O Junho (rastejante) em Belo Horizonte

 

(esse texto é dedicado a Douglas Henrique e Luiz Felipe, mortos pelo Estado em Junho de 2013)

Contra a criminalização, desinformação e apagamento sobre o acontecimento de 2013, mas também  buscando ir além das efemérides acríticas, esse texto tenta dar um pequeno panorama ciente da sua parcialidade sobre o evento de Junho e seus desdobramentos na cidade de Belo Horizonte.  É importante frisar que Junho tem características muito diversas, cada cidade e região do país vivendo a experiência insurrecional de maneira diferente. Talvez seja uma obviedade, mas a totalidade das análises demonstram quase sempre uma ênfase no Junho paulistano com algumas menções ao Rio de Janeiro. Enquanto em São Paulo a questão do aumento da passagem fez a luta estourar e reverberar por todo país, em BH a revolta foi canalizada para as questões relativas à Copa da FIFA. Esse mote apareceu também em cidades como Fortaleza e Rio de Janeiro. Mesmo dentro de Belo Horizonte há diferenças substanciais entre os chamados “grandes atos” e os protestos que ocorreram nas periferias e nas BR’s, onde autonomamente as pessoas fecharam as vias por um senso de indignação frente às precariedades cotidianas. Ainda há muito a ser descoberto sobre esses protestos invisíveis. Diferente da história senso comum que vem sendo contada, em BH as esquerdas mantiveram-se unidas e não saíram das ruas – com todos os problemas e ganhos – e a cidade não foi tomada pela direita. Esse relato sobre as manifestações na cidade pretende ser um registro feito por aqueles que estiveram imersos nesse processo, tentando fazer jus a  suas contradições.

Quando o Junho de 2013 explodiu em São Paulo com as manifestações do Movimento Passe Livre contra o aumento da passagem, o campo libertário de Belo Horizonte encontrava-se disperso. Nos anos anteriores, várias experiências libertárias subterrâneas foram colocadas em prática, com destaque para a Praia da Estação, um evento convocado anonimamente por autonomistas em 2010 que encontrou grande eco e força em BH, trazendo questões importantes sobre a ocupação da cidade, além de um forma organizativa horizontal e de caráter festivo que acabou atraindo vários setores da esquerda, organizados ou não. Ainda que a sensação verdadeira de que o campo autonomista e anarquista na cidade encontravam-se desarticulados,  grupos como o MAL (Movimento Anarquista Libertário) e o Espaço Ystilingue estavam atuantes. Ainda assim, quando estouram os protestos em SP, fomos todos pegos de surpresa!

A cidade passava também por uma onda de ocupações urbanas como a Ocupação Eliana Silva e Dandara, trazendo questões fundamentais sobre a cidade, a moradia e a vida comunitária. Além disso, em 2011 a formação do COPAC – Comitê dos Atingidos Pela Copa em Belo Horizonte (ligada a organização nacional, a ANCOP – Articulação Nacional dos Comitês Populares da Copa), tinha como objetivo debater, promover e defender os direitos daqueles atingidos diretamente pelos megaeventos da FIFA e também funcionou como um espaço articulador e convergente das diversas esquerdas de Belo Horizonte. 

No dia 15 de Junho de 2013, o COPAC convoca uma manifestação na Savassi, região nobre de Belo Horizonte, durante o primeiro jogo da Copa das Confederações organizada pela FIFA e realizada no Brasil. A manifestação começa com uma Copelada (como era chamada o futebol de rua do Comitê) e depois sai pelas ruas de Belo Horizonte, levando milhares de pessoas até a Fan Fest da Fifa na Praça da Estação – local que foi fechado para receber aqueles que queriam assistir aos jogos em um grande telão. Durante o trajeto, de maneira desorganizada, as pessoas começaram a se encontrar e a se reconhecerem. Houve pequenos embates em relação ao trajeto, formas de condução do protesto. A presença de partidos querendo “conduzir” a manifestação aguda nesse momento. No entanto, a sensação é de que até ali nunca havíamos tido um protesto com tantas pessoas e isso animou a convocação de uma nova manifestação para o próximo jogo que seria realizado no Mineirão.

A maneira dispersa como o movimento autônomo e libertário estava na manifestação, assim como sua  crescente criminalização acontecendo por todo o país, preocupou diversas pessoas ali presentes. A sensação era de que uma maior proximidade e organização favoreceria a radicalidade dentro do ato.  Na TV a opinião pública deslegitimava os protestos, principalmente aqueles que faziam uso da ação direta. Diversos partidos de esquerda também faziam a distinção entre “manifestantes” e “vândalos” ecoada tanto na mídia impressa quanto televisiva. Para pensar e conversar sobre essas questões, no dia 16 de junho houve uma reunião de anarquistas e autonomistas onde decidimos criar um bloco para ir às próximas manifestações. Neste encontro também surgiu a ideia de criarmos uma assembleia que pudesse convocar e reunir organizações e indivíduos para debater expectativas, rumos, convergências e ações possíveis. Ficou decidido que iríamos propor essa assembleia na reunião do COPAC que aconteceria no dia seguinte.

A reunião do COPAC foi realizada no dia 17 de junho em um espaço sindical. Foi constituída basicamente pelos partidos de esquerda (PSOL, PSTU, PCR, Brigadas Populares, etc), alguns sindicatos, professores universitários e outros movimentos. Ali afirmamos a necessidade de não se criminalizar as pessoas que fizessem uso de ação direta nas manifestações,  algo que sabíamos que estava acontecendo em São Paulo e também em Fortaleza, onde manifestantes eram entregues à polícia por pessoas de “esquerda”. A proposta foi entendida e acatada, todos concordaram. Além disso, falamos da ideia de uma assembleia que fosse aberta e horizontal. De início a ideia foi questionada,  para algumas pessoas dali não era desejável um espaço de organização tão aberto e chegaram mesmo a propor marcar a assembleia para ali mesmo no sindicato. Entretanto, acabaram concordando, de maneira um pouco condescendente, com a proposta da assembleia ser uma chamada geral, irrestrita e em um espaço aberto. Assim foi publicado o primeiro chamado da Assembleia Popular Horizontal(APH) a partir dos meios de comunicação do COPAC.

Nessa mesma tarde, por volta das 13 horas, ocorreu o primeiro grande protesto, partindo da Praça Sete, centro da capital mineira, em direção ao Mineirão, na zona norte da cidade. A estimativa da polícia era de 30 mil pessoas presentes no ato, havia muitos anos que não se via um protesto daquele tamanho na cidade. Ali mesmo foi feita uma votação e por maioria esmagadora a decisão foi a de ir até o estádio do Mineirão, onde aconteceria o jogo Taiti x Nigéria pela Copa das Confederações. Estavam lá diversas organizações e coletivos. Uma imensa maioria de manifestantes  carregavam cartazes criticando a Copa e divulgando diversas lutas, desde as relacionadas ao transporte público, passando pela educação, moradia e saúde. No trajeto de cerca de 11 km da Praça 7 ao Mineirão, a PM tentou inicialmente barrar o ato  na metade do caminho, em um local ainda distante do perímetro “estabelecido” pela FIFA como espaço de segurança, prevista na Lei Geral da Copa nº 12.663, de 5 de Junho de  2012. Esta legislação proibia não só o comércio informal e popular ao redor dos Estádios, mas também o livre acesso da população para atender as demandas de uma organização capitalista internacional. Esse espaço de exceção foi continuamente questionado e atacado pelos manifestantes por todo Junho de 2013 em BH.

Quando a manifestação encontrou a primeira barreira realizada pela PM na Avenida Antônio Carlos, depois de algumas tentativas de negociação e tensionamento, a Polícia liberou a marcha até o acesso da Universidade Federal de Minas Gerais – UFMG), onde uma nova barreira com centenas de policiais já estava montada. Sem nenhum aviso, os policiais começaram a disparar bombas de efeito moral, gás lacrimogêneo e balas de borracha contra os manifestantes. Um helicóptero voando bem baixo também atirou bombas nas pessoas ali presentes. Ainda assim a disposição das pessoas para o enfrentamento permaneceu, enormes fogueiras e barricadas foram montadas e a polícia foi obrigada a recuar. O ímpeto das pessoas de avançar até o Mineirão era tamanho que os confrontos se estenderam até a noite. A PM feriu diversas pessoas e deteve várias outras. No caminho de volta dos manifestantes para o centro da cidade bancos e lojas foram destruídos.

Até então a cidade nunca havia visto um protesto desse tipo e nós libertários também não! Para além de todos os clichês envolvidos e todas as idealizações sobre a revolta, era evidente que algo estava acontecendo. Nunca havíamos presenciado uma disposição tão forte ao enfrentamento com a PM e a “fazer o certo”,como nos ensinou tão bem Alisson de apenas 15 anos em São Paulo.

 

No dia 18 de junho, debaixo do Viaduto Santa Tereza, um local importante para a cultura em BH, onde eram realizados o evento libertário Domingo Nove e Meia e o Duelo de MCs, aconteceu a primeira Assembleia Popular Horizontal. O espaço estava lotado, mais de mil pessoas, um método e uma forma  de conduzir esse encontro foram buscados de forma muito intuitiva. O microfone era aberto e as pessoas falavam livremente sobre a situação política de BH, sobre o protesto do dia passado, sobre os protestos que aconteciam em todo país, sobre os desmandos da FIFA, questões relacionadas à cidade, ao transporte, saúde e educação. Segundo a relatoria feita, mais de 100 falaram essa noite e a impressão era de que havia uma convergência entre as organizações, partidos, coletivos e indivíduos sob essa forma horizontalizada e autônoma. Como bem explica a wiki da APH (que funcionava como um modo gestão compartilhada, aberta e transparente), esse primeiro encontro marca “o início de um trabalho coletivo-colaborativo, horizontal e suprapartidário que busca sistematizar as pautas do movimento e divulgá-las de maneira clara, bem como propor e realizar atos organizados na cidade visando uma resposta efetiva para as demandas levantadas“. Havia nessa primeira sessão um desejo de participar, de falar livremente e ser ouvido, ao mesmo tempo que uma recusa das formas engessadas da política partidária, onde as lideranças falam e logo após a burocracia da votação impera. As falas eram tão abertas e surpreendentes que um dos participantes alegando ser um “embaixador intergaláctico” propôs em assembleia a “telepatia universal” (algo que foi prontamente acatado por todos). Toda essa estranha conjunção de perspectivas, organizações, ideologias fizeram com que saíssemos de lá animados e com encaminhamentos concretos, como uma agenda de ações, apontamentos temáticos sobre as questões políticas da cidade e também no cenário nacional, definições sobre os meios de comunicação da APH, a construção de um grupo de saúde e jurídico para apoio imediato aos próximos protestos. 

Pela TV e internet acompanhávamos e recebíamos relatos sobre os protestos de outras cidades, víamos as manifestações crescendo exponencialmente assim como a repressão violenta e a criminalização feita pelo Estado, inclusive referendado pela mídia. Em Belo Horizonte vários protestos eram chamados pelas redes sociais de maneira difusa, ninguém poderia saber muito bem quem convocava e nem de que maneira seria, mas mesmo assim muitos de nós íamos para ver e participar. 

Ainda no dia 18 de Junho havia sido chamado um novo ato em BH sem que se saiba quem o convocou. O fato do ato não ser chamado pelo COPAC e pela APH, fez com que diversos setores da esquerda estivessem desconfiados, mas a proximidade entre o Viaduto Santa Tereza e a Praça 7 fez com que diversas pessoas saindo da Assembleia se juntassem à manifestação. Faixas anti-corrupção eram vistas, as pessoas cantavam o hino nacional e uma parte da esquerda decidiu ir embora. Mais tarde um grupo apedrejou a Prefeitura. Outro grupo criou pequenas barricadas de lixo e fogo na Avenida Afonso Pena, algumas pessoas tentaram quebrar um ônibus e bater no motorista. Anarquistas próximos discutiram com esse pequeno grupo dizendo que os verdadeiros inimigos eram os bancos. As pessoas ficaram muito animadas com a proposição e foram em direção a um dos bancos e o quebraram. Caminharam mais um quarteirão e na Praça 7 quebraram e pilharam todos os bancos próximos. A polícia, de bem longe, apenas observou e nada fez, reforçando ainda mais a estranheza do dia. Alguns disseram precipitadamente que era uma ação orquestrada pela direita, outros acreditam que o Governador Antonio Anastasia deu ordens expressas para que a PM não agisse e permitisse tais ações com o intuito de conseguir vantagens políticas. Importante lembrar também que o Tribunal de Justiça movido pelo Estado de Minas Gerais havia proibido o Sindicato Único dos Trabalhadores da Educação de realizar protestos durante a Copa, o Sind-UTE recorre e o Supremo Tribunal Federal acaba derrubando a decisão. O fato é que a longa hora sem que a polícia fosse vista durante o quebra-quebra levava a crer que a intenção dessa ausência era criar fatos enquanto alimentava a opinião pública contra as manifestações… o que de nenhuma maneira reduziu a alegria genuína de diversos jovens quebrando o banco da Praça Sete.

