O Relógio Sempre Atrasado de Quem Teme a Revolta – ou Como os Protestos de 2021 Foram Enterrados

Presenciamos a maior pandemia que o mundo viu em um século. No Brasil, com quase 600 mil mortos, uma crise econômica, desemprego, aumento da população em situação de rua, a fome crescente e uma crise institucional com ameaças de “ruptura” e golpe militar toda semana. O governo e os ricos parecem querer zombar de nós com lucros recordes para bancos e novos bilionários surgindo no país em meio a uma crise sanitária que acabou com mais de 4 milhões de vidas em todo o planeta – e segue matando – enquanto filas se formam em açougues onde pessoas esperam comprar ossos e outros restos para ter o que comer.

Ainda há pouco, países vizinhos na América Latina são tomados por revoltas e pressão popular nas ruas contra os custos de vida e a perda de direitos pelo modo de gestão neoliberal, enquanto por aqui prevalece um grande esforço dentro da própria esquerda para manter a ordem social e a paz nas ruas.

Motivos para revoltar-se nunca faltaram, mas agora eles transbordam! E muitos ainda se perguntam: por que a rebelião não tomou as ruas de todas as cidades, trancando vias, queimando carros, destruindo lojas e delegacias, incendiando carros e viaturas como fizeram companheiras e companheiros em Santiago, Bogotá e Minneapolis? Temos os mesmos ingredientes básicos: reformas econômicas sufocantes, ataques a direitos básicos, uma pandemia tornada plano de extermínio e violência policial racista com números de guerra.

Ainda assim, é possível que tenhamos jogado no lixo a única chance desde o início desse governo de massificar uma radicalização em escala nacional. Os únicos capazes de romper o cerco e demonstrar força e articulação são os povos indígenas ocupando Brasília de forma inédita e exemplar para defender seus territórios à espoliação capitalista. Mas estão lutando praticamente sozinhos.

A janela de oportunidade parece ter se fechado e pode ser que levará muito tempo para se abrir novamente. Porém, para além de colocar a culpa e a responsabilidade em um outro, ou apenas no que de fato está sendo feito por nossos inimigos, devemos pensar o que nós temos feito — ou deixado de fazer.

“Ao contrario do que alguns pensam, a gente não tem medo da morte. Se tivéssemos, não estaríamos aqui, armados de arco e flecha e sem colete à prova de balas… não estaríamos aqui de peito aberto em meio a esta cidade”

— Indígena em ato em São Paulo, quando STF ia julgar o Marco Temporal.

Inimigos da autonomia

Nas lutas contra o aumento das tarifas de transporte público em 2013 e contra a Copa em 2014, a organização autônoma de movimentos veteranos das lutas antiglobalização, como MPL e inúmeras assembleias horizontais, foram capazes de mobilizar pessoas em dezenas de cidades de forma inédita, passando longe do controle dos partidos e centrais sindicais pacificadas pelo governo do PT. As ocupações de escolas por secundaristas em 2015/16, mostrou que uma geração muito mais jovem se organizando pela primeira vez também pode adicionar elementos novos e uma diversidade de táticas (ocupações, marchas, eventos) em uma mesma luta e obter grande sucesso. Desde então, não conseguimos arrancar grandes vitórias dentro da perspectiva de uma luta autônoma.

Nas atuais lutas contra o governo Bolsonaro e a catástrofe da Covid-19, a centro-esquerda têm mantido sua hegemonia reformista e garantido seus interesses eleitorais nos chamados e na organização dos atos pelo Brasil.

Movimentos que se organizam por fora da agenda dos partidos ou das grandes centrais sindicais – especialmente sob o guarda-chuva petista como a CUT– são ainda minoritários e até grandes e importantes movimentos sociais como o MST se submeteram ao mesmo imobilismo reformista. Mesmo assim, os movimentos autônomos e independentes foram pioneiros e protagonizaram várias tentativas de radicalizar as lutas com diversos coletivos, movimentos e blocos autônomos tomando a iniciativa em diferentes cidades.

No início da pandemia em 2020, de Porto Alegre a Belo Horizonte, torcidas organizadas antifascistas foram as primeiras organizações a chamar atos para barrar e confrontar carreatas e eventos bolsonaristas enquanto todo resto da esquerda ainda só sabia repetir um “fique em casa” acrítico, fazendo de tudo para evitar o enfrentamento com a extrema-direita. Em 2021, de Londrina a Salvador, blocos de luta organizando anarquistas, comunistas e indígenas compuseram os atos chamados pelas centrais sindicais e suas coalizões.

Tais mobilizações tiveram mérito em levar pessoas para as ruas, divulgar as pautas e imagem da luta antifascista, além de reforçar o potencial de articulação e ação política das torcidas organizadas. Eles romperam o silêncio para dizer que a onda fascistóide é tão ou mais perigosa que o vírus. Muitas pessoas obrigadas a se aglomerar todo dia nos transportes públicos e no trabalho, ficar em casa para assistir fascistas tomarem as ruas para legitimar esse governo e sua crise parecia uma péssima ideia. Mas ainda é preciso avaliar os motivos que impediram tais mobilizações de manter o fôlego para se manter nas ruas e ampliar a adesão.

“Lutamos contra eles escrevendo cartas para que não tenhamos que enfrentá-los com os punhos. Lutamos com os punhos para que não tenhamos que enfrentá-los com facas. Lutamos com facas para que não precisemos enfrentá-los com armas. Lutamos com armas para que não tenhamos que enfrentá-los com tanques.”

— “Murray” de Baltimore, citado no  livro Manual Antifa de Mark Bray.

Após apontar os caminhos para uma autocrítica autonomista ainda a ser desenvolvida, não podemos deixar de avaliar o contexto político e as organizações para além dos nossos círculos autônomos ou radicais. Nesses quesitos, as frentes amplas partidárias reformistas foram mais eficientes em mobilizar simultaneamente atos por todo o país. Muito disso é devido à sua enorme estrutura, tempo de atuação e recursos – os custos para divulgação, aluguel de carros de som, combustível, drones para filmagem, etc. chegaram à cifra dos 40 mil reais em Belo Horizonte e mais de 100 mil reais em São Paulo, segundo os próprios organizadores em assembleias. Recursos que, além de impossíveis de serem empregados por movimentos autônomos em uma única cidade, são também uma prova do imenso desperdício inerente às formas tradicionais de protesto organizado de cima para baixo, pensados de forma quantitativa onde uma estrutura com veicular e sonora cerca, dita o passo e abafa as vozes de corpos que poderiam ser ouvidos e enfrentar seus inimigos de classe com muito quase zero investimento do próprio bolso – e causando muito mais prejuízo aos patrões.

É importante analisar o papel das frentes amplas que foram formadas desde a luta contra o impeachment de Dilma Roussef e como esse tipo de organização tem funcionado como um grande entrave na luta. O Fora Bolsonaro™(reforçamos aqui ironicamente a exclusividade da marca) reuniu a Frente Povo Sem Medo(composta majoritariamente por MST, PSOL, UP, PCB, dentre outros), Frente Brasil Popular(PT, MST, CUT, dentre outros) e a Povo Na Rua, Fora Bolsonaro (uma tentativa de partidos como UP e PCB de darem novos rumos aos protestos), além dos poucos independentes e autonomistas.

Nas discussões e assembleias ficou claro que a ala Brasil Popular fez de tudo para arrefecer o que já não parecia caminhar para a radicalidade. A decisão de adiar os protestos para um a cada mês depois e seu boicote claro as datas tiradas para além do seu controle reforçam esse diagnóstico. As reuniões das Fora Bolsonaro Nacional™ demonstravam claramente que grande parte dos que compunham o movimento oficial não queriam que os protestos se massificassem e saíssem do seu controle.

Qual foi o papel da CUT, a maior central sindical da América Latina, nos últimos atos que foram construídos no Brasil, se não a sabotagem de alto nível, desarticulação profissional e desmobilização esforçada? Enquanto diversos setores como os Correios são privatizados, professores e funcionários públicos passam por uma precarização cada vez maior, a CUT permanece extremamente recuada.

Não havia motivos ou desculpas para que uma grande greve geral não fosse convocada desde o início da pandemia. Porém, sabemos por qual razão isso não foi nem será feito: optou-se esperar até que Lula eventualmente possa ser eleito em outubro de 2022. Quem pode esperar até lá? Quando a revolta estourar nas ruas e nem mesmo essa esquerda cúmplice dos patrões e da lei puder controlá-la, seremos nós que estaremos nas ruas.

Na luta contra esse governo, sua base fascista, o neoliberalismo e a vida no capitalismo em si, aqueles que, como fizeram membros MTST e PCB, desfazem barricadas e agridem quem as ergue, são inimigos de classe. Também o são aqueles que se sentaram com a polícia e os partidos de direita em São Paulo para negociar e combinar o que é permitido e legítimo fazer em um protesto, jogando na fogueira qualquer movimento organizado ou revoltas espontâneas que possam surgir. São falsos críticos do capitalismo pois não fazem sua crítica com ações concretas quando é a hora, apenas aguardam, tramam e agem quando convém à sua agenda por entrar na máquina estatal. E pior: se colocam no caminho de quem tem disposição para agir, declarando-os inimigos. Nossa leitura apenas aceita e reforça tal declaração.

Revolta, revolução e muita confusão

Do nosso lado das barricadas, é preciso reconhecer que perdemos também tempo e oportunidades em debates e confusões sobre a “conjuntura ideal para luta” ou as “condições para radicalização”. Muito se questionou sobre “o que a revolta constrói a longo prazo”, de “que adianta uma greve geral ou radicalizar agora” enquanto a população está “sem trabalho ou na total informalidade e precarização” — como se essa não fosse a realidade permanente da população. Os argumentos mais desonestos afirmam que “a ação direta combativa nas ruas daria o pretexto ideal para Bolsonaro dar um golpe” ou instaurar um estado de exceção — como se a elite precisasse de pretextos para explorar, escravizar reprimir ou agir na exceção e não o fizessem diariamente.

