Bem-vindas às Linhas de Frente: Além da Violência e da Não-violência – por coletivo Chuang

O texto a seguir foi lançado em junho pelo Coletivo Chuang  e traz uma importante e inovadora análise dos recentes levantes em Hong Kong contra a lei de extradição e seus paralelos e influência sobre os as ondas de protesto no Chile e nos Estados Unidos nas táticas usadas por manifestantes e a relação entre “violência” e “não-violência”. Traduzimos e lançamos o material porque ele oferece uma abordagem que atualiza o debate sobre como manifestantes encontraram formas de cooperar em diferentes táticas, posições e capacidades para que o maior número e variedade de pessoas pudessem participar dos protestos com maior segurança e enfrentar as leis e a violência policial em uma ampla cooperação.

mencionamos o trabalho do coletivo Chuang, sempre crítico ao capitalismo de estado da China, especialmente em relação à crise que sanitária em que vivemos com seu artigo Contágio Social – Coronavírus, China, Capitalismo Tardio e o ‘Mundo Natural’. Esperamos que esse novo texto contribua para o debate e inspire os próximos momentos de agitação e protestos de rua no Brasil e no mundo.


Bem-vindas às Linhas de Frente: Além da Violência e da Não-violência

Em maio e junho de 2020 os EUA assistiram a alguns dos maiores protestos e levantes combativos em décadas. O movimento, que tomou o país, começou em Minneapolis após a polícia assassinar George Floyd. A raiva que se seguiu levou a manifestações em massa, confrontos com a polícia, incêndios e saques, luto e rebelião que se espalharam por todos os estados do país em questão de horas. A delegacia do Terceiro Distrito Policial de Minneapolis, onde os policiais assassinos trabalhavam, foi incendiada e carros de polícia foram queimados também de Nova York a Los Angeles, nos ataque mais generalizado à edifícios de instituições da repressão estatal dos EUA em um século, abastecidos por décadas de raiva contra a polícia racista e o incessante assassinado de pessoas negras pelas mãos da polícia. Agora, até a esquerda eleitoral reformista está discutindo seriamente uma versão mais suave da abolição da polícia em nível nacional, re-imaginada como “cortar os orçamentos” da polícia, e o Conselho da Cidade de Minneapolis prometeu “dissolver” o departamento de polícia da cidade. Há pouco tempo, tal demanda teria sido considerada utópica.

À medida que o movimento contra a brutalidade policial e a própria instituição da polícia se desenrolam rapidamente nos EUA, já vimos marcas de outros confrontos e lutas de massas que surgiram em todo o mundo no ano passado, do Chile à França, Líbano, Iraque, Equador e Catalunha, para citar apenas alguns. Aqui, qualquer análise ampla da rebelião nos EUA seria prematura, já que os incêndios dos motins ainda estão literalmente acesos nas cidades do país. Em vez disso, gostaríamos de fazer algumas breves observações sobre as lutas em Hong Kong, sobre as quais fizemos o nosso melhor para acompanhar de perto, concentrando-nos em uma inovação tática específica que acreditamos ser uma contribuição útil para os protestos em andamento nos EUA e além. Já vimos pessoas nas ruas adotando lições isoladas de Hong Kong e outros pontos críticos no ciclo global de rebeliões do ano passado: uma barricada indiscutivelmente ao estilo Hong Kong com carrinhos de supermercado do lado de fora do Terceiro Distrito Policial em Minneapolis, técnicas para extinção de gás lacrimogêneo em Portland, relatos de lasers ofuscando as câmeras policiais e viseiras em várias cidades, guarda-chuvas contra spray de pimenta em protestos em Columbus e Seattle, e grafites em apoio a manifestantes de Hong Konge nas portas de lojas fechadas ou saqueadas em várias cidades. As semelhanças eram tão impressionantes, de fato, que levaram o paranoico editor-chefe do tabloide estatal chinês The Global Times, Hu Xijin, a concluir que “os manifestantes de Hong Kong se infiltraram nos Estados Unidos” e “planejaram” os ataques.

“Você vê as pessoas implantando táticas de Hong Kong de maneira muito eficaz aqui, implantando táticas de Hong Kong aqui, para impedir que o gás lacrimogêneo atinja manifestantes e veículos”
Vai Portland! Use esse grande cérebro HK IQ!”

Pouco podemos fazer para orientar a maneira como esse movimento se desenrola (nem gostaríamos de fazê-lo), mas esperamos que algumas das ferramentas e táticas empregadas por nossos amigos e camaradas em Hong Kong possam ser úteis para aqueles que estão nas ruas de outras cidades.[1] Em particular, oferecemos para sua avaliação o desenvolvimento do papel de “linha de frente” no movimento de Hong Kong, com a esperança de que possa ser útil para superar a divisão entre participantes combativos e pacíficos nas ruas em outros lugares.

Como em movimentos do passado, já houve divergências significativas sobre como se envolver com as forças do estado nos EUA. Como com outros movimentos desde Ferguson e de antes, algumas (mas não todas) organizações ativistas formais começaram a se engajar com a ala “branda” da força policial local, entrando em ação para conter as ações de confronto no início dos protestos: “Líderes comunitários” colaboram com a polícia, conduzindo multidões para emboscadas e panelões (envelopagem ou kettling) e, literalmente, apontam manifestantes “violentos” na multidão. Enquanto isso, os governos locais em todo o país afirmam que aqueles que estão iniciando a destruição de propriedade ou lutando contra a polícia são “agitadores externos”, com o prefeito de Seattle tweetando que “grande parte da violência e da destruição, tanto aqui como em todo o país, foi instigada e praticada por homens brancos”. Mas é bem óbvio que a raiva reprimida contra a polícia é extremamente generalizada e emergiu um amplo consenso nas ruas de que ela deve se combatida.

Hong Kong pode oferecer um caminho que escapa à aparente inevitabilidade dos conflitos sobre violência, não violência e como se envolver com as forças do estado. Para aqueles que buscam uma nova maneira de preencher as lacunas entre as formas ação combativas e as de ação pacífica, pensamos que uma das contribuições mais importantes da cidade para a nova era de lutas tem sido o desenvolvimento de papéis e formações particulares a serem implantados nas ruas, bem como as estruturas por trás desses papéis que ajudaram a engajar melhor as pessoas dispostas a lutar contra policiais em coordenação com outras pessoas no movimento. Em particular, queremos destacar o conceito de “frontliners” (“linhas de frente” ou “primera línea”) de Hong Kong, que não apenas desenvolveram muitas técnicas de sucesso para confrontar a polícia, mas também estabeleceram um novo tipo de relação entre os membros combativos e não-violentos das ações de rua através de muitos meses de experimentação .

“Mais guarda-chuvas na linha de frente aqui em Seattle. Já passamos cerca de cinco minutos do toque de recolher e até agora ainda está tudo pacífico. Se quiserem assistir ao live dm me pelo link pic.twitter.com/ZyKMoGe0PL
— katie (@shikonshoto) June 3, 2020″

O que significa estar “na linha de frente?” O termo se tornou incrivelmente popular nos últimos meses em vários idiomas e campos sociais, especialmente para se referir a profissionais da saúde e outros que são particularmente vulneráveis ​​à pandemia da Covid-19 em andamento. Isso ofuscou a onda original de popularidade do termo na cobertura da mídia no ano passado, quando se referia a manifestantes em várias partes do mundo. As saudações oficiais a profissionais da saúde enquanto trocava de turno em Wuhan e Nova York nos soam muito estranho, pois são orquestrados pelo estado e fazem um eco ao “¡vivan lxs de la primera línea!” que saudou manifestantes que voltavam de batalhas com a polícia no Chile no outono passado.

O que permitiu essas manifestações versáteis e aparentemente opostas do termo foi justamente sua capacidade de integrar atividades que, em outro contexto, estariam separadas, propondo uma unidade definida não pela homogeneidade, mas pelo apoio à luta geral, simbolizada por aqueles na “linha de frente”. Agora, com o retorno dos protestos nos Estados Unidos, parece possível que o uso do termo possa voltar a se referir às pessoas que enfrentam a polícia: Em Connecticut, uma fila de manifestantes vestidos de preto enfrenta a polícia usando máscaras que devem ter primeiro destinada a prevenir a propagação do vírus e, em uma captura de tela borrada do momento, uma mulher segura uma placa que diz: “os únicos aliados são os que estão na linha de frente”.

Via Chen Ronghui

A ideia básica que permite ao conceito de linha de frente integrar o movimento além da velha divisão entre “violência” e “não-violência”, ou “diversidade de táticas”, é que quem está na linha de frente assume riscos pessoais para proteger quem está ao redor, preferencialmente com (mas frequentemente sem) equipamentos de proteção especiais, e esses riscos ajudam a impulsionar todo o movimento. É também por isso que o conceito se estendeu tão facilmente à resposta à pandemia, porque a lógica básica do risco pessoal em apoio à luta é mais ou menos a mesma. Mas, nesses casos, o estado tinha um claro interesse em mobilizar o termo para cooptar respostas populares ou disfarçar sua própria incompetência, tudo com o objetivo final ainda sendo a supressão da pandemia. Agora, porém, o estado não tem esse interesse, uma vez que não compartilha do mesmo objetivo dos manifestantes que invocam o conceito de linha de frente. Em vez disso, ele apresentará “líderes comunitários” e talvez até mesmo os retrate como presentes “na linha de frente” do movimento de alguma forma, mas não há necessidade nem mesmo de fingir apoiar aqueles que realmente estão em conflito com a polícia. Isso significa que o termo tem a capacidade de retornar ao significado que ganhou em Hong Kong, definido através dos riscos assumidos em defesa de todas as pessoas ou do ato de colocar a própria vida em risco para manter todos os outros seguros e, ao mesmo tempo, impulsionar a luta.

No decurso da escalada dos confrontos de rua ao longo de 2019, os manifestantes de Hong Kong produziram inovações rápidas, incluindo a invenção de novos equipamentos e formações distintas com posições táticas específicas a serem preenchidas dentro do corpo do protesto. A “frontliner” pessoa na linha de frente surgiu neste contexto como um papel reconhecível para aqueles que, com estratégias para extinguir gás lacrimogêneo e escudos, se posicionaram diretamente contra a polícia, apoiadas por camaradas nas segunda e terceira linhas.

Tradução de slogans entre protestos de Hong Kong e do Chile: “Não voltaremos à normalidade, porque a normalidade era o problema”.

Essa inovação tática se espalhou rapidamente, primeiro para o Chile e depois para outros contextos latino-americanos. O primeiro salto de Hong Kong para o Chile provavelmente foi traduzido por meio de um vídeo dos protestos carregado no YouTube ou simplesmente transmitido pelo ar inebriante do ciclo de revolta de 2019. Um participante de um “clã” chileno da linha de frente deixa claro que as táticas que seu grupo usa foram adotadas em Hong Kong. Logo, outros manifestantes locais estavam preparando táticas notavelmente semelhantes, incluindo escudos, slogans, construção inventiva de barricadas e a adaptação generalizada de canetas laser de alta potência como ferramentas para interromper a visão e as câmeras da polícia (bem como, em um caso memorável , a destruição de um drone policial). Além dessas adaptações específicas, a estrutura do movimento chileno também foi organizada em linhas reconhecíveis: após um período de manifestações contra o aumento dos preços do transporte público, incluindo a evasão generalizada de tarifas e grandes marchas, uma repressão policial desencadeou manifestações massivas e tumultos que são amplamente referidos no Chile como uma “explosão social”. No vídeo de um protesto na Plaza Italia, Santiago, Chile, um homem em um prédio com vista para a praça observa com entusiasmo que a manifestação “só é possível por causa de um grupo de crianças” que se organizou “para deter as forças repressivas”.