Soubemos depois que o Relógio da Copa na Praça da Liberdade também havia sido quebrado – o Relógio se tornou um símbolo central nos protestos de 7 de setembro do mesmo ano e na manifestação da abertura da Copa da FIFA em 2014.

No dia 20 de junho ocorreu outro ato que ninguém sabia de verdade quem havia convocado, mas na primeira sessão da APH havíamos tirado esse dia como um ato importante nacionalmente. De fato, nesse dia aconteceram manifestações em mais de 300 cidades, sendo que no Rio de Janeiro uma multidão estimada em 1,2 milhão de pessoas saiu às ruas. O ato novamente foi estranho e errático. Ainda que uma minoria das pessoas continuavam cantando o hino nacional, com discursos anti-corrupção, cartazes contra PEC 37 e camisas da Seleção. Andávamos sem objetivos claro, fomos em direção a Praça da Liberdade, passamos pela Área Hospitalar em completo silêncio e caminhamos até a Câmara Municipal, sendo que ela estava fechada (o atual Presidente da Câmara Gabriel Azevedo, na época um ilustre desconhecido da juventude do PSDB foi vaiado de forma unânime nesse dia). Esse protesto foi visto pela mídia como exemplar, sem violência e cívico… um protesto zumbi como passamos a chamar! A leitura desse ato demonstrou que, de fato, as ruas estavam em disputa.

Houveram diversos atos de tamanhos variados durante as últimas duas semanas de junho, em Belo Horizonte e região metropolitana, quase todos feitos de maneira auto-convocada e espontânea, inclusive com barricadas fechando BR’s e quase sempre exigindo passarelas, transporte de qualidade e barato, moradia digna. Essa é inclusive uma história importante de ser melhor lembrada e estudada.

No dia 22 de junho ocorreu mais um protesto, o maior até então. As estimativas foram de cerca de 150 mil manifestantes. O ato partiu mais uma vez da Praça Sete e caminhou pela Avenida Antônio Carlos, em direção ao Mineirão. Lá ocorria o jogo da Copa das Confederações da FIFA entre Japão e México. Após a passagem pela UFMG, manifestantes entraram na avenida Antônio Abrahão Caram, onde a PM havia construído uma barreira impedindo o acesso direto ao Mineirão. Ao tentarem ultrapassar a PM iniciou o confronto. Novamente, manifestantes procuraram ingressar na “Zona de Segurança” da FIFA e a polícia reagiu com a já conhecida truculência, lançando bombas de gás, de efeito moral e balas de borracha. Em resposta os manifestantes criaram barricadas, atearam fogo e depredaram concessionárias de carros importados próximas. Haviam dois helicópteros atacando a manifestação. A Força Nacional de Segurança Pública, requisitada pelo governador Antonio Anastasia à Presidenta Dilma, estava a postos no interior do Campus da UFMG, de dentro da mata atiravam contra os manifestantes na avenida. Diferentemente do primeiro protesto onde havíamos sido pegos despreparados, dessa vez as pessoas revidaram não apenas com pedras mas com rojões,  bombas caseiras e coquetéis molotov. Um certo ritmo conjunto começou a ser aprendido pelos que ali estavam, atacar e recuar juntos. O “efeito manada” começou a diminuir e uma grande parte dos manifestantes passaram a aprender a lidar melhor com os estouros, explosões e tiros. Passamos a pensar e agir em conjunto em uma luta que ensinava a lutar e desejar mais. Tomávamos mais coragem pois não estávamos mais sozinhos.

Anoitece e as pessoas ainda enfrentam a polícia usando o que tem nas mãos, se defendendo com placas de trânsito (uma delas era enorme e dizia “Obra da Prefeitura de Belo Horizonte”). A cavalaria avança sobre a manifestação e os vários manifestantes, mascarados ou não, conseguem fazer  as tropas recuarem. A manifestação então dispersa sob uma densa nuvem de gás que toma toda a Avenida. Quando a multidão voltava para casa, muitos indo em direção ao Centro da cidade, andando por uma Avenida Antônio Carlos deserta, manifestantes colocam fogo em uma réplica do símbolo da Copa da FIFA e de um outdoor gigantesco da Coca-Cola,  a patrocinadora oficial do evento que dizia ironicamente: “Vamos colorir o Brasil”. 

Nesse protesto 32 pessoas foram presas e pelos dados oficiais cerca de 20 foram para hospitais próximos, há vários relatos de médicos que tentaram ajudar as diversas vítimas da violência da PM e foram ameaçados sob a mira de armas.

 Ficamos estarrecidos ao saber que Luiz Felipe Aniceto de Almeida, de apenas 22 anos, caiu do Viaduto José Alencar ao correr das bombas, justamente no entroncamento das avenidas Antônio Abrahão Caram com a avenida Antônio Carlos. No desespero ele tenta pular de uma pista a outra e acaba caindo. Depois de muitas dificuldades para leva-lo ao Hospital, com a PM inclusive prejudicando os trabalhos de resgate, Luiz fica internado por três semanas mas não resiste e morre em decorrência da violência do Estado. Seis outras pessoas caem no mesmo local durante todos os protestos no mês de junho.

Em 23 de junho, ocorreu pela tarde, debaixo do Viaduto Santa Tereza, a segunda sessão da Assembleia Popular Horizontal de Belo Horizonte. Novamente o espaço estava lotado, cerca de 110 pessoas falaram ao microfone, muitas sugestões de pautas e de como as lutas deveriam acontecer. As principais pautas consensuadas foram as formas de comunicação “oficiais” da APH, as próximas manifestações em que estaríamos presentes, e quando seria a próxima sessão da Assembleia. Além disso, identificamos reivindicações consensuais relacionadas ao transporte e mobilidade urbana, como a revogação do aumento das passagens em Belo Horizonte ocorridas em dezembro de 2013 e a demanda de tarifa zero irrestrita; a FIFA e Megaeventos, como a revogação da Lei Geral e a prioridade orçamentária dada a Copa frente a questões básicas como educação, moradia e saúde; em relação à repressão e violência policial, a favor da retirada imediata da Força de Segurança Nacional da cidade e pedindo também a desmilitarização da polícia; e também um consenso sobre a saída de Marco Feliciano da Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados. Como grande avanço dessa sessão, foram criados 12 grupos temáticos de trabalho (GTs) para encaminhar as discussões e propostas. Assim, esses GTs se reuniriam de maneira autônoma e retornariam à APH de maneira mais qualificada e organizada. Foram eles: Mobilidade Urbana, FIFA e Grandes Eventos, Saúde, Educação, Reforma Urbana & Moradia, Polícia, Reforma Política, Minorias Políticas, Democratização da Mídia, Meio Ambiente, Cultura e Permacultura. Também começaram a ser delineados vários princípios da APH como horizontalidade, não sectarismo, não estigmatização, autonomia dos grupos de trabalho, o caráter experimental, a busca de consenso, proatividade, transparência, a busca pela eficiência, o funcionamento em rede.   

No dia 25 de junho, diante da repercussão dos protestos, o governador Antonio Anastasia convida o COPAC para se reunir no Palácio do Governador. O convite surpreende, já que em todos os seus anos de governo ele nunca havia chamado nenhum movimento social para se reunir. A pauta era aberta e sua intenção pública era discutir demandas e segurança das próximas manifestações. Visto geralmente como um burocrata de perfil técnico, Antônio Anastasia era um político do PSDB e não era um idiota, nesse momento já sabia dos prejuízos que um governo performaticamente intransigente era capaz de gerar – o retrato de São Paulo com a queda de popularidade de Haddad e Alckmin era exemplar. Seu convite era motivado principalmente  por sua preocupação frente a manifestações já convocadas para o dia seguinte. A reunião não foi encarada pelo COPAC nem como boa e nem como ruim, apenas protocolar, mas dentre um dos compromissos firmados pelo Anastasia foi o de receber novamente o movimento para discutir as pautas reivindicadas, que ainda seriam definidas nas próximas sessões da Assembleia Popular Horizontal. O COPAC ainda entregou uma pauta com dez itens envolvendo principalmente questões ligadas aos atingidos pela Copa, como os barraqueiros do Mineirão e as ocupações, a questão do transporte público e também sobre a violência policial. Um dos acordos que o governador conseguiu extrair do COPAC foi o respeito ao limite de segurança perto do Mineirão, a “Zona de Exclusão FIFA”. Em “troca” seria demarcada uma barreira sem a presença ostensiva de policiais que ficariam distantes. A Polícia Militar de Minas Gerais então só reagiria, segundo o acordo, se os manifestantes agredissem a polícia! Um representante do COPAC e um policial militar se responsabilizariam por manter o diálogo e as negociações durante o protesto. Obviamente, isso não soou nada bem perante os diversos movimentos e mais do que isso, não havia como controlar uma revolta popular desse tipo.

Nesse mesmo dia houve a terceira sessão da Assembleia Popular Horizontal de Belo Horizonte cujo mote era o primeiro encontro dos Grupos Temáticos. Sendo assim, foi possível as pessoas se encontrarem e aderir a um GT que lhe fosse de maior interesse e também decidir em conjunto como se daria os trabalhos do grupo. Outra importante ação aconteceu também no dia 25. Os estudantes da UFMG ocuparam a reitoria da universidade, fazendo a Força Nacional desistir de ocupar o campus durante os outros jogos da Copa das Confederações. Essa ação conseguiu retirar uma garantia conjunta do Governo Federal e do Governo do Estado de que as tropas da Força Nacional não iriam utilizar  a UFMG novamente como base de operações e segurança, consequentemente como um espaço estratégico de repressão das manifestações como havia acontecido na última ida ao Mineirão.

No dia seguinte, 26 de junho, mais uma manifestação gigante, envolvendo cerca de 200 mil pessoas que partiram da Praça Sete em direção ao Mineirão. Ao longo do trajeto, pessoas de bairros periféricos que geralmente não estavam presentes no início dos atos começaram a “descer” e a acompanhar o protesto. Uma parte da marcha seguiu o acordo entre a COPAC e o governo estadual, passando direto pela Avenida Abrahão Caram. Alguns membros do COPAC chegaram mesmo a fazer uma barreira humana para indicar que as pessoas seguissem. Ainda assim, diversas pessoas se recusaram e passaram a subir a avenida tentando derrubar as grades que impediam o protesto de chegar ao Mineirão. A PM ainda que mais afastada atirou bombas de gás lacrimogêneo e balas de borracha, uma repetição que virou comum e esperada por todo esse mês de junho. Assim  como no protesto anterior, a disposição ao enfrentamento aumentou ainda mais, contando agora com as pessoas mais preparadas e animadas a resistir. Isso não era pouca coisa! 

No viaduto foi pendurada uma enorme faixa amarela escrita “Unfair Players: FIFA – POLICE – ANASTASIA”, enquanto os focos de resistência e ataque contra a polícia e a Zona da FIFA se espalharam pelas ruas do entorno. Todas as lojas de carros e bancos próximos que ainda não haviam sido depredadas foram totalmente destruídas. Um caminhão foi colocado para fora de uma concessionária e incendiado por manifestantes, formando mais uma barricada. Uma moto é roubada, outra é jogada em uma fogueira, alguns levam televisores, outros jogam nas barricadas. Não há respeito nenhum pelas mercadorias, elas têm seus valores de troca suspensas e agora só servem para serem destruídas ou para criarem barricadas melhores. Dava a impressão de que houvesse dinheiro ali, as pessoas queimariam sem nenhum problema! Por mais que houvesse blocos organizados, a imensa maioria dos ali presentes eram “pessoas comuns”, não estavam de preto, não tinham balaclavas, muitas vezes nem cobriam o rosto. É impressionante quando as pessoas destroem com tanto empenho e felicidade as mercadorias que provavelmente teriam muitas dificuldades para comprar. 

Essa negação em ato das mercadorias e potência destrutiva chegou ao ápice quando no posto de gasolina da Antônio Carlos alguns manifestantes começaram a jogar gasolina no chão. Uma discussão se forma e pessoas do bloco preto próximas intervêm, impedindo que se ateasse fogo no posto. Não demora muito para as pessoas começarem a roubar a cerveja da loja de conveniência, bebendo, distribuindo, compartilhando e também quebrando as garrafas como em um grande ritual de dispêndio e dádiva. De fato, até então Belo Horizonte nunca sequer havia visto um protesto com tamanha radicalidade!

Os confrontos com a PM seguem até a noite. Durante a volta de grande parte dos manifestantes pela Avenida Antônio Carlos, eles são caçados pela PM enquanto um major do alto de um carro de som anuncia sistematicamente pela cidade: “Pedimos agora, voltem para suas casas. Pedimos a vocês, pessoas de bem, não se misturem aos bandalheiros. Voltem para suas casas. Retornem à sua casa. Estamos devolvendo a cidade para vocês”.

