizações de Direitos Humanos, verdadeiros traficantes da memória e dxs mortxs, se incomodavam com o conceito de “Anistia” já que lhes recordava a aplicação de tal ferramenta durante a ditadura (com uma memória curta e repleta de lugares comuns). De igual maneira, o Indulto é menos lesivo ao Estado de direito, já que de uma ou outra forma reconheceria o funcionamento das investigações, das polícias, dos tribunais e somente se perdoaria a sentença.

Finalmente em 9 de dezembro de 2020 os senadores participantes do “Grupo de iniciativa” começaram a tramitação da lei de Indulto axs presxs do “estallido social”, projeto que finalmente, durante seu desenvolvimento, resultou ser um híbrido entre Anistia e Indulto.

No contexto destes debates públicos, em espaços de solidariedade, dentro da prisão e também em múltiplos conflitos quanto a participação ou vínculo de representantes de instituições, xs “Presxs subversivxs en resistencia”, desde Santiago 1 lançaram um comunicado listando uma série de requisitos “seja para a anistia ou indulto” e mostrando seu total rechaço a convivências com os poderosos.

Outros espaços decidiram seguir apostando na Anistia, ainda que, na prática, o único projeto existente fosse o de Indulto. Desenvolvendo desde então uma campanha e uma presença nas ruas pela “Liberdade imediata sem condições” sem necessariamente fazer referência ao Indulto.

Ao longo da história e em diferentes momentos históricos, ambas ferramentas (Indulto ou Anistia) foram utilizadas pelo Estado de acordo com o momento e com perspectivas históricas determinadas. Em alguns momentos essas possibilidades foram vistas e apoiadas por distintos grupos revolucionários, como exemplo podemos mencionar os Indultos do início de 2000 alcançados por meio de mobilização e luta por prisioneirxs subversivxs pertencentes a grupos armados dos anos 1990, condenadxs a altíssimas penas de prisão, o que lhes permitiu sair da prisão, alguns dxs quais caíram anos depois ao continuar lutando.

Por outro lado, houveram diferentes Anistias durante a ditadura que conseguiram liberar várixs prisioneirxs políticxs, como também assegurar a impunidade judicial de milicos.

Nos anos 1970 houve o Indulto fornecido pela Unidade Popular a miristas (integrantes do Movimiento de la Isquerda Revolucionária) e vopistas (integrantes da Vanguardia Organizada del Pueblo), como também uma série de Anistias decretadas pelo Estado após conflitos sociais, buscando refundar sua legitimidade e paz social. No plano internacional podemos lembrar das lutas dos Grupos Autónomos na Espanha pela Anistia total de todxs xs prisioneirxs revolucionárixs dos distintos grupos armados daquela época ou também das referências à “Anistia geral” feitas pelos setores mais radicalizados do ETA (Euskadi Ta Askatasuna) na prisão.

Isso somente para pincelar com um pouco de história, pois existem milhares de experiências mais. As críticas ao Indulto como ferramenta incidem no fato de ser considerada o pedido de perdão e clemência ao Estado; enquanto que as críticas à Anistia podem ser encontradas principalmente nos escritos de Alfredo Bonanno, que afirma que a apelação a tal medida é um chamado a pôr fim ao enfrentamento e inclusive negar a existência do antagonismo. O certo é que ambas são medidas do Estado, fórmulas que quando forem conseguidas por meio da luta, sem arrependimento, com dignidade e posições revolucionárias firmes, podem significar uma vitória parcial em determinadas lutas. Esta lógica é aplicável quando se pensa desde posições revolucionárias, situação que muda quando compreendemos que em uma revolta social, quem participa no combate de rua, a pessoa que está presa ou quem foi golpeada pela repressão não tem porque ser necessariamente companheira de luta e, portanto, as avaliações da realidade são muito diferentes. O principal risco está na crença, na fé no Estado, na justiça e em compartilhar o significado dos conceitos com o inimigo: o perdão, a paz, o arrependimento, a democracia, os direitos humanos e a clemência.

Por todas as pessoas sequestradas pelo poder

Reconhecemos a condição de reféns do Estado dxs presxs e nessa situação assumimos que as distintas batalhas que têm ocorrido e sempre ocorrerão implicam em negociar com inimigo desde a correlação de forças, assim têm sido as mobilizações, as greves de fome, o reconhecimento de “direitos prisionais”, incluindo alguns julgamentos ou tratamentos médicos. O equilíbrio entre arrancar uma decisão favorável seja mediante uma greve de fome ou intensas mobilizações de rua não é e nem será o mesmo que se sentar, forjar, administrar e engolir saídas políticas em conjunto e desde o próprio sistema. Mesmo quando possa existir um diálogo com o poder e o inimigo, este não será desde o mais baixo clientelismo político, convivência ou buscando sua validação.

A centralidade que a luta pela liberdade dxs presxs da revolta tem tido é importante e foi relevante sobretudo para a própria mobilização de rua. Instalar a prisão como uma realidade possível, viabilizar o invisível do cárcere e ir posicionando uma crítica aguda ao Estado e suas prisões é um desafio permanente no fecundo campo da inestabilidade social aberta desde outubro de 2019. Contudo, esta luta não deve esquecer das contínuas batalhas dxs demais companheirxs prisioneirxs, nos referimos pontualmente a Juan Aliste, Marcelo Villarroel, Joaquín García, Juan Flores, Mauricio Hernández, Pablo Bahamondes, Francisco Solar, Mónica Caballero e Felipe Ríos, para quem, em alguns espaços de solidariedade, parece haver uma separação tácita entre xs presxs “do bem” e “do mal”. Esquecer dos discursos vitimistas não é somente importante, como também uma necessidade para a sobrevivência da solidariedade revolucionária sem que seja asfixiada nos discursos democráticos de direitos humanos.