No período seguinte, com a declaração do estado de emergência em cidades de todo o país, o espaço para manifestações pacíficas foi defendido por uma linha de frente de manifestantes dispostos a lutar contra a polícia. Como em Hong Kong, esses frontliners eram organizados principalmente por funções: portadoras de escudos, atiradores de pedras, médicos, “mineiros” (arrancando petras para jogar), manifestantes na linha de trás com lasers para interromper a visão policial ou câmeras e barricadas para bloquear avanços. Ao contrário dos desenvolvimentos posteriores na estratégia de “ser água”(“be water”) de Hong Kong, que focava no desgaste da polícia por meio de constante mobilidade, o movimento chileno começou com a linha de frente estabelecendo e defendendo linhas específicas em torno da “zona zero” ou “zona vermelha” para evitar que os policiais entrassem áreas onde outras manifestantes estavam reunidas. Com o aumento da repressão, no entanto, os confrontos diários tornaram-se essencialmente batalhas de rua entre a linha de frente organizada e a polícia. Ainda assim, no entanto, a importância da linha de frente como uma ferramenta para tornar possível o protesto de rua foi amplamente reconhecida por pessoas dentro e fora do movimento, com “representantes da linha de frente” recbendo aplausos intensos quando convidadas para participar de talk shows. Como em Hong Kong, frontliners que formaram grupos autônomos para defender o movimento tiveram apoio de participantes externos, tanto anonimamente quanto em grupos, como alguns meios de comunicação de direita reclamaram. 2

Táticas semelhantes também foram adotadas na Colômbia, via Chile e Hong Kong, à medida que grupos se organizando no Facebook reconheceram que havia a necessidade de proteger os manifestantes no movimento estudantil da violência policial. No entanto, os primeiros membros dos grupos da linha de frente mais proeminentes declararam que agiriam de formas puramente “defensivas” em vez de atacar a polícia diretamente. No entanto, à medida que o movimento popular mais amplo se extinguiu, as opiniões sobre esses grupos (caracterizados por seus escudos azuis amigos​​ da mídia) começaram a mudar. Os frontliners adotaram conscientemente a estratégia “seja água” de Hong Kong, mas isso foi percebido por muitos nos movimentos estudantis como um abandono físico do movimento estudantil, que não tinha feito as mesmas escolhas táticas. De forma mais ampla, a linha de frente nos protestos estudantis colombianos foi considerada oportunista, tentando fazer um espetáculo amigável à mídia e tentando conduzir marchas para longe das rotas acordadas. No final das contas, esse tipo de “linha de frente” altamente inorgânica se alienou do apoio que primeiro recebeu do resto do movimento.

“Amor pela Primera Línea” em grafite nos protestos chilenos.

Em todos esses diferentes contextos, o desenvolvimento do papel linha de frente marcou um avanço significativo nas táticas de confronto de rua com a polícia. Essas táticas devem, é claro, mudar para se adequar a situações particulares, mas podemos aprender com o conhecimento global cada vez maior da luta. Na década seguinte ao declínio do movimento alter-globalização ou antiglobalização, a discussão sobre táticas para combater a polícia em grande parte congelou em debates sobre o “black bloc”. Originado na Alemanha dos anos 1980, o black bloc se refere à tática de usar trajes de protesto totalmente pretos, que impedem a polícia de apanhar um indivíduo no meio da multidão. Em parte devido ao seu sucesso prático, as ações do black bloc nos Estados Unidos e em grande parte da Europa foram sujeitas a debates intermináveis ​​que, em última instância, se resumem ao papel que a ação combativa deve desempenhar nos protestos de rua. Nos Estados Unidos, o resultado final foi uma redução das tensões em que os manifestantes que apoiavam a ação combativa e aqueles que só podiam apoiar a ação não-confrontativa chegaram a se dividir em áreas das cidades para evitar a interação entre os grupos. Afirmações de que o black bloc protege manifestantes não-violentos (seja diretamente ou atraindo a repressão policial e recursos em outros lugares) têm sido pontos comuns de discordância, mas nunca chegaram a um consenso. Na melhor das hipóteses, há uma defesa de uma “diversidade de táticas”, talvez a melhor frase para descrever essa frágil redução de tensões.

Logo no início de tais movimentos, a diversidade de táticas permite uma tênue coexistência de protestos combativos e pacíficos, uma vez que há muitos participantes e múltiplas marchas, permitindo que as pessoas se distribuam nos locais onde prevalece seu tipo preferido. O termo efetivamente imagina esferas inteiramente diferentes nas quais “diversas táticas” podem ocorrer. Mas nem sempre é esse o caso. À medida que a repressão do estado aumenta e o momentum projeção inicial diminui, as duas esferas são forçadas a se fundir. É precisamente neste ponto que táticas mais agressivas são necessárias para defender o movimento como um todo contra a polícia e para continuar empurrando as coisas para frente enquanto a energia dos participantes diminui. Por um lado, é quando a função repressiva do estado é ativada, à medida que a polícia local é reabastecida e recebe apoio de níveis superiores de governo. No entanto, por outro, este é também o momento em que o estado mobiliza seu aparato de controle brando (soft control) na forma de lideranças comunitárias, organizações sem fins lucrativos e políticos “progressistas”, todos os quais desempenham um papel essencial no rompimento da tênue aliança tática que existia nos primeiros dias. Afinal, essas são as pessoas mais bem-sucedidas em difundir o mito do “agitador externo”, criticando o dano à propriedade causado pelo “anarquista branco” e, muitas vezes literalmente, entrando no meio para evitar ataques contra polícia ou mesmo o resgate de manifestantes detidas e, após os protestos, são as que vão encorajar as pessoas a entregar vídeos delatando quem jogou garrafas na polícia e inundar as redes sociais com postagens afirmando que foram policiais ou mesmo nacionalistas brancos que quebraram as primeiras janelas.

Nos protestos de 2019 em Hong Kong e no Chile, porém, de maneiras e velocidades diferentes, a afirmação de que o bloco protege outras pessoas transformou-se em um saber claro e inegável. Isso foi possível em parte por meio do apagamento de quaisquer significados anteriores atribuídos à tática black bloc e sua substituição pelo papel da primera línea: manifestantes que, ao se sujeitarem ao grave perigo e ao gás lacrimogêneo, estavam agindo unicamente em defesa de todas as outras no protesto contra a polícia. Isso representa uma mudança: não há mais uma grande separação geográfica em dois corpos de manifestantes (uma zona de protesto pacífico e outro de confronto), mas em vez disso, um único corpo se uniu, protegido na linha de frente por aqueles que assumiram o papel de estar lá. Em um sentido ainda mais amplo e, talvez ainda mais importante, os protestos de Hong Kong e do Chile reconfiguraram totalmente o papel dos manifestantes vestidos de preto, mascarados e combativos dispostos a lutar contra a polícia. Ao contrário da situação nos Estados Unidos, onde muitas vezes é possível que a mídia e a polícia colaborem no isolamento de combatentes, retratando-os como separados do corpo principal de “bons manifestantes” e ainda mais distantes do corpo político em geral, as primera líneas também chegaram a ser amplamente (senão completamente) entendidas como agindo em defesa de todas as pessoas, manifestantes e não manifestantes, tornando possível resistir a um status quo insustentável.

A construção de uma solidariedade efetiva entre “militantes valentes” (勇武) e adeptos da “não-violência pacífica e racional” (和理非) não foi o resultado automático do movimento ascendente em 2019 em Hong Kong, nem aconteceu da noite para o dia. Como nos Estados Unidos, movimentos anteriores em Hong Kong estavam divididos entre linhas ideológicas de confronto e não violência, bem como entre aqueles nas ruas e a “oposição controlada” dos partidos pan-democratas no Conselho Legislativo (LegCo).3 Devemos lembrar que os protestos de 2019 vieram depois de anos de experimentação, incluindo o surgimento e o fracasso do Umbrella Moviment Movimento Guarda-Chuva de 2014: um protesto igualmente massivo e amplamente “pacífico” que cumpriu todos os modelos defendidos pelos defensores liberais da não-violência.

Quando o movimento foi derrotado de forma tão decisiva, a juventude de Hong Kong começou a agitar de novas maneiras – primeiro em ações de rua em menor escala, como a estranha e ainda polêmica “Rebelião das Almôndegas de Peixe”(“Fishball Riots”)4 de 2016. Nessas ações, vimos algo como a linha de frente separada de sua base em manifestações massivas. A juventude ainda se recuperando do terrível fracasso do “paz, amor e não-violência” de 2014, em vez disso, entrou em confronto direto, declarando guerra à polícia, empilhando e jogando tijolos e, em seguida, testando a estratégia “seja água”, baseada na recusa a se manter parado em um local específico. Ao mesmo tempo, eles não esperaram pelo apoio de outros manifestantes e não fizeram nenhum esforço para recrutá-los. O resultado foi que as linhas de frente da “Rebelião das Almôndegas de Peixe” , do modo como eram, não tinham a conotação de defender as outras pessoas, como têm agora. Este caso de enfrentamento ainda é controverso entre os cidadãos de Hong Kong dentro do movimento, pois sua natureza isolada o tornou uma espécie de aventura arriscada (isso sem falar no papel desempenhado por pessoas locais de extrema-direita nos levantes). Agora, entretanto, vemos táticas muito semelhantes redistribuídas e aprimoradas, mas em um contexto surpreendentemente diferente. É como se as táticas testadas nas ações (relativamente) pacíficas de 2014 e nos confrontos (relativamente) violentos com a polícia de 2016 fossem finalmente forçadas a se combinar em uma síntese eficaz.

As raízes desta síntese podem ser melhor vistas perto do final do Movimento Guarda-Chuva, que tomou forma por interações as vezes de confronto entre organizações formais e dezenas de milhares de participantes autônomas. Durante as ocupações das regiões Central District e, posteriormente, de Mong Kok, alguns elementos do movimento foram organizados de modo central, com ocupações centradas em um “grande palco” (大 台) que era essencialmente controlado por grandes organizações políticas, particularmente dois grupos de estudantes: a Federação de Sindicatos de Estudantes de HK e o Scholarism (algo como “Eruditismo”, um grupo fundado por estudantes de ensino médio), além dos principais partidos eleitorais do campo Pan-democratático e um monte de ativistas de ONGs conhecidas. Embora essas ocupações jamais teriam começado – muito menos se sustentado – sem grandes esforços de trabalho e ação autônoma, as organizações formais tentaram manter um nível de controle sobre a forma do movimento e, em alguns casos, tentaram cancelar ações específicas, algumas das quais continuaram de qualquer maneira sem seu apoio. Ainda assim, quem estava em posições de liderança eram os grupos que eventualmente entraram em negociações com o governo. Como em muitos contextos ocidentais, essas organizações eram orientadas, em grande medida, para a chamada “não-violência racional”. No entanto, as tensões entre os radicais e aqueles que controlavam o palco aumentaram durante o movimento, atingindo um pico com o ataque de manifestantes ao prédio da LegCo, após o qual manifestantes não-violentos e organizadores rotularam todos os militantes como agentes secretos de Pequim ou “destruidores”. Por outro lado, algumas manifestantes começaram a circular slogans pedindo a desmontagem do palco principal (e o centro de poder que ele representava) (拆 大 台) e que os bloqueios montados para tentar impedir os ataques a LegCo fossem desfeitos (散 纠察) .