Cerca de 28 pessoas foram detidas naquele dia e, ainda durante a tarde, uma nova tragédia aconteceu: Douglas Henrique de Oliveira, de apenas 21 anos, um metalúrgico que acompanhava os protestos caiu do viaduto durante a tentativa de dispersão feita pela PM.  Ele foi socorrido por bombeiros e transportado de helicóptero para o hospital mas não resistiu. BH tem mais um morto cujo motivo é a violência policial a mando do Estado para defender a FIFA. 

No dia 27 de junho ocorre a quarta sessão da APH, onde frente às enormes dificuldades de conduzir um espaço que se pretenda horizontal, autônomo, autogerido e popular, as questões organizativas e metodológicas da assembleia apareceram de maneira contundente, na tentativa de evitar burocracias e principalmente o monopólio da estrutura pelas organizações de esquerda (anarquistas e autonomistas assumiram também essa autocrítica). A tendência nessas dinâmicas é não apenas que as mesmas pessoas falem, mas também que as mesmas figuras sejam “mesa”, ou seja, apresentem, conduzam, façam a mediação, controlem as inscrições, tempo, etc. O que pode parecer estranho para a maioria das pessoas, mas isso costuma ser visto como uma posição de destaque, permitindo uma maior visibilidade do sujeito e da sua organização, e também acaba por favorecer “coleguismos”, como o risco da não transparência para as inscrições, controle de tempo de fala, dentre outras coisas. Foi decidido então que para evitar os personalismos e os mesmos vícios, que quem quisesse participar destas tarefas deveriam levantar a mão e se tivessem mais de 5 pessoas, iria ser sorteada entre os interessados as seguintes tarefas: responsabilidade pela coordenação da assembleia, responsabilidade pela ata, responsabilidade pelo tempo e responsabilidade pelas inscrições. Decidiu-se também que essas funções deveriam ser sempre rotativas e quem estivesse nessas responsabilidades não teriam direito à fala na assembleia, para evitar qualquer tipo de manipulação. 

Na primeira tentativa de aplicação do método do sorteio, a pessoa sorteada para conduzir a assembleia foi um Guarda Municipal e membro do sindicato que vinha acompanhando e participando desde a primeira APH. Pane geral em nossos métodos experimentais! A assembleia começa e o guardinha conduz de maneira personalista, fazendo diversas falas arrogantes e machistas. Em pouco tempo uma mulher faz uma intervenção e propõe votar para “destituí-lo”, o que é aclamado por unanimidade da assembleia… nunca mais o guardinha apareceria. Esse é de fato um caso exemplar de que nosso caráter experimental nem sempre era a melhor das opções, mais que isso, por mais que efetivamente levasse a situações novas e imprevisíveis de se organizar, muitas das nossas ideias também eram capazes de gerar mais problemas que soluções. Por outro lado as metodologias aplicadas, e quase diariamente discutidas, eram testadas e modificadas conforme a luta avançava, permitiam que a assembleia tivesse uma dinâmica rica, veloz e múltipla de como se organizar e agir. 

As outras discussões dessa sessão da APH giraram em torno da análise do ato passado, como a urgência para libertar os companheiros presos, a morte do Douglas Henrique (inclusive com a proposta de mudar o nome do viaduto José de Alencar para Douglas Henrique). Também debatemos sobre a postura dos movimentos sociais que abandonaram a manifestação no meio, a necessidade de não dicotomizar o movimento entre vândalos e pacíficos, o combate a repressão policial do governador Anastasia, termos mais organização para cuidarmos melhor uns dos outros e por fim, continuar centrando as críticas ao governador do Estado Anastasia, ao prefeito Márcio Lacerda, ao presidente da Câmara Léo Burguês e ao Clésio Andrade (controlador da máfia dos transportes). Foi feito os repasses dos GTs e da reunião com o governador. Além disso, houve também a definição de uma nova ação centrada na questão do transporte e mobilidade urbana que foi marcado para a Câmara dos Vereadores de Belo Horizonte.

Ainda que na cidade de São Paulo (estopim para as insurgências em todo Brasil) a principal causa das manifestações fosse o aumento da passagem de ônibus, em Belo Horizonte a ênfase inicialmente recaiu sobre os desmandos da Copa. Mesmo assim, a pauta sobre as tarifas também esteve muito presente nos cartazes e reivindicações nas ruas da cidade. O transporte público em BH era na época proporcionalmente o mais caro de todas as capitais do Brasil, extremamente sucateado, com aumentos anuais, precário e com estudantes tendo enormes dificuldades de acessar até mesmo o direito ao meio-passe. A cidade e a estrutura de transporte vinha sendo brutalmente reformada para criação de linhas de BRT e havia uma grande influência dos empresários do transporte nas decisões políticas municipais (enfim, uma máfia). Uma dessas decisões estava para ser definida em votação na Câmara Municipal para o dia 29 de junho e por isso a APH havia decidido acompanhar a votação deste projeto: a redução da tarifa de ônibus na Câmara a partir da redução de impostos municipais aos empresários.

No dia, um sábado,  o número de pessoas que resolveram ir à Câmara acompanhar as votações pela manhã era alto. A Câmara deu a desculpa que as galerias do plenário não poderiam suportar o número de presentes. Dessa forma, arbitrariamente os guardas municipais limitaram a entrada de apenas 300 pessoas. Os vereadores aprovaram em segundo turno o projeto, proposto pelo prefeito Márcio Lacerda, mas cuja redução seria de apenas 5 centavos no valor das tarifas de ônibus (com isso, a passagem de ônibus passaria de R$ 2,80 para R$ 2,75). Essa votação causou revolta em todos, pois além de tudo, a redução não valeria imediatamente, como ocorreu em outras capitais como São Paulo. A explicação dada segundo a prefeitura é que não haveria tempo hábil para publicação de uma portaria e que logo após esse dia seria decretado férias. A votação foi espertamente marcada como a última antes do recesso!

As pessoas ali presentes, impedidas de entrar na sessão pela truculência dos seguranças, da Guarda Municipal e Batalhão de Choque respondem aos empurrões e truculência com tintas. É a partir daí que resolvemos ocupar a Câmara até que o Prefeito Márcio Lacerda nos recebesse e abaixasse a tarifa. Estávamos revoltados com a redução pífia através da desoneração fiscal das empresas de ônibus que garantia o lucro exorbitante das máfias de transporte.

A Assembleia Popular Horizontal decretou a ocupação e rapidamente os diversos grupos, coletivos, partidos, organizações e indivíduos foram para a Câmara, trazendo barracas, colchões e montando uma cozinha comunitária. Logo o espaço ficou pequeno e passamos também a ocupar o jardim. Nos grandes mastros externos, 3 bandeiras foram hasteadas: “Ônibus Sem Catracas”, “Fora Lacerda” e dos Panteras Negras “Todo poder ao povo!”. Um piano apareceu no gramado. Os Grupos de Trabalho da ocupação começaram a organizar a comunicação, limpeza, rondas de segurança, comida, atividades culturais, grupos de discussão sobre o transporte, desmilitarização, políticas públicas, Arte, aulas abertas, saraus, shows, festas, reuniões de todo o tipo. Uma vida em comum passa a ser criada, de maneira autogestionada e aberta. Não houve um dia sequer sem que houvesse uma programação extensa e variada.

Mesmo aqueles que trabalhavam e não podiam ficar na ocupação em tempo integral dedicavam algumas horas pela manhã ou à noite, pessoas de fora dos círculos militantes e artísticos iam conhecer a ocupação, senhorinhas vinham pela manhã deixar uma sacola de pão… havia muita fartura e apoio! Uma infinidade de discussões, tendências, discordância e encontros de variadas pessoas perpassaram os longos, difíceis e prazerosos dias que estivemos lá.  Os primeiros dias foram muito desafiantes, ainda que tranquilos. Entre os principais problemas estava a mídia corporativa burguesa tentando constantemente jogar a opinião pública contra o movimento, inclusive exercendo vigilância constante pelas lentes das diversas emissoras que passavam por lá todos os dias. Havia também a sabotagem da própria Câmara deixando ligado o ar-condicionado no máximo pela noite, dificultando nosso sono e cortando também a internet (que é pública). Claro que os Guardas Municipais e seguranças tratavam os “novos e nobres moradores da Casa do Povo” de maneira extremamente hostil, mas nosso principal infortúnio era o fato de que o prefeito Márcio Lacerda fingia que absolutamente NADA estivesse acontecendo.

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Márcio Lacerda, era um prefeito-empresário do PSB que nunca havia tido nenhum cargo público, mas  foi eleito com apoio de importantes nomes do PT e PSDB local: Aécio Neves e Fernando Pimentel lado a lado e literalmente de mãos dadas. Lacerda já havia sido duramente criticado por sua posição frente a Praia da Estação, o modo como lidou com o carnaval e principalmente por sua completa ignorância frente aos movimentos sociais. O prefeito que nunca havia em seu mandato-gestão feito reunião ou recebido nenhum movimento social, logo apressou-se a dizer na imprensa que “não negociaria com a faca no pescoço”. A empolgação vinda das manifestações de junho, a forma organizativa horizontal e aberta da APH, o clima cultural, apoio popular e, por que não, o início das férias mantiveram o ânimo dos ocupantes elevados.

No dia 1° de junho, em uma tentativa frustrada de desocupar a Câmara, o prefeito anunciou na imprensa que haveria uma reunião entre ele e os ocupantes. O problema é que a tal reunião foi “descoberta” pouco antes da realização de uma assembleia na ocupação, de onde sairiam os nomes dos possíveis delegados que levariam às reivindicações ao prefeito. Mais uma vez, Lacerda desconsiderou toda a tentativa de construção de uma agenda comum e anunciou à imprensa a tal reunião marcada de uma hora para a outra sem combinar nada com quem de fato deveria dialogar. Realizamos então na assembleia da APH uma votação aberta e horizontal para a escolha dos delegados que iriam encontrar o prefeito repassando as propostas tiradas na APH. Essa reunião para a escolha dos delegados foi cheia, animada e controversa: diversos partidos e organizações que nunca haviam composto a APH e nem estavam no dia a dia da ocupação apareceram. Foram rechaçados e a assembleia elegeu 13 delegados e delegadas de maneira paritária.

Nossas  principais propostas eram: a revogação do decreto que aumentou o preço da tarifa em dezembro de 2012 (fazendo o preço da passagem retornar para R$ 2,65); passe livre para estudantes, desempregados e aposentados; revisão dos atuais contratos com as empresas que prestam serviço de transporte municipal e a publicação da planilha de custo das empresas de transporte.

No dia 2 de junho publicamos uma carta aberta ao prefeito onde exigíamos uma reunião com a prefeitura que não fosse decidida de maneira unilateral, além da redução imediata da passagem para desocuparmos a Câmara. Do outro lado, o Secretário Municipal da época, Josué Valadão, afirmava que desocupar a Câmara era a condição para que houvesse uma audiência com o prefeito. Claro que isso também foi rechaçado pelo movimento.

Na manhã do dia 3 de junho finalmente recebemos a notícia de que nos reuniríamos com o prefeito-empresário. A reunião realizada dentro da prefeitura e cercada pela imprensa, foi transmitida ao vivo para dentro da Câmara, em consonância com um princípio essencial da APH: a transparência. A habitual falta de educação e paciência do prefeito Márcio Lacerda ficou evidente e na reunião ele emitiu uma pérola sobre seu modo de fazer política: “Eu respeito sua opinião mas ela é irrelevante”. O que esperar afinal, de alguém que em 5 anos de mandato ele NUNCA havia recebido nenhum movimento social, limitando-se a governar a prefeitura como CEO de uma empresa?

Nem bem apresentadas nossas reivindicações, o prefeito fica nervoso e resolve terminar a reunião ao ser confrontado, levanta-se e sai. Os delegados da APH não hesitam e dizem: “Ótimo, já que estamos aqui dentro ocuparemos também a prefeitura!”. Os delegados também fazem troça do passado do prefeito (que de militante da ALN de Marighella, envolvido em um grande assalto e preso político na ditadura, agora era um milionário e gestor), assobiam a Internacional Comunista. O prefeito é aconselhado a voltar e evitando acirrar mais os ânimos, termina formalmente a reunião, assinando a ata para não desgastar sua imagem ainda mais. No final, cumprimentando os participantes da reunião, um dos delegados se recusa a cumprimenta-lo e o prefeito-empresário diz sarcasticamente: “É o seu direito, estamos em uma democracia!”. Grandes ironias!

No dia 5 de julho pressionado pela ocupação e seu grande apoio popular,  enquanto ocorria uma pequena manifestação que foi da Praça 7 até a porta da Prefeitura Municipal em apoio ao movimento, o Prefeito Márcio Lacerda anuncia a redução da tarifa de ônibus. Essa redução vinha através da desoneração de impostos da máfia do transporte, ou seja, sem o corte no lucro dos empresários. Contudo, uma grande festa e alegria tomou a todos e todas que estavam nessa luta, era possível por meio de uma ação direta mudar as coisas. 