Muitas dessas avaliações derivam de uma análise dogmática ou ideológica das lutas, mais preocupadas em encontrar sinais de etapas revolucionárias em revoltas pontuais. Algo disso vem das narrativas que movimentos radicais compartilham, onde as mobilizações e levantes ocorrerão de forma crescente até que a ordem social venha abaixo por uma revolução. No primeiro caso, deixamos de enxergar o que as ruas dizem, as oportunidades imprevistas que se abrem para as pequenas vitórias. No segundo, ignoramos uma tendência em que as lutas avançam e sofrem refluxos, momentos de mobilizações e vitórias, momentos de repressão e também de reação – quando inimigos avançam sua agenda reacionária ou fascista. Algo que nossa geração conhece por experiência.

Quando falamos de revolta popular e vitórias pontuais, temos como exemplo as vitórias em 2013 contra a tarifa no Brasil e, mais recentemente, no Chile, quando em 2019 uma luta dos estudantes e trabalhadoras também contra aumento nas tarifas abriu caminho para uma onda de protestos contra o modelo neoliberal que culminou numa vitória histórica que derrubou a constituição da era Pinochet. Sejam nesses exemplos, ou nas lutas por George Floyd nos EUA ou contra a Lei de Extradição em Hong Kong, as ondas de revolta são exemplares e inspiradoras, mas muito distante de um verdadeiro processo revolucionário que pode promover uma mudança profunda nas estruturas de comando da sociedade.

Revolta, por mais que necessária, não é o mesmo que revolução — nem necessariamente conduz imediatamente a uma revolução. Não há motivos para gastarmos horas em análises de conjuntura se não for para nos engajar e apoiar uma luta dos de baixo, mesmo que pontual, por ela não corresponder ao “previsível” desenvolvimento das “etapas” para uma radicalização.

Sabemos muito bem que para levantes como de 2013 no Brasil ou 2020 no Chile e nos EUA abrirem caminho para uma revolução, será preciso um longo caminho de construção de estruturas comunais, articulando muito mais gente, recursos e territórios. Algo que, como ensinam os povos de Rojava a Chiapas, é custoso, contraditório, incompleto e atrai permanente embate com nossos inimigos.

Mas avaliar tendências históricas ou recentes e nos preparar para assumir posturas coerentes aos nossos princípios não significa nos limitar a uma rígida análise dogmática sobre as lutas e transformações sociais. Deixar de enxergar padrões e tendências na história, para acreditar em leis pretensamente científicas é um erro imobilizador.

Aqueles que esperam “a conjuntura ideal”, não reconhecem o papel da revolta e esperam pelas “leis naturais da revolução”, querem compreender as “leis” que regem a sociedade como quem avalia as propriedades dos astros ou dos minerais. Preferem não agir para não ter que apostar no desconhecido, imensurável ou previsível – aquilo que não podem controlar. Por isso, ao preferir as previsíveis “leis da revolução”, acabam do lado das previsíveis leis da polícia e da burguesia: vão atacar, sabotar, denunciar e entregar elementos que desafiam ambas.

“A ironia da história universal põe tudo de cabeça para baixo. Nós, os ‘revolucionários’, os ‘subversivos’, prosperamos muito melhor com os meios legais do que com os ilegais e a subversão.”

– Frederich Engels, Prefácio de ‘As Lutas de Classes em França’

É preciso abertura aos sinais de nossos tempos e apostar no que não conhecemos ou podemos controlar. Quem só quer encontrar uma “legalidade científica” para agir por transformação social, nunca luta de fato e apenas espera pela autorrealização da “dialética histórica”. Assim como os marxistas ortodoxos apenas esperam pelo resultado da contradição capitalista, abrindo mão da subversão e da ideia de revolução para respeitar a lei do estado e disputar seus cargos democraticamente, os novos sacerdotes “apreendendo” e “revelando” as regras dos movimentos sociais e dos protestos de rua nunca acreditam ser “a hora certa de radicalizar”. E quando o fascismo marcha com cada vez mais novos membros nas ruas e mais poder nas instituições, é porque, como já dissemos, seu relógio está mais do que atrasado.

Muito mais tragédias e muito mais oportunidades foram perdidas por quem teme o imprevisível do que por aqueles que acham que leis claras como as da termodinâmica poderiam ser aplicadas na sociedade, para prever e antecipar eventos. Talvez por isso que, de 1917 a 2020, radicais são quase sempre pegos de surpresa pelos levantes sociais.

Para momentos de efervescência nas ruas, precisamos de ideias e ferramentas práticas que deem suporte àquelas pessoas que, por sofrerem a perda e as sequelas de uma tragédia como a pandemia, a fome e a exclusão sistemáticas, se erguem e tomam iniciativa sem nada mais do que a disposição para negar e atacar materialmente essa ordem.

Se nenhuma conjuntura é favorável, ataque!

Se não ficou claro, diremos: uma das únicas “regras” que reconhecemos é que governos não recuam sem a pressão das ruas em chamas, das barricadas, dos bloqueios, das lojas saqueadas, palácios vandalizados e sem uma resposta proporcional à violência policial de forma generalizada. O maior protesto antiguerra da história, nos EUA em 2003, não surtiu efeito algum contra a invasão do Iraque pois se comportou e respeitou a lei e a ordem. Mas quando 200 cidades viram delegacias e prédios inteiros em chamas em 2020, as mídias e os políticos adicionaram até mesmo o fim da polícia na sua lista de debates — debate até então restrito aos movimentos mais radicais.

A única vez que a pauta única e imediata contra o aumento das tarifas dos transportes obteve uma vitória em escala nacional no Brasil nas últimas décadas foi quando, em 2013, movimentos autônomos chamaram o povo para as ruas sem pretensão de controlar ninguém, e confrontos e vandalismo tomaram centenas de cidades pelo país sem se submeter ao legalismo sindical e partidário.

O trabalho de base, a militância cotidiana que constrói laços e supre as necessidades imediatas da população não necessariamente são ameaçados quando há um levante em curso. Aliás, podem ser fundamentais para prover solidariedade, apoio material e convocar mais gente para manter as mobilizações por mais tempo. Mas não devem ser pretexto para algum movimento escolher o lado da lei, da polícia, da ordem e dos 1% no controle, assassinando com fome e bala os de baixo. Ninguém precisa estar em todas as formas de luta, ação e organização. Mas quando um black bloc, uma barricada, uma primera línea surge para revidar à agressão policial e atacar as estruturas de poder, cabe aos que se organizam previamente e se dizem revolucionárias apoiar e, no mínimo, prestar total solidariedade com a revolta dos de baixo.

Guy Debord ressaltou as revoltas no bairro negro de Watts, Los Angeles, em 1965, quando um incidente de trânsito culminou em dez dias de confrontos, saques e vandalismo. Segundo o autor, aquela foi “uma revolta contra a mercadoria, contra o mundo da mercadoria e do trabalhador-consumidor hierarquicamente submisso aos padrões da mercadoria. Os negros de Los Angeles […] tomam ao pé da letra a propaganda do capitalismo moderno […]. Querem possuir imediatamente todos os objetos expostos e abstratamente disponíveis porque querem usá-los. Desta maneira, recusam o valor de troca, a realidade mercantil que é seu molde […]. O homem que destrói as mercadorias demonstra sua superioridade humana sobre aquelas.” E continua: “a produção mercantil, assim que deixa de ser comprada, transforma-se em criticável e modificável em todas as suas formas particulares.”

Debord nos lembra que a revolta popular contra a opressão é, sem dúvida, a forma de crítica mais sofisticada possível. Onde ela surgir, devemos apoiar. Se não fisicamente, reforçando sua legitimidade e sua necessidade para uma transformação social.

Ainda assim, nem tudo é uma questão de quanta depredação ou quantas pessoas organizadas temos para lutar e arriscar suas vidas e sua liberdade para chegarmos a alguma mudança social. Da mesma forma, nem tudo que “vem do povo” também deve ser imediatamente aceito como desejável. O machismo e o fascismo podem vir do povo e podem ser o resultado de séculos de uma construção social e cultural. A revolta prática contra medidas impostas de cima para baixo, treina a organização e a ação de quem já se organiza, mas também convida novas pessoas a tomarem posição e avança debates: seja pelo fim da polícia, pelo acesso à cidade, seja sobre machismo dentro da esquerda ou os limites do reformismo.

Como disse Mark Bray sobre os protestos nos EUA em 2020, “não há nem longe membros suficientes ou grupos Antifa nos Estados Unidos para promover o que estamos vendo”. Essa é uma constatação básica que nos lembra que a revolta nos EUA foi uma revolta generalizada e do povo. Mas especialmente, da população negra e pobre. Por mais que gostemos de ver anarquistas, antifascistas e demais radicais marcando presença como uma força social potente, ela ainda é hoje uma força marginal capaz, quando muito, de influenciar e auxiliar as revoltas. Mas as pessoas que vão para as ruas em momentos como esse não são militantes experientes deliberando formalmente o que é “mais responsável” a se fazer.

Portanto, não existe “conjuntura favorável” para a luta dos oprimidos e todos os momentos oferecerão vantagens e desafios. Não existe momento em que a revolta pode acontecer sem “o risco de um golpe”, “de mais repressão” ou de “dar lugar a uma onda fascista”. Todos esses elementos estão sempre presente em maior ou menor grau. Não agir de forma combativa por “não ser essa a vontade da maioria” é esquecer que levantes e revoluções são trabalho de minorias da população. Nem 3% dos habitantes foram as ruas do Brasil em 2013 ou dos vários países durante a Primavera Árabe – e conhecemos bem o efeito devastador desse “pequeno número”. Não é por acaso que, da França em 1848 ao Chile de 2021, eleições e plebiscitos são uma ótima ferramenta para frear insurreições e transformar movimentações revolucionárias em reformas pacificadoras.