Na esteira do fracasso do Movimento Guarda-chuva e do fim das ocupações, a primeira fase do Movimento Anti-Extradição de 2019 – aproximadamente desde a proposta de lei em março de 2019 até a marcha de dois milhões de pessoas em 16 de junho – a não-violência racional era a tática dominante. No entanto, após a relutância do governo em retirar a lei frente ao movimento de massa não-violento e, após a repressão policial cada vez mais violenta, um consenso bruto emergiu em torno de alguns princípios básicos: aprendendo com as falhas do Movimento Guarda-chuva, os novos protestos não deveriam ser organizado em torno de um corpo central e não tentariam ocupar e manter um espaço. Esta forma organizacional foi especificamente concebida a partir dos principais palcos do Movimento Guarda-chuva, tendo a “descentralização” como um slogan e princípio organizacional traduzido em cantonês como “sem um grande palco” (无大台).5

Ao mesmo tempo, as experiências de violência da repressão policial criaram um clima de solidariedade entre os manifestantes. Com base em demandas unificadas – primeiro pela retirada da lei de extradição e, em seguida, para um inquérito sobre a brutalidade policial, o fim das classificações de manifestantes como criminosos, anistia para os detidos e sufrágio universal – os participantes alcançaram um amplo consenso de que o sucesso exigiria um nível de unidade entre militantes e manifestantes pacíficos: “sem divisões, sem dissidência, sem traições” (不分化、不割席、不督灰) ou, mais positivamente, “cada um lutando à sua maneira, escalamos a montanha juntos” (兄弟爬山,各自努力) e “os pacíficos e os valentes são indivisíveis, ascendemos e caímos juntos” (和勇不分、齐上齐落). Pesquisas de participantes do movimento realizadas no local no início de junho mostraram que 38% dos entrevistados acreditavam que “táticas radicais” eram úteis para fazer o Estado ouvir as demandas dos manifestantes, mas em setembro o número subiu para 62%. Quando questionados se as táticas radicais eram compreensíveis diante da intransigência estatal, quase 70% já concordaram em junho e, em julho, esse percentual havia subido para 90%. Em setembro, apenas 2,5% dos entrevistados afirmaram que o uso de táticas radicais pelos manifestantes não era compreensível. Na mesma pesquisa, em setembro, mais de 90% dos participantes concordaram com a afirmação de que “Unir ações pacíficas e combativas é a maneira mais eficaz de obter resultados”. 6 Um ponto de inflexão semelhante pode estar surgindo nos EUA, onde quase 80% dos entrevistados respondeu afirmativamente uma pesquisa nacional que questionou se a raiva que levou à atual onda de protestos é “justificável”. Nela, 54% afirmou que a resposta à morte de George Floyd, incluindo o incêndio de um prédio da delegacia de polícia, é sim justificável.

Em Hong Kong, a natureza descentralizada do movimento, combinado com o crescente sentimento de um propósito unificado comum entre manifestantes pacíficos e combativos permitiu a formação e reprodução de papéis reconhecíveis nos quais as participantes podiam apoiar umas às outras em grupos organizados de forma autônoma, coordenados anonimamente por meio ferramentas online como Telegram e fóruns como LIHK.org. Essas ferramentas e estruturas organizacionais são dignas de uma análise separada ou de um guia de protesto de código aberto: o Telegram permite a criação de estruturas extremamente flexíveis enquanto preserva o anonimato, o que permitiu que manifestantes e apoiadores desenvolvessem todo um ecossistema digital crucial para driblar e enganar a polícia em tempo real. O recurso dos “Canais” do Telegram permitiu a criação de salas de bate-papo em grande escala semelhantes ao recurso de comentários no software de transmissão ao vivo que os manifestantes nos EUA estão usando. No entanto, embora esses “mares públicos” (公海) fossem capazes de fornecer algumas informações úteis, eles foram considerados como estando sob vigilância policial devido à sua natureza pública, e a organização sensível foi feita em canais separados entre grupos de amizade e confiança.

Manifestantes também criaram outros canais especificamente para compartilhar a localização da polícia e rotas de fuga, que eventualmente alcançaram dezenas de milhares de participantes do protesto. Nesses canais, a postagem é restrita a administradores ou bots especialmente designados, que retransmitem informações verificadas sobre a localização e disposição das forças policiais, ajudando a minar o fenômeno do boato descontrolado comum em qualquer protesto. Essas informações são coletadas por meio de crowdsourcing de indivíduos que trabalham como observadores no entorno das manifestações, que enviam atualizações em canais designados de acordo com um formato específico, para que possam ser facilmente padronizadas e repassadas para agregadores de dados que monitoram canais de informações e transmissões ao vivo, publicando atualizações para canais de difusão e mapas em tempo real de localizações policiais.

Além dos relatos, os canais do Telegram criados para ações específicas também permitiram aos participantes transmitir informações sobre as necessidades (“primeiros socorros necessários nessa esquina, “ferramentas pra extinguir de gás lacrimogêneo são necessárias em breve”) e tomar decisões coletivas sobre as respostas em tempo real por meio de funções de votação em tempo real. Este último permitiu escolhas rápidas, como a rota de fuga a tomar para evitar um ataque policial. É importante ressaltar que esses métodos organizacionais atraíram tanto militantes quanto aqueles que estavam relutantes, desinteressados (devido ao status de imigrante, deficiência ou outra vulnerabilidade potencial à violência policial) ou incapazes de participar na linha de frente: enquanto as pessoas na linha de frente enfrentavam a polícia e sua escalada de violência, apoiadoras não-violentos se envolveram nas marchas, como médicos ou fornecendo suporte logístico (transporte de suprimentos de barricadas, ferramentas para lidar com gás lacrimogêneo ou roupas para as pessoas da linha de frente vestidas de preto poderem se trocar), como observadores filmando policiais com câmeras ou como batedores alimentando informações para outros apoiadores que trabalham como agregadores de dados.

As pessoas de “fora” da linha de frente forneciam, de várias maneiras, suporte material direto para quem estava na linha de frente: em algumas ações, manifestantes sem equipamento formaram paredes humanas, às vezes usando guarda-chuvas, para proteger as pessoas da linha de frente enquanto trocavam as roupas e equipamentos que as identificavam, evitando que fossem presas a caminho para casa. Outras, embora não participem diretamente na linha de frente, facilitaram os danos à propriedade usando seus guarda-chuvas para tapar as câmeras enquanto as vidraças eram quebradas. Depois, no movimento, os manifestantes fora das linhas de frente traziam materiais para coquetéis molotov utilizados nas ações e formaram correntes humanas fornecendo materiais para reabastecer rapidamente a linha de frente com garrafas, gasolina, açúcar e panos.

Além dessas ações específicas de apoio, simplesmente permanecer nas ruas durante as proibições de reuniões públicas acabou sendo entendido como um meio de apoiar o movimento: um amigo conta a história de um funcionário de escritório mais velho, anônimo, em uma pausa para fumar que, depois de ler no Telegram que um grupo de pessoas da linha de frente estavam perto de seu prédio e precisavam ganhar tempo para não serem pegos pela polícia, caminhou diretamente até a linha de polícia e tentou começar uma briga com os policiais, pensando que sua identidade como uma pessoa mais velha e bem vestida poderia diminuir sua chance de ser preso e fornecer mais um álibi se o fizesse. No entanto, essa generalização da luta também é vista por alguns como uma das razões pelas quais a polícia finalmente se voltou para a estratégia mais recente de “kettling” (“envelopagem”, “panelão” ou “caldeirão de Hamburgo”) e prisão em massa de todos em uma determinada área: qualquer pessoa nas ruas agora pode ser considerada participante dos protestos, ou pelo menos odiar a polícia.

Imagem das funções nos protesto de Hong Kong, traduzida anonimamente e divulgada durante as recentes lutas

No início do movimento, no entanto, antes do aumento da repressão policial e das prisões no final do verão e outono de 2019, o papel das pessoas na linha de frente era relativamente claro, com opções para os apoiadores permanecerem separados do confronto direto com a polícia construindo barricadas, fornecendo suprimentos para a linha de frente enquanto as pessoas apagavam as bombas de gás lacrimogêneo ou escondendo a linha de frente da polícia enquanto trocavam de roupa. Contudo, essa divisão ainda era um tanto problemática, pois a aceitação da linha de frente como um segmento central do movimento, de certo modo, deu àquelas que realmente lutavam contra a polícia uma posição de “maior mérito”, o que levou a alguns manifestantes pacíficos serem acusados de não serem combativos o suficiente. Mas, à medida que a aceitação da ação militante cresceu junto com a violência policial cada vez mais extrema, essas divisões começaram a ruir. Por outro lado, ações que antes eram entendidas como pacíficas passaram a ser associadas a um risco cada vez maior de identificação e prisão.

Por exemplo, a criação e proteção dos “Lennon Walls”7 de arte de protesto e auto-expressão foi originalmente entendida como um modo de participação completamente “pacífico”, mas como o número de ataques violentos aos “Lennon Walls” e prisões das pessoas que trabalhavam neles aumentou, tornou-se difícil continuar participando sem preparação física e mental para a violência. Diante da violência policial e do “terror branco” dos ataques a manifestantes feitos por bandidos pró-Pequim, qualquer divisão entre aqueles que estavam dispostos a colocar seus corpos em risco e aqueles que estavam comprometidos com atos de menor risco ou eticamente não-violentos tornou-se cada vez mais difícil de desenhar. Isso foi particularmente verdadeiro porque um número crescente de manifestantes foi preso. Para alguns amigos, a decisão de entrar na linha de frente foi gradual e resultou da erosão gradual das diferenças entre as atividades da linha de frente e outras formas de apoiar o movimento. Outros amigos relataram conversas difíceis que tiveram com seus pais idosos que, vendo a prisão de tantos jovens, resolveram se juntar à linha de frente para preencher a lacuna.

Embora tenhamos focado propositalmente em táticas materiais ao invés de identidade política, deve-se reconhecer que as cinco demandas que ajudaram a fornecer base para uma admirável unidade entre manifestantes em Hong Kong também acabaram encobrindo divisões políticas significativas. Em particular, o fato de o movimento ter uma base tão amplamente significava que incluía (e em alguns casos foi impulsionado pelos) sentimentos locais de direita. Ao contrário dos Coletes Amarelos na França, que tinham uma base de participação igualmente ampla, a escalada de táticas militantes que incluiu danos à propriedade não serviu para tirar os elementos da direita do movimento. Em vez disso, em Hong Kong a situação foi o contrário, e alguns (mas não todos) esquerdistas limitaram sua participação no movimento, sem vontade de entoar slogans ao lado de nacionalistas que pediam uma revolução para “restaurar” Hong Kong, ou de participar de marchas com alguns agitando bandeiras dos Estados Unidos ou regimes coloniais britânicos.