No dia 6 de julho fica decidido em assembleia que iríamos sair e no dia 7 de julho, depois de 8 dias de resistência, intensas trocas e aprendizados, desocupamos a Câmara. Não sem antes festejarmos, nadamos ainda em uma piscininha e plástico instalada na portaria principal do prédio, comemos e dançamos. As bandeiras foram retiradas dos mastros oficiais ao som de aplausos e fomos em cortejo até “A Ocupação”. Um enorme evento cultural organizado pelo GT Cultura debaixo do Viaduto Santa Tereza, justamente onde a Assembleia Popular Horizontal começou e continuaria até meados de 2015 (ainda que sem a potência inicial).

No dia 10 de julho, entrou em vigor a redução nas tarifas, que passaram de R$ 2,80 para R$ 2,65 nos ônibus diametrais e de R$ 2 para R$ 1,85 nos ônibus circulares. Lacerda demonstrou que os poderosos e seus agentes só negociam com a faca no pescoço.

Essa pequena luta nós vencemos!

10 anos depois podemos ver os desdobramentos que o Junho rastejante de Belo Horizonte incentivou e potencializou, com diversas ações importantes na cidade, como o próprio prolongamento da Assembleia Popular Horizontal, a Ocupação da Prefeitura realizada pelas ocupações urbanas ainda em julho do mesmo ano, uma nova ocupação da Câmara em agosto de 2013, o apoio a resistência da Ocupação Izidora, o Encontro Libertário Terra Preta na Ocupação Guarani Kaiowá em setembro de 2013, o Viaduto Ocupado (ocupação no início de 2014 do Viaduto Santa Tereza que havia sido fechado para uma reforma sem ampla discussão com a cidade), a criação de um importante movimento como o Tarifa Zero (que inicialmente era o GT de Mobilidade da APH), os protestos contra a Copa da FIFA,  as ocupações Espaço Comum Luiz Estrela e Kasa Invisível, além de diversos outros desdobramentos e encontros que ainda precisamos descobrir.

 

“O governo quer roubar anos de nossas vidas”: notícias e aprendizados da mobilização popular contra a reforma da aposentadoria que incendeia a França

Diante da intensificação da mobilização popular, o Estado francês assume a repressão como única resposta. Após um pequeno texto de contextualização, que resume a situação atual, reproduzimos abaixo alguns depoimentos de grevistas de diferentes setores, na ocasião de uma ação conjunta contra as “requisições” de trabalhadores, na central de incineração de lixo TIRU Ivry.

Bloqueio na refinaria de petróleo de Donges (Loire-Atlantique)

A mobilização popular na França contra a reforma da aposentadoria, que começou no último mês de janeiro, se intensificou fortemente nas duas últimas semanas, desde que o governo fez uso de um artigo controverso da constituição (o chamado “artigo 49.3”) para aprovar a lei sem passar pelo voto do Congresso. O uso deste artigo pelo Macron pela décima segunda vez desde que ele foi reeleito ano passado, no dia 16 de março, pode ser visto como mais uma medida autoritária de um governo enfraquecido. Um governo e um presidente que, desde o movimento das/dos coletes amarelos, atraiu uma ira popular ao assumir cinicamente o apelido de “presidente dos ricos” que a rua lhe atribuiu desde 2018. 

As desigualdades entre os mais ricos e os mais pobres na sociedade francesa se aprofundaram drasticamente nos últimos anos. A taxa de precariedade do trabalho e de pobreza aumentou constantemente nas últimas décadas. Segundo estudos recentes, enquanto o número de bilionários triplicou desde 2010, milhares de franceses possuem menos de 5 euros por dia para viver. Por outro lado, o aumento do custo de vida atinge atualmente recordes. Enquanto isso, o “presidente dos ricos” suprimiu em 2018 o imposto de taxação das grandes fortunas, que existia desde os anos 1980. 

A atual reforma da previdência representa mais um passo rumo ao modelo social ultra-competitivo neoliberal defendido pelos macronistas. Uma reforma que exige do conjunto da população que ela trabalhe por mais dois anos de suas vidas (mudando a idade da aposentadoria de 62 para 64 anos), supostamente para compensar o déficit dos cofres públicos, sem considerar as desigualdades de condições entre as diferentes profissões e as desigualdades de gênero perante o trabalho (a aposentadoria feminina é historicamente inferior). Sem exigir uma contribuição maior dos mais ricos ou das grandes empresas. Sem considerar que pobres e ricos não são iguais perante a aposentadoria, enquanto os primeiros dependem absolutamente da previdência pública, os segundos possuem poupança, investem em patrimônio imobiliário ou fundos de pensão privados.

Segundo declarações do sindicato francês CGT, baseadas no instituto público de estatística INSEE, 25% dos trabalhadores mais pobres na França morrem antes de atingir a idade atual da aposentadoria (62 anos), contra apenas 6% dos mais ricos. Como dizem os manifestantes: “são anos das nossas vidas que o governo quer nos roubar”, enquanto uma ampla maioria da população continua se declarando a favor da mobilização e de sua intensificação. 

Na sequência do “49.3”, dia 16 de março, as ruas do país inteiro foram tomadas por multidões, com manifestações e revoltas populares quase que diariamente desde então. 

A dinâmica de greve também se intensificou, especialmente em alguns setores estratégicos, entre os quais os setores de produção de energia (refinarias de petróleo e centrais nucleares), a coleta de lixo ou ainda os principais portos do país. A força das greves também se explica por uma união pouco comum entre os diferentes sindicatos: a CGT, sendo o sindicato majoritário (com bases dispostas a travar o conflito social, apesar de líderes reformistas), os independentes (tais como o Sud-Solidaires) e os mais reformistas (CFDT, CFT, dentre outros que raramente se engajam por tanto tempo em greves reconduzíveis). 

Esta aliança e determinação dos sindicatos se explica pela postura do governo desde o início do movimento, que se recusou drasticamente a abrir uma mesa de negociação. Nos piquetes de greves, manifestações e ações, esses diferentes sindicatos têm se juntado a outros grupos: trabalhadores e trabalhadoras precarizadas, desempregados e desempregadas, estudantes, coletes amarelos, grupos anarquistas, feministas e autônomos. Essa diversidade de protagonistas implica uma diversidade de modalidades de ações. Em paralelo das greves, também houve em todo o país ações de bloqueio de rodovias, abertura de pedágios, ações de sabotagem etc. 

Com a greve nas refinarias, postos de gasolina em todas as regiões já tiveram que fechar por falta de estoque, enquanto a produção nacional de energia baixou fortemente. Em 17 de março, o sindicato CGT Energie afirmava ter atingido um recorde na baixa de produção (17.000 a 20.000 MW a menos para todo o país). No mesmo setor da energia, os grevistas também aplicam suas próprias modalidades de ação desde o início do movimento: cortes de energia seletivos (visando casas de parlamentares aliados ao governo), redução das faturas para as padarias e pequenos comércios, ou ainda o restabelecimento gratuito da energia às famílias que não conseguem pagar as contas. 

As greves no setor da coleta de lixo e limpeza urbana também surtiram efeitos fortes. Em algumas cidades, como em Paris, o acúmulo de lixos nas ruas chegou a atingir um ponto crítico (com cerca de 10.000 toneladas acumuladas apenas nas ruas da capital).  Nessa cidade, a mobilização histórica dos garis e dos trabalhadores dos centros de tratamento e incineração de lixo serviu como ponta de lança para a radicalização da greve, desde o início de março. 

A mobilização de estudantes e secundaristas também se intensificou, com bloqueios e ocupações das principais universidades do país e de centenas de colégios (especialmente nos dias de manifestação nacional). Em algumas universidades, estudantes entraram em confronto com grupos de extrema direita que intervieram para furar os bloqueios e atacar os grevistas.

A greve teve também forte adesão no setor do transporte (trem, transporte urbano e setor aéreo). Nos últimos dias, a companhia aérea low-cost RyanAir se revoltou de ter sido obrigada a cancelar 240 voos por causa da greve dos controladores aéreos franceses, e das perdas financeiras correspondentes. 

Perante a intensificação das greves e as consequências para a economia, o Estado intensificou a sua resposta repressiva: através da repressão policial, visando de modo indiscriminado todas e todos os manifestantes e grevistas, e através das chamadas “requisições”. 

Em termos de repressão, a violência policial se intensificou drasticamente, acompanhado com o uso de decretos e medidas de exceção. Para impedir os chamados “protestos selvagens” e noturnos que aconteceram diariamente em muitas cidades (espalhando barricadas, fogos e visando símbolos do poder), o governo decretou a proibição de agrupamentos em determinados locais da cidade, adotando a estratégia de cerco e prisões em massas e arbitrárias de manifestantes (apenas em 5 dias em Paris, entre os dias 16 e 20 de março, cerca de 800 pessoas foram presas). O número de manifestantes feridos dificilmente pode ser calculado. Os bombeiros de Paris disseram ter intervindo em 59 casos de emergência para socorrer civis em protestos, número inferior à realidade, se considerarmos a quantidade de feridos atendidos pelas equipes de pronto socorro auto-organizadas pelos manifestantes, as chamadas “street medic”. 

Bloqueio no porto do Havre. (Crédito : Julien Muguet, Le Monde)

Apenas na manifestação nacional do dia 23 de março, dois manifestantes foram mutilados por armas da polícia: um sindicalista do transporte, em Paris, perdeu o seu olho devido a um tiro de bala de borracha. Em Rouen, uma professora perdeu o polegar em razão da explosão de uma granada “não letal” atirada pela polícia. Cabe aqui lembrar que, desde os protestos contra a reforma trabalhista de 2016, e sobretudo a partir do movimento Coletes Amarelos, os casos de mutilações por conta da repressão policial em manifestações têm sido cada vez mais comuns. De certo modo, o Estado francês optou por enviar um recado claro às ruas, perante a intensificação das insurgências populares: na atual República francesa, manifestar e/ou resistir à ação policial significa doravante correr o risco de perder um olho, uma mão ou um nariz. 

A escalada impressionante na intensidade da repressão policial se manifestou nos últimos dias não apenas nas ruas, mas também no campo, como vimos com os acontecimentos de Sainte-Soline. Em paralelo do movimento contra a reforma da aposentadoria, uma mobilização ocorreu no dia 25 de março perto dessa pequena cidade da região Poitou-Charentes, contra um projeto de mega-bacias de retenção de água doce, que beneficia o agronegócio em detrimento dos pequenos agricultores e da biodiversidade da região. Marcada já há alguns meses, a mobilização – que tinha sido proibida pela polícia –  beneficiou do fervor social atual e reuniu cerca de 30.000 manifestantes que tentaram chegar até o canteiro de obras das mega-bacias. Membros do movimento camponês, ativistas e zadistas de todo o país se reuníram em Sainte-Soline. Mais de 3.000 policiais os receberam no local, usando de armamento de guerra para impedir a manifestação. Mais de 5.000 granadas “de efeito moral” foram atiradas. Os manifestantes resistiram durante horas, conseguiram furar o cerco policial e por pouco quase atingiram o canteiro de obra. Veículos policiais foram incendiados. Cerca de 200 manifestantes foram então fortemente feridos, incluindo dois que estão em coma, entre a vida e a morte, até os dias de hoje. 

“Tutorial de Barricada para bloqueios resistentes!”

Enquanto o aparato de guerra “não letal” está sendo usado para reprimir as manifestações, a principal resposta dada para o Estado para conter as greves foram as chamadas “requisições” (medidas judiciais que obrigam trabalhadores a interromper a greve para retomar a produção supostamente por razão de emergência). As “requisições” serviram nos últimos dias para reprimir as greves e bloqueios de produção, obrigando pela força os trabalhadores a retomar a produção. Na maioria dos casos, o governo assina um decreto estipulando o caráter de emergência da requisição, envia a força policial para desfazer os piquetes de greve e coloca se necessário trabalhadores não grevistas (por vezes convocados de outras regiões) para fazer o trabalho. Em resposta às requisições, uma grande quantidade de grevistas de outros setores, estudantes e grupos autônomos têm se organizado diariamente para reforçar os piquetes desde cedo, pela manhã. Essa coordenação tem sido facilitada pela “Rede Pela Greve Geral”, rede inter-profissional e independente de organização mútua que se formou durante o movimento. Nos piquetes, o que se discute, é que tudo isso já não é mais apenas sobre essa reforma da aposentadoria, mas sobre as nossas possibilidades de organização, solidariedade e enfrentamento perante o mundo que essa reforma e esse governo representa.

Diariamente, grupos se espalham nos quatro cantos de suas cidades para apoiar os bloqueios. Nas refinarias do Havre (Normandie) e de Fos-Sur-Mer (perto de Marseille), e em muitos outros locais, enquanto um importante aparato policial cercavam os grevistas, centenas de apoiadores se juntaram aos piquetes, resistindo à ofensiva policial para impedir as requisições. Se a refinaria do Havre conseguiu manter e reconduzir a greve, a produção em Fos-Sur-Mer foi retomada após um longo confronto. 