O projeto de Indulto seguirá seu caminho, se ele permite que algumas pessoas presas no contexto da revolta voltem às ruas, ótimo, se seu projeto fracassar (basta recordar a ameaça de veto ao projeto, expressa pelo governo) nossa disposição tem de conseguir ultrapassar as fórmulas e cálculos dos poderosos. Combater e se mobilizar pelxs presxs da revolta, subversivxs, anarquistas e mapuches é um contínuo que não cabe naqueles acordos entre senadores e aquelas paródias de movimentos revolucionários dos anos 1980-90. Assumir as reais possibilidades de tirar companheirxs da prisão tem de ser um desafio para ultrapassar a mera “assistência” à sua prisão ou as referências abstratas e etéreas que impedem a materialização das solturas

Lembrar que é na rua, na propaganda e na agitação multiforme onde subjaz nossa força e vitalidade. É justamente desde a oposição total a este mundo que podemos gerar estratégias para tirar xs companheirxs das prisões e enfrentarmos obstáculos concretos, como a modificação do decreto 321, que freia a “liberdade condicional”, ou a continuidade de penas por parte da procuradoria militar a prisioneirxs revolucionárixs (Marcelo Villaroel e Mauricio Hernandez), bem como os próximos julgamentos que virão a curto prazo contra prisioneirxs da revolta, axs quais são exigidas décadas de prisão.

Destruir e superar tais obstáculo serão conquistas específicas e palpáveis da luta, como têm sido a volta das visitas com um mínimo grau de dignidade. Tudo dependerá de nós e dxs companheirxs na prisão, as vontades e os gestos concretos.

Claro, podemos nos conformar com isso, com os ganhos mínimos, podemos situar que a mão do Estado está por trás de tudo, onde qualquer luta estará perdida de antemão ou simplesmente podemos combater tudo que temos a combater para continuar a batalha milimétrica dentro das prisões, tirar compas do cárcere para que das grades e das cadeias sobrem apenas ruínas.

Presxs da revolta para as ruas, ruas para a revolta!

A derrubar a modificação da 321! A combater a prisão perpétua encoberta!

Que a revolta arrebente os muros das prisões”

Publicación Refractario

Fevereiro de 2021


1 Nota de Tradução: apesar da expressão “presx políticx” ser utilizada poucas vezes no decorrer do texto, sendo priorizado mais os termos “presx subversivx” ou “presx da revolta”, a partir de uma perspectiva abolicionista penal nós consideramos importante ressaltar que toda prisão é política. Admiramos e saudamos o cuidado e sensibilidade com os quais essa discussão é apresentado no texto e o modo pelo qual este repercute as práticas em geral da luta anticarcerária que vem se fortalecendo no território dominado pelo Estado chileno, sobretudo ao tratar da continuidade da luta dentro do cárcere e da ação de algumas pessoas sequestradas pelo Estado de se assumirem enquanto presas subervisas. Por entendermos a importância deste debate e por buscarmos estimulá-lo permanentemente, tomamos a liberdade de escrever esta nota, pois em nossa perspectiva o uso de determinados termos não se limita a um preciosismo linguístico, mas possui efeitos concretos na luta pelo fim da sociedade carcerária e pela liberação total.

2 N.T.: tipo de manifestação ocorrida dentro das prisões que consiste em fazer ruído dentro das celas, batendo nas grades, barrotes em espanhol.

Bem-vindas às Linhas de Frente: Além da Violência e da Não-violência – por coletivo Chuang

O texto a seguir foi lançado em junho pelo Coletivo Chuang  e traz uma importante e inovadora análise dos recentes levantes em Hong Kong contra a lei de extradição e seus paralelos e influência sobre as ondas de protesto no Chile e nos Estados Unidos nas táticas usadas por manifestantes e a relação entre “violência” e “não-violência”. Traduzimos e lançamos o material porque ele oferece uma abordagem que atualiza o debate sobre como manifestantes encontraram formas de cooperar em diferentes táticas, posições e capacidades para que o maior número e variedade de pessoas pudessem participar dos protestos com maior segurança e enfrentar as leis e a violência policial em uma ampla cooperação.

mencionamos o trabalho do coletivo Chuang, sempre crítico ao capitalismo de estado da China, especialmente em relação à crise que sanitária em que vivemos com seu artigo Contágio Social – Coronavírus, China, Capitalismo Tardio e o ‘Mundo Natural’. Esperamos que esse novo texto contribua para o debate e inspire os próximos momentos de agitação e protestos de rua no Brasil e no mundo.


Bem-vindas às Linhas de Frente: Além da Violência e da Não-violência

Em maio e junho de 2020 os EUA assistiram a alguns dos maiores protestos e levantes combativos em décadas. O movimento, que tomou o país, começou em Minneapolis após a polícia assassinar George Floyd. A raiva que se seguiu levou a manifestações em massa, confrontos com a polícia, incêndios e saques, luto e rebelião que se espalharam por todos os estados do país em questão de horas. A delegacia do Terceiro Distrito Policial de Minneapolis, onde os policiais assassinos trabalhavam, foi incendiada e carros de polícia foram queimados também de Nova York a Los Angeles nos maiores ataques à edifícios de instituições estatais repressivas dos EUA em mais de um século. Tais atos foram abastecidos por décadas de raiva contra a polícia racista e o incessante assassinato de pessoas negras pelas mãos da polícia. Agora, até a esquerda eleitoral reformista está discutindo seriamente uma versão mais suave da abolição da polícia em nível nacional, re-imaginada como “cortar os orçamentos” da polícia, e o Conselho da Cidade de Minneapolis prometeu “dissolver” o departamento de polícia da cidade. Há pouco tempo, tal demanda teria sido considerada utópica.

À medida que o movimento contra a brutalidade policial e a própria instituição da polícia se desenrolam rapidamente nos EUA, já vimos marcas de outros confrontos e lutas de massas que surgiram em todo o mundo no ano passado, do Chile à França, Líbano, Iraque, Equador e Catalunha, para citar apenas alguns. Aqui, qualquer análise ampla da rebelião nos EUA seria prematura, já que os incêndios dos motins ainda estão literalmente acesos nas cidades do país. Em vez disso, gostaríamos de fazer algumas breves observações sobre as lutas em Hong Kong, sobre as quais fizemos o nosso melhor para acompanhar de perto, concentrando-nos em uma inovação tática específica que acreditamos ser uma contribuição útil para os protestos em andamento nos EUA e além. Já vimos pessoas nas ruas adotando lições isoladas de Hong Kong e outros pontos críticos no ciclo global de rebeliões do ano passado: uma barricada indiscutivelmente ao estilo Hong Kong com carrinhos de supermercado do lado de fora do Terceiro Distrito Policial em Minneapolis, técnicas para extinção de gás lacrimogêneo em Portland, relatos de lasers ofuscando as câmeras policiais e viseiras em várias cidades, guarda-chuvas contra spray de pimenta em protestos em Columbus e Seattle, e grafites em apoio a manifestantes de Hong Konge nas portas de lojas fechadas ou saqueadas em várias cidades. As semelhanças eram tão impressionantes, de fato, que levaram o paranoico editor-chefe do tabloide estatal chinês The Global Times, Hu Xijin, a concluir que “os manifestantes de Hong Kong se infiltraram nos Estados Unidos” e “planejaram” os ataques.