Enquanto a estrutura racial da política dos EUA torna a participação da direita na rebelião em curso praticamente impossível (apesar dos políticos promoverem mentiras afirmando o contrário), a estrutura do movimento de Hong Kong em torno de um conjunto unificador de cinco demandas também é um tanto estranha para o contexto estadunidense. Embora sua própria impossibilidade tenha dado ao movimento espaço para crescer, o uso de demandas insustentáveis ​​saiu de moda nos Estados Unidos. Após o fracasso dos primeiros protestos anti-guerra em meados dos anos 2000, a ascensão e queda do Occupy alguns anos depois definiu o que se tornaria a norma, em que um excesso de demandas causou uma incapacidade generalizada de “concordar” com qualquer coisa. Na primeira onda de protestos Black Lives Matter após o levante em Ferguson em 2014, um fenômeno semelhante ocorreu: as organizações sem fins lucrativos BLM “oficiais” fizeram demandas concretas por câmeras nos uniformes dos policiais e para que o dinheiro para equipamento militar fosse canalizado para treinamentos de anti-racismo e “mitigação” dos conflitos, mas essas nunca foram as demandas popularmente endossadas pelas ruas. Em vez disso, o movimento se articulou não em torno de uma demanda, mas de uma afirmação: de que as Vidas Negras Importam.

Essa é a afirmação que voltou como uma forte coerência na revolta atual. Ao mesmo tempo, isso pode estar mudando um pouco. Mas ainda não há um conjunto coerente de demandas que possa unir os manifestantes pacíficos e militantes que se levantaram após o assassinato de George Floyd. Se tais demandas surgissem, provavelmente seriam básicas e improváveis ​​de serem alcançadas sem “desmantelar o grande palco” da normalidade nos Estados Unidos, bem como as Cinco Demandas de Hong Kong: anistia geral, abolição da polícia ou reparações por séculos de assassinatos e escravidão sancionados pelo Estado. Os apelos pelo “desmonte da polícia” parecem ter ganhado destaque agora, depois de serem apanhados por grupos ativistas e políticos progressistas locais. Mas tal demanda está muito aquém do apelo mais popular para abolir a polícia e permite que os líderes locais afirmem que estão “desmontando” os departamentos de polícia quando, na verdade, estão apenas realizando cortes fracionários de orçamentos. Nesse sentido, “desmontar a polícia” parece estar assumindo um caráter semelhante à demanda por câmeras corporais em 2014.

Com ou sem tais demandas, vemos a inovação central do papel das pessoas na linha de frente como algo embutido nas novas relações que se tornam possíveis: entre a “linha de frente” e a segunda linha, a terceira e outros manifestantes de apoio. Uma semelhança entre as experiências dos manifestantes de Hong Kong e os das ruas dos Estados Unidos é que, embora muitos tenham experimentado por muito tempo a repressão policial, esta é para muitos a primeira vez (ou pelo menos um dos momentos mais graves) que a repressão policial ao protesto pacífico é visível. Em certo sentido, a evolução do papel da linha de frente foi realmente forçada a acontecer por conta da ação policial. Uma vez que a repressão ao movimento em Hong Kong passou de um certo ponto, dois fatos se tornaram aparentes: primeiro, a polícia é fundamentalmente violenta e ela despejar essa violência independentemente de seus alvos protestarem pacificamente ou não. Em segundo lugar, ficou explícito que, para o movimento continuar, manifestantes teriam de ser capazes de se defender.

Enquanto os reforços da polícia e da Guarda Nacional tentam dispersar os protestos de formas incrivelmente violentas nas ruas de quase todas as grandes cidades dos EUA, parece possível que o país veja um ponto de inflexão semelhante em termos da escala e intensidade da repressão. Para aqueles que buscam caminhos a seguir – maneiras de apoiar nossos amigos, amigas e camaradas, trabalhar em solidariedade, chorar os mortos pela polícia e garantir que tal violência sistêmica acabe algum dia – um método de continuar a luta pode ser encontrado reconhecendo que o papel da linha de frente é proteger todos os outros. Por isso dizemos: bem-vindas à linha de frente, e também à segunda e terceira linhas, e aos médicos e médicas e linhas de suprimentos, todos ocupando espaços, as ilustradoras e os responsáveis pelas impressões e distribuições, as pessoas que fazem streaming ao vivo e todos aqueles que tuitam informações dos rádios policiais. Talvez desta vez possamos estar todos juntos.

“Estou feliz por lutar ao seu lado!” — “Eu também, valeu, camarada”

Para saber mais:

Notas

1. Esta análise é o resultado de muitas conversas com amigos em Hong Kong, Chile e Estados Unidos, entre os quais gostaríamos de destacar Dashu e KW por sua ajuda paciente na verificação de fatos e esclarecimento de informações para este artigo. Eles esperam que suas experiências de HK possam ser úteis para a luta contra a brutalidade policial e o racismo nos Estados Unidos e em outros lugares.

2. Como observam camaradas no Chile, as táticas específicas de escudos contra balas de borracha, manifestantes mascaradas como defensores de manifestantes pacíficos e barricadas estão presentes no Chile desde os anos 1980, e o uso de máscaras e a defesa contra a polícia foram particularmente importantes durante a ditadura, para prevenir manifestantes de serem capturados, torturados e mortos. Outras táticas semelhantes às utilizadas em Hong Kong, como o uso de materiais amarrados entre postes de luz para evitar o avanço de viaturas policiais, também estiveram presentes no Chile antes de 2019. Essas táticas históricas e funções preexistentes, como médicos, apoiadores e pessoas que observam a ação da polícia, definitivamente influenciaram as formas como o conceito de linha de frente foi adotado no Chile. Da mesma forma, enquanto o movimento de Hong Kong enfatizava a mobilidade por meio da estratégia “seja água”, os movimentos chilenos têm uma forte tendência histórica à proteção de uma zona específica, o que influenciou a forma como as linhas de frente se desenvolveram ali.

3. Embora o campo Pan-democratico apoie a reforma eleitoral em Hong Kong, em grande parte apoia a política governamental existente – além do Partido Trabalhista e da Liga dos Social-democratas, os únicos dois partidos membros a manter qualquer tipo de agenda de esquerda.

4. N.T.: Protestos ocorridos em 2016 contra ação policial para reprimir camelôs em Mong Kok, em hong Kong. O nome “Fishball Riots” faz referência às almôndegas de peixe, produto muito comum nos comércios da região.

5. Ainda que este princípio organizacional tenha desempenhado um papel importante em ajudar o movimento a se tornar mais militante e se sustentar, de acordo com nossos amigos no local, ele também parece ter se tornado um obstáculo para a possibilidade de politização anticapitalista, então não deve ser romantizado : “Embora soe horizontal ou anarquista, na prática não está relacionado a nada como discussões democráticas entre os participantes, mas mais ideologicamente associado aos grupos locais que se opunham ao grupo Pan-democratico que estava no poder e controlava o palco. Por fim, o termo se espalhou entre a massa mais ampla de participantes, que temiam que o conflito entre essas facções políticas minasse o movimento, e surgiu um consenso de que ninguém deveria tomar o poder. … Mas isso não envolve, e até mesmo impede ativamente, o tipo de transmissão de diferentes pontos de vista no local, normalmente associados a termos como ‘horizontal’ ou ‘movimento sem líder’.” (Extraído de “Remolding Hong Kong”.)

6. Estas estatísticas são todas do “Anti-ELAB protest”, relatório de investigação local sobre o tema (反逃犯条例修订示威”现场调查报告).

7. N.T.: termo utilizado para se referir a uma intervenção coletiva permanente criada por milhares de manifestantes na parede exterior do prédio do governo central de Hong Kong. Consistia em cobrir as paredes com com milhares de post-it carregando mensagens dos manifestantes; uma obra contra a censura.

Lula só Fez Autocrítica Onde Estava Certo: Comentários à Declaração Sobre Cesare Battisti

Cesare Battisti preso em 1981

Na última quinta-feira (20 de agosto de 2020), o ex-presidente Lula pediu desculpa ao que ele chamou de “esquerda italiana” por ter dado asilo político, em 2010, ao ex-militante da luta armada (ou como a mídia gosta dizer “terrorista”) Cesare Battisti. Já faz um tempo, diante do desastre que levou 13 anos do governo petista e seu suposto progressismo a eleição e consolidação de um neo-fascista na presidência, que muitas pessoas pedem ao seu líder, Lula da Silva, para que ele fizesse uma autocrítica sobre os muitos erros do Partido dos Trabalhadores. Ainda que não resolvesse muita coisa, infelizmente Lula não se desculpou e nem reconheceu nenhum tipo de problema sobre Belo Monte, sobre a missão militar no Haiti, sobre o aumento brutal e progressivo de pessoas encarceradas, nem sobre a política de “campeões nacionais” onde grandes empresas eram estimuladas com dinheiro público em mega esquemas de corrupção sistemática. Porém, ele pediu desculpas sobre Cesare Battisti.

Gostaríamos de deixar muito claro que a pergunta histórica e política sobre a questão não seria “Battisti é ou não é inocente?“. A pergunta fundamental aqui é: “Battisti foi e continua a ser um perseguido político?”.

Na Itália contemporânea Battisti é o símbolo da vingança do Estado dos anos de 1970, os chamados “Anos de Chumbo”. O problema tem raízes históricas: o Estado italiano sempre considerou os “Anni di Piombo” como um assunto referente a “extremismos opostos” (fascistas de um lado e comunistas de outro) utilizando de “terrorismo”. Nisso foi de fundamental importância o colaboracionismo do PCI (Partido Comunista Italiano), no âmbito da sua política de “compromisso histórico”, onde o PCI em acordo com Partido Democrata Cristão (DC) estabeleceram uma coalizão parlamentar e chegaram a negociar, sem sucesso, uma parceria de governo. Na verdade, porém, os anos setenta foram uma época de grandes conquistas populares na Itália, de avanços da luta de classe e também de “guerra civil”. Mais ainda, foi um período, sobretudo no seu ápice em 1977, onde realizou-se a maior e talvez única, porem sui generis, tentativa revolucionária em um país europeu depois de 1945.