Chegamos ao ponto em que a economia do país ainda está girando pela única força dos cassetetes e das bombas de efeito moral. Sem o empenho da polícia e do exército, em todo o país, para tentar quebrar as greves, para forçar minimamente a produtividade a continuar, para manter uma certa dose de petróleo a correr nos oleodutos, tudo já entraria em colapso. Uma guerra está em curso para manter, a qualquer custo, a economia de pé. 

Na Central de Incineração de triagem de lixo TIRU Ivry (perto de Paris), a requisição também foi decretada. Perante a quantidade e a determinação das manifestantes que se juntaram ao piquete, a polícia foi obrigada a desistir de intervir, o que permitiu a recondução do bloqueio e da greve, até os dias de hoje. Desde o início de março, as gigantescas chaminés do TIRU pararam de soltar as colunas de fumaça que integram habitualmente a paisagem nessa parte da cidade colada ao anel periférico, ao leste de Paris.

No dia em que a requisição foi impedida, no contexto acalorado que segue a intensa repressão em Sainte-Soline, grevistas de diversos setores vieram declarar a sua determinação a continuar a luta, e compartilhar as suas perspectivas sobre os próximos passos da mobilização. 

Foi uma ótima oportunidade para coletar algumas palavras e perspectivas sobre os próximos passos da luta com grevistas de diferentes setores, que reproduzimos a seguir : 

M., trabalhador da coleta de lixo 

Temos cada vez mais companheiros, no setor da coleta de lixo, que se juntam à greve seguindo a mesma estratégia que estabelecemos aqui: entrar juntos em greve, garis com trabalhadores dos centros de triagem e incineração. Pois um setor não pode funcionar sem o outro. Agora é isto que estamos vendo em muitas cidades, além de Paris: em Fos-Sur-Mer, Marseille, Perpignan, Montpellier…

Começamos a greve aqui no início de março, inicialmente os piquetes estavam tranquilos pois a prefeita de Paris não exigiu requisição nem mandou polícia. Mas quando os lixos começaram a se amontoar nas ruas, o Estado ficou desesperado e começou a tentar de tudo para quebrar a greve : enviar empresas de coleta privadas para catar o lixo, requisições, polícias e repressão nos piquetes…

A questão do privado é complicada, porque hoje já temos quase metade dos distritos de Paris onde a coleta de lixo é privatizada. Foi uma medida iniciada pelo Chirac (antigo prefeito de Paris e antigo presidente da França), nos anos 1990, justamente para evitar as greves. Em resposta, a Rede Pela Greve Geral se mobilizou para bloquear também garagens de empresas privadas. De todo jeito, com os Centros de Incineração bloqueados, eles não têm onde enfiar o lixo. Dizem que eles estão colocando o que conseguem catar em aterros, por aí na periferia, ou em outros Centros de triagem muito longe daqui. 

Com a pressão no setor privado, algumas dessas empresas começaram a ter greves também. Em algumas empresas, como na Pizzorno, a direção logo ofereceu aumento aos trabalhadores para a greve não se alastrar. Acabamos de ter a confirmação inclusive que cinco centros privados de depósito de lixo se juntaram à greve hoje. 

Então vemos que essa questão do lixo só cresce. 

Mas a questão da requisição é outro problema. Por isso é muito importante termos muita gente aqui todos os dias para impedir que ela aconteça. Mas ela nem sempre surte efeito. Aqui perto, em uma garagem onde houve requisição, os colegas estão saindo com os caminhões mas estão catando o mínimo. Ninguém pode obrigar eles a encher o caminhão. Assim a greve continua tendo impacto. 

Precisamos agora colocar mais e mais pessoas nas ruas. Continuar a se organizar, a Rede Pela Greve Geral tem feito esse papel. Mas temos que multiplicar as trocas entre nós, conversar e se coordenar para fazer cair o governo. 

O., trabalhador do centro de Incineração do TIRU Ivry em greve. 

Aqui é o TIRU, a usina de incineração de Ivry. Existe aqui na região de Paris três principais locais onde o conjunto do lixo da capital é incinerado : a usina de Ivry, a de Issy-Les-Moulineaux, e a de Saint-Ouen. É aqui que todos os caminhões de lixo vem depositar as suas cargas diariamente, para elas serem queimadas. Os três incineradores entraram em greve esse mês contra a reforma da aposentadoria, a começar aqui pelo nosso, em Ivry.  Estamos em greve aqui desde o dia 6 de março, exatamente. O que aconteceu é que o governo decretou requisição de funcionários para quebrar a nossa greve.  Acontece dessa forma: um oficial de polícia vem no local, ele apresenta ao trabalhador uma ordem de requisição. O trabalhador em tese é obrigado a assinar e voltar ao trabalho, senão ele sofrerá processo na justiça em seguida. Enquanto isso, a polícia vem e desmonta o piquete de greve à força.

Por isso organizamos hoje um ato aqui, recebendo apoio de companheiras e companheiros de vários setores, para resistir perante a tentativa de requisição, e para defender nosso direito à greve. Estamos prontos para ir até o fim para combater essa reforma. Pelo menos até a reforma cair. 

Essa reforma pra mim é o seguinte: eles querem aumentar as contribuições dos trabalhadores para a previdência, e com isso querem que os trabalhadores trabalhem mais tempo, para se aposentar somente com 64 anos. Acontece que isso não toma em conta a dureza dos trabalhos manuais mais pesados. Trabalhar em uma usina de incineração, como aqui, é muito sofrido. As condições físicas são muito duras. Por isso temos um estatuto especial que nos permite nos aposentar antes. Agora eles querem nos roubar anos de aposentadoria, destruindo os estatutos especiais que existem para determinadas profissões. 

Os garis começaram a greve quase que junto conosco. Então nós seguimos o movimento dos garis para termos mais força juntos, e tentar criar uma sinergia das lutas. Nossos amigos garis também fazem um trabalho muito pesado e desvalorizado. Esses trabalhos se parecem afinal. Depois de um certo tempo de trabalho, suas costas são totalmente destruídas. Trabalhar até 64 anos nessas profissões é fisicamente impossível. Essa reforma então toca em cheio todas as profissões mais duras, mas de modo geral ela está atingindo o conjunto da população. Nosso objetivo é federar essa massa de trabalhadores, criar essa coesão para fazer a reforma cair. 

Temos que entender que a mobilização não se fará apenas pelos sindicatos. É preciso que todo mundo seja consciente da injustiça dessa reforma e se junte. Eu penso que hoje, todo mundo está afetado, seja os garis, os trabalhadores da saúde, da educação. Vemos que o governo está aos poucos destruindo o serviço público, é um projeto de privatização de todas as atividades da sociedade. Se amanhã esse serviço público desaparecer. Amanhã, alguns terão as condições financeiras para acessar a saúde e educação. E os outros estarão diante da catástrofe social. 

É por isto que reconduziremos essa greve ao máximo. E é por causa dessa nossa determinação que eles fazem de tudo para quebrar a nossa greve. Pela requisição, mas também pela violência policial, intimidando e agredindo os manifestantes durante os atos. Podemos ver nos últimos dias que o governo assume uma resposta unicamente repressiva. 

Mas hoje estamos unidos e numerosos aqui para continuar e para defender a nossa greve. E vai continuar. 

Mobilização na frente do TIRU Ivry (Credito : Révolution permanente)

S., trabalhadora da empresa de transportes urbanos, RATP  

Sou trabalhadora logística no metrô. E estou em greve. No nosso setor, a greve é massiva nos dias de mobilizações nacionais (uma dia por semana), mas temos pouco adesão à greve reconduzível (greve clássica, reconduzida à cada assembleia do movimento). Por isso, estou indo todos os dias de manhã apoiar as companheiras e companheiros nos piquetes e bloqueios mais estratégicos. Aqui no TIRU, mas também em muitos outros locais : tem garagens de caminhões de coleta de lixo, em Romainville, Aubervilliers, e outros, onde todo dia de manhã tem gente se juntando para apoiar o bloqueio. A luta é assim, uma vez que você coloca um pé dentro, você não consegue ir mais para trás. Ainda mais quando você vê a violência do governo e da polícia contra quem está mobilizado. Esses dias um companheiro nosso, da RATP, recebeu golpes de cacetete na cabeça no piquete, teve de ir ao hospital, recebeu 30 pontos. É por ele e para todas e todos que vamos continuar. Não desistiremos. 

 B., professor de colégio em greve 

Sou professor do colégio vizinho. Lá somos uma maioria de grevistas. Como quase todos os dias, venho aqui prestar apoio aos grevistas do TIRU. E devo dizer que hoje estou muito emocionado de estar aqui, e ver tanta gente contra a requisição de trabalhadores. Tem 12 anos que estou engajado no sindicato, o primeiro piquete de greve em que participei foi aqui no TIRU Ivry em 2011, contra a reforma anterior (nota: em 2010-2011 houve um ciclo de greves e protestos contra a reforma da previdência do governo Sarkozy, que aumentou a idade legal de aposentadoria de 60 para 62 anos). Tinha muito menos gente, mas já eram as e os trabalhadores do TIRU que estavam na primeira linha da greve. 

E hoje vemos muita gente aqui. Constatamos uma conjuntura peculiar: uma mobilização muito forte com uma convergência de todos os sindicatos CGT, Sud, FSU, FO… Deixamos as nossas brigas de lado para lutar juntos. E isso é muito bonito, temos uma verdadeira dinâmica. 

A greve reconduzível, no setor da educação, devo dizer que ela não é maioritária. Mas ela está ganhando força. A nossa determinação cresce. Meu sentimento é que do lado do governo, sentimos que eles estão balançando. Eles estão a dois dedos de ceder. E vamos ganhar porque estamos certos. É a história do povo. A história dos 90% que não querem essa reforma. Eles pisam em cima do povo, em cima dos parlamentares, isso aí acabou. Amanhã teremos uma mobilização nacional, e depois de amanhã vamos reconduzir a greve, até a queda da reforma, e além disso. Porque não estamos aqui mais somente contra a reforma, estamos lutando para uma outra sociedade. 

I., estudante, membra do coletivo Poing Levé

Eu me chamo I., sou do coletivo estudantil marxista revolucionário Poing levé (Punho erguido) Devo dizer que se a juventude entrou massivamente no movimento, foi graças ao estopim das greves iniciada pelos trabalhadores. Para nós, jovens, o “49.3” foi a gota d’água, um sinal de desprezo a mais deste governo que nos desrespeita há anos, depois de anos de pandemia, anos de precaridade, nas universidades, nos colégios. Anos de repressão também, depois de tantas manifestações e mobilizações  nas  quais nossos companheiros e companheiras são presas, espancados, mutiladas. Esses dias, o nosso camarada Léo foi preso, ficou na delegacia por mais de 55 horas, justamente porque participava de uma manifestação que acabaria aqui para vir apoiar os grevistas no TIRU Ivry. E, claro, o sinal de repressão mais grave que vimos nos últimos dias foi o massacre de Sainte-Solline, onde houve mais de 200 feridos. Temos um companheiro entre a vida e a morte. Há feridos grave, uma pessoa que perdeu o olho. E claro que é uma repressão que mostra o quanto o governo tem medo da juventude, o quanto ele tem medo da gente entrar de fato na batalha atual, ao lado dos trabalhadores. Acho que hoje foi um grande sinal de solidariedade, como outro dia, na refinaria da Normandie, onde mais de 150 jovens, trabalhadores, artistas, foram apoiar as.os grevistas contra a requisição. E é tipicamente este tipo de solidariedade que queremos mostrar reforçar com o Poing Levé, mas também com a Rede Pela Greve Geral. Porque eles têm medo da gente se organizar, e é isso que estamos fazendo. E já não é mais apenas contra essa reforma, e para repensarmos as nossas condições de trabalho e de vida como um todo nessa sociedade. 

Os estudantes agora estão entrando com força no movimento. Tivemos mais de 1000 estudantes em assembleia geral esses dias em Paris, Montpellier, Toulouse. A juventude está se auto-organizando. 

Todo mundo tem que apoiar os piquetes, e apoiar as caixas de doação para a greve. 

Estaremos aqui juntos até o fim. 

F., motorista de trem suburbano (RER) em greve

 

Sou motorista do RER A (linha de trem suburbano). Vim aqui para prestar todo o meu apoio aos trabalhadores do TIRU e aos garis, e a todos que colocaram uma zona nessa gigante nessa cidade repleta de lixos. Toda essa mobilização nos deu força para lutar. Graças a isso, fomos na frente da sede de Renaissance (partido do Macron) e despejamos montanhas de lixos na frente.