“Você vê as pessoas implantando táticas de Hong Kong de maneira muito eficaz aqui, implantando táticas de Hong Kong aqui, para impedir que o gás lacrimogêneo atinja manifestantes e veículos”
Vai Portland! Use esse grande cérebro HK IQ!”

Pouco podemos fazer para orientar a maneira como esse movimento se desenrola (nem gostaríamos de fazê-lo), mas esperamos que algumas das ferramentas e táticas empregadas por nossos amigos e camaradas em Hong Kong possam ser úteis para aqueles que estão nas ruas de outras cidades.[1] Em particular, oferecemos para sua avaliação o desenvolvimento do papel de “linha de frente” no movimento de Hong Kong, com a esperança de que possa ser útil para superar a divisão entre participantes combativos e pacíficos nas ruas em outros lugares.

Como em movimentos do passado, já houve divergências significativas sobre como se envolver com as forças do estado nos EUA. Como com outros movimentos desde Ferguson e de antes, algumas (mas não todas) organizações ativistas formais começaram a se engajar com a ala “branda” da força policial local, entrando em ação para conter as ações de confronto no início dos protestos: “Líderes comunitários” colaboram com a polícia, conduzindo multidões para emboscadas e panelões (envelopagem ou kettling) e, literalmente, apontam manifestantes “violentos” na multidão. Enquanto isso, os governos locais em todo o país afirmam que aqueles que estão iniciando a destruição de propriedade ou lutando contra a polícia são “agitadores externos”, com o prefeito de Seattle tweetando que “grande parte da violência e da destruição, tanto aqui como em todo o país, foi instigada e praticada por homens brancos”. Mas é bem óbvio que a raiva reprimida contra a polícia é extremamente generalizada e emergiu um amplo consenso nas ruas de que ela deve se combatida.

Hong Kong pode oferecer um caminho que escapa à aparente inevitabilidade dos conflitos sobre violência, não violência e como se envolver com as forças do estado. Para aqueles que buscam uma nova maneira de preencher as lacunas entre as formas ação combativas e as de ação pacífica, pensamos que uma das contribuições mais importantes da cidade para a nova era de lutas tem sido o desenvolvimento de papéis e formações particulares a serem implantados nas ruas, bem como as estruturas por trás desses papéis que ajudaram a engajar melhor as pessoas dispostas a lutar contra policiais em coordenação com outras pessoas no movimento. Em particular, queremos destacar o conceito de “frontliners” (“linhas de frente” ou “primera línea”) de Hong Kong, que não apenas desenvolveram muitas técnicas de sucesso para confrontar a polícia, mas também estabeleceram um novo tipo de relação entre os membros combativos e não-violentos das ações de rua através de muitos meses de experimentação .

“Mais guarda-chuvas na linha de frente aqui em Seattle. Já passamos cerca de cinco minutos do toque de recolher e até agora ainda está tudo pacífico. Se quiserem assistir ao live dm me pelo link pic.twitter.com/ZyKMoGe0PL
— katie (@shikonshoto) June 3, 2020″

O que significa estar “na linha de frente?” O termo se tornou incrivelmente popular nos últimos meses em vários idiomas e campos sociais, especialmente para se referir a profissionais da saúde e outros que são particularmente vulneráveis ​​à pandemia da Covid-19 em andamento. Isso ofuscou a onda original de popularidade do termo na cobertura da mídia no ano passado, quando se referia a manifestantes em várias partes do mundo. As saudações oficiais a profissionais da saúde enquanto trocava de turno em Wuhan e Nova York nos soam muito estranho, pois são orquestrados pelo estado e fazem um eco ao “¡vivan lxs de la primera línea!” que saudou manifestantes que voltavam de batalhas com a polícia no Chile no outono passado.

O que permitiu essas manifestações versáteis e aparentemente opostas do termo foi justamente sua capacidade de integrar atividades que, em outro contexto, estariam separadas, propondo uma unidade definida não pela homogeneidade, mas pelo apoio à luta geral, simbolizada por aqueles na “linha de frente”. Agora, com o retorno dos protestos nos Estados Unidos, parece possível que o uso do termo possa voltar a se referir às pessoas que enfrentam a polícia: Em Connecticut, uma fila de manifestantes vestidos de preto enfrenta a polícia usando máscaras que antes eram destinadas a prevenir a propagação do vírus e, em uma captura de tela borrada do momento, uma mulher segura uma placa que diz: “os únicos aliados são os que estão na linha de frente”.

Via Chen Ronghui

A ideia básica que permite ao conceito de linha de frente integrar o movimento além da velha divisão entre “violência” e “não-violência”, ou “diversidade de táticas”, é que quem está na linha de frente assume riscos pessoais para proteger quem está ao redor, preferencialmente com (mas frequentemente sem) equipamentos de proteção especiais, e esses riscos ajudam a impulsionar todo o movimento. É também por isso que o conceito se estendeu tão facilmente à resposta à pandemia, porque a lógica básica do risco pessoal em apoio à luta é mais ou menos a mesma. Mas, nesses casos, o estado tinha um claro interesse em mobilizar o termo para cooptar respostas populares ou disfarçar sua própria incompetência, tudo com o objetivo final ainda sendo a supressão da pandemia. Agora, porém, o estado não tem esse interesse, uma vez que não compartilha do mesmo objetivo dos manifestantes que invocam o conceito de linha de frente. Em vez disso, ele apresentará “líderes comunitários” e talvez até mesmo os retrate como presentes “na linha de frente” do movimento de alguma forma, mas não há necessidade nem mesmo de fingir apoiar aqueles que realmente estão em conflito com a polícia. Isso significa que o termo tem a capacidade de retornar ao significado que ganhou em Hong Kong, definido através dos riscos assumidos em defesa de todas as pessoas ou do ato de colocar a própria vida em risco para manter todos os outros seguros e, ao mesmo tempo, impulsionar a luta.