Quando falamos aqui de “guerra civil” entendemos em primeiro lugar a chamada “estratégia da tensão”, que foi utilizada entre 1969 e 1984 para parar a radicalização das lutas estudantis (que eclodiu em 1968) e operária (com o chamado “outono quente” de 1969 nas grandes fábricas do norte). O Estado italiano, através dos serviços secretos e dos seus braços armados, membros de organizações fascistas paramilitares, explodiram muitas bombas em lugares públicos: em feiras comerciais (Milão, 25 de abril de 1969), em bancos (Milão, 12 de dezembro de 1969, 17 mortos), em trens e estações ferroviárias (vários locais em 9 de agosto de 1968; Gioia Tauro, 22 de julho de 1970, seis mortos; trem Italicus, 4 de agosto de 1974, 12 mortos; Bolonha, 2 de agosto de 1980, 85 mortos, trem Rapido 904, 23 de dezembro de 1984, 17 mortos), em manifestações cívicas (Milão, 17 de maio de 1973, quatro mortos) e protestos sindicais (Brescia, 28 de maio de 1974, oito mortos). O objetivo dessas bombas era, por um lado, a perseguição de grupos de esquerda e anarquistas com as acusações de sua autoria, que logo foram reveladas sem fundamento, mas sobretudo tratava-se também de uma tentativa de gerar medo no meio de uma população em forte convulsão social.

Entre as décadas de 1960 e 1970 houve também pelo menos duas tentativas claras de golpe de Estado militar (o chamado “Piano Solo” em 1964 e o chamado “Golpe Borghese” em 1970). Diferente da maioria dos países europeus, que depois de 1968 tiveram uma grande derrota das forças revolucionárias, os movimentos sociais italianos tiveram uma década de crescimento, formidável em intensidade e radicalidade, e também conquistas de direitos sociais . Muitos foram os assassinatos políticos naquele período, muitos os mortos em manifestações de ruas, incontáveis os casos de ocupações prolongadas de escolas, universidades e fábricas, vários conflitos armados entre manifestantes e policiais, sobretudo em 1977 quando em Bolonha houve uma verdadeira insurreição derrotada pela chegada de tanques convocados pelo prefeito “comunista” e em Roma durante uma manifestação aconteceu a tomada de arsenal militar. Depois da derrota do movimento de 1977, muitas vanguardas políticas adentraram a luta armada para radicalizar o ataque ao Estado. Naquele âmbito, já operavam desde 1969 as Brigadas Vermelhas, que em 1978 sequestraram e assassinaram o ex-Primeiro Ministro e líder do partido de governo Democracia Cristã Aldo Moro. Mesmo que a maioria dos militantes revolucionários rechaçasse a prática da luta armada e da clandestinidade continuando no terreno da luta de massas, a rede de organizações armadas na época era muito grande, inclusive há a hipótese que as Brigadas Vermelhas pudessem contar em seu momento de ápice com cerca de 500 mi simpatizantes e possível colaboradores.

Cesare Battisti e políticos do Partido dos Trabalhadores

Para enfrentar um desafio revolucionário desse tamanho, o Estado italiano operou em duas maneiras: em primeiro lugar, desencadeou uma repressão feroz contra milhares de militantes revolucionários sendo muitos dos quais nunca aderiram à luta armada e passaram anos na cadeia acusados de terrorismo, usando métodos de tortura e de delação premiada (algo que o ex-presidente do Brasil deveria conhecer muito bem, não é mesmo Lula?!); em segundo lugar, fizeram cientificamente circular, por meio da colaboração das máfias e dos fascistas, heroína para ferrar com a juventude revolucionária, o chamado movimento da Autonomia Operária na Itália foi o segundo experimento do uso repressivo de massa com essa droga, depois dos Panteras Negras nos EUA. Por último, o Estado ganhou graças a colaboração do Partido Comunista, que sobretudo já desde o final de 1940 pela política stalinista de preservação da ordem da Guerra Fria, mas mais ainda desde os anos 1970 (com o “Eurocomunismo” e o já citado “compromisso histórico”) passou de partido revolucionário a ser um partido gestor da classe operária e dos movimentos sociais (ao leitores, isso lembra também algum partido brasileiro?). Tudo isso não só favoreceu, mas também impulsou as ações repressivas.

Que o Estado tenha sido o grande vencedor da “guerra civil” italiana dos anos 70 não resta dúvida nenhuma, mas o verdadeiro tamanho dessa vitória é justamente o fato do Estado querer negar que essa própria guerra aconteceu. Hoje em dia, por um estranho caso do destino, é isso que está em jogo na “questão Battisti”: o Battisti, para além dos méritos pessoais específicos, representa a verdade histórica dessa guerra invertida. A representa sobretudo pelo fato de ter recebido o asilo político, primeiro na França e depois no Brasil. Não por ser “inocente” ou “culpado” perante os dispositivos jurídicos, mas por ser reconhecido como um “perseguido político”, Battisti evidencia ainda mais a sujeira do Estado italiano que por décadas, sem nunca deixar de ser uma democracia formal e tendo que aceitar importantes conquistas sociais pelo força dos movimentos, enfrentou a ameaça revolucionária com bombas, atentados, assassinatos e tortura.

Battisti nos anos 70 foi um jovem proletário preso por roubo que se “politizou” na prisão. Depois de sair da cadeia, militou um breve período da sua vida no pequeno grupo guerrilheiro PAC (Proletari Armati per il Comunismo), que foi formado em 1977 no interior do movimento da Autonomía Operária. A prática mais frequente de ação dos PAC foi o roubo (chamado por eles de “expropriação proletária”), porém o grupo também reivindicou quatro homicídios como ações políticas: de um marechal dos Carabinieri (uma espécie de policia militar italiana) do presídio de Udine em 1978, de dois comerciantes responsáveis pela morte de assaltantes por “legítima defesa” e executando ambos em 16 de fevereiro de 1979, e de um policial em abril de 1979. Battisti foi preso em junho daquele ano por posse ilegal de armas e associação subversiva, sendo condenado a 12 anos de prisão inicialmente. Escapou da cadeia em 1981 e refugiou-se primeiro na França e logo depois no México, onde morou como foragido até voltar para a França em 1990 protegido pela chamada “Doutrina Mitterand”, política estabelecida pelo presidente François Mitterand que consistia em não extraditar aqueles italianos em solo francês que tivessem rompido com seu passado violento e cujo amplo direito de defesa não estivesse garantido. Ao longo dos anos 1980, Pietro Mutti, ex-dirigente da organização preso, resolveu colaborar com a justiça graças aos mecanismos de delação premiada e acusou Cesare como executor ou organizador de todos os quatro homicídios feito pelos PAC. Battisti era o bode expiatório perfeito, estava foragido em Puerto Escondido, no México. Foi assim que de um simples militante de base dos PAC, terminou condenado a prisão perpetua, acusado de todas as ações delitivas feitas por uma organização de não menos de 60 militantes, sendo que duas acusações foram feitas posteriormente quando o caso foi reaberto 10 anos depois.

Como se sabe, depois da vergonhosa operação Bolsonaro-Morales-Salvini de janeiro do ano passado, o sequestro da Interpol e a volta para a Itália, Battisti admitiu todas as culpas pelas quais foi condenado, mas ele admitiu em um contexto em que a derrota (pelo menos a dele e a dos anos 70) era mais que definitiva, quando ele sabia perfeitamente que ia morrer na cadeia, que os poucos que ainda o defendiam depois de 30 anos de terrorismo midiático estatal não tinham mais nenhuma presença no debate público. Nossa hipótese é que com a sua confissão tentou reduzir um pouco a dureza da pena, tentando assim conseguir certa indulgencia por parte do Estado. O que certamente não aconteceu (aqui você pode ler uma carta recente onde denuncia as condições ilegais em que é detido e aqui mais uma reflexão sobre a sua confissão).

Battisti e Tarso Genro, então Ministro da Justiça do governo Lula

Podemos nos perguntar: por qual razão foi tão importante para o Estado italiano não só prender Battisti (que, lembremos, já passou muitos anos da sua pena em prisões na Itália, França e Brasil), mas organizar uma operação internacional e midiática desse nível, violando os mais básicos direitos legais? Como por exemplo, que Battisti foi preso na Bolívia e voou direto para a Itália, caso fosse extraditado do Brasil não poderia ser condenado a prisão perpétua pois o país não tem essa medida no seu ordenamento legal e também sendo negado a ele a permissão de falar com seu filho brasileiro de cinco anos por skype.

Concluímos, no final das contas, que o Estado quis se vingar de Battisti por três razões: 1) porque ele chegou a representar um símbolo, mesmo sem querer, de uma página da história italiana que de acordo com os órgãos oficiais deveria ser esquecida ou cancelada, alimentando continuamente o mito de que ele seria um “monstro” e “terrorista”, completamente alheio de qualquer conexão com a problemática social do seu tempo; 2) porque Battisti conseguiu burlar a máquina repressiva jurídico-estatal por quase 40 anos e chegou até a ter celebridade como um brilhante escritor; 3) porque o simples fato de que tanto a França como o Brasil tivessem reconhecido seu direito a proteção humanitária, foi visto pelo Estado italiano, como a prova de que a luta armada era reconhecida como expressão de uma guerra civil em ato e não como simples terrorismo delinquente (como vimos, o terrorismo naqueles anos, foi do Estado e pelo Estado).

Essa foi a importância do justo ato de Lula em conceder asilo político em 2010 para Cesare Battisti, não por considerar que ele era inocente, mas reconhecer que ele era perseguido politicamente por um país onde sempre formalmente reinou a democracia.

É na extrema importância daquele ato que pode se ver a miséria atual de Lula e suas palavras.

 

CHILE: Cartas de Presos Anarquistas em Solidariedade a Mónica Caballero e Francisco Solar

A solidariedade não reconhece fronteiras. Atravessa montanhas, matas, rios, oceanos. Encurta distâncias, aproxima corações incendiários, perfura muros, serra grades, destrói cercas. Hoje, dia 14 de agosto, se marca o dia internacional de agitação e propaganda com anarquistas presxs.

Publicamos essa semana um artigo contextualizando a prisão de Mónica e Francisco num quadro maior de repressão a anarquistas, ao povo Mapuche e toda a dissidência política no Chile. Abaixo um vídeo do coletivo Antimídia sobre a prisão de nossos companheiros:

Para somar nessa campanha, traduzimos 3 cartas dos companheiros libertários Joaquín García Chancks, Marcelo Villaroel Sepúlveda e Juan Aliste Vega, que vêm sendo mantidos encarcerados pelo Estado chileno. Chancks foi condenado a 10 anos de prisão por sua suposta participação em uma explosão na Escola de Gendarmería de San Bernado e outra na Delegacia de San Miguel em 2015. Marcelo e Juan foram sentenciados com 14 e 42 anos de prisão pela suposta participação em expropriações bancárias e pela morte de um policial durante uma fuga em outubro de 2007, no que ficou conhecido midiaticamente como Caso Security.

Um abraço forte e solidário à Mónica, Francisco, Joaquín, Marcelo e Juan.

LIBERDADE!


Carta de Joaquín García Chancks

Parece que a Negação não alcança nenhuma Verdade, Razão ou Lógica imóvel, que da luta contra a falsidade do existente só resulta um caminho semeado de dúvidas, no que o presente e o devir se borram, com uma tinta difusa, uma densa neblina na qual sempre será uma tarefa navegar, mas existe algo que traz novamente a claridade a esta trilha; é a bússola da confrontação que se apresenta como a razão consequente com a noção inseparável de uma simbiose teórico-prática, o ponto de vista de uma existência as vezes errante.