Na RATP (empresa pública de transporte urbano), estamos em greve reconduzível. Mas não são a maioria dos trabalhadores, muitos só entram em greve pontualmente. É importante lembrar que em 2019, estávamos na primeira linha da greve contra a reforma anterior do Macron. Ele tentou fazer passar um projeto de aposentadoria por pontos. Ele tentou nos vender como um avanço social uma reforma que era pior ainda que a atual : uma reforma  por pontos com regime de capitalização, nas quais iriamos entregar o dinheiro da nossa aposentadoria para fundos de pensão privados tipo BlackRock, Natixis etc (nota: esse tipo de aposentadoria foi experimentado inicialmente pelo Pinochet, no Chile, atualmente em vigor nos Estados Unidos, e adotado pelo governo Bolsonaro em 2019 no Brasil). Isso é o que eles queriam, era o projeto deles, e fizemos cair esse projeto em 2019, graças a força do movimento grevista. E agora ele volta com uma outra reforma. 

Esse governo que está aí, que está sempre comentando o que acontece no Irã, no Egito, na Tunísia, dando lição sobre a democracia, e o que eles fazem? Eles desviam a democracia, eles usam manobras para não seguir a voz do povo. E eles nos chamam de que? De milícia? De multidão? A multidão não está nem aí e ela vai esfregar esse projeto de reforma na cara deles. 

Hoje, é preciso que toda essa mobilização, toda essa bagunça se generaliza e se amplifica. E para isso, a Intersindical deve endurecer a sua linha. Os grandes sindicatos estão sendo muito tímidos, eu não consigo entender. Não é normal, que depois de um “49.3” eles não chamaram claramente todo mundo à tomar a praça da Concorde. Nessa noite, tinha muita gente na Praça, mas podíamos ser muito mais. E a polícia não teria nos tirado. O que é que as direções sindicais querem? A vitória ou a derrota? Tenho impressão que alguns estão hesitando, com medo, mas é o governo que deve estar com medo. Sim, a unidade sindical é bonita. Temos muitos logos aí nas faixas. Mas não são logos que vão nos fazer ganhar. Todos os sindicatos têm que assumir as suas responsabilidades para endurecer a luta. 

Estamos perto da vitória, com determinação. Mas precisamos de um plano estratégico e uma vontade em comum de ganhar. Todos os governos que foram derrotados, foram quando a juventude e os trabalhadores estavam juntos nas ruas. Precisamos também da juventude. Uma vez que estamos juntos, o governo não terá mais saída. Força para nós, força para os trabalhadores, e que a greve se generalize e se amplifique.


Para Saber Mais:

Camarada Serge: notícias da revolta popular na França

France in Flames – Coletivo CrimethInc.

Revolta na região peruana: Entrevista com companheir@s da Editorial Ande 

 

“Mais do que misturar espontaneidade com a defesa de Castillo, ou independência política de classe com sua subordinação a um caudilho, parece-nos que o processo atual, com todas as suas limitações, é um momento crucial. Não tanto pelos propósitos do movimento, mas pelo que ele representa em termos de experiência e aprendizado para a classe trabalhadora.”   

Em 7 de dezembro de 2022, Pedro Castillo foi afastado do cargo de presidente do Peru, após tentar fechar o Congresso, em meio a disputas entre a casta política e suas diferentes instituições, assumindo em seu lugar a então vice-presidente Dina Boluarte (que pertence ao mesmo partido político de esquerda  do presidente deposto, Peru Libre). Ao longo dos dias, isso desencadeou uma onda de protestos que até hoje mantêm um nível muito alto de conflito social, deixando já mais de 60 pessoas assassinadas nas mãos de uma repressão estatal extremamente brutal, com vários massacres em suas mãos (a mais violenta até agora, a de Juliaca, ocorreu em 9 de janeiro, e custou a vida de pelo menos 18 manifestantes).

Seria um grave erro classificar o atual movimento somente a partir da defesa exclusiva do ex-presidente: a agudização da luta de classes na região peruana expressa, com seus limites, o cansaço pelas sufocantes condições de vida em geral da população e da institucionalidade política.

 Nesse sentido, compartilhamos esta entrevista com o grupo Editorial Ande [1] – a quem agradecemos por ter tempo para nos responder- que fornece informações cruciais e uma análise lúcida da situação naquela região, contextualizando nacional e internacionalmente a situação atual ciclo de protestos, explicando sua gênese, avaliando seus limites e projeções, esclarecendo o panorama da luta de classes em geral, incluindo as lutas internas da classe capitalista e seus representantes políticos à direita e à esquerda.

Incentivamos a sua leitura, discussão e divulgação.                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                 

1- No Chile, os setores antagônicos têm acompanhado de perto as notícias vindas do Peru,  que impressiona pela massividade das mobilizações e pelo alto nível de repressão estatal. Em particular, há algumas semanas aconteceu a chamada Marcha de los Cuatro Suyos. Em que consistia, quais eram os seus objetivos e alcance, e como tem sido a repressão?

Saudamos o interesse em querer desvendar o processo de luta de classes que vem se desenvolvendo nos últimos meses no Peru e agradecemos também pela entrevista. É bem verdade que o nível de repressão se tornou mais agudo, sendo maior do que o registrado nos últimos anos em outros países latino-americanos. A repressão no Peru, ao que nos parece, só é superada pela ocorrida na Colômbia, no contexto dos protestos de 2021 contra a reforma tributária de Iván Duque. Embora seja importante destacar que no Peru beiramos 2.000 feridos e mais de 60 mortos em apenas 2 meses, enquanto o massacre na Colômbia durou mais de 1 ano quando os membros da primera línea ainda estavam reprimidos. Se a repressão estatal continuar ou se intensificar como se tem visto até agora, isso poderia ser facilmente comparado ao que foi exercido pelas ditaduras latino-americanas dos anos 1970.

Um esclarecimento, a  Marcha de los Cuatro Suyos foi realizada em 2000 contra a ditadura cívico-militar de Alberto Fujimori. Justamente por isso, a atual marcha de 19 de janeiro foi chamada de 2ª Marcha de los Cuatro Suyos. A razão é muito geral: em ambas as datas houve uma concentração massiva de mobilizações desde regiões do interior do Peru até a capital Lima e lutaram contra políticos que assumem explicitamente a gestão do poder estatal de forma autoritária. Também foi chamada de “Toma de Lima”, embora nos interesse apontar que os aspectos fundamentais da luta não têm muito a ver com tais rótulos.

A marcha foi antes de tudo diversificada, massiva e desorganizada. Era formado essencialmente pela classe trabalhadora do campo e da cidade, e também estudantes. O proletariado das regiões de Puno, Ayacucho, Arequipa, Cusco, Apurímac, viajaram para Lima dias antes da marcha, sendo interceptado e intimidado pela polícia nas estradas ou bairros a caminho da capital. Apesar desses obstáculos, a grande maioria das delegações chegou ao seu destino. Aproximadamente 50.000 manifestantes se mobilizaram em Lima. Havia pelo menos três rotas de marcha. Uma que se mudou para o Kennedy Park, ou seja, para Miraflores, bairro conhecido por ser o centro de operações e residência tradicional de um amplo setor da burguesia de Lima. Outro caminho traçado pela Confederación General de Trabajadores del Perú (CGTP), que consistia em realizar um desfile pelas avenidas Grau, Abancay e Nicolás de Piérola para finalmente retornar à praça 2 de Mayo. Outro grande fluxo de manifestantes autoconvocados se dirigiu ao Congresso, que estava protegido pela polícia nacional, e por isso acabou enfrentando a polícia no cruzamento das avenidas Abancay e Nicolás de Piérola.

O baixo nível de organização refletiu-se na dispersão das marchas e dos diferentes percursos, mas sobretudo porque não foi formulada uma estratégia ou objetivo comum. Em muitos casos os grupos limitaram-se a cumprir os percursos traçados; em outros, os manifestantes se aproximaram das dependências dos meios de comunicação, ou perto das casas de políticos, ou burgueses para demonstrar seu descontentamento. Um contingente maior buscava chegar ao Congresso.

Em relação à repressão, é importante destacar que ela se concentra e tem se concentrado no parte sul do país. Em Lima houve uma forte repressão, mas não houve aniquilação direta da classe trabalhadora como em Juliaca, Ayacucho ou Andahuaylas. Sim, houve dezenas de detidos. Em outras regiões como Cusco, Puno e Arequipa houve tentativas de tomar o aeroporto. E nesta última região houve até um óbito.

 

2- Qual é o pano de fundo dessa onda de protestos que parece estar em ascensão? Como avalia este movimento no contexto global de crise, atualmente marcado pela guerra e pelo recente ciclo de revoltas?

 O cenário das lutas atuais no Peru se desenvolve como um momento de luta de classes em todo o mundo, determinado pela crise do capital. Observamos uma recessão técnica por dois trimestres consecutivos, principalmente nos ramos produtivos de países imperialistas como Estados Unidos, Alemanha e Inglaterra. Da mesma forma, a taxa de desemprego é gerada em ramos específicos dos setores de hidrocarbonetos, mineração, gás e plantas de petróleo, tendo em conta o aumento do emprego no setor de serviços. Há também altas taxas de inflação, principalmente nos setores de alimentação e habitação, aspectos que mais atingem a classe trabalhadora. Atrelado a isso, a guerra interimperialista, imanente à crise, Leva a um aumento no preço do petróleo e do gás gerando um efeito dominó nos preços dos produtos em todo o mundo. A escassez de fertilizantes se traduz em menor produção nos setores agrícolas em todo o mundo, enquanto as grandes empresas ligadas ao processamento e venda de combustíveis e aos bancos quebram ou entram em crise.

O Peru é um país que depende da importação de combustíveis, fertilizantes e alimentos; por outro lado, sua economia primário-exportadora o torna sensível a choques econômicos externos. Assim, todo esse aumento de preços vem afetando diretamente o custo de vida de sua população. Por exemplo, quando o custo do transporte aumenta, todas as mercadorias transportadas aumentam seus preços. A falta de fertilizantes leva a uma produção menor e seus altos custos aumentam o preço dos produtos agrícolas. Juntos, sua moeda é desvalorizada, entre outros fatores, pelo aumento da inflação e pela elevação dos juros pelo Reserva Federal dos Estados Unidos, tendo seus efeitos mais agudos nos últimos meses. A isto podemos acrescentar que o impacto da guerra teve um efeito contrário ao esperado, reduzindo o preço dos metais. Tudo isso gerou um aumento da inflação de mais de 2 pontos, atingindo o maior nível em 26 anos com 8,46% e mais de 15% nos alimentos. Isso faz com que produtos básicos para o consumo da classe trabalhadora, como a batata, por exemplo, aumentem seu preço em mais de 100%. O crescimento do Produto Interno Bruto em 2022 vem diminuindo, com queda de 3,8% para 1,7% no último trimestre.

Nesse cenário se localiza o processo de lutas interburguesas dentro do Estado que se desenrola de forma mais transparente desde 2016. Isso é muito bem visualizado com a destituição de presidentes e no confronto entre os poderes do Estado. Esse processo arrasta a classe trabalhadora a se posicionar pelas frações burguesas. No entanto, 2020 apresentou um cenário em que o proletariado da agroexportação do litoral sul e norte do país se levantou em greve. Foi um passo dos enfrentamentos interburguesas para um claro processo de luta de classes. A causa direta foi a tentativa de ampliação de um regime trabalhista para agroexportadores que foi instalado no governo Fujimori (2000) e que só flexibiliza e precariza o proletariado. Contratos temporários, utilização de services, estabilidade zero no emprego, salários reduzidos, etc., são características desse sistema de trabalho. No entanto, esse processo esteve ligado à pandemia, onde vimos claramente como o Estado beneficiou abertamente a burguesia e, da mesma forma, as disputas interburguesas no Peru que revelaram a corrupção e os interesses dos representantes da burguesia no Estado. Não se tratava apenas de uma eclosão da luta de classes, vinculada de forma temporária, mas de forma essencial. Essas disputas entre a burguesia abrem um cenário propício para que as lutas do proletariado explodam. Um cenário semelhante se apresenta agora. Passamos dos conflitos interburgueses para a luta de classes, onde o proletariado busca derrubar representantes da burguesia no Estado, embora no momento seja apenas uma mudança de tais representantes.

 

3- Nos primeiros dias, o movimento parecia se expressar com intensidade diferente nas províncias em relação a Lima. O que explicaria isso? Como esse fenômeno se desenvolveu?

As lutas foram mais ativas nas regiões fora de Lima, no começo e agora mesmo. Os trabalhadores das regiões mais agitadas, como Apurímac, mantêm uma renda mensal de S/. 714 de Puno com uma renda média de S/. 805. Isso equivale a 189 e 213 dólares por mês, respectivamente, embora sendo a média é certo que esse rendimento é ainda menor para os mais pobres. Na região sul peruana, destaca-se também o alto índice de anemia em crianças, com incidência em torno de 50% em Apurímac e Ayacucho e 70% em Puno. São esses trabalhadores explorados e precários no processo de acumulação do capital imperialista vinculados às mineradoras que saem às ruas para lutar. A indignação cresceu de sul a norte, impulsionada pelos trabalhadores da cadeia de montanhas da região sul, que tem uma grande história de luta, aos poucos foram convocados diferentes setores e regiões, o movimento se expandiu para incluir a própria Lima, tradicionalmente conservadora.