No decurso da escalada dos confrontos de rua ao longo de 2019, os manifestantes de Hong Kong produziram inovações rápidas, incluindo a invenção de novos equipamentos e formações distintas com posições táticas específicas a serem preenchidas dentro do corpo do protesto. A “frontliner” pessoa na linha de frente surgiu neste contexto como um papel reconhecível para aqueles que, com estratégias para extinguir gás lacrimogêneo e escudos, se posicionaram diretamente contra a polícia, apoiadas por camaradas nas segunda e terceira linhas.

Tradução de slogans entre protestos de Hong Kong e do Chile: “Não voltaremos à normalidade, porque a normalidade era o problema”.

Essa inovação tática se espalhou rapidamente, primeiro para o Chile e depois para outros contextos latino-americanos. O primeiro salto de Hong Kong para o Chile provavelmente foi traduzido por meio de um vídeo dos protestos carregado no YouTube ou simplesmente transmitido pelo ar inebriante do ciclo de revolta de 2019. Um participante de um “clã” chileno da linha de frente deixa claro que as táticas que seu grupo usa foram adotadas em Hong Kong. Logo, outros manifestantes locais estavam preparando táticas notavelmente semelhantes, incluindo escudos, slogans, construção inventiva de barricadas e a adaptação generalizada de canetas laser de alta potência como ferramentas para interromper a visão e as câmeras da polícia (bem como, em um caso memorável , a destruição de um drone policial). Além dessas adaptações específicas, a estrutura do movimento chileno também foi organizada em linhas reconhecíveis: após um período de manifestações contra o aumento dos preços do transporte público, incluindo a evasão generalizada de tarifas e grandes marchas, uma repressão policial desencadeou manifestações massivas e tumultos que são amplamente referidos no Chile como uma “explosão social”. No vídeo de um protesto na Plaza Italia, Santiago, Chile, um homem em um prédio com vista para a praça observa com entusiasmo que a manifestação “só é possível por causa de um grupo de crianças” que se organizou “para deter as forças repressivas”.

No período seguinte, com a declaração do estado de emergência em cidades de todo o país, o espaço para manifestações pacíficas foi defendido por uma linha de frente de manifestantes dispostos a lutar contra a polícia. Como em Hong Kong, esses frontliners eram organizados principalmente por funções: portadoras de escudos, atiradores de pedras, médicos, “mineiros” (arrancando petras para jogar), manifestantes na linha de trás com lasers para interromper a visão policial ou câmeras e barricadas para bloquear avanços. Ao contrário dos desenvolvimentos posteriores na estratégia de “ser água”(“be water”) de Hong Kong, que focava no desgaste da polícia por meio de constante mobilidade, o movimento chileno começou com a linha de frente estabelecendo e defendendo linhas específicas em torno da “zona zero” ou “zona vermelha” para evitar que os policiais entrassem em áreas onde outras manifestantes estavam reunidas. Com o aumento da repressão, no entanto, os confrontos diários tornaram-se essencialmente batalhas de rua entre a linha de frente organizada e a polícia. Ainda assim, no entanto, a importância da linha de frente como uma ferramenta para tornar possível o protesto de rua foi amplamente reconhecida por pessoas dentro e fora do movimento, com “representantes da linha de frente” recebendo aplausos intensos quando convidadas para participar de talk shows. Como em Hong Kong, frontliners que formaram grupos autônomos para defender o movimento tiveram apoio de participantes externos, tanto anonimamente quanto em grupos, como alguns meios de comunicação de direita reclamaram.[2]

Táticas semelhantes também foram adotadas na Colômbia, via Chile e Hong Kong, à medida que grupos se organizando no Facebook reconheceram que havia a necessidade de proteger os manifestantes no movimento estudantil da violência policial. No entanto, os primeiros membros dos grupos da linha de frente mais proeminentes declararam que agiriam de formas puramente “defensivas” em vez de atacar a polícia diretamente. Mas, à medida que o movimento popular mais amplo se extinguiu, as opiniões sobre esses grupos (caracterizados por seus escudos azuis amigos​​ da mídia) começaram a mudar. Os frontliners adotaram conscientemente a estratégia “seja água” de Hong Kong, mas isso foi percebido por muitos nos movimentos estudantis como um abandono físico do movimento estudantil, que não tinha feito as mesmas escolhas táticas. De forma mais ampla, a linha de frente nos protestos estudantis colombianos foi considerada oportunista, tentando fazer um espetáculo amigável à mídia e tentando conduzir marchas para longe das rotas acordadas. No final das contas, esse tipo de “linha de frente” altamente inorgânica se alienou do apoio que primeiro recebeu do resto do movimento.

“Amor pela Primera Línea” em grafite nos protestos chilenos.

Em todos esses diferentes contextos, o desenvolvimento do papel linha de frente marcou um avanço significativo nas táticas de confronto de rua com a polícia. Essas táticas devem, é claro, mudar para se adequar a situações particulares, mas podemos aprender com o conhecimento global cada vez maior da luta. Na década seguinte ao declínio do movimento alter-globalização ou antiglobalização, a discussão sobre táticas para combater a polícia em grande parte congelou em debates sobre o “black bloc”. Originado na Alemanha dos anos 1980, o black bloc se refere à tática de usar trajes de protesto totalmente pretos, que impedem a polícia de apanhar um indivíduo no meio da multidão. Em parte devido ao seu sucesso prático, as ações do black bloc nos Estados Unidos e em grande parte da Europa foram sujeitas a debates intermináveis ​​que, em última instância, se resumem ao papel que a ação combativa deve desempenhar nos protestos de rua. Nos Estados Unidos, o resultado final foi uma redução das tensões em que os manifestantes que apoiavam a ação combativa e aqueles que só podiam apoiar a ação não-confrontativa chegaram a se dividir em áreas das cidades para evitar a interação entre os grupos. Afirmações de que o black bloc protege manifestantes não-violentos (seja diretamente ou atraindo a repressão policial e seus recursos para outros lugares) têm sido pontos de discordância comuns, mas nunca chegaram a um consenso. Na melhor das hipóteses, há uma defesa de uma “diversidade de táticas”, talvez a melhor expressão para descrever essa frágil redução de tensões.