A dinâmica do combate sacode a existência para trazê-la de volta à vida, dotando-a da Fogosidade que o cansaço e a monotonia muitas vezes extingue; a construção de um existência antagonista carrega, então, a capacidade de viver longe da virtualidade imposta pela vida normalmente ditada, o golpe a golpe do ataque agradável, impulsor da mítica destruição criadora e o sofrimento de quando não somos quem golpeia, da prisão, a morte, que flerta com a subversão, são os sabores da vida, vida real, bebidas amargas e ambrosia.

Hoje bebemos desta bebida amarga; dois afetuosxs companheirxs são detidxs e acusadxs pela colocação de múltiplos artefatos explosivos, entre eles o enviado ao ex-Ministro do Interior Rodrigo Hinzpeter e um enviado à 54ª delegacia de Huechuraba. Inevegável que ambos belos ataques falam da continuidade histórica, do golpe da memória que não esquece. O poder transtornado e temeroso.

Festina, com a detenção dxs supostxs responsáveis, que recorde, a revolta não foi o ponto de culminante de um êxtase rebelde, é a criação, o ponto de inflexão de centenas de vidas em combate.

Um grande abraço à distância, cheio de amor, carinho e força para vocês, Mónica Caballero e Francisco Solar.

Viva a anarquia.

Joaquín García Chancks
Carcel de Alta Seguridad Chile,
14 de agosto de 2020.

Carta de Juan Aliste Vega

Há pouco menos de um mês da detenção de nossxs companheirxs Mónica e Francisco pelas mãos do aparato policial de Estado, Guardas do poder e defensores dos interesses da casta burguesa política deste território.

Mónica e Francisco em prisão e reféns deste Estado capitalista que xs julga e sentencia desde o primeiro instante em que midiaticamente a administração fascista instala sua maquinaria jurídica servil em suas consequentes vidas.

São companheirxs que têm posição de caminhar livres e com férteis convicções. Abraço elxs com incondicional força e ternura, com o coração repleto de cumplicidade.

Como inimigo deste Estado, levantando a escrita pela bela insistência de reconhecermos na palavra transformada em ato e o pensar em ação subversiva. Juntxs no abraço de guerra que transcende muros e fronteiras, batida incansável que flui pela eliminação de toda forma de submissão.

E o combate diário frente a qualquer forma de poder. É a anarquia presente kom oxigênio libertário que não deixa de bombear, desde os negros corações, mais razões nesta luta contínua.

A prisão não é alheia a este caminhar, nossas vidas não são mensuráveis em custos, há aprendizado constante, há a decisão inquebrável de confrontação e ação direta, indicador tangível de que é possível não somente batalhar, mas também ser livres.

Juntxs no abraço de guerra que transcende muros e fronteiras nessa luta contínua.

Caminhando com dignidade rebelde e olhar subversivo, dentro e fora da prisão até a liberação total!

Enquanto houver miséria, haverá rebelião!!

Juan Aliste Vega,
Prisionero subversivo
Cárcel de Alta Seguridad Chile,
14 de agosto de 2020.

Carta de Marcelo Villaroel Sepúlveda

É nossa a konvicção!!

Indestrutíveis nossos desejos e infinitos os motivos e razões para seguir, nesta guerra, pela morte do estado, da prisão e do kapital.

Há 21 dias a notícia nos akordou batendo em nossas karas. Foram presxs Mónica e Francisco. Desta vez akusadxs de serem autorxs de diversos ataques explosivos em Santiago no último ano. Klaramente a ofensiva permanente do Estado por meio de seus aparatos repressivos, sua estrutura jurídica penitenciária e sua imprensa servil e empresarial desenha a karicatura sobre nossxs irmãxs komo xs culpadx perfeitxs para quem se espera todo o rigor da lei dominante.

A decisão do poder é o kastigo exemplar para servir de lição e de fase preliminar à resistência ofensiva komo prática insurrecional de ataque ao existente. Nossxs companheirxs hoje enfrentam uma dura luta. O poder, em bloco, fazendo uso de suas ferramentas, adianta duras condenações.

Nossas palavras nascidas de uma longa resistência à estadia forçada na prisão buscam assinalar certezas e convicções. Uma delas é a justeza de nossa ação rebelde e insurreta. Outra é que a luta pela destruição da sociedade carcerária é uma necessidade imperativa. De urgência vital nestes tempos de controle, repressão e morte.

O inimigo espalhado por todo o território atua com todos os capangas na rua, e nesta confrontação inevitável hoje nossxs kompanheirxs aparecem como destinatárixs inevitáveis de todo o peso da lei enquanto passam a formar parte deste contingente de kompanheirxs, que navegamos nesta paisagem sombria da prisão em um kontexto de permanente e interminável konflitividade.

A guerra social se torna comum e necessária por meio da legitimidade da violência multiforme como prática liberadora de rebelião, mas também vai parindo presxs, fugitivxs, fugidxs e mortxs. Esta é a realidade do konflito.

O que não podemos nunca esquecer: virão mais e mais kompas perseguidxs, kaídxs, fugidxs, mas, do mesmo modo, haverão companheirxs passando para a ofensiva, dando continuidade à esta luta pela liberdade, pela terra, kontra o kapital e tudo o que nos impede de viver.

Desta cela, onde meus pensamentos voam até as que habitam hoje, abraço xs kompanheirxs neste novo trajeto morro acima que seguramente saberemos seguir.

Mónika e Francisco e todxs x presxs da guerra social, da Revolta e da liberação mapuche para a rua!

Enquanto existir miséria, haverá rebelião!!

Marcelo Villaroel Sepúlveda
Prisioneiro libertário
Carcel de Alta Seguridad Chile,
14 de agosto de 2020.

CHILE: O Fogo que Arde Desde a Cordilheira

Em 24 de julho de 2020, entre o nascer do sol e as primeiras horas do dia, a polícia chilena tenta sufocar mais uma vez o agitado movimento anarquista daquele território. Casas são invadidas, buscas são feitas pela cidade de Santiago e logo as notícias começam a se espalhar: duas pessoas, anarquistas, foram sequestradas pelo Estado e estão sob as mãos dos policiais. Eram Mónica Caballero e Francisco Solar, companheiros acusados de envio de 4 pacotes-bomba. No mesmo dia da prisão, o judiciário decidiu pela prisão preventiva de 6 meses para investigação.

Dois dos pacotes teriam sido deixados em fevereiro de 2020, em um prédio localiado em uma região elitizada de Santiago. Outros dois, mais antigos, teriam sido enviados em julho de 2019, sendo um para a 54ª delegacia de Huechuraba e outro para o escritório onde trabalhava o facínora Rodrigo Hinzpeter, um dos fundadores do partido de direita Renovación Nacional, ligado ao Movimiento de Unión Nacional (partidários da ditadura de Augusto Pinochet). Hinzpeter é bastante conhecido por suas operações de perseguição aos anarquistas. Durante a primeira gestão de Sebastian Piñera na presidência do Chile (2010-2014) ele foi Ministro do Interior entre março de 2010 e fevereiro de 2011, cargo que depois foi transformado em Ministro do Interior e Segurança Pública do Chile. Em seguida, se tornou Ministro da Defesa Nacional do Chile, cargo que ocupou até 2014. Durante esse período, manteve explícita a tentativa de calar os movimentos populares e insurrecionais, as comunidades mapuches em luta, o movimento estudantil radicalizado e, sobretudo, o movimento anarquista.

É um dos responsáveis pelo Caso Bombas, que em 2010 promoveu uma caça aos anarquistas com base em montagens policiais, provas forjadas e espetáculos midiáticos. No caso, uma série de companheiros anarquistas foram presos sob a acusação de terem implantado bombas em bancos e delegacias pela região metropolitana de Santiago. Os presos foram absolvidos e o Caso Bombas se transformou em uma aberração policialesca e até hoje é conhecido como uma das tentativas de criminalização mais grotescas, mas que encontra desdobramentos até o dia de hoje. Tanto é que entre os anarquistas presos naquela época estavam Mónica Caballero e Francisco Solar, companheiros presos mais uma vez pelo Estado chileno, quase 10 anos depois.

Mónica Caballero e Francisco Solar

Após serem absolvidos no Caso Bombas, os dois partem para a Espanha, onde em novembro de 2013 são alvos de uma nova investigação: um atentado explosivo na Basílica de Pilar, em Zaragoza. São presos novamente junto a outros 3 anarquistas em meio à uma caçada do Estado espanhol aos libertários naquele território, que contou com ao menos 5 operações policiais e encarcerou mais de 40 pessoas e acusou muitas outras, além de dezenas de centros sociais e casas terem sido invadidas pela polícia.

Assim como no Caso Bombas de 2010 e na prisão de ambos na Espanha em 2013, a acusação de agora contra Mónica e Francisco está vinculada à uma montagem policial. Entre as supostas provas mencionadas pelo judiciário estão amostras de DNA “masculino”, que foram apresentadas como provas da participação de Francisco Solar, imagens de câmeras de vigilância de baixa qualidade etc. Reportagens da imprensa chilena mostram que ambos estavam sendo monitorados de perto pela polícia ao menos desde quando foram extraditados pelo Estado espanhol. Policiais a paisana os seguiram por meses, acompanharam suas publicações nas redes sociais, produziram um relatório com informações sobre as pessoas com quem os companheiros se relacionavam, onde trabalhavam etc. Além disso, Francisco foi detido pela polícia em 15 de maio de 2020 durante uma manifestação anticarcerária chamada pela Coordinadora 18 de Octubre sob a alegação de que ele teria promovido “desordem pública” e, de acordo com as informações difundidas pela imprensa, foi durante esta detenção que seu material de DNA foi recolhido e posteriormente utilizado como suposta “prova” de sua participação no envio das bombas.

Quando dizemos que ambos os casos foram montagem não estamos questionando a existência de tais ataques à propriedade e autoridade. Nos interessa explicitar o modo próprio da atuação policial: espetáculo midiático, invenção de ligações entre os eventos, provas forjadas, invasão de casas e espaços anarquistas. E aqui não nos interessa argumentar que os companheiros são inocentes ou culpados, mas explicitar que jurídico e político não se separam. Utilizar como argumento a inocência frente às acusações é reforçar existência e continuidade do judiciário, do tribunal e do sistema penal, armas utilizadas pelo Estado na guerra social para tentar suprimir toda e qualquer resistência que não se submeta à legalidade, à soberania, ao princípio da autoridade.

Ao retomar esses acontecimentos nos quais os companheiros estiveram envolvidos, não nos interessa, como fazem os jornalistas e policiais, discutir formalidades, legislações, culpabilizações ou vitimizações. Queremos dar um abraço forte, solidário e incendiário, para Mónica e Francisco, que se mantém firmes mesmo que sequestrados pelo Estado chileno. Demonstramos nossa solidariedade irrestrita com eles. E isso inclui, invariavelmente, respeitar o posicionamento de ambos, que mesmo com todas as perseguições dos últimos anos, se mantiveram com a cabeça erguida, resistindo aos ataques constantes por parte do Estado. Aproveitamos para fazer eco das palavras de Mónica e Francisco, que durante o seu julgamento na Espanha disseram, sem hesitar, em meio a tribunal: “muerte al estado, viva la anarquia”.