Nesse tema, ficamos com as palavras de camaradas da Teia dos Povos em agosto de 2021:

 Nossos povos fizeram Palmares, os Redutos do Contestado, Canudos, Calderão de Santa Cruz do Deserto, a Balaiada, a Cabanagem… nossos povos são rebeldes e não esperam conjuntura boa para lutar. Zumbi, Antônio Conselheiro, Manuel Balaio não poderiam esperar a mudança de governantes para agirem. Isto é muito sério, minha gente. Se queremos que o derradeiro dia de luta chegue, precisamos hoje amolar as foices, hastear as bandeiras e fazer uma boa roça que nos dê sustança para a batalha. A palavra da hora é autodefesa! O derradeiro dia não chegará se não mostrarmos desde já que é possível, que já soubemos e ainda sabemos fazer. E para isto, não tenham dúvidas, é fundamental a aliança de povos. Nenhum partido, organização ou povo pode unificar tantos povos heterogêneos com sua forma de agir. Então, que tenhamos uma aliança heterogênea, desde baixo, à esquerda e por terra e território.

Esta não é uma carta, é um convite à resistência, um convite a se aprumar para a guerra!”

—Teia dos Povos, “Só nos resta a GUERRA

Conclusão: 3 lados de um conflito global

A direita no poder dá aos movimentos radicais e anticapitalistas a chance de mostrarem formas de luta e objetivos que não dependem de relação com o estado. Rompendo o laço (ou a cooptação) que os movimentos sociais mantinham com a esquerda no governo e dificulta, mesmo que por um tempo, a identificação que os movimentos e muitas pessoas podem ainda ter com o aparato estatal e suas narrativas democráticas e institucionais.

No fim das contas, sabemos que nem a esquerda, nem muito menos a direita no comando do Estado serão capazes de minimizar os impactos de uma economia neoliberal globalizada, cada vez mais brutal e excludente. Se a luta indígena é a única a não recuar no Brasil hoje, é porque sabe que não adianta esperar por outro governo, o estado é sempre inimigo dos povos e das florestas e um aliado do capital. Não surpreende que nos governos petistas não houve demarcações que garantissem o acesso às terras indígenas hoje ameaçadas com a proposta do Marco Temporal, além de ter sido o governo de Dilma Rousseff que promoveu enormes ataques à Amazônia e seus povos com a construção de Belo Monte e um dos menores números de terras reconhecidas.

Não podemos deixar que a frustração com o governo Bolsonaro reabilite o projeto petista e pacifique as ruas novamente. Precisamos evitar esse pêndulo de atração e insatisfação que reúne a simpatia das massas hora à direita, hora à esquerda em períodos eleitoras.

Em momentos de crise neoliberal, pode ser útil para a elite assumir reformas apresentadas pela esquerda institucional para incluir os pobres nas linhas de crédito e consumo ou a um relativo bem-estar. Mas quando é o momento de retomar as rédeas e os lucros, neoliberais se aliam a fascistas para a retomada do controle total do estado.

Por isso é fundamental lembrar de lutamos e resistimos contra todos os que disputam pelo controle do Estado e do Capital, e que irão sempre usar seu aparato policial contra nós da base da pirâmide. Não esquecemos que foi no governo do PT que vimos um aparelho repressivo contra movimentos sociais e a ocupação das favelas serem levadas adiante como nunca. Tudo isso feito de forma a dar legitimidade para tais ações e instituições militarizadas que agora Bolsonaro herdou para usar contra movimentos sociais e toda a população.

O cenário dos conflitos sociais em escala global não se reduz apenas ao embate binário entre direita/esquerda, conservadores/progressistas, bolsonaristas/petistas. Existem ao menos três grande lados nos conflitos globais se delineando hoje, dentre os quais podemos nos situar de acordo com a perspectiva de ação e proposta para futuro:

1. Neoliberais de todos os tipos, dos Democratas nos EUA a partidos supostamente esquerdistas como o SYRIZA na Grécia, Podemos na Espanha e o Partido dos Trabalhadores no Brasil. Embora discordem dos detalhes, todos compartilham um objetivo comum de usar a governança estatal global em rede para estabilizar o mundo em prol do Capitalismo.

2. Nacionalistas como Trump, Erdogan, Bolsonaro e extremistas como o grupo Estado Islâmico ou o Talibã, que deixaram claro que não se incomodam com a construção de estados genocidas e a eliminação de povos – sejam indígenas, negros, LGBTTTQI, imigrantes, mexicanos, curdos ou palestinos. Essa categoria também inclui Assad, Putin e outros demagogos que – como os neoliberais – costumam estar em desacordo uns com os outros, mas todos buscam a mesma visão de um mundo pós-neoliberal de etnoestados concorrentes entre si.

3. Movimentos sociais radicais de libertação que buscam promover a autodeterminação pluralista e igualitária, com base na autonomia e na solidariedade. Anarquistas, Zapatistas e a revolução em Rojava são exemplos que se encaixam nessa categoria, mesmo que grande parte também tenha um caráter nacionalista.

Nesse cenário, onde o conflito social não é mais binário, mas se divide em três, movimentos sociais anticapitalistas precisam reunir forças e desenvolver suas próprias narrativas e estratégias para difundir conhecimento, apoio, solidariedade e coordenação. É nessa perspectiva que buscaremos manter e ampliar nosso campo de trabalho.

Movimentos autônomos, anarquistas, indígenas, antifascistas e outros fora da asa e da agenda eleitoral da centro-esquerda, devem romper o cerco, construir suas bases e estruturas para luta ou serão sempre usados como linha de frente quando for conveniente fazer oposição e rifados na hora de disputar a legitimidade necessária para ocupar cargos no estado.

Se compomos frentes amplas ou “unificadas” em luta contra Bolsonaro ou qualquer fascista no presente, não devemos nos iludir achando que nossa diferença de objetivos finais não trará contradições e conflitos agora. Se as bases do PCB ou MTST vão agredir manifestantes radicais nas ruas, Lula e seus iguais tampouco são aliados. São parte dos que querem amaciar as relações no capitalismo para perpetuá-lo ao máximo, tornando a sua queda ainda mais dura – seja com um golpe fascista, catástrofes climáticas ou, provavelmente, uma combinação de ambos.

Lula, que percorre o Brasil num clima de pré-campanha não oficial, não pronunciou nenhuma palavra em apoio a luta indígena contra a PL 490, o Marco Temporal e todos chamado Combo da Morte contra os povos e florestas. Seu compromisso, como já sabemos, é com a gestão “humanizada” do capital. Em declarações públicas e na internet, está mais preocupado em elogiar e fazer referências ao legado de Getúlio Vargas, ditador golpista que colaborou com a Alemanha de Hitler e fez de tudo para esmagar o movimento operário. O lado de Lula e do PT é o lado do estado e da polícia, das UPP’s, de Belo Monte, ocupação do Haiti, paralisação da reforma agrária, lucro recorde dos bancos e dos empresários.

Não podemos esperar por um partido ou um único salvador para fazer recuar esse governo e sua base fascista e militarizada. Lula pode até vencer em 2022, mas a minoria de apoiadores de Bolsonaro, repleta de milicianos e neonazistas, não vão baixar a guarda nem se desfazer das milhares de novas armas em circulação graças às políticas e propaganda do presidente. Mas sem uma oposição de base, organizada nas ruas e em toda a sociedade, o fascismo nunca recua. E, como aponta Mark Bray, uma minoria fascista já é risco suficiente.

A linha está traçada nesse conflito de 3 lados. Apenas um quer liberdade dos povos, as florestas de pé e os rios limpos. Não há outra palavra: estamos em guerra pela vida.

Post Scriptum:

Enquanto escrevemos esse breve texto, nos deparamos com mais uma reunião da esquerda de São Paulo, a direita e as forças policiais. Enquanto as forças bolsonaristas e o próprio presidente vem encarando o 7 de Setembro como uma data central para demonstrar suas forças na rua, inclusive ventilando por muitos meios a possibilidade de um golpe, a esquerda novamente se finge de morta e decide organizar um ato imóvel no Vale do Anhagabau  em São Paulo (colocando a culpa novamente na tática black bloc), em Belo Horizonte o Grito de Excluídos após reunião com a PM mudou o local de concentração para evitar conflitos com a direita, por todo o país a esquerda tem recuado em seus locais tradicionais de protesto para que a direita marche tranquilamente.

Dias atrás o conhecido deputado federal e ícone de esquerda Marcelo Freixo, disse que a esquerda não deveria dar mais motivos para que o Bolsonaro agisse com violência.

O próprio ex-presidente Lula afirmou que não iria nas manifestações de 7 de setembro, já que a cúpula do PT decidiu que é mais importante deixar Bolsonaro “derretendo” (e levando com ele o país) do que fazer uma real oposição. Enquanto isso o atual presidente disse que

De tanto fingir-se de morta, talvez essa esquerda já esteja!


Ilustrações por Francisco Papas Fritas — não deixe que a revolta seja apenas uma bela imagem como essas, ou apenas um retrato nos livros de história.


Mais informações:

 

DAS BARRICADAS #3 Entrevista Sobre as Lutas na Colômbia – com Editorial Piedemonte

Dando continuidade à série de entrevistas com pessoas e grupos tomando parte nos levantes no território colombiano em 2021, trazemos uma conversa com Editorial Piedemonte, de Bogotá, coletivo editorial subversivo dedicado à circulação de literatura libertária independente.

Nessa entrevista, terceira de uma série onde conversamos com coletivos atuando em solo colombiano, o coletivo aborda a atualidade do levante que já dura dois meses contra o governo de Ivan Duque e suas medidas tributárias neoliberais que afundam ainda mais na pobreza uma população já tão afetada pela pandemia da Covid-19. O saldo é brutal, com mais de 70 mortos e 300 desaparecidos oficialmente registrados nesses mais de 60 dias de greve geral. Ainda assim, o povo nas ruas prova que se submeter ao governo é mais perigoso do a pandemia. Sua bravura nas ruas levou ao cancelamento da Copa América, que foi transferida para o Brasil.