Logo no início de tais movimentos, a diversidade de táticas permite uma tênue coexistência de protestos combativos e pacíficos, uma vez que há muitos participantes e múltiplas marchas, permitindo que as pessoas se distribuam nos locais onde prevalece seu tipo preferido. O termo efetivamente imagina esferas inteiramente diferentes nas quais “diversas táticas” podem ocorrer. Mas nem sempre é esse o caso. À medida que a repressão do estado aumenta e o momentum projeção inicial diminui, as duas esferas são forçadas a se fundir. É precisamente neste ponto que táticas mais agressivas são necessárias para defender o movimento como um todo contra a polícia e para continuar empurrando as coisas para frente enquanto a energia dos participantes diminui. Por um lado, é quando a função repressiva do estado é ativada, à medida que a polícia local é reabastecida e recebe apoio de níveis superiores de governo. No entanto, por outro, este é também o momento em que o estado mobiliza seu aparato de controle brando (soft control) na forma de lideranças comunitárias, organizações sem fins lucrativos e políticos “progressistas”, todos os quais desempenham um papel essencial no rompimento da tênue aliança tática que existia nos primeiros dias. Afinal, essas são as pessoas mais bem-sucedidas em difundir o mito do “agitador externo”, criticando o dano à propriedade causado pelo “anarquista branco” e, muitas vezes literalmente, entrando no meio para evitar ataques contra polícia ou mesmo o resgate de manifestantes detidas e, após os protestos, são as que vão encorajar as pessoas a entregar vídeos delatando quem jogou garrafas na polícia e inundar as redes sociais com postagens afirmando que foram policiais ou mesmo nacionalistas brancos que quebraram as primeiras janelas.

Nos protestos de 2019 em Hong Kong e no Chile, porém, de maneiras e velocidades diferentes, a afirmação de que o bloco protege outras pessoas transformou-se em um saber claro e inegável. Isso foi possível em parte por meio do apagamento de quaisquer significados anteriores atribuídos à tática black bloc e sua substituição pelo papel da primera línea: manifestantes que, ao se sujeitarem ao grave perigo e ao gás lacrimogêneo, estavam agindo unicamente em defesa de todas as outras no protesto contra a polícia. Isso representa uma mudança: não há mais uma grande separação geográfica em dois corpos de manifestantes (uma zona de protesto pacífico e outro de confronto), mas em vez disso, um único corpo se uniu, protegido na linha de frente por aqueles que assumiram o papel de estar lá. Em um sentido ainda mais amplo e, talvez ainda mais importante, os protestos de Hong Kong e do Chile reconfiguraram totalmente o papel dos manifestantes vestidos de preto, mascarados e combativos dispostos a lutar contra a polícia. Ao contrário da situação nos Estados Unidos, onde muitas vezes é possível que a mídia e a polícia colaborem no isolamento de combatentes, retratando-os como separados do corpo principal de “bons manifestantes” e ainda mais distantes do corpo político em geral, as primera líneas também chegaram a ser amplamente (senão completamente) entendidas como agindo em defesa de todas as pessoas, manifestantes e não manifestantes, tornando possível resistir a um status quo insustentável.

A construção de uma solidariedade efetiva entre “militantes valentes” (勇武) e adeptos da “não-violência pacífica e racional” (和理非) não foi o resultado automático do movimento ascendente em 2019 em Hong Kong, nem aconteceu da noite para o dia. Como nos Estados Unidos, movimentos anteriores em Hong Kong estavam divididos entre linhas ideológicas de confronto e não violência, bem como entre aqueles nas ruas e a “oposição controlada” dos partidos pan-democratas no Conselho Legislativo (LegCo).[3] Devemos lembrar que os protestos de 2019 vieram depois de anos de experimentação, incluindo o surgimento e o fracasso do Umbrella Moviment (Movimento Guarda-Chuva) de 2014: um protesto igualmente massivo e amplamente “pacífico” que cumpriu todos os modelos defendidos pelos defensores liberais da não-violência.

Quando o movimento foi derrotado de forma tão decisiva, a juventude de Hong Kong começou a agitar de novas maneiras – primeiro em ações de rua em menor escala, como a estranha e ainda polêmica “Rebelião das Almôndegas de Peixe”(“Fishball Riots”)[4] de 2016. Nessas ações, vimos algo como a linha de frente separada de sua base em manifestações massivas. A juventude ainda se recuperando do terrível fracasso do “paz, amor e não-violência” de 2014, em vez disso, entrou em confronto direto, declarando guerra à polícia, empilhando e jogando tijolos e, em seguida, testando a estratégia “seja água”, baseada na recusa de se manter parado em um local específico. Ao mesmo tempo, eles não esperaram pelo apoio de outros manifestantes e não fizeram nenhum esforço para recrutá-los. O resultado foi que as linhas de frente da “Rebelião das Almôndegas de Peixe” , do modo como eram, não tinham a conotação de defender as outras pessoas, como têm agora. Este caso de enfrentamento ainda é controverso entre os cidadãos de Hong Kong dentro do movimento, pois sua natureza isolada o tornou uma espécie de aventura arriscada (isso sem falar no papel desempenhado por pessoas locais de extrema-direita nos levantes). Agora, entretanto, vemos táticas muito semelhantes redistribuídas e aprimoradas, mas em um contexto surpreendentemente diferente. É como se as táticas testadas nas ações (relativamente) pacíficas de 2014 e nos confrontos (relativamente) violentos com a polícia de 2016 fossem finalmente forçadas a se combinar em uma síntese eficaz.

As raízes desta síntese podem ser melhor vistas perto do final do Movimento Guarda-Chuva, que tomou forma por meio de interações, muitas vezes conflituosa, entre organizações formais e dezenas de milhares de participantes autônomas. Durante as ocupações das regiões Central District e, posteriormente, de Mong Kok, alguns elementos do movimento foram organizados de modo central, com ocupações centradas em um “grande palco” (大台) que era essencialmente controlado por grandes organizações políticas, particularmente dois grupos de estudantes: a Federação de Sindicatos de Estudantes de HK e o Scholarism (algo como “Eruditismo”, um grupo fundado por estudantes de ensino médio), além dos principais partidos eleitorais do campo Pan-democratático e um monte de ativistas de ONGs conhecidas. Embora essas ocupações jamais teriam começado – muito menos se sustentado – sem grandes esforços de trabalho e ação autônoma, as organizações formais tentaram manter um nível de controle sobre a forma do movimento e, em alguns casos, tentaram cancelar ações específicas, algumas das quais continuaram de qualquer maneira sem seu apoio. Ainda assim, quem estava em posições de liderança eram os grupos que eventualmente entraram em negociações com o governo. Como em muitos contextos ocidentais, essas organizações eram orientadas, em grande medida, para a chamada “não-violência racional”. No entanto, as tensões entre os radicais e aqueles que controlavam o palco aumentaram durante o movimento, atingindo um pico com o ataque de manifestantes ao prédio da LegCo, após o qual manifestantes não-violentos e organizadores rotularam todos os militantes como agentes secretos de Pequim ou “destruidores”. Por outro lado, algumas manifestantes começaram a circular slogans pedindo a desmontagem do palco principal (e o centro de poder que ele representava) (拆 大 台) e que os bloqueios montados para tentar impedir os ataques a LegCo fossem desfeitos (散 纠察) .