CARTA DE MÓNICA CABALLERO:

“Companheirxs, amigxs e familiares:

Novamente lhes escrevo desde uma cela. Me encontro isolada na prisão de San Miguel e durante 14 dias permanecerei isolada por conta do protocolo de prevenção de contágio ao COVID-19, posteriormente me classificarão e me levarão a um módulo definitivo.

Já são quase 10 anos desde a primeira vez que pisei na prisão como acusada. Durante esses anos minha vida, de uma forma ou outra, sempre esteve ligada às prisões, embora os sistemas de controle possam mudar, sua estrutura essencialmente não, se segue buscando o castigo e o arrependimento.

Há quase 10 anos, ao entrar na prisão, estava plenamente convencida de que o conjunto de ideias e práticas antiautoritárias são pontos fundamentais para enfrentar a dominação, em todo esse tempo não existiu nem um só dia em que pensei o contrário. Piso na prisão com a cabeça erguida, orgulhosa do caminho percorrido.

SOLIDARIEDADE COM TODAS AS LUTAS ANTICAPITALISTAS
NEWEN PEÑIS, PRESOS POLÍTICOS MAPUCHES, PRESOS SUBVERSIVOS E DA REVOLTA PARA AS RUAS!

Julho de 2020,
Mónica Andrea Caballero Sepúlveda, presa anarquista.”

O Fogo Não Tem Fim

Os enfrentamentos entre as forças na guerra social não param. Portanto, entendemos a operação para prender Mónica Caballero e Francisco Solar como uma tentativa de silenciar o movimento insurrecional que tomou as ruas de diferentes cidades do território dominado pelo Estado chileno nos últimos meses. O mês de outubro de 2019 foi bastante quente. As imagens de barricadas com fogo, encapuchadxs, enfrentamentos com os carabineiros e derrubadas de estátuas de colonizadores rodaram por várias partes do planeta. Muito se discutiu sobre qual teria sido o estopim para que as ruas fossem tomadas… se haveria sido o aumento na tarifa de transportes, ou o custo de vida, a “corrupção”, a acentuação do neoliberalismo ou se havia sido tudo isso em conjunto. Prontamente jornalistas, cientistas políticos, políticos, celebridades, youtubers e derivados não demoraram para tentar encaixá-la em uma explicação racional, de causa e efeito. O que mais chama a atenção sobre essas análises é que elas, invariavelmente, não levam em conta os enfrentamentos da guerra social que já ocorriam naquele território. Sem dúvida, uma insurreição possui um momento de erupção, assim como um vulcão. Mas mesmo o vulcão é composto por lavas e bolas de fogo que não param de queimar, ainda que debaixo da terra, ainda que a gente não enxergue.

Durante as manifestações daquele outubro, chegavam imagens e textos exaltando a resistência e coragem daquelas pessoas que decidiram se defender da repressão policial. O termo primera línea se tornou viral e prontamente uma identidade adotada por muitas pessoas que acompanhavam de outros cantos do planeta por meio das redes. Entretanto, essa romantização, essa invenção de uma nova identidade escondia anos de repressão, criminalização, espancamentos e delações por parte de organizações de esquerda contra grupos de afinidades anarquistas. A até então chamada tática black bloc, as pessoas encapuchadas, expulsas muitas vezes das manifestações estudantis por sindicatos, passou a ser alvo de uma tentativa de amansamento e adestramento.

Ainda que a gente apoie e estimule sem ressalvas todo e qualquer ato de não se silenciar frente à repressão e considere que é preciso ter muita coragem para se enfrentar um carro blindado armado de pedras e garrafas, em nossa perspectiva, a transformação de uma tática de defesa e enfrentamento em uma identidade por parte das pessoas que se colocam como solidárias às lutas possibilitou que houvesse um abandono do comprometimento ético com as forças envolvidas na insurreição. A insurreição e os enfrentamentos passaram a ser acompanhados por muita gente que se diz “solidária” como quem assiste a um filme ou a uma série ficcional, na qual não é necessário nenhum envolvimento com a luta. Tanto é que bastou os atos multitudinários deixaram de tomar as ruas e as notas em solidariedade diminuíram, se é que continuaram a existir. Entretanto, é importante ressaltar: muitas pessoas, companheiras, continuam presas e/ou processadas, muitas foram feridas, perderam seus olhos, foram mortas pela polícia. Não dizemos isso como uma forma de apontar o dedo, mas como uma provocação. A solidariedade é mais do que palavra escrita e nada tem a ver com o consumo de imagens, martirização, espetacularização. Quando se fala de uma insurreição, ela não é abstrata. São corpos reais, pessoas combatentes na guerra social, se colocando em risco contra uma vida de miséria. Saudamos sua coragem, mas como solidários, precisamos sempre estar atentos para não sermos tragados pelo elemento espetacular, pela foto de capa, pela reportagem no jornal, pelo vídeo nas redes.

O efeito da insurreição está sendo sentido ainda, ele não acabou. A pandemia de Covid-19 esvaziou à força as ruas e as manifestações multitudinárias desapareceram. Todavia, para nós, é preciso lançar um olhar insurrecional que conecte as lutas, pois as forças aprendem mutuamente, se fortalecem, se alteram, se enfrentam. Nesse sentido, o fogo nunca cessa. Mesmo que o exercício de governo se atualize, os Estados se armem, as forças moderadas busquem conter a possibilidade insurrecional. Mesmo que a esquerda tente aplicar uma reforma constituinte para substituir a constituição atual promulgada, em grande parte, durante a ditadura de Augusto Pinochet. Mesmo que os Estados tentem lançar mão da lei antiterrorismo contra os movimentos insurrecionais e radicais, contra quem não se submete à lógica do Estado e do capitalismo, sejam nós anarquistas, sejam nossos companheiros das comunidades mapuches que se levantam há séculos por autonomia e liberdade, sobretudo na região patagônica.

Mapuches em Luta

Não temos a pretensão de explicar a cosmovisão mapuche, nem de esgotar todos os casos de resistência e repressão e muito menos pretendemos falar em nome das diversas comunidades em luta. O que queremos, sim, é difundir alguns elementos sobre a singularidade dessa luta, pois só assim é possível que a solidariedade indomável seja mais do que palavra escrita, mais do que um palavrório universalizante que não leva em conta as forças envolvidas. As lutas das comunidades mapuche possuem suas singularidades justamente por serem inseparáveis de seus modos de vida e do vínculo direto com a terra.

A relação com a terra está no próprio significado do nome: em mapudungún (o idioma mapuche, língua da terra) mapu significa terra e che gente, pessoa. E é sobretudo em torno da questão da terra que rondam os levantes das últimas décadas na região conhecida como Wallmapu (totalidade do território mapuche em ambos os lados da cordilheira). De um lado, no território dominado pelo Estado chileno, atualmente as comunidades mapuches se concentram sobretudo nas regiões patagônicas de Bio-Bio e Araucania, zona centro-sul, e são atacadas permanentemente pelas multinacionais, florestais e hidrelétricas, que destroem, pouco a pouco, a natureza da região com a derrubada dos bosques, contaminação das águas e expulsão das comunidades locais. De outro, no “lado argentino” da patagônia, os enfrentamentos se dão também contra o grupo Benetton, que é proprietário oficial de invasões em terras ancestrais mapuches. Como explica o livro Wenüy – por la memória rebelde de Santiago Maldonado, a invasão destas terras em específico tem origens na The Argentinian Southern Land Company, fundada em Londres em 1889 para realizar atividades comerciais na Patagônia e “em 1986 foi beneficiada com a doação de dez fazendas de quase noventa mil hectares cada uma. Em troca de financiar a Campanha do Deserto, obteve terras estratégicas para o desenvolvimento da ferrovia que lhe serviu para exportar a produção de gados. Em 1982 a empresa traduziu seu nome – Compañia de Tierras del Sud Argentino – e integrou sua direção com 60% de diretores argentinos. Esse pacote acionista foi comprado em 1991 pela Benetton por cinquenta milhões de dólares”.

É nesse contexto de usurpação e invasão das terras ancestrais mapuches que se formam as diferentes táticas de luta. Não há uma uniformidade entre as comunidades, que se dividem entre uma minoria que busca diálogo e acordos com os Estados; outros que reivindicam o reconhecimento dos povos mapuche como uma Nação, o que implica na formação de um Estado plurinacional, como no caso boliviano; e uma vasta gama de grupos que reivindicam sua autonomia total e a retomada das terras ancestrais por meio da ação direta. Estes últimos, ao fazerem valer sua autonomia, há décadas vêm promovendo as chamadas recuperações territoriais em ambos os lados da cordilheira. É por meio dessas recuperações que os laços comunitários e culturais se fortalecem, dos cultos espirituais à alimentação, de brincadeiras e jogos a ensino do mapudungún. Enfim, se trata de um modo de vida que enfrenta diretamente o capitalismo, ao não reconhecer a usurpação de suas terras e o princípio da propriedade privada, e aos Estados, ao reivindicarem e espalharem a autonomia de cada localidade.

Nesse sentido, como afirma um posicionamento de um companheiro mapuche reproduzido no livro “Wenüy…”, “seguimos tendo as piores terras e a qualidade do solo é abismalmente diferente em comparação com as grandes fazendas: têm os melhores pastos, as melhores vertentes, as nascentes dos rios, os riachos. E esse é um dos motivos pelos quais seguimos vivendo em uma situação de extrema pobreza. Assim, obrigam nossa gente a migrar para as cidades, a viver nos bairros periféricos, com uma qualidade de vida pior da que tinham nos campos, passando a ser mão de obra barata e trabalhando por miséria. Por isso temem essa recuperação: porque questiona o estado das coisas”.

Nos últimos anos, os meios anarquistas de outros territórios começaram a dar enfase à luta dos mapuche sobretudo quando Santiago Maldonado foi assassinado pela gendarmeria em 1 de agosto de 2018 na província de Chubut, na região patagônica ocupada pelo Estado argentino. Como mostra o livro “Wenüy…”, os partidos e organizações de esquerda e de direitos humanos tentaram apagar que Santiago era anarquista e que foi assassinado enquanto estava encapuchado com companheiros mapuche durante uma barricada pela liberdade de Facundo Jones Huala. Tanto foi que nas manifestações ocorridas nas cidades argentinas primeiro em decorrência de seu desaparecimento e depois pela confirmação de seu assassinato, os anarquistas foram perseguidos pelas organizações de esquerda, e aqueles que usavam capuchas foram acusados de infiltrados.

Os enfrentamentos e os assassinatos de mapuches em luta não são uma questão nova, seja nos territórios hoje conhecidos como Argentina ou Chile. Também não se restringem à governos de direita. Durante os governos de partidos de esquerda, a perseguição não parou. Em 2008, por exemplo, a polícia chilena assassinou a tiros o jovem Matias Catrileo durante uma recuperação territorial na região de Vilcún, em Araucania. No mesmo mês, após ser detido agredido por policiais, o jovem mapuche Johnny Cariqueo morre dias depois no hospital. No ano seguinte, em 12 de agosto de 2009, o comunero mapuche Jaime Mendoza Collío foi morto com tiro nas costas pelas Forças Especiais dos Carabineiros. Na época, o país era governado por Michelle Bachelet, que, ironicamente (ou não), atualmente ocupa o posto do alto comissariado de direitos humanos da Organização das Nações Unidas. Esses são somente alguns dos casos de execuções, torturas, espancamentos, prisões, montagens policiais realizadas contra os povos mapuches.