Que a sua coragem inspire nossas lutas contra o governo fascista de Jair Bolsonaro em nosso território.

Boa leitura, nos vemos nas ruas!

(Abajo, el texto en español.)


PORTUGUÊS

As notícias que nos chegam aqui no Brasil indicam que a insurreição que tomou as ruas se iniciou com uma luta contra a reforma tributária que o governo de Ivan Duque tentou implementar. Todavia, consideramos interessante levar em conta o contexto das lutas recentes nos territórios em que as insurreições acontecem, principalmente porque há menos de 2 anos as cidades colombianas já haviam sido local de manifestações multitudinárias e intensas. Sendo assim, gostaríamos que vocês comentassem um pouco sobre o processo de lutas que está ocorrendo no momento no território dominado pelo Estado colombiano e qual a relação com as lutas que antecederam esse momento.

O anúncio do pacote de reformas tributaria, trabalhista, da previdência e de saúde foi o ponto de ruptura definitivo de um precário equilíbrio na paciência dos povos que habitam estes territórios. De certo modo, os levantes recentes são uma continuação dos processos sociais desenvolvidos em 2019 contra a mesma violência neoliberal. As reformas, em termos gerais, propõem um aprofundamento dos processos de privatização da vida, ao que assistimos desde os anos 1980; um retrocesso nos direitos trabalhistas, civis e a restrição de acesso aos direitos mais fundamentais. Além disso, foi central nas manifestações populares de 2019 o rechaço à política de morte do Estado fascista colombiano: o assassinato sistemático de lutadorxs sociais (mal chamados pelos meios de “líderes sociais”) por parte das forças repressivas do Estado e dos grupos militares por meio dos quais se segue sustentando as oligarquias nestes territórios; o descumprimento dos acordos de paz firmados com a guerrilha marxista das FARC em 2016, após mais de 50 anos de insurgência, que prometiam uma reforma agrária, reparação às vítimas do conflito e reformas que de alguma maneira poderiam abrir outros cenários políticos; ademais, as lutas ambientais ganharam força nos tempos recentes ante o absoluto desprezo do Estado e do empresariado na Colômbia com toda a forma de vida não disciplinada e não produtiva. Da mesma forma, tornaram-se centrais nas lutas que ocorrem os primeiros projetos de fracking [perfuração do solo para extrair gás natural com grande impacto ambiental], a pulverização nas aéreas de cultivos de coca, os bosques e as regiões camponesas com glifosato, bem como a construção de represas e hidrelétricas que deslocam enormes populações humanas e não humanas de seus territórios.

As primeiras ações populares foram convocadas pelos setores que tradicionalmente ocuparam esse papel, o movimento estudantil e sindical reformista, e sob as estratégias e coreografias recorrentes no protesto social, como marchas e protestos nos centros das principais cidades, abaixo-assinados etc. Mas o próprio descontentamento popular rebaixou os limites destas organizações e produziu não somente outras formas de protesto, mas de organização. A forma das organizações de base, os espaços comunitários e os processos de educação popular, entre outros, nos setores marginalizados das cidades permitiram a emergência de outro tipo de situações. As cozinhas comunitárias organizadas espontânea e solidariamente, as assembleias populares autoconvocadas e as ações diretas, como bloqueios e a formação de “primeiras linhas” nos bairros, são mostras de outras potências a serem desenroladas na luta.

Gostaríamos de dizer que foi a pandemia (junto com as medidas fascistas-higienizantes) o que desarticulou essa revolta recente, mas a realidade foi que assistimos não somente a brutal repressão armada (com mais de 15 pessoas assassinadas pela polícia) e legal esperada por parte de uma ditadura, mas também o desgaste do movimento social em suas lutas e a cooptação dos protestos por parte dos sindicatos e organizações acomodadas e reformistas; a pandemia só impediu que reagíssemos com a velocidade suficiente e foram retomadas as ações que no início de 2020 começaram a decair.

Nos parece necessário também abordar os processos e ações em rechaço à brutalidade policial e à instituição depois de múltiplos abusos, jamais resolvidos, e não só no marco da mobilização social. Somente em 2020 a polícia cometeu dois massacres em Bogotá e territórios próximos. Em 4 de setembro 9 pessoas detidas em uma instalação policial em Soacha foram queimadas vivas, no que a polícia quis fazer parecer que foi um acidente ou um incêndio provocado por parte das pessoas detidas, para as quais foi negado ajuda. Em 8 de setembro Javier Ordoñez foi brutalmente assassinado por resistir a uma detenção arbitrária nas proximidades de sua casa, foi torturado em instalações da polícia. No dia seguinte o descontentamento popular se manifestou em boa parte dos bairros populares de Bogotá, sujeitos a violência sistemática da polícia, e foram destruídos vários pontos de vigilância da instituição em uma só noite. A resposta foi desmesurada, criminosa e grotesca, com 13 pessoas assassinadas pela polícia. Odiamos, cada vez mais, a polícia.

A greve geral convocada para 28 de abril deste ano atravessa todas essas lutas, alimentada também pela miséria absoluta imposta pelo Estado aos povos que vivem neste território durante a pandemia. A primazia do capital sobre toda forma de vida se expressou nos resgates aos bancos e empresas multimilionárias, na política de “austeridade” para o gasto social e no progressivo fortalecimento das criminosas formas repressivas do Estado, enquanto as pessoas passam fome nos bairros, nos campos e não há saúde ou educação decentes para quem não possa pagar. Essas revoltas e manifestações populares foram potencializadas e mantidas pela dignidade das organizações dos povos indígenas, sujeitos a um verdadeiro genocídio por ação e omissão por já há 500 anos. Sua capacidade de organização e confrontação tem sido profundamente relevante nos últimos acontecimentos.

Com isso queremos situar alguns dos pontos de apoio e tensões sobre os quais se mantém as lutas presentes.

O território conhecido como América do Sul possui um histórico bastante intenso de revoltas. Na última década, foram várias… podemos lembrar, por exemplo, da insurreição que tomou as ruas das cidades brasileiras em junho de 2013 ou do estallido social que se evidenciou no território chileno em outubro de 2019. Apesar de suas diferenças entre as forças envolvidas e dos efeitos produzidos, em geral diziam respeito a uma luta contra o aumento no custo de vida, o que significa diretamente uma luta pela vida e contra a miséria produzida pelo capitalismo e pelo Estado. E nos parece que a revolta que está ocorrendo no momento no território colombiano tem algumas características em comum. Como vocês analisam essa relação?

Acreditamos que é uma leitura precisa da situação, relacionar os levantes recentes de Abya Yala, contando também os de Equador e Bolívia, como parte de um mesmo sintoma. Os chamados “tarifaços” e “pacotaços” tem sido uma constante dos levantes populares recentes, e a partir desse primeiro rechaço começam a se manifestar realidades mais profundas e desejos que excedam as primeiras formulações desse descontentamento. Dizer “nossa luta é pela vida”, por mais essencialista que as vezes possa nos parecer, não é um slogan desproporcional quando nos deparamos com o empobrecimento permanente de nossas vidas nas engrenagens do trabalho e do desemprego, da violência, do disciplinamento e do espólio de toda forma vivente. Poderíamos reunir sob o rechaço radical ao neoliberalismo todas essas manifestações de descontentamento popular, mesmo que, em boa parte de maneira intuitiva. E aqui queremos insistir que boa parte das formas organizativas inéditas até agora são libertárias de maneira intuitiva, muitas delas baseadas no apoio mútuo e na autogestão das necessidades sem recorrer à organizações políticas tradicionais ou lideranças. Não podemos confiar cegamente nessas emergências, pois vimos como nesses espaços também podem surgir formas de poder autoritárias, mas queremos assinalar nelas a possibilidade de uma articulação e desenvolvimento das potências da prática anarquista, inclusive estando presente nestes territórios, ainda que de modo marginal.

No território dominado pelo Estado chileno, as forças moderadas tentaram colocar fim à revolta de 2019 com um processo constituinte, silenciando o fato de que centenas de compas ainda estão sequestradxs nas prisões, com penas que podem chegar a 15 anos, dezenas foram mortas e feridas. O processo ocorreu e mesmo com uma abstenção significativa, alguns setores consideraram uma vitória, como se a insurreição tivesse alcançado seu objetivo. Como vocês analisam essa tentativa de canalizar a revolta para as instituições?

Acreditamos poder ver uma constante nesse ponto inclusive com as diferenças entre os processos particulares. Sobre o caso chileno, compas anarquistas tem denunciado os interesses dos setores moderados e da própria direita na negociação da constituinte, sabem que a na vitória é melhor ficar em alerta (saben que sobre la victoria más vale estar en guardia). A tentativa de capitalizar os levantes como política eleitoral por parte de setores moderados ou de “centro” ainda encontra forte resistência nos territórios ocupados pelo estado colombiano, embora tenha começado a aparecer consignas lamentáveis do tipo “a revolução se faz nas urnas”. Nos preocupa a capacidade de captura que estes setores têm, no sentido em que não só silenciam de fato as vozes de desejos radicais dos levantes com seu manto de legitimidade democrática, como mencionam xs compas sobre o caso chileno, mas também fecham a possibilidade de debates reais e radicais que devem se dar para construir verdadeiros cenários de justiça e liberdade. A captura dos movimentos sociais por parte da institucionalidade é o aprisionamento de nossos sonhos de liberdade, representa a reviravolta para ajustar o intolerável deste sistema, abre caminho para sua Pax social. Falar de pactos sociais de reconciliação ou de “vitória” quando há companheirxs desaparecidxs, presxs, mortxs pelas mãos do estado e das oligarquias é um excesso e dá continuidade à repressão sistêmica.