Na esteira do fracasso do Movimento Guarda-chuva e do fim das ocupações, a primeira fase do Movimento Anti-Extradição de 2019 – aproximadamente desde a proposta de lei em março de 2019 até a marcha de dois milhões de pessoas em 16 de junho – a não-violência racional era a tática dominante. No entanto, após a relutância do governo em retirar a lei frente ao movimento de massa não-violento e, após a repressão policial cada vez mais violenta, um consenso bruto emergiu em torno de alguns princípios básicos: aprendendo com as falhas do Movimento Guarda-chuva, os novos protestos não deveriam ser organizado em torno de um corpo central e não tentariam ocupar e manter um espaço. Esta forma organizacional foi especificamente concebida a partir dos principais palcos do Movimento Guarda-chuva, tendo a “descentralização” como um slogan e princípio organizacional traduzido em cantonês como “sem um grande palco” (无大台).[5]

Ao mesmo tempo, as experiências de violência da repressão policial criaram um clima de solidariedade entre os manifestantes. Com base em demandas unificadas – primeiro pela retirada da lei de extradição e, em seguida, para um inquérito sobre a brutalidade policial, o fim das classificações de manifestantes como criminosos, anistia para os detidos e sufrágio universal – os participantes alcançaram um amplo consenso de que o sucesso exigiria um nível de unidade entre militantes e manifestantes pacíficos: “sem divisões, sem dissidência, sem traições” (不分化、不割席、不督灰) ou, mais positivamente, “cada um lutando à sua maneira, escalamos a montanha juntos” (兄弟爬山,各自努力) e “os pacíficos e os valentes são indivisíveis, ascendemos e caímos juntos” (和勇不分、齐上齐落). Pesquisas de participantes do movimento realizadas no local no início de junho mostraram que 38% dos entrevistados acreditavam que “táticas radicais” eram úteis para fazer o Estado ouvir as demandas dos manifestantes, mas em setembro o número subiu para 62%. Quando questionados se as táticas radicais eram compreensíveis diante da intransigência estatal, quase 70% já concordaram em junho e, em julho, esse percentual havia subido para 90%. Em setembro, apenas 2,5% dos entrevistados afirmaram que o uso de táticas radicais pelos manifestantes não era compreensível. Na mesma pesquisa, em setembro, mais de 90% dos participantes concordaram com a afirmação de que “Unir ações pacíficas e combativas é a maneira mais eficaz de obter resultados”. [6] Um ponto de inflexão semelhante pode estar surgindo nos EUA, onde quase 80% dos entrevistados respondeu afirmativamente uma pesquisa nacional que questionou se a raiva que levou à atual onda de protestos é “justificável”. Nela, 54% afirmou que a resposta à morte de George Floyd, incluindo o incêndio de um prédio da delegacia de polícia, é sim justificável.

Em Hong Kong, a natureza descentralizada do movimento, combinado com o crescente sentimento de um propósito unificado comum entre manifestantes pacíficos e combativos permitiu a formação e reprodução de papéis reconhecíveis nos quais as participantes podiam apoiar umas às outras em grupos organizados de forma autônoma, coordenados anonimamente por meio ferramentas online como Telegram e fóruns como LIHK.org. Essas ferramentas e estruturas organizacionais são dignas de uma análise separada ou de um guia de protesto de código aberto: o Telegram permite a criação de estruturas extremamente flexíveis enquanto preserva o anonimato, o que permitiu que manifestantes e apoiadores desenvolvessem todo um ecossistema digital crucial para driblar e enganar a polícia em tempo real. O recurso dos “Canais” do Telegram permitiu a criação de salas de bate-papo em grande escala semelhantes ao recurso de comentários no software de transmissão ao vivo que os manifestantes nos EUA estão usando. No entanto, embora esses “mares públicos” (公海) fossem capazes de fornecer algumas informações úteis, eles foram considerados como estando sob vigilância policial devido à sua natureza pública, e a organização sensível foi feita em canais separados entre grupos de amizade e confiança.

Manifestantes também criaram outros canais especificamente para compartilhar a localização da polícia e rotas de fuga, que eventualmente alcançaram dezenas de milhares de participantes do protesto. Nesses canais, a postagem é restrita a administradores ou bots especialmente designados, que retransmitem informações verificadas sobre a localização e disposição das forças policiais, ajudando a minar o fenômeno do boato descontrolado comum em qualquer protesto. Essas informações são coletadas por meio de crowdsourcing de indivíduos que trabalham como observadores no entorno das manifestações, que enviam atualizações em canais designados de acordo com um formato específico, para que possam ser facilmente padronizadas e repassadas para agregadores de dados que monitoram canais de informações e transmissões ao vivo, publicando atualizações para canais de difusão e mapas em tempo real de localizações policiais.

Além dos relatos, os canais do Telegram criados para ações específicas também permitiram aos participantes transmitir informações sobre as necessidades (“primeiros socorros necessários nessa esquina, “ferramentas pra extinguir de gás lacrimogêneo são necessárias em breve”) e tomar decisões coletivas sobre as respostas em tempo real por meio de funções de votação em tempo real. Este último permitiu escolhas rápidas, como a rota de fuga a tomar para evitar um ataque policial. É importante ressaltar que esses métodos organizacionais atraíram tanto militantes quanto aqueles que estavam relutantes, desinteressados (devido ao status de imigrante, deficiência ou outra vulnerabilidade potencial à violência policial) ou incapazes de participar na linha de frente: enquanto as pessoas na linha de frente enfrentavam a polícia e sua escalada de violência, apoiadoras não-violentos se envolveram nas marchas, como médicos ou fornecendo suporte logístico (transporte de suprimentos de barricadas, ferramentas para lidar com gás lacrimogêneo ou roupas para as pessoas da linha de frente vestidas de preto poderem se trocar), como observadores filmando policiais com câmeras ou como batedores alimentando informações para outros apoiadores que trabalham como agregadores de dados.