 

4- Vimos que a imprensa burguesa tem sido particularmente hostil às manifestações (“Isto é terrorismo”, “A polícia defende o Peru”, “É violência política, não é protesto social”, são algumas das manchetes que viram depois da marcha para Lima). Existem elementos específicos que explicam esse comportamento ou é apenas uma continuação de seu tradicional papel criminalizador?

A imprensa atual no Peru, como em grande parte da América Latina, é controlada e concentrada por um punhado de famílias. O Grupo El Comercio da família Miró Quesada controla aproximadamente 80% da imprensa escrita e um domínio na imprensa digital com 28% da mídia disponível nesse setor. Em dois de seus jornais mais populares, como Peru 21 e Trome, os trabalhadores que se manifestaram foram diretamente acusados de serem terroristas. O veículo de extrema-direita Willax, que pertence a corporação Erasmo Wong, é ainda mais obstinado no “terruquear”, pedindo abertamente para “atirar na cabeça” dos manifestantes. A partir desses grupos de imprensa constituinte e intimamente ligados à grande burguesia do Peru, que vem se espalhando a ideia de que quem se manifesta é vândalo ou terrorista. Esta posição nada mais é do que a expressão de seus “tradicionais” interesses de classe em um momento de agudização da luta de classes. Assim como os níveis repressivos se agudizaram diante da irrupção do proletariado, o papel da grande imprensa teve um movimento semelhante, tentando dar legitimidade à repressão estatal diante da opinião pública. Assim, o principal elemento para explicar a posição da grande imprensa é o próprio processo de luta e o medo gerado nos setores burgueses pela ação direta dos trabalhadores.

 

5- Qual tem sido a participação das minorias revolucionárias, anarquistas ou comunistas, durante o desenrolar destes dias?

 Em Lima verificamos a participação de anarquismos libertários, comunismo tradicional dos PCs e organizações social-democratas em geral. Certamente, existem minorias de ex-trotskistas, maoístas da velha guarda que deixaram suas antigas posições e assumiram uma posição revolucionária. Além disso, há novas organizações mais próximas das leituras da esquerda comunista alemã, holandesa e italiana, refeitas com a influência da Neue Marx-Lektüre e suas diversas vertentes. Mais tarde, anarquistas individualistas e marxistas com posição de classe, mas amplamente dispersos, têm participado também. Embora em geral, infelizmente, o grosso das organizações em marcha seja de tendência reformista e proclame como medida máxima a Assembleia Constituinte.

 

6- Qual tem sido o papel desempenhado pelas organizações mais tradicionais, como partidos de esquerda, sindicatos ou organizações indígenas?

 A maioria dos partidos de esquerda no Peru há muito se caracteriza por uma prática e um programa parlamentarista e reformista. Este procedimento se refletiu no apoio constante ao governo Castillo, que em nenhum momento representou alternativa alguma — como toda alternativa burocrática e parlamentar— para a classe trabalhadora. Basta recordar as lutas de março-abril que aconteceram em Junín, Ica, Cajamarca e outras regiões, devido à crise econômica desencadeada pela guerra russo-ucraniana e o correspondente aumento dos preços dos combustíveis e fertilizantes. O ex-presidente ignorou as reivindicações dos trabalhadores, chamando-os de valentões pagos pela direita, o que foi seguido por alguns partidos de esquerda como o Izquierda Socialista; enquanto isso, a maioria deles — como Patria Roja, ML 19 e Movimiento por la Unidad Popular— entenderam os acontecimentos como uma “traição” por parte de Pedro Castillo rumo as promessas de uma Assembleia Constituinte e de uma verdadeira alternativa popular e de esquerda, com uma menção tangencial ou nula ao contexto econômico mundial e muito menos ao proletariado como sujeito revolucionário.

Essa visão estreita da esquerda voltou a se manifestar nas lutas atuais. No plano teórico, encontram como motor das lutas atuais um processo de democratização que emergiu “de baixo”, cujos objetivos são a inclusão total de todos os membros da sociedade no jogo da democracia, cuja expressão seria a convocação a novos eleições e a tão aclamada — de maneira mais eufórica e repetitiva por esses partido  exclusivamente— a Assembléia Constituinte. No nível prático, eles têm divulgado suas proclamações parlamentares nas marchas e querendo se apropriar e direcionar à vontade o impulso subversivo dos trabalhadores. Como pode ser visto nos processos políticos do Chile e da Colômbia, a canalização das lutas para uma solução parlamentar — por meio de uma Assembleia Constituinte ou por meio da eleição de um novo presidente de esquerda, respectivamente — não faz mais do que atenuar e apaziguar os esforços dos trabalhadores, essa é a sua verdade natureza: são a esquerda do capital, reformistas, conciliadores de classes — quando não negam justamente a existência das classes —, não buscam a emancipação dos trabalhadores

Quanto aos sindicatos, eles têm uma relação estreita com os partidos de esquerda descritos acima. É o caso da Confederación General de Trabajadores del Perú (CGTP), que ao longo desses processos de luta manteve o mesmo discurso da Assembleia Constituinte e inclusive explorou a possibilidade de participar de uma Reunião de Acordo Nacional com a Presidenta Dina Boularte, que muito provavelmente teria sido realizado se não fosse o massacre de 18 manifestantes em Juliaca, Puno. É evidente o radicalismo dos trabalhadores, que se levantaram e se organizaram pelos seus próprios meios, ao qual pela mesma força das circunstâncias se somam a esquerda reformista e os sindicatos a ela alinhados.

7- Qual é a composição do movimento? Quão heterogêneo é? Tem traços de autonomia e espontaneidade ou limita-se a apoiar Pedro Castillo? Ou até que ponto as duas coisas se misturam?

 Em termos geográficos, o movimento é liderado principalmente por trabalhadores do campo da cidade de Central Sierra e do sul do país. A mobilização na capital é bastante pequena e tende a ser composta por universitários e setores mobilizados pelos partidos políticos da esquerda reformista, além de pequenos grupos de orientação diversa e autoconvocados. Estes últimos são os mais ativos nas tarefas de autodefesa que ocorrem nos confrontos com a polícia. Em termos gerais, a maioria dos manifestantes são trabalhadores (empregados ou desempregados, rurais ou urbanos). Onde uma certa heterogeneidade se manifesta é nos vários slogans que se agitam e na perspetiva estratégica que se defende. Os principais slogans são: a convocação de novas eleições, o que significaria uma mudança de poder executivo e legislativo; a convocação de uma Assembléia Constituinte e a renúncia de Dina Boluarte. Inicialmente, houve setores mais ligados ao antigo governo que agitaram —e continuam agitando— o pedido de libertação de Pedro Castillo e sua reintegração como presidente da república. Com o passar do tempo, esse pedido foi perdendo força, pois a tendência predominante é um descontentamento generalizado com o funcionamento das instituições burguesas. A principal limitação reside no fato de que a crítica do quadro institucional e dos partidos políticos burgueses ainda não foi capaz de reconhecer o papel desempenhado pelo reformismo e pela esquerda do capital na reprodução da miséria. Isso dá a políticos como Pedro Castillo alguma margem de manobra enquanto tentam capitalizar o descontentamento dos trabalhadores. Mas de forma alguma se pode dizer que a mobilização se limita a apoiá-lo. Essa confusão ocorre porque a saída de Pedro Castillo foi efetivamente o estopim das mobilizações. Mas seria um erro limitar-se a este evento e não analisar o contexto geral marcado pela crise e pela crescente decomposição das instituições burguesas. Mais do que misturar espontaneidade com a defesa de Castillo, ou independência política de classe com sua subordinação a um caudilho, parece-nos que o processo atual, com todas as suas limitações, é um momento crucial. Não tanto pelos propósitos do movimento, mas pelo que ele representa em termos de experiência e aprendizado para a classe trabalhadora.

 

8- Para onde é mais provável que o movimento se dirija? Quais são suas projeções? Tem perspectivas comunistas que poderiam ser desenvolvidas?

Falar de uma perspectiva comunista dirigindo o atual processo no Peru é um exagero e uma impossibilidade a curto prazo, devido às condições ideológicas da classe trabalhadora e à feroz criminalização contra o comunismo e as ideias revolucionárias. No entanto, o Peru é um país de extremos, se por um lado a direita parasitária tomou o poder por mais décadas do que em outros países latino-americanos, não deixando espaço para ação — mesmo para soluções reformistas —; por outro lado, nossa história de lutas foi marcada por grupos radicais que se levantaram contra o Estado. O terreno político peruano não tem sido propício ao desenvolvimento de um progressismo duradouro, entre outras coisas, devido ao nível de vínculos entre a burguesia e o imperialismo e porque a violência capitalista é muito profunda. Esse panorama desanimador foi revertido nas últimas marchas no Peru porque o que acaba sendo questionado, além das aspirações reformistas, é o Estado e a própria propriedade burguesa. Ou seja, o movimento da luta de classes no Peru expressa vozes conscientes do essencial. Nesse contexto, nasceu nosso grupo, sólido em princípios e com objetivos claros; acreditamos, por nossa experiência, que a classe trabalhadora exige e precisa do necessário desenvolvimento de um caminho revolucionário que só é possível por meio de sua associação como classe.

 

9- Em relação à casta política, como ela está enfrentando a crise? Está dividida? Existem partidos ou grupos que apoiam as manifestações? Existe uma clara diferenciação pontual entre esquerda e direita?

A casta política no Peru está aparentemente dividida. Ou seja, embora existam setores da direita e até mesmo da “extrema direita” fujimorista que apoiam as eleições antecipadas e a saída de Dina Boluarte, na prática todos eles, inclusive os partidos de esquerda, querem canalizar a mobilização dos trabalhadores para canais institucionais. Enquanto uns propõem uma Assembleia Constituinte e outros apenas eleições, e se envolvem em “grandes polémicas” no parlamento sobre essas diferenças que se apresentam como antagonismos irreconciliáveis; em termos reais, todos os partidos políticos querem restabelecer a calma política que garanta a plena continuidade da acumulação do capital. Assim, explica-se que não só a esquerda apoia as manifestações e que há centristas e até liberais participando da mobilização. Claro, enfatizando a necessidade de não violar a propriedade privada e o respeito à autoridade. Neste sentido, pode dizer-se que não existem diferenças substantivas, embora a nível imediato existam.

11- Como a solidariedade internacional poderia ser efetiva contra a repressão brutal e o eventual desenvolvimento de perspectivas anticapitalistas dentro do movimento na região peruana?

A luta de classes é um fenômeno mundial porque o próprio modo de produção capitalista o é; a ofensiva desse modo de produção vem crescendo e transformando em elementos de acumulação todas as esferas em que nos desenvolvemos. Estamos cientes de que a luta do proletariado está eclodindo em diferentes espaços e regiões, dadas as consequências da crise mundial. Tal solidariedade internacional deve se expressar na unidade dos trabalhadores em seus países e na formação de vínculos entre seus setores mais organizados, porque, apesar de existirem mediações concretas nas nações, as causas de nossa luta encontram-se nas tendências e contratendências do modo de produção capitalista. O proletariado peruano vem se esclarecendo no processo de luta com o aperfeiçoamento de seus métodos de luta e o aperfeiçoamento de suas organizações; no entanto, o reformismo ainda se impôs como a principal saída da crise devido à continuidade difusa das tarefas democrático-burguesas que desempenharam durante os últimos 50 anos. Diante disso, uma verdadeira solidariedade internacional dos grupos revolucionários deve ajudar a revelar o fracasso da social-democracia em suas tentativas de instalar e difundir soluções ilusórias para a classe proletária e, por outro lado, posicionar-se contra a violência policial e as políticas intervencionistas dos imperialismos. Colocar as coisas em seus termos reais é contribuir para o caminho necessariamente revolucionário dos trabalhadores em todo o mundo.

[1]     O grupo se apresenta como “uma editora comunista que traduz, edita, imprime e publica livros de diversos gêneros e saberes de diversas partes do mundo, sempre vinculado a pensar a sociedade e buscar transformá-la”.

 

Entrevista retirada do site dos companheiros do Vamos hacia la vida, realizada em 14 de fevereiro de 2023.

ENTREVISTA: Anarquistas Iraniano falam sobre os protestos em resposta ao assassinato pela polícia de Mahsa Amini

INTRODUÇÃO

A 13 de setembro de 2022, Mahsa Amini, de 22 anos, foi presa por uma “patrulha de orientação” iraniana (também conhecida como “polícia da moralidade”). Mahsa foi presa em Teerão por não respeitar as leis relacionadas ao vestuário. Três dias depois, em 16 de setembro, a polícia informou a família de Mahsa de que ela “teve uma paragem cardíaca” e tinha entrado em coma dois dias antes de morrer.

Relatos de testemunhas oculares, incluindo o do seu próprio irmão, mostram de forma clara que ela foi brutalmente espancada durante a prisão. Exames médicos divulgados indicam que ela sofreu uma hemorragia cerebral e um acidente vascular cerebral  – lesões causadas por uma pancada que levaram à sua morte.