Não se trata de querermos expressar nossa radicalidade pela via da negatividade absoluta, mas de que ainda há muito por se fazer. Nestes territórios, inclusive se a resistência decai, será implementada a retaliação aos elementos e setores dissidentes da sociedade pelos meios que já conhecemos. A desaparição forçada, a tortura, o encarceramento, o assassinato, não são práticas que o estado fascista colombiano tenha pudor em exercer jamais para manter sua forma; ademais, em relação às práticas de retaliação por parte do estado, é conhecida a sua associação perversa com grupos paramilitares e sua ação sistemática e sádica de eliminação de oponentes e de práticas que se oponham ou critiquem qualquer status quo imposto pelas oligarquias regionais, situação que deixa em completa ameaça xs companheiros que durante todo este tempo têm resistido. É necessário que estejamos atentxs ao que pode vir.

Toda nossa solidariedade às pessoas que sofrem em sua própria carne a violência da repressão, não façamos delxs mártires, xs queremos vivxs, alegres e resistindo nas ruas e nos campos.

A pandemia do Covid-19 tem afetado sobretudo as classes populares tanto em relação a morte por contágio quanto pelo aumento da miséria e piora nas condições de vida. Ao mesmo tempo, em algumas regiões a pandemia e o risco de infecção tem esvaziado as ruas e, de certo modo, funcionado como uma barreira para as mobilizações de rua multitudinárias. Como vocês analisam essa relação, já que a reforma tributária de Duque, por exemplo, afetaria diretamente o sistema de saúde colombiano?

Embora a pandemia, a possibilidade da própria doença, tenha mantido um grande número de pessoas fora das ruas por um tempo, a própria miséria produzida pelas insuficientes e violentas medidas do Estado as levaram às ruas para ganhar a vida, o medo de morrer de fome é maior o de morrer de uma doença desconhecida. O que foi inicialmente uma barreira também determinou a força do descontentamento social. Talvez nos setores mais abastados, que também fizeram parte do movimento social, o medo do contágio tenha sido maior, mas a indignação foi tanta que as ruas se encheram com mais força do que em 2019, sem paranoia viral. Ainda há massividade nas mobilizações e aparentemente o contágio em termos reais não aumentou como consequência. E sobre o absurdo e a violência da reforma fracassada do sistema de saúde, não pudemos fazer nada menos do que cuspir.

Nos chegam vários vídeos e imagens do terrorismo de Estado com assassinatos, torturas e outras formas de agressão por parte da polícia colombiana. Sabemos que isso não é um fato isolado, pois esta é uma ação regular de todos os Estados, sobretudo quando uma mobilização ataca a ordem e a paz dos ricos. Como se estrutura a policia colombiana e como tem sido o histórico de repressão policial às manifestações?

Nos territórios ocupados pelo estado colombiano a polícia é uma instituição militar, o contexto do conflito interno de mais de 60 anos de duração, somado às estratégias de contra-guerrilha orientadas pelos EUA e a Guerra contra as drogas tem feito a instituição parte do mesmo aparato. A polícia não responde em última instância à uma autoridade civil de Estado no Ministério do Interior, como fariam outras polícias, mas ao Ministério da Defesa (de Guerra). Parte das demandas de quem pretende uma reforma se centra neste fato estrutural, na desmilitarização da polícia. A doutrina do inimigo interior rege sobre todas as suas ações.

A midiatização dos assassinatos, torturas e demais incontáveis abusos por parte das forças repressivas do estado colombiano tem permitido não investigações legais aos responsáveis (demasiadamente inúteis sob a captura institucional do fascismo), mas a tomada de consciência massiva do agir criminoso da polícia, de maneira incontestável. As estratégias de manipulação dos meios de comunicação hegemônicos tem sido profundamente afetadas no interior destes territórios pelos relatos diretos das pessoas envolvidas nesses atos, inclusive sob a censura e o cerco midiático que nos foram impostos. Boa parte dos fatos registrados tem como responsável o Escuadrón Móvil Anti Disturbios (Esmad), criado em 99 como unidade de polícia destinada ao controle de manifestações com uso de armas “menos letais” e obedecendo os parâmetros internacionais de repressão na democracia. Em seus primeiros 20 anos de ação cometeu 59 assassinatos confirmados (pela mesma justiça estatal, fato não menor) no contexto das lutas sociais, além de mutilar, estuprar e ferir uma quantidade incalculável de pessoas. Muitos outros registros de brutalidade policial recentes se centram nas zonas próximas e no interior dos Centros de Atención Inmediata (CAI), utilizados como estações de patrulha e vigilância dentro dos bairros das cidades, e que tem operado como centros de tortura, estupros, capturas ilegais e assassinatos.

Existe algum debate sobre a autodefesa nas ruas? Existe algum debate dos movimentos e coletivos em relação a abolição da policia, por exemplo?

O rechaço à polícia se deslocou progressivamente dos “indivíduos isolados e corruptos” para a própria instituição. É óbvio que os setores moderados demandam do estado, não a abolição da polícia, mas uma reforma, pois veem nela uma instituição com funções sociais que nós não podemos jamais reconhecer. As pessoas e coletividades mais ou menos críticas que recebem alguma atenção por parte dos meios hegemônicos se expressam nesse sentido, tal como xs políticxs que se referem à necessidade de transformação da polícia e pedem a defesa e limpeza da própria instituição. Só no interior das coletividades antiautoritárias está se dando o debate em torno da abolição da polícia. Inclusive na demanda de várias das Primeiras Líneas está sendo pedido apenas uma reforma.

Sobre a autodefesa é um debate complexo, por uma parte desde o mesmo fato de nomear a prática em um contexto no qual os paramilitares e seu projeto fascista esvaziaram de potencia radical o próprio termo (nomeando-se Autodefensas Unidas de Colombia). Acreditamos que é um debate necessário, quando cresce a violência repressiva de maneira sistêmica, fazermos a pergunta sobre a necessidade e as formas de nos protegermos de maneiras não somente defensivas. As Primeras Líneas são uma mostra do debate em cenários amplos, em 2019 o exercício começou em setores estudantis não habituados ao uso da violência, sem conhecimentos práticos para exercê-la ou realmente se defender dela para além de capacetes e escudos, organizadxs sobre um discurso de defesa e, muitas vezes, devemos lembrar, em oposição às práticas e identidades de grupos que reivindicam a ação direta e a violência desde distintos lugares da radicalidade já há tempos. Nestes dois anos, as práticas das Primeras Líneas têm se transformado, se compreendeu à força sobre a capacidade de resposta à repressão estatal. Mesmo que o debate vá para além dos cenários de defesa nas mobilizações, acreditamos que na maioria dos casos não está presente fora destas perspectivas.

Por fim, nos interessa muito as diferentes expressões do anarquismo na região conhecida como América do Sul. Portanto, gostaríamos que vocês falassem um pouco sobre as forças envolvidas nas lutas anárquicas da região colombiana.

Nestas terras não existiu historicamente um movimento anarquista de massas, como no Brasil, na Bolívia, no Chile ou na Argentina, mas tem estado presente ao longo de todos os levantes e protestos desde o início do século XX. O anarquismo está presente de forma marginal nas lutas operárias, nas individualidades que entraram ou saíram dos processos guerrilheiros, no trabalho de artistas, jornalistas, algumas editoras, organizações educativas, grupos de combate de rua e ação direta, bem como demais manifestações de desejo por outros mundos. Assistimos nestas insurreições também a proliferação de ideias e pulsões anarquistas, os cenários de agitação de difusão do pensamento ácrata tem sido menos relevantes que as ações que os grupos tem impulsionado acompanhando estes processos de lutas sociais. Tem sido por meio das práticas que proliferam as ideias e se fortalecem. O acompanhamento e promoção de assembleias locais e populares, as campanhas de solidariedade com xs companheirxs em luta através da arrecadação de fundos, alimentos e insumos de primeiros socorros, o trabalho educativo e organizativo dos coletivos de Educação Popular e a beleza das cozinhas populares, que nos reúnem em torno do alimento para seguir resistindo, são algumas destas práticas que fazem visíveis as forças vivas do anarquismo em momentos como o atual. Apesar do anarquismo seguir sendo uma ideia marginal na prática política, são muitas as individualidades e coletivos voltados para a ação desde práticas antiautoritárias, solidárias e autogeridas.

Por isso, agradecemos a solidariedade que representa esta entrevista, a escuta e difusão em outras regiões golpeadas como nós por esta miséria e de pé, como nós, contra ela. Esperamos que o que tenhamos a dizer daqui pra frente nos distancie cada vez mais da denúncia e que possamos falar com mais força do que conseguimos, do que faremos nosso com nossas próprias forças.

Que viva a anarquia!


PARA SABER MAIS:

Colômbia Perdeu o Medo – A Revolta Segue em Todo o País Enfrentando a Violência de Estado

Video: Revolta e repressão na Colombia, por coletivos Antimídia e Submedia

DAS BARRICADAS #1: MUROS QUE GRITAM, PEDRAS QUE VOAM – entrevista com Taller la Parresia sobre o levante na Colômbia

DAS BARRICADAS #2: Entrevista Sobre as Lutas na Colômbia – com Unión Libertaria Estudiantil y del Trabajo


EN ESPAÑOL

Las noticias que nos llegan indican que la insurrección que tomó las calles comenzó con una lucha contra la reforma tributaria que el gobierno de Iván Duque intentó aplicar . Sin embargo, nos parece interesante tener en cuenta el contexto de las recientes luchas en los territorios donde se producen las insurrecciones, sobre todo porque hace menos de dos años las ciudades colombianas ya habían sido escenario de masivas e intensas manifestaciones. Por lo tanto, nos gustaría que comentaras un poco sobre el proceso de luchas que se está dando actualmente en el territorio dominado por el Estado colombiano y cuál es la relación con las luchas que precedieron a este momento.