As pessoas de “fora” da linha de frente forneciam, de várias maneiras, suporte material direto para quem estava na linha de frente: em algumas ações, manifestantes sem equipamento formaram paredes humanas, às vezes usando guarda-chuvas, para proteger as pessoas da linha de frente enquanto trocavam as roupas e equipamentos que as identificavam, evitando que fossem presas a caminho para casa. Outras, embora não participem diretamente na linha de frente, facilitaram os danos à propriedade usando seus guarda-chuvas para tapar as câmeras enquanto as vidraças eram quebradas. Depois, no movimento, os manifestantes fora das linhas de frente traziam materiais para coquetéis molotov utilizados nas ações e formaram correntes humanas fornecendo materiais para reabastecer rapidamente a linha de frente com garrafas, gasolina, açúcar e panos.

Além dessas ações específicas de apoio, simplesmente permanecer nas ruas durante as proibições de reuniões públicas acabou sendo entendido como um meio de apoiar o movimento: um amigo conta a história de um funcionário de escritório mais velho, anônimo, em uma pausa para fumar que, depois de ler no Telegram que um grupo de pessoas da linha de frente estavam perto de seu prédio e precisavam ganhar tempo para não serem pegos pela polícia, caminhou diretamente até a linha de polícia e tentou começar uma briga com os policiais, pensando que sua identidade como uma pessoa mais velha e bem vestida poderia diminuir sua chance de ser preso e fornecer mais um álibi se o fizesse. No entanto, essa generalização da luta também é vista por alguns como uma das razões pelas quais a polícia finalmente se voltou para a estratégia mais recente de “kettling” (“envelopagem”, “panelão” ou “caldeirão de Hamburgo”) e prisão em massa de todos em uma determinada área: qualquer pessoa nas ruas agora pode ser considerada participante dos protestos, ou pelo menos odiar a polícia.

Imagem das funções nos protesto de Hong Kong, traduzida anonimamente e divulgada durante as recentes lutas

No início do movimento, no entanto, antes do aumento da repressão policial e das prisões no final do verão e outono de 2019, o papel das pessoas na linha de frente era relativamente claro, com opções para os apoiadores permanecerem separados do confronto direto com a polícia construindo barricadas, fornecendo suprimentos para a linha de frente enquanto as pessoas apagavam as bombas de gás lacrimogêneo ou escondendo a linha de frente da polícia enquanto trocavam de roupa. Contudo, essa divisão ainda era um tanto problemática, pois a aceitação da linha de frente como um segmento central do movimento, de certo modo, deu àquelas que realmente lutavam contra a polícia uma posição de “maior mérito”, o que levou a alguns manifestantes pacíficos serem acusados de não serem combativos o suficiente. Mas, à medida que a aceitação da ação militante cresceu junto com a violência policial cada vez mais extrema, essas divisões começaram a ruir. Por outro lado, ações que antes eram entendidas como pacíficas passaram a ser associadas a um risco cada vez maior de identificação e prisão.

Por exemplo, a criação e proteção dos “Lennon Walls”[7] de arte de protesto e auto-expressão foi originalmente entendida como um modo de participação completamente “pacífico”, mas como o número de ataques violentos aos “Lennon Walls” e prisões das pessoas que trabalhavam neles aumentou, tornou-se difícil continuar participando sem preparação física e mental para a violência. Diante da violência policial e do “terror branco” dos ataques a manifestantes feitos por bandidos pró-Pequim, qualquer divisão entre aqueles que estavam dispostos a colocar seus corpos em risco e aqueles que estavam comprometidos com atos de menor risco ou eticamente não-violentos tornou-se cada vez mais difícil de desenhar. Isso foi particularmente verdadeiro porque um número crescente de manifestantes foi preso. Para alguns amigos, a decisão de entrar na linha de frente foi gradual e resultou da erosão gradual das diferenças entre as atividades da linha de frente e outras formas de apoiar o movimento. Outros amigos relataram conversas difíceis que tiveram com seus pais idosos que, vendo a prisão de tantos jovens, resolveram se juntar à linha de frente para preencher a lacuna.

Embora tenhamos focado propositalmente em táticas materiais ao invés de identidade política, deve-se reconhecer que as cinco demandas que ajudaram a fornecer base para uma admirável unidade entre manifestantes em Hong Kong também acabaram encobrindo divisões políticas significativas. Em particular, o fato de o movimento ter uma base tão amplamente significava que incluía (e em alguns casos foi impulsionado pelos) sentimentos locais de direita. Ao contrário dos Coletes Amarelos na França, que tinham uma base de participação igualmente ampla, a escalada de táticas militantes que incluiu danos à propriedade não serviu para tirar os elementos da direita do movimento. Em vez disso, em Hong Kong a situação foi o contrário, e alguns (mas não todos) esquerdistas limitaram sua participação no movimento, sem vontade de entoar slogans ao lado de nacionalistas que pediam uma revolução para “restaurar” Hong Kong, ou de participar de marchas com alguns agitando bandeiras dos Estados Unidos ou regimes coloniais britânicos.

Enquanto a estrutura racial da política dos EUA torna a participação da direita na rebelião em curso praticamente impossível (apesar dos políticos promoverem mentiras afirmando o contrário), a estrutura do movimento de Hong Kong em torno de um conjunto unificador de cinco demandas também é um tanto estranha para o contexto estadunidense. Embora sua própria impossibilidade tenha dado ao movimento espaço para crescer, o uso de demandas insustentáveis ​​saiu de moda nos Estados Unidos. Após o fracasso dos primeiros protestos anti-guerra em meados dos anos 2000, a ascensão e queda do Occupy alguns anos depois definiu o que se tornaria a norma, em que um excesso de demandas causou uma incapacidade generalizada de “concordar” com qualquer coisa. Na primeira onda de protestos Black Lives Matter após o levante em Ferguson em 2014, um fenômeno semelhante ocorreu: as organizações sem fins lucrativos BLM “oficiais” fizeram demandas concretas por câmeras nos uniformes dos policiais e para que o dinheiro para equipamento militar fosse canalizado para treinamentos de anti-racismo e “mitigação” dos conflitos, mas essas nunca foram as demandas popularmente endossadas pelas ruas. Em vez disso, o movimento se articulou não em torno de uma demanda, mas de uma afirmação: de que as Vidas Negras Importam.