Manifestantes em Istambul, Turquia, seguram uma imagem de Mahsa Amini.

Desde que esta informação se tornou pública, protestos em massa eclodiram em todo o Irã para denunciar o assassinato de Mahsa pela polícia.

Para entender melhor essa situação em rápida mudança, realizamos uma breve entrevista com a Federação Anarquista ERA, uma organização com seções no Irã e no Afeganistão.

Esta entrevista foi realizada entre os dias 20/09/22 e 23/09/22.

ENTREVISTA

Black Rose / Rosa Negra (BRRN): Em primeiro lugar, poderiam apresentar-nos a Federação Anarquista ERA?

FAE: A Federação Anarquista ERA é uma federação anarquista regional ativa no chamado Irã, Afeganistão e mais além.

A nossa federação é baseada no Anarquismo de Síntese, aceitando todas as tendências anarquistas, exceto as tendências nacionalistas, religiosas, capitalistas e pacifistas. Os nossos muitos anos de experiência organizativa em ambientes extremamente opressivos como o Irã nos levaram a desenvolver e a utilizar táticas e filosofias organizativas insurrecionais.

Somos uma organização ateísta, vemos a religião como uma estrutura hierárquica que é mais antiga e duradoura do que quase todos os outros sistemas autoritários e muito semelhante ao capitalismo e outras estruturas sociais autoritárias que escravizam hoje a humanidade. A guerra de classes, do nosso ponto de vista, inclui a guerra contra o clero que nos rouba a liberdade e a autonomia, definindo o que é sagrado ou tabu, e impondo-os através da coerção e da violência.

BRRN: Quem foi Mahsa Amini? Quando, porque e como ela foi morta?

FAE: Mahsa Amini, a quem a sua família chama Zhina, era uma jovem curda comum de 22 anos, natural da cidade de Saghez (Saqez) no Curdistão.

Ela estava viajando com sua família para Teerã para visitar famíliares. Em 13 de setembro, enquanto estava com o seu irmão, Kiaresh Amini, a polícia da moralidade ou a chamada “Patrulha de Orientação” prendeu Mahsa por usar “hijab impróprio”. O irmão dela tentou resistir à prisão, mas a polícia usou gás lacrimogêneo e também espancou Kiaresh.

Muitas outras mulheres presas testemunharam o que aconteceu na van da polícia. No caminho para a delegacia, houve uma discussão entre as mulheres detidas e os policias. Mahsa Amini foi uma das que protestaram contra a prisão. Ela disse que não era de Teerã e que deveria ser libertada.

A polícia usou de violência física para calar todas as detidas. Mahsa também foi espancada. De acordo com testemunhas oculares, a policia atingiu a cabeça de Mahsa fazendo com que batesse com força na parte lateral da van em que seguiam.

Ela ainda estava consciente quando chegou à Agência de Segurança Moral, mas as outras mulheres detidas notaram que ela não estava bem. A polícia mostrou-se completamente indiferente e acuso dela ter protestado durante a viagem. As mulheres continuaram protestando para ajudar Mahsa a obter os cuidados médicos que ela precisava. Os protestos foram recebidos com violência por parte da polícia. Mahsa Amini foi novamente espancada pela polícia e perdeu a consciência.

A polícia tentou reanimá-la bombeando ar com massagens no peito e levantando e massageando suas pernas. Após essas tentativas frustradas, a polícia agrediu as outras mulheres confiscando todos os celulares e câmaras que pudessem ter gravado o incidente.

Depois de muita demora e de encontarem as chaves perdidas da ambulância, Mahsa foi levada para o Hospital Kasra.

A clínica que recebeu Mahsa Amini disse num post no Instagram que Mahsa estava com morte cerebral quando foi internada. Este post do Instagram foi posteriormente apagado.

Em 14 de setembro, uma conta no Twitter de um amigo que trabalhava no Hospital Kasra relatou que a polícia ameaçou os médicos, enfermeiros e funcionários para não tirarem fotos ou fazerem vídeos e para mentirem aos pais de Mahsa sobre a causa da morte. O hospital, intimidado, obedeceu à polícia. Disseram aos pais que ela tinha sofrido um “acidente” e a mantiveram em suporte de vida durante dois dias. Mahsa foi declarada morta em 16 de setembro. Exames médicos, divulgados por hacktivistas, revelam fraturas ósseas, hemorragia e edema cerebral.

BRRN: A identidade de Mahsa como curda desempenhou algum papel na sua prisão e na sua morte?

FAE: Sem dúvida, ser curdo em Teerã teve um papel importante na eventual morte de Mahsa. Mas, esta é uma realidade que todas as mulheres no Irã experimentam. Não precisamos ir muito longe para encontrar imagens de vídeos da polícia da moralidade espancando e forçando mulheres a entrarem em vans, atirando mulheres para fora de um carro em movimento e assediando mulheres de hijab devido ao seu “hijab impróprio”. Esses vídeos mostram apenas uma pequena parte do inferno que as mulheres passam no Irã.

O fato de Mahsa estar com o irmão no dia da sua prisão não foi um acaso. Na sociedade patriarcal do Irã, as mulheres devem ser acompanhadas por um familiar do sexo masculino, seja pai, marido, irmão ou primo, para afastar a policia da moralidade e desencorajar indivíduos desagradáveis em público. Casais jovens não devem ser vistos muito próximos um do outro em público ou correm o risco de serem espancados e presos pela polícia da moralidade. Os familiares devem ter documentos como prova caso sejam questionados pela polícia. Prender mulheres por causa de batons e unhas era uma realidade que muitos de nós, mais velhos, nos lembramos vividamente no Irã.

A ameaça de ataques com ácido por “mau hijab” é outro pesadelo que as mulheres enfrentam no Irã.

O patriarcado e a autocracia religiosa afetam todas as mulheres.

BRRN: Como é que o povo iraniano soube da morte de Mahsa? Qual foi a resposta popular inicial?

FAE: Como dissemos anteriormente, havia muitas testemunhas oculares. Nenhuma ameaça poderia ter impedido que a história da morte de Mahsa fosse conhecida.

Vale a pena mencionar que o médico que atendeu Mahsa e o fotojornalista que documentou o estado de Mahsa e da sua família em perigo foram presos, e seus paradeiros são desconhecidos.

A resposta inicial foi de indignação. As pessoas já compartilhavam a história de Mahsa desde o dia 14 de setembro. A indignação ainda não era suficientemente forte para provocar protestos e revoltas. As pessoas ainda pensavam que Mahsa estava em coma e havia esperança de sua recuperação. Então, ela foi declarada morta em 16 de setembro.

Primeiro, houve pequenos protestos no Hospital Kasra, que foram dispersados pela polícia. As faíscas da atual revolta foram acesas em Saghez, cidade natal de Mahsa.

Uma motocicleta da polícia é queimada em uma manifestação em Teerã.

BRRN: Qual a dimensão dos protestos atuais? Em que áreas do país se concentraram as manifestações?

FAE: A situação é muito dinâmica e está mudando excepcionalmente rápido. No momento em que escrevo estas linhas, as chamas da revolta incendiaram 29 das 31 províncias do Irã. Uma das características dessa revolta é que ela se espalhou rapidamente para as principais cidades do Irã, como Teerã, Tabriz, Isfahan, Ahvaz, Rasht e outras.

Qom e Mashhad, as fortalezas ideológicas do regime, juntaram-se à revolta. A ilha de Kish, o centro capitalista e comercial do regime, também se revoltou. Esta é a revolta mais diversificada que testemunhamos nos últimos anos.

Em 23 de setembro, os sindicalistas planejam uma greve geral em favor dos protestos.

O regime planejou uma manifestação do Exército para o mesmo dia. Muita coisa está acontecendo.

BRRN: Como o estado iraniano respondeu a estas manifestações?

FAE: A resposta inicial do regime foi menos brutal do que já experimentámos antes. Uma razão é que eles foram apanhados de surpresa. Não esperavam uma resposta tão forte. A razão mais importante é que Ibrahim Raisi está na ONU. A ausência de altos funcionários, a história divulgada de Mahsa e os protestos, e a pressão exercida sobre o governo sob o olhar atento da comunidade internacional pararam o massacre por enquanto.

Mas não nos enganemos. A polícia matou e feriu muitas pessoas desde o primeiro dia dos protestos. Alguns deles eram crianças de 10 anos e adolescentes de 15 anos. No entanto, antes tivemos  o mês de novembro de 2019, quando o regime massacrou milhares de pessoas em 3 dias.

Em todas as revoltas anteriores, a polícia não foi diretamente o alvo da raiva popular. Mas isso não aconteceu dessa vez. Desta vez, eles são os bandidos e as pessoas querem o seu sangue. Isso esgota-os física e mentalmente, o que consideramos uma boa notícia.

Neste momento, Saghez e Sanandaj estão passando por uma repressão implacável. O regime trouxe tanques e veículos militares pesados para reprimir a revolta. Há muitos relatos de munição real disparadas contra os manifestantes.

Os protestos continuam. Muitos carros da polícia foram vandalizados. As delegacias de polícia foram atacadas e incendiadas. Só precisamos nos armar saqueando o arsenal deles. Então, entraremos numa fase completamente diferente da revolta.

Uma barricada construída em uma manifestação em Teerã em 21/09/22.

BRRN: É correto considerar estes protestos como feministas?

FAE: Sim, absolutamente. Como em todas as outras revoltas, houve desenvolvimentos e movimentações subterrâneas..

Pode-se dizer que a recente campanha de repressão ao Hijab e o aumento da brutalidade da polícia da moralidade começaram em resposta à auto-organização espontânea, autónoma e feminista das mulheres iranianas. No início deste ano, as mulheres no Irã começaram a colocar na lista negra e a boicotar pessoas e empresas, como cafés, que aplicam estritamente o Hijab. O movimento era descentralizado e sem liderança e tinha como objetivo criar espaços seguros para mulheres e membros da comunidade LGBTQ.

Essa opressão brutal culminou neste momento em que as mulheres estão na vanguarda em todos os lugares, queimando os seus lenços e enfrentando a polícia, já sem Hijab. O principal slogan do levante também é “Mulher, Vida, Liberdade”, um slogan de Rojava, uma sociedade cujas reivindicações são baseadas na ideologia anarquista, feminista e laica.

BRRN: Que elementos políticos (organizações, partidos, grupos) estão presentes nas manifestações, se existirem?

FAE: Muitas organizações, partidos e grupos tentam se apropriar ou influenciar os protestos em seu benefício a cada levante.

A maioria deles deparou-se com um problema insolúvel durante esta revolta.

Primeiro, os monarquistas. Reza Pahlavi, o filho caloteiro do ex-xá do Irã, um indivíduo sustentado por dinheiro roubado e redes de mídia fora do Irã, pediu um dia nacional de luto em meio à indignação pública e aos protestos iniciais, em vez de usar seus recursos para ajudar o revolta. As pessoas finalmente viram o charlatão que ele é. A frase “Morte aos opressores, seja o Xá ou o Líder”, foi ouvida em todo o Irã.

Em seguida,  MEK ou Mujahedin Kalq. O MEK tem um problema ideológico com esta revolta. É uma seita cujos membros femininos são forçados a usar lenços vermelhos. A sua origem está numa combinação das ideologias marxistas e islâmicas, dominada pelos marxistas-leninistas antes de 1979, e hoje são uma seita ao serviço de estados capitalistas e imperialistas. No entanto, as mulheres no Irã estão queimando os seus lenços e o Alcorão. Eles não têm voz neste clima político.

Depois, há partidos comunistas que desprezam Rojava e sempre falam mal dela. A sua análise de classe, desmascarada e enferrujada, não os ajuda a ganhar corações aqui.

Apesar de todos os discursos e propaganda na defesa do secularismo e do feminismo, não tinham sequer um slogan voltado para a libertação das mulheres. A sua ideologia impedia-os de gritarem  “Mulheres, Vida, Liberdade”. Eles não tinham nada a dizer, por isso calaram-se. Graças a isso, a sua presença é muito mais fraca nos protestos atuais.

O movimento anarquista está crescendo no Irã. Esse revolta, sem liderança, feminista, antiautoritária e entoando slogans de Rojava, fez com que anarquistas, filiados e não afiliados na federação, tivessem uma forte presença nesse levante. Infelizmente, muitos foram presos e feridos também.

Estamos trabalhando para perceber o potencial anticapitalista desse movimento. Porque a República Islâmica é um culto e uma religião de morte, sendo o patriarcado, o racismo e o capitalismo os seus pilares ideológicos. Para vivermos, precisamos ser livres; e isso não pode ser feito sem que a libertação das mulheres esteja na vanguarda.

Manifestação de estudantes universitário em Teerã em 19/09/22.

BRRN: Em solidariedade. Obrigado pelo seu tempo.

FAE: Solidariedade.

Obs: Esta é uma tradução de uma entrevista publicada no site blackrosefed.org efetuada pelo Portal Anarquista e revisada pela Facção Fictícia