Manifestação realizada em Curaucatin por diferentes comunidades mapuches em repúdio aos ataques racistas ocorridos nos últimos dias.

O recrudescimento da repressão foi elevado quando o Estado chileno criou o chamado Comando Jungla, força especial treinada na Colômbia durante o governo Bachelet e que somente foi “inaugurada” por Sebastián Piñera em junho de 2018. A justificativa da criação do Comando era o combate à chamada “violência rural” na região de Araucania. Naquele ano, em 14 de novembro, foi responsável pela execução do mapuche Camilo Catrillanca com um tiro na cabeça. Um companheiro de 15 anos que o acompanhava, após presenciar o assassinato, foi levado pelos soldados e torturado. E isso não foi um desvio de conduta. As invasões dos territórios recuperados e das comunidades mapuches por parte das forças especiais da policia permanece. E obviamente essa repressão começou com Bachelet ou Piñera. A resistência mapuche tem séculos de existência. Contudo, nos últimos anos, tanto o Estado chileno quanto o argentino têm se armado ainda mais para tentar apagar o fogo que sopra desde a cordilheira. Os carabineiros continuam rondando o território ancestral mapuche com blindados, drones, GPS de ultima geração e armas de grosso calibre.

Frente a isso, a ofensiva não esquece de seus mortos. No contexto das ações em memória do assassinato de Matias Catrileo, um incêndio levou à morte do casal de latinfundiários Werner Luchsinger e Vivianne Mackay em janeiro de 2013, na mesma região de Vilcún. Por conta do incêndio, foram realizadas diversas prisões de lutadores mapuches nas cidades de Temuco, Vilcún e na comuna Padre de Las Casas. Dentre os presos estavam a Machi Francisca Linconao e José Cordova, irmão de Celestino Córdova. Ao julgamento, se somou um espetáculo midiático e o judiciário tentou aplicar a lei antiterrorista, mas não conseguiu. Dentre os acusados, Machi Celestino Córdova foi o único considerado culpado e condenado a 18 anos de prisão. Cabe lembrar que Machi é uma denominação utilizada pelos mapuches para se referir à uma autoridade espiritual ancestral, uma pessoa que faz a conexão com o mundo dos espíritos. Logo, a condenação do Machi Celestino Córdova é um ataque explícito às comunidades da região.

Há mais de 3 meses, o Machi Celestino e mais 8 mapuches que estão presos na cárcere de Angol iniciaram uma greve de fome contra a repressão ao seu povo. E a greve de fome foi se espalhando. Há mais de um mês, 11 mapuches encarcerados na prisão de Lebu também inciaram uma greve de fome e, alguns dias depois, 7 mapuches presos na cidade de Temuco também aderiram. Dentre eles, está Facundo Jones Huala, lonko (em mapudungún, cabeça e referência de uma comunidade) preso pelo Estado argentino e deportado e preso em junho de 2017 no território dominado pelo Estado chileno sob a acusação de ter causado um incêndio na região de Valdivia em 2013. Quando Jones Huala foi preso, uma campanha pela sua liberdade se espalhou pelos dois lados da Patagônia e foi durante um trancamento de uma estrada promovido por comuneros mapuches e apoiadores em Chubut, na região argentina, que a gendarmeria argentina assassinou o anarquista Santiago Maldonado em 1 de agosto de 2017.

Entre as reivindicações da greve de fome está a liberdade dos mapuches encarcerados poderem realizar seus rituais espirituais, o que é permitido, formalmente, pelas as normas judiciárias e por tratados internacionais, como o caso do Convênio 169 sobre povos indígenas e tribais da Organização Internacional do Trabalho (OIT), assinado em 1989. O documento afirma, nos parágrafos 9 e 10: “1- Desde que sejam compatíveis com o sistema jurídico nacional e com direitos humanos internacionalmente reconhecidos, os métodos tradicionalmente adotados por esses povos para lidar com delitos cometidos por seus membros deverão ser respeitados. 2- Os costumes desses povos, sobre matérias penais, deverão ser levados em consideração pelas autoridades e tribunais no processo de julgarem esses casos” ; “1- No processo de impor sanções penais previstas na legislação geral a membros desses povos, suas características econômicas, sociais e culturais deverão ser levadas em consideração. 2- Deverá ser dada preferência a outros métodos de punição que não o encarceramento”.

Obviamente que não estamos aqui defendendo tratados internacionais, nem a própria Organização Internacional do Trabalho, composta por representantes de Estados-nações e que faz funcionar o capitalismo a partir de suas “recomendações” e “regulamentações”. Contudo, é importante compreender que para perseguir aqueles que lutam , que vivem outro modo de vida, uma outra maneira de se relacionar com a terra, os Estados rasgam tratados muitas vezes assinados por eles mesmos. Isso mostra mais uma vez a seletividade presente no sistema penal e que é inerente a todo e qualquer exercício de governo. Os “direitos”, teoricamente universais, são desconsiderados rapidamente na tentativa de conter as práticas indomáveis. E como afirmou a companheira mapuche Giovanna Tafilo, uma das porta-vozes dos presos em greve de fome, em uma entrevista ao canal Nuestra Dignidad, a perspectiva, ao lançar mão dessa Convenção, é justamente a de explicitar que não apenas aqueles que estão em greve de fome devem ser liberados, mas que as prisões deveriam deixar de existir.

A situação da greve de fome dos mapuches presos explicita mais ainda que a prática de Estado é uma prática de morte dos povos originários e uma tentativa de aniquilação de seus modos de vida. Machi Celestino, junto aos demais companheiros, está há 99 dias em greve de fome (sem ingerir alimentos) e caso as reivindicações não sejam atendidas, anunciou que entrará novamente em greve seca (sem ingestão de líquidos) nos próximos dias. De acordo aos costumes mapuches, ele, por ser uma autoridade espiritual, não pode ter seu sangue retirado e isso vem sendo desrespeitado pelo Estado chileno e, portanto, seus companheiros precisam estar sempre alertas para impedir que isso ocorra. Ele também se pronunciou exigindo que caso sua situação piore, que não seja submetido à alimentação e hidratação forçada e, no limite, se tiver uma parada cardio-respiratória, que seu corpo não seja reanimado. Todavia, o Estado chileno já deu mostras de que pode desrespeitar essa decisão pessoal de Machi, pois, conforme publicizado por mapuches que acompanham de perto a luta, os médicos do hospital de custódia já deixaram preparados máquinas de reanimação para impedir que ele morra.

Simultaneamente, diversas ações foram e estão sendo realizadas. Na primeira semana de agosto, mapuches ocuparam as prefeituras de Victoria, Curacautín, Ercilla e Traiguén, todas na região de Araucanía, em solidariedade aos 27 presos em greve de fome. Durante a ocupação, grupos de extrema-direita cercaram as ocupações, agrediram os mapuches e tentaram incendiar os prédios. A situação mais grave se deu no município de Curacautín. Os ataques racistas foram acompanhados pela gendarmeria, que não interveio, numa explícita cumplicidade com a tentativa de matar os mapuches que ali estavam. Vários grupos de extrema-direita estavam envolvidos, como a Associação para a Paz e a Reconciliação em Araucania (APRA), composto por latifundiários e empresários da região. Em resposta, dias depois 100 mapuches ocuparam a prefeitura de Tirúa e foram prontamente atacados pela gendarmeria. Mas a luta não tem fim, o fogo não se apaga. Dias depois, 17 caminhões e duas retroescavadeiras foram incendiados e destruídos em uma fábrica na região. Os enfrentamentos continuam enquanto escrevemos estas linhas e as notícias que nos chegam dizem ter mais de 50 pessoas detidas e outros tantos feridos.

Enfim, sabemos que nesses processos nunca se tratou da participação real dos anarquistas nos ataques à bomba ou dos mapuches em incêndios e demais ações. Sabemos que tais processos não são mais do que uma tentativa desesperada do Estado de disseminar uma ideia de que haveria uma luta boazinha e outra condenável, uma palatável e a outra intragável, pois insurrecta, indomável. Se tratou (e se trata) de um uso estratégico e permanente que todo Estado faz dos eventos na tentativa de silenciar as práticas insurrecionais. Além de processar e encarcerar, mata e desaparece com companheiras e companheiros. Mata, como fez o Estado chileno com a anarquista Claudia Lopez, assassinada a tiros por carabineiros durante uma barricada no dia 11 de setembro de 1998 e tantos outros e com os mapuches Camilo Catrillanca, Matías Catrileo, Alex Lemún, Macarena Valdés, Rafael Nahuel e tantos outros até o dia de hoje. Desaparece, como fez com Jose Huenante, considerado um dos primeiros desaparecidos da democracia chilena pós-ditadura de Augusto Pinochet. Mata, como fizeram os Estados chileno e argentino, em 2018 quando assassinaram Santiago Maldonado. Encarcera, como faz com Facundo Jones Huala e com os presos subversivos Marcelo Villaroel Sepúlveda, Juan Aliste Vega, Mónica Caballero, Francisco Solar, entre muitos outros.

O fogo não tem fim. Sua chama pode diminuir, mas continua a arder, eternamente. A tudo queima. Consome as certezas, os acordos, as pacificações. Suas fagulhas voam como estrelas cadente iluminando a escuridão da noite. Frente ao silêncio paralisador das maiorias, submissas à ordem, aos tribunais e à legalidade democrática, os pequeninos estalos produzidos pelas brasas se tornam ensurdecedores. E não há Estados, deuses ou mestres que as apaguem.

Nem um minuto de silêncio, toda uma vida de combate!
Mano tendida a los compañeros, puño cerrado al enemigo!
Solidariedade irrestrita à Mónica Caballero, Francisco Solar, às comunidades mapuches em luta e os demais presxs da guerra social!

WALLMAPU LIBRE!
Abaixo a sociedade carcerária!
Pelo fim do medo,
Liberdade!


Para Saber Mais:

Uma Nova Onda de Repressão no Chile, por Crimethinc.

Amplas Manifestações Pela Nação Mapuche Contra a “Horda Racista”, texto por Equipe de Comunicações Mapuche, traduzido por Terra Sem Amos.

Caso Bombas, documentário sobre a série de montagens policiais para perseguir anarquistas no Chile.

Por que como anarquistas apoyamos la lucha autonoma del pueblo mapuche, por La Peste

Carta a Mónica e Franscisco

“Wenüy – por la memoria rebelde de Santiago Maldonado”, livro que compila textos, artigos e comunicados tanto sobre a morte do anarquista quanto dos grupos mapuche em luta na região patagonica.

Canais com notícias sobre as lutas anarquistas e mapuches:

Contrainfo – es-contrainfo.espiv.net
Coordinadora 18 de Octubre – instagram.com/coordinadora18octubre
Rede pela liberdade de Mónica e Francisco – instagram.com/redlibertadmonicayfrancisco
Rádio Kurruf – https://radiokurruf.org/
Kimunkaweychan – instagram/kimunkaweychan
Libertade para Machi Celestino – instagram.com/libertadmachicelestino