Essa é a afirmação que voltou como uma forte coerência na revolta atual. Ao mesmo tempo, isso pode estar mudando um pouco. Mas ainda não há um conjunto coerente de demandas que possa unir os manifestantes pacíficos e militantes que se levantaram após o assassinato de George Floyd. Se tais demandas surgissem, provavelmente seriam básicas e improváveis ​​de serem alcançadas sem “desmantelar o grande palco” da normalidade nos Estados Unidos, bem como as Cinco Demandas de Hong Kong: anistia geral, abolição da polícia ou reparações por séculos de assassinatos e escravidão sancionados pelo Estado. Os apelos pelo “desmonte da polícia” parecem ter ganhado destaque agora, depois de serem apanhados por grupos ativistas e políticos progressistas locais. Mas tal demanda está muito aquém do apelo mais popular para abolir a polícia e permite que os líderes locais afirmem que estão “desmontando” os departamentos de polícia quando, na verdade, estão apenas realizando cortes fracionários de orçamentos. Nesse sentido, “desmontar a polícia” parece estar assumindo um caráter semelhante à demanda por câmeras corporais em 2014.

Com ou sem tais demandas, vemos a inovação central do papel das pessoas na linha de frente como algo embutido nas novas relações que se tornam possíveis: entre a “linha de frente” e a segunda linha, a terceira e outros manifestantes de apoio. Uma semelhança entre as experiências dos manifestantes de Hong Kong e os das ruas dos Estados Unidos é que, embora muitos tenham experimentado por muito tempo a repressão policial, esta é para muitos a primeira vez (ou pelo menos um dos momentos mais graves) que a repressão policial ao protesto pacífico é visível. Em certo sentido, a evolução do papel da linha de frente foi realmente forçada a acontecer por conta da ação policial. Uma vez que a repressão ao movimento em Hong Kong passou de um certo ponto, dois fatos se tornaram aparentes: primeiro, a polícia é fundamentalmente violenta, segundo, que ela vai usar essa violência independentemente de seus alvos protestarem pacificamente ou não. Em segundo lugar, ficou explícito que, para o movimento continuar, manifestantes teriam de ser capazes de se defender.

Enquanto os reforços da polícia e da Guarda Nacional tentam dispersar os protestos de formas incrivelmente violentas nas ruas de quase todas as grandes cidades dos EUA, parece possível que o país veja um ponto de inflexão semelhante em termos da escala e intensidade da repressão. Para aqueles que buscam caminhos a seguir – maneiras de apoiar nossos amigos, amigas e camaradas, trabalhar em solidariedade, chorar os mortos pela polícia e garantir que tal violência sistêmica acabe algum dia – um método de continuar a luta pode ser encontrado reconhecendo que o papel da linha de frente é proteger todos os outros. Por isso dizemos: bem-vindas à linha de frente, e também à segunda e terceira linhas, e aos médicos e médicas e linhas de suprimentos, todos ocupando espaços, as ilustradoras e os responsáveis pelas impressões e distribuições, as pessoas que fazem streaming ao vivo e todos aqueles que tuitam informações dos rádios policiais. Talvez desta vez possamos estar todos juntos.

“Estou feliz por lutar ao seu lado!” — “Eu também, valeu, camarada”

Para saber mais:

Notas

1. Esta análise é o resultado de muitas conversas com amigos em Hong Kong, Chile e Estados Unidos, entre os quais gostaríamos de destacar Dashu e KW por sua ajuda paciente na verificação de fatos e esclarecimento de informações para este artigo. Eles esperam que suas experiências de HK possam ser úteis para a luta contra a brutalidade policial e o racismo nos Estados Unidos e em outros lugares.

2. Como observam camaradas no Chile, as táticas específicas de escudos contra balas de borracha, manifestantes mascaradas como defensores de manifestantes pacíficos e barricadas estão presentes no Chile desde os anos 1980, e o uso de máscaras e a defesa contra a polícia foram particularmente importantes durante a ditadura, para prevenir manifestantes de serem capturados, torturados e mortos. Outras táticas semelhantes às utilizadas em Hong Kong, como o uso de materiais amarrados entre postes de luz para evitar o avanço de viaturas policiais, também estiveram presentes no Chile antes de 2019. Essas táticas históricas e funções preexistentes, como médicos, apoiadores e pessoas que observam a ação da polícia, definitivamente influenciaram as formas como o conceito de linha de frente foi adotado no Chile. Da mesma forma, enquanto o movimento de Hong Kong enfatizava a mobilidade por meio da estratégia “seja água”, os movimentos chilenos têm uma forte tendência histórica à proteção de uma zona específica, o que influenciou a forma como as linhas de frente se desenvolveram ali.

3. Embora o campo Pan-democratico apoie a reforma eleitoral em Hong Kong, em grande parte apoia a política governamental existente – além do Partido Trabalhista e da Liga dos Social-democratas, os únicos dois partidos membros a manter qualquer tipo de agenda de esquerda.

4. N.T.: Protestos ocorridos em 2016 contra ação policial para reprimir camelôs em Mong Kok, em hong Kong. O nome “Fishball Riots” faz referência às almôndegas de peixe, produto muito comum nos comércios da região.

5. Ainda que este princípio organizacional tenha desempenhado um papel importante em ajudar o movimento a se tornar mais militante e se sustentar, de acordo com nossos amigos no local, ele também parece ter se tornado um obstáculo para a possibilidade de politização anticapitalista, então não deve ser romantizado : “Embora soe horizontal ou anarquista, na prática não está relacionado a nada como discussões democráticas entre os participantes, mas mais ideologicamente associado aos grupos locais que se opunham ao grupo Pan-democratico que estava no poder e controlava o palco. Por fim, o termo se espalhou entre a massa mais ampla de participantes, que temiam que o conflito entre essas facções políticas minasse o movimento, e surgiu um consenso de que ninguém deveria tomar o poder. … Mas isso não envolve, e até mesmo impede ativamente, o tipo de transmissão de diferentes pontos de vista no local, normalmente associados a termos como ‘horizontal’ ou ‘movimento sem líder’.” (Extraído de “Remolding Hong Kong”.)

6. Estas estatísticas são todas do “Anti-ELAB protest”, relatório de investigação local sobre o tema (反逃犯条例修订示威”现场调查报告).

7. N.T.: termo utilizado para se referir a uma intervenção coletiva permanente criada por milhares de manifestantes na parede exterior do prédio do governo central de Hong Kong. Consistia em cobrir as paredes com milhares de post-it carregando mensagens dos manifestantes; uma obra contra a censura.