El anuncio del paquete de reformas, tributaria, laboral, pensional y de salud, fue el punto de quiebre definitivo de un precario equilibrio en la paciencia de los pueblos que habitan estos territorios. De cierta manera, los levantamientos recientes son una continuación de los procesos sociales desarrollados en el 2019 contra la misma violencia neoliberal. Las reformas, en términos generales, proponen una profundización de los procesos de privatización de la vida, a los que asistimos desde los años 80; un retroceso en los derechos laborales, civiles y la restricción del acceso a los derechos más fundamentales. Además de ello, fue central en las manifestaciones populares del 2019 el rechazo a la política de muerte del Estado fascista colombiano: el asesinato sistemático de luchadorxs sociales (mal llamadxs por los medios “líderes sociales”) por parte de las fuerzas represivas del estado y los grupos paramilitares por medio de los cuales se siguen sustentando las oligarquías en estos territorios; el incumplimiento de los acuerdos de paz firmados con la guerilla marxista de las FARC en 2016, tras más de 50 años de insurgencia, que prometían una reforma agraria, reparación a las víctimas del conflicto y reformas que de alguna manera podrían abrir otros escenarios políticos; además, las luchas ambientales han cobrado fuerza en los tiempos recientes ante el absoluto desprecio del estado y el empresariado en colombia hacia toda forma de vida no disciplinada y no productiva, asimismo los primeros proyectos de fracking,la fumigación aérea de los cultivos de coca,los bosques y el campesinado con glifosato, y la construcción de represas e hidroeléctricas que desplazan inmensas poblaciones humanas y no humanas de sus territorios, se han hecho una parte central de las luchas que nos convocan.

Las primeras acciones populares fueron convocadas por los sectores que tradicionalmente han ocupado ese papel, el movimiento estudiantil y sindical reformista, y bajo las estrategias y coreografías recurrentes en la protesta social, como marchas y plantones hacia el centro de las ciudades principales, pliegos de peticiones, etc. Pero el propio descontento popular rebasó los límites de estas organizaciones y produjo no sólo otras formas de protesta sino de organización. La fuerza de las organizaciones de base, los espacios comunitarios y los procesos de educación popular, entre otros, en los sectores marginalizados de las ciudades, permitieron la emergencia de otro tipo de situaciones. Las ollas populares organizadas espontánea y solidariamente, las asambleas populares autoconvocadas y las acciones directas, como los bloqueos y la formación de “primeras líneas” en los barrios son muestra de otras potencias a ser desarrolladas en la lucha.

Nos gustaría decir que fue la pandemia (junto con las medidas fascisto-higienizantes) lo que desarticuló esta revuelta reciente, pero la realidad fue que asistimos no sólo a la brutal represión armada (con más de 15 personas asesinadas por la policía) y legal esperada por parte de una dictadura, sino al desgaste del movimiento social en sus luchas y a la cooptación de la protesta por parte de los sindicatos y organizaciones acomodadas y reformistas; la pandemia sólo impidió que reaccionáramos con la velocidad suficiente y fueran retomadas las acciones que a comienzos del 2020 comenzaban a decaer.
Nos parece necesario también abordar los procesos y acciones en rechazo a la brutalidad policial y la institución después de los múltiples abusos, jamás resueltos, y no sólo en el marco de la movilización social. Sólo en el 2020 la policía cometió dos masacres en Bogotá y territorios cercanos, el 4 de septiembre fueron quemadas vivas 9 personas detenidas en una instalación policial en Soacha, en lo que la policía ha querido hacer parecer como un accidente o un incendio provocado por parte de las personas detenidas, a las cuales se les negó el auxilio. El 8 de septiembre fue brutalmente asesinado Javier Ordoñez por resistirse a una detención arbitraria en las cercanías de su vivienda y torturado en instalaciones de la policía. Al día siguiente, el descontento popular se manifestó en buena parte de los barrios populares de Bogotá, sujetos a la violencia sistemática de la policía, y fueron destruidos varios de los puntos de vigilancia de la institución en una sola noche. La respuesta fue desmesurada, criminal y grotesca, 13 personas asesinadas por la policía. Odiamos, cada vez más entre nosotrxs, a la policía.

La huelga general convocada para el 28 de abril de este año recoge todas estas luchas, alimentada además por la miseria absoluta impuesta por el Estado durante la pandemia a los pueblos que habitamos estos territorios. La primacía del capital sobre toda forma de vida ha sido expresada en los rescates a los bancos y empresas multimillonarias, en la política de “austeridad” para el gasto social y en el progresivo fortalecimiento de las criminales fuerzas represivas del estado, mientras la gente pasa hambre en los barrios, en los campos y no hay salud o educación decentes para quien no pueda pagarlas. Estas revueltas y protestas populares han sido además potenciadas y mantenidas por la dignidad de las organizaciones de los pueblos indígenas, sujetos a un verdadero genocidio por acción y omisión desde hace 500 años. Su capacidad de organización y confrontación ha sido profundamente relevante en los hechos recientes.
Con esto queremos situar algunos de los puntos de apoyo y tensiones sobre los cuales se mantienen las luchas presentes.

El territorio conocido como Sudamérica tiene una historia muy intensa de revueltas. En la última década ha habido varias… podemos recordar, por ejemplo, la insurrección que tomó las calles de las ciudades brasileñas en junio de 2013 o el llamado estallido social que se hizo evidente en territorio chileno en octubre de 2019. A pesar de sus diferencias entre las fuerzas implicadas y los efectos producidos, en general se trataba de una lucha contra el aumento del coste de la vida, lo que significa directamente una lucha por la vida y contra la miseria producida por el capitalismo y el Estado. Y nos parece que la revuelta que se está ocurriendo actualmente en territorio colombiano tiene algunas características en común. ¿Cómo analizan esta relación?

Creemos que es una lectura precisa de la situación, el relacionar los levantamientos recientes de Abya Yala, contando también los de Ecuador y Bolivia, como parte de un mismo síntoma. Los llamados “tarifazos” y “paquetazos” han sido una constante de los levantamientos populares recientes, y a partir de ese primer rechazo comienzan a manifestarse realidades más profundas y deseos que exceden las primeras formulaciones de ese descontento. Decir “nuestra lucha es por la vida”, por más esencialista que pueda a veces parecernos, no es una consigna desproporcionada cuando nos enfrentamos al empobrecimiento permanente de nuestras vidas en los engranajes del trabajo y el desempleo, de la violencia, el disciplinamiento y el despojo de toda forma viviente. Podríamos reunir bajo el rechazo radical del neoliberalismo a todas estas manifestaciones de descontento popular, aunque aún en buena parte, de manera intuitiva. Y aquí quisiéramos insistir en que buena parte de las formas organizativas inéditas hasta ahora en estos escenarios son libertarias de manera intuitiva, muchas de ellas basadas en el apoyo mutuo y la autogestión de las necesidades sin recurrir a organizaciones políticas tradicionales o a liderazgos. No podemos confiar ciegamente en estas emergencias, porque hemos visto cómo en estos espacios también pueden surgir formas de poder autoritarias, sino queremos señalar en ellas la posibilidad de una articulación y desarrollo de las potencias de la práctica anarquista, incluso siendo su presencia en estos territorios todavía marginal.

En el territorio dominado por el Estado chileno, las fuerzas moderadas intentaran poner fin a la revuelta de 2019 con un proceso constituyente, silenciando el facto de que centenas de compas aún están secuestradxs en las prisiones, con condenas que pueden llegar hasta 15 años, decenas fueran muertas y heridas. El proceso ocurrió y mesmo con una abstención significativa, algunos sectores consideraran una victoria, como se la insurrección tuviese alzado su objetivo. Como ustedes analizan esta tentativa de canalizar la revuelta a las instituciones?

Creemos poder ver una constante en ello, incluso con las diferencias entre los procesos particulares. Sobre el caso chileno, lxs compañerxs anarquistas han denunciado los intereses de los sectores moderados y de la propia derecha en la negociación de la constituyente, saben que sobre la victoria más vale estar en guardia. El intento de capitalizar los levantamientos en la política electoral por parte de sectores moderados o “de centro” es aún resistido con fuerza en los territorios ocupados por el estado colombiano, aunque han comenzado a aparecer consignas lamentables del tipo “la revolución es en las urnas”. Nos preocupa la capacidad de captura que tienen estos sectores, en el sentido en que no sólo silencian de facto las voces y deseos radicales de los levantamientos con su manto de legitimidad democrática, como mencionan lxs compas para el caso chileno, sino que también cierran la posibilidad de debates reales y radicales que han de darse para construir verdaderos escenarios de justicia y libertad. La captura de los movimientos sociales por parte de la institucionalidad es la clausura de nuestros sueños de libertad, representa la vuelta de tuerca para ajustar lo intolerable de este sistema, abre el camino para su Pax social. Hablar de pactos sociales de reconciliación o de “victoria” cuando hay compañerxs desaparecidxs, encarceladxs, muertxs a manos del estado y las oligarquías, es un exceso y continúa con la sistematicidad de la represión. No se trata de que queramos expresar nuestra radicalidad por la vía de la negatividad absoluta sino de que hay aún mucho por hacer.

En estos territorios, incluso si decae la resistencia, será implementada la retaliación a los elementos y sectores disidentes de la sociedad por los medios que ya conocemos. La desaparición forzada, la tortura, el encarcelamiento, el asesinato no son prácticas que el estado fascista colombiano haya tenido pudor en ejercer jamás para mantener su forma; además,en relación con éstas prácticas de retaliación de parte del estado, es conocida la manguala perversa con grupos paramilitares y su accionar de eliminación sistemática y sádica de contradictores y prácticas que se opongan o critiquen cualquier statu quo impuesto por las oligarquías regionales, situación que deja en completa vulnerabilidad a lxs compañerxs que duranten todo este tiempo han resistido. Es necesario que estemos atentxs a lo que puede venir.

Toda nuestra solidaridad para quienes hoy sufren en carne propia la violencia de la represión, no hagamos de ellxs mártires, lxs queremxs vivxs, alegres y resistiendo en las calles y los campos.

La pandemia de Covid-19 ha afectado, sobre todo, a las clases populares tanto por el número de muertes como por el aumento de la miseria y el empeoramiento de las condiciones de vida. Al mismo tiempo, el riesgo de infección ha vaciado las calles en algunas regiones y ha actuado como una barrera para las grandes movilizaciones callejeras. ¿Cómo analiza esta relación, ya que una de las reformas que Duque pretende implementar afectaría directamente al sistema de salud colombiano?

Si bien la pandemia, la posibilidad de la enfermedad en sí, mantuvo a un gran número de personas fuera de las calles durante un tiempo, la propia miseria producida por las medidas insuficientes y violentas del Estado las llevaron a la calle a buscarse la vida, siendo mayor el miedo a morir de hambre que de una enfermedad desconocida. Lo que en un principio fue una barrera determinó también la fuerza del descontento social. Quizás en sectores más acomodados, que también han sido parte del movimiento social, el miedo al contagio ha sido mayor pero ha sido tal la indignación que las calles se han llenado con más fuerza que en el 2019, sin paranoias virales. Hay aún masividad en las movilizaciones y al parecer el contagio en términos reales no ha incrementado por ello.

Y sobre el absurdo y la violencia de la fallida reforma a la salud no podríamos menos que escupir.

Hemos recibido varios videos e imágenes de terrorismo de Estado con asesinatos, torturas y otras formas de agresión por parte de la policía colombiana. Sabemos que no se trata de un hecho aislado, ya que es una acción habitual de todos los Estados, especialmente cuando una movilización ataca el orden y la paz de los ricos. ¿Cómo está estructurada la policía colombiana y cuál ha sido la historia de la represión policial contra las manifestaciones?

En los territorios ocupados por el estado colombiano la policía es una institución militar, el contexto del conflicto interno con más de 60 años de duración, sumado a las estrategias de contraguerrilla orientadas por EEUU y la Guerra contra las drogas, han hecho de la institución parte del mismo aparato. La policía no responde en última instancia a la autoridad civil del Estado en el Ministerio del Interior, como harían otras policías, sino al Ministerio de Defensa (de Guerra). Parte de las demandas de quienes pretenden una reforma se centran en este hecho estructural, en la desmilitarización de la policía. La doctrina del enemigo interno rige sobre todo su accionar.

La mediatización de los asesinatos, torturas y demás incontables abusos por parte de las fuerzas represivas del Estado colombiano ha permitido no investigaciones legales a los responsables (inútiles por demás bajo la captura institucional del fascismo) sino la toma de conciencia masiva del accionar criminal de la policía, de manera incontestable. Las estrategias de manipulación de los medios de comunicación hegemónicos han sido profundamente afectadas al interior de estos territorios por los testimonios directos de las personas involucradas en estos hechos, incluso bajo la censura y el cerco mediático que nos han sido impuestos. Buena parte de los hechos registrados tienen como responsable al Escuadrón Móvil Anti Disturbios (Esmad), creado en el 99 como unidad de policía destinada al control de las manifestaciones con el uso de armas “menos letales” y obedeciendo los estándares internacionales de represión en democracia. En sus primeros 20 años de acción cometió 59 asesinatos confirmados (por la misma justicia estatal, hecho no menor) en el contexto de la protesta social, además de mutilar, violar y herir a una cantidad incalculable de personas. Muchos otros de los registros de brutalidad policial en el marco actual se centran en zonas cercanas y al interior de los Centros de Atención Inmediata (CAI) apostados como estaciones de patrullaje y vigilancia al interior de los barrios en las ciudades, y que han operado como centros de tortura, violación, capturas ilegales y asesinato.

¿Hay algún debate sobre la autodefensa en las calles? ¿Hay algún debate por parte de los movimientos y colectivos sobre la abolición de la policía, por ejemplo?

El rechazo a la policía se ha desplazado progresivamente de los “individuos aislados y corruptos” a la propia institución. Es claro que los sectores moderados demandan del Estado, no la abolición de la policía, sino una reforma, porque ven en ella una institución con funciones sociales que nosotrxs no podemos reconocer jamás. Las personas y colectividades más o menos críticas que reciben alguna atención por parte de los medios hegemónicos se expresan en este sentido, al igual que lxs políticxs que se refieren a la necesidad de la transformación de la policía y piden la defensa y limpieza de la propia institución. Sólo al interior de las colectividades antiautoritarias se está dando el debate en torno a la abolición de la policía. Incluso en las demandas de varias de las Primeras Líneas se está pidiendo apenas una reforma.

Sobre la autodefensa, el debate es complejo, por una parte desde el mismo hecho de nombrar la práctica, en un contexto en donde los paramilitares y su proyecto fascistizante vaciaron de potencia radical a la palabra misma(nombrándose Autodefensas Unidas de Colombia). Creemos que es un debate necesario, cuando crece la violencia represiva de manera sistemática, hacernos la pregunta sobre la necesidad y las formas de protegernos de maneras no sólo defensivas. Las Primeras Líneas son una muestra del debate en escenarios amplios, en el 2019 el ejercicio comenzó desde sectores estudiantiles no habituados al uso de la violencia, sin conocimientos prácticos para ejercerla o defenderse realmente de ella, más allá de algunos cascos y escudos y organizadxs bajo un discurso de defensa, y muchas veces, debemos recordarlo, en oposición a las prácticas e identidades de grupos que reivindican la acción directa y la violencia desde distintos lugares de la radicalidad desde hace ya tiempo. En estos dos años, las prácticas de las Primeras Líneas se han transformado, se ha comprendido, a las malas, la necesidad de la capacidad de respuesta a la represión estatal. Aunque el debate va más allá de los escenarios de defensa de las movilizaciones, creemos que en la mayoría de escenarios no está presente aún fuera de estas perspectivas.

Por último, nos interesan mucho las diferentes expresiones del anarquismo en la región conocida como Sudamérica. Así que nos gustaría que hablaras un poco sobre las fuerzas involucradas en las luchas anárquicas en la región colombiana.

En estas tierras no ha existido históricamente un movimiento de masas anarquista, como en Brasil, Bolivia, Chile o Argentina, pero ha estado presente a lo largo de todos los levantamientos y protestas desde principios del siglo XX. El anarquismo ha estado presente de forma marginal en las luchas obreras, en individualidades que entraron o salieron de los procesos guerrilleros, en el trabajo de artistas, periodistas, algunas editoriales, organizaciones educativas, grupos de combate callejero y acción directa y demás manifestaciones del deseo por otros mundos. Asistimos en estos estallidos también a la proliferación de ideas y pulsiones anarquistas, los escenarios de agitación y difusión del pensamiento ácrata han sido menos relevantes que las acciones que los grupos han impulsado acompañando estos procesos de luchas sociales, ha sido a través de las prácticas que proliferan las ideas y se hacen fuertes. El acompañamiento y promoción de asambleas locales y populares, las campañas de solidaridad con lxs compañerxs en lucha a través de la recolección de fondos, alimentos e insumos de primeros auxilios, el trabajo pedagógico y organizativo de los colectivos de Educación Popular y la belleza de las ollas populares, que nos reúnen en torno al alimento para seguir resistiendo, son algunas de estas prácticas que hacen visibles las fuerzas vivas del anarquismo en escenarios como el actual.

Pese a que el anarquismo sigue siendo una idea marginal en la práctica política, son muchas las individualidades y colectivos volcados a la acción desde prácticas antiautoritarias, solidarias y autogestivas.

Por ello agradecemos la solidaridad que representa esta entrevista, la escucha y difusión en otras regiones golpeadas como nosotrxs por esta miseria y de pie, como nosotrxs, contra ella. Esperamos que lo que tengamos que decir de aquí en adelante nos distancie cada vez más de la denuncia y podamos hablar con más fuerza de lo que hemos logrado, de lo que haremos nuestro con nuestras propias fuerzas.

¡Que viva la anarquía!

CHILE: O Fogo que Arde Desde a Cordilheira

Em 24 de julho de 2020, entre o nascer do sol e as primeiras horas do dia, a polícia chilena tenta sufocar mais uma vez o agitado movimento anarquista daquele território. Casas são invadidas, buscas são feitas pela cidade de Santiago e logo as notícias começam a se espalhar: duas pessoas, anarquistas, foram sequestradas pelo Estado e estão sob as mãos dos policiais. Eram Mónica Caballero e Francisco Solar, companheiros acusados de envio de 4 pacotes-bomba. No mesmo dia da prisão, o judiciário decidiu pela prisão preventiva de 6 meses para investigação.

Dois dos pacotes teriam sido deixados em fevereiro de 2020, em um prédio localiado em uma região elitizada de Santiago. Outros dois, mais antigos, teriam sido enviados em julho de 2019, sendo um para a 54ª delegacia de Huechuraba e outro para o escritório onde trabalhava o facínora Rodrigo Hinzpeter, um dos fundadores do partido de direita Renovación Nacional, ligado ao Movimiento de Unión Nacional (partidários da ditadura de Augusto Pinochet). Hinzpeter é bastante conhecido por suas operações de perseguição aos anarquistas. Durante a primeira gestão de Sebastian Piñera na presidência do Chile (2010-2014) ele foi Ministro do Interior entre março de 2010 e fevereiro de 2011, cargo que depois foi transformado em Ministro do Interior e Segurança Pública do Chile. Em seguida, se tornou Ministro da Defesa Nacional do Chile, cargo que ocupou até 2014. Durante esse período, manteve explícita a tentativa de calar os movimentos populares e insurrecionais, as comunidades mapuches em luta, o movimento estudantil radicalizado e, sobretudo, o movimento anarquista.

É um dos responsáveis pelo Caso Bombas, que em 2010 promoveu uma caça aos anarquistas com base em montagens policiais, provas forjadas e espetáculos midiáticos. No caso, uma série de companheiros anarquistas foram presos sob a acusação de terem implantado bombas em bancos e delegacias pela região metropolitana de Santiago. Os presos foram absolvidos e o Caso Bombas se transformou em uma aberração policialesca e até hoje é conhecido como uma das tentativas de criminalização mais grotescas, mas que encontra desdobramentos até o dia de hoje. Tanto é que entre os anarquistas presos naquela época estavam Mónica Caballero e Francisco Solar, companheiros presos mais uma vez pelo Estado chileno, quase 10 anos depois.

Mónica Caballero e Francisco Solar

Após serem absolvidos no Caso Bombas, os dois partem para a Espanha, onde em novembro de 2013 são alvos de uma nova investigação: um atentado explosivo na Basílica de Pilar, em Zaragoza. São presos novamente junto a outros 3 anarquistas em meio à uma caçada do Estado espanhol aos libertários naquele território, que contou com ao menos 5 operações policiais e encarcerou mais de 40 pessoas e acusou muitas outras, além de dezenas de centros sociais e casas terem sido invadidas pela polícia.

Assim como no Caso Bombas de 2010 e na prisão de ambos na Espanha em 2013, a acusação de agora contra Mónica e Francisco está vinculada à uma montagem policial. Entre as supostas provas mencionadas pelo judiciário estão amostras de DNA “masculino”, que foram apresentadas como provas da participação de Francisco Solar, imagens de câmeras de vigilância de baixa qualidade etc. Reportagens da imprensa chilena mostram que ambos estavam sendo monitorados de perto pela polícia ao menos desde quando foram extraditados pelo Estado espanhol. Policiais a paisana os seguiram por meses, acompanharam suas publicações nas redes sociais, produziram um relatório com informações sobre as pessoas com quem os companheiros se relacionavam, onde trabalhavam etc. Além disso, Francisco foi detido pela polícia em 15 de maio de 2020 durante uma manifestação anticarcerária chamada pela Coordinadora 18 de Octubre sob a alegação de que ele teria promovido “desordem pública” e, de acordo com as informações difundidas pela imprensa, foi durante esta detenção que seu material de DNA foi recolhido e posteriormente utilizado como suposta “prova” de sua participação no envio das bombas.

Quando dizemos que ambos os casos foram montagem não estamos questionando a existência de tais ataques à propriedade e autoridade. Nos interessa explicitar o modo próprio da atuação policial: espetáculo midiático, invenção de ligações entre os eventos, provas forjadas, invasão de casas e espaços anarquistas. E aqui não nos interessa argumentar que os companheiros são inocentes ou culpados, mas explicitar que jurídico e político não se separam. Utilizar como argumento a inocência frente às acusações é reforçar existência e continuidade do judiciário, do tribunal e do sistema penal, armas utilizadas pelo Estado na guerra social para tentar suprimir toda e qualquer resistência que não se submeta à legalidade, à soberania, ao princípio da autoridade.

Ao retomar esses acontecimentos nos quais os companheiros estiveram envolvidos, não nos interessa, como fazem os jornalistas e policiais, discutir formalidades, legislações, culpabilizações ou vitimizações. Queremos dar um abraço forte, solidário e incendiário, para Mónica e Francisco, que se mantém firmes mesmo que sequestrados pelo Estado chileno. Demonstramos nossa solidariedade irrestrita com eles. E isso inclui, invariavelmente, respeitar o posicionamento de ambos, que mesmo com todas as perseguições dos últimos anos, se mantiveram com a cabeça erguida, resistindo aos ataques constantes por parte do Estado. Aproveitamos para fazer eco das palavras de Mónica e Francisco, que durante o seu julgamento na Espanha disseram, sem hesitar, em meio a tribunal: “muerte al estado, viva la anarquia”.

CARTA DE MÓNICA CABALLERO:

“Companheirxs, amigxs e familiares:

Novamente lhes escrevo desde uma cela. Me encontro isolada na prisão de San Miguel e durante 14 dias permanecerei isolada por conta do protocolo de prevenção de contágio ao COVID-19, posteriormente me classificarão e me levarão a um módulo definitivo.

Já são quase 10 anos desde a primeira vez que pisei na prisão como acusada. Durante esses anos minha vida, de uma forma ou outra, sempre esteve ligada às prisões, embora os sistemas de controle possam mudar, sua estrutura essencialmente não, se segue buscando o castigo e o arrependimento.

Há quase 10 anos, ao entrar na prisão, estava plenamente convencida de que o conjunto de ideias e práticas antiautoritárias são pontos fundamentais para enfrentar a dominação, em todo esse tempo não existiu nem um só dia em que pensei o contrário. Piso na prisão com a cabeça erguida, orgulhosa do caminho percorrido.

SOLIDARIEDADE COM TODAS AS LUTAS ANTICAPITALISTAS
NEWEN PEÑIS, PRESOS POLÍTICOS MAPUCHES, PRESOS SUBVERSIVOS E DA REVOLTA PARA AS RUAS!

Julho de 2020,
Mónica Andrea Caballero Sepúlveda, presa anarquista.”

O Fogo Não Tem Fim

Os enfrentamentos entre as forças na guerra social não param. Portanto, entendemos a operação para prender Mónica Caballero e Francisco Solar como uma tentativa de silenciar o movimento insurrecional que tomou as ruas de diferentes cidades do território dominado pelo Estado chileno nos últimos meses. O mês de outubro de 2019 foi bastante quente. As imagens de barricadas com fogo, encapuchadxs, enfrentamentos com os carabineiros e derrubadas de estátuas de colonizadores rodaram por várias partes do planeta. Muito se discutiu sobre qual teria sido o estopim para que as ruas fossem tomadas… se haveria sido o aumento na tarifa de transportes, ou o custo de vida, a “corrupção”, a acentuação do neoliberalismo ou se havia sido tudo isso em conjunto. Prontamente jornalistas, cientistas políticos, políticos, celebridades, youtubers e derivados não demoraram para tentar encaixá-la em uma explicação racional, de causa e efeito. O que mais chama a atenção sobre essas análises é que elas, invariavelmente, não levam em conta os enfrentamentos da guerra social que já ocorriam naquele território. Sem dúvida, uma insurreição possui um momento de erupção, assim como um vulcão. Mas mesmo o vulcão é composto por lavas e bolas de fogo que não param de queimar, ainda que debaixo da terra, ainda que a gente não enxergue.

Durante as manifestações daquele outubro, chegavam imagens e textos exaltando a resistência e coragem daquelas pessoas que decidiram se defender da repressão policial. O termo primera línea se tornou viral e prontamente uma identidade adotada por muitas pessoas que acompanhavam de outros cantos do planeta por meio das redes. Entretanto, essa romantização, essa invenção de uma nova identidade escondia anos de repressão, criminalização, espancamentos e delações por parte de organizações de esquerda contra grupos de afinidades anarquistas. A até então chamada tática black bloc, as pessoas encapuchadas, expulsas muitas vezes das manifestações estudantis por sindicatos, passou a ser alvo de uma tentativa de amansamento e adestramento.

Ainda que a gente apoie e estimule sem ressalvas todo e qualquer ato de não se silenciar frente à repressão e considere que é preciso ter muita coragem para se enfrentar um carro blindado armado de pedras e garrafas, em nossa perspectiva, a transformação de uma tática de defesa e enfrentamento em uma identidade por parte das pessoas que se colocam como solidárias às lutas possibilitou que houvesse um abandono do comprometimento ético com as forças envolvidas na insurreição. A insurreição e os enfrentamentos passaram a ser acompanhados por muita gente que se diz “solidária” como quem assiste a um filme ou a uma série ficcional, na qual não é necessário nenhum envolvimento com a luta. Tanto é que bastou os atos multitudinários deixaram de tomar as ruas e as notas em solidariedade diminuíram, se é que continuaram a existir. Entretanto, é importante ressaltar: muitas pessoas, companheiras, continuam presas e/ou processadas, muitas foram feridas, perderam seus olhos, foram mortas pela polícia. Não dizemos isso como uma forma de apontar o dedo, mas como uma provocação. A solidariedade é mais do que palavra escrita e nada tem a ver com o consumo de imagens, martirização, espetacularização. Quando se fala de uma insurreição, ela não é abstrata. São corpos reais, pessoas combatentes na guerra social, se colocando em risco contra uma vida de miséria. Saudamos sua coragem, mas como solidários, precisamos sempre estar atentos para não sermos tragados pelo elemento espetacular, pela foto de capa, pela reportagem no jornal, pelo vídeo nas redes.

O efeito da insurreição está sendo sentido ainda, ele não acabou. A pandemia de Covid-19 esvaziou à força as ruas e as manifestações multitudinárias desapareceram. Todavia, para nós, é preciso lançar um olhar insurrecional que conecte as lutas, pois as forças aprendem mutuamente, se fortalecem, se alteram, se enfrentam. Nesse sentido, o fogo nunca cessa. Mesmo que o exercício de governo se atualize, os Estados se armem, as forças moderadas busquem conter a possibilidade insurrecional. Mesmo que a esquerda tente aplicar uma reforma constituinte para substituir a constituição atual promulgada, em grande parte, durante a ditadura de Augusto Pinochet. Mesmo que os Estados tentem lançar mão da lei antiterrorismo contra os movimentos insurrecionais e radicais, contra quem não se submete à lógica do Estado e do capitalismo, sejam nós anarquistas, sejam nossos companheiros das comunidades mapuches que se levantam há séculos por autonomia e liberdade, sobretudo na região patagônica.

Mapuches em Luta

Não temos a pretensão de explicar a cosmovisão mapuche, nem de esgotar todos os casos de resistência e repressão e muito menos pretendemos falar em nome das diversas comunidades em luta. O que queremos, sim, é difundir alguns elementos sobre a singularidade dessa luta, pois só assim é possível que a solidariedade indomável seja mais do que palavra escrita, mais do que um palavrório universalizante que não leva em conta as forças envolvidas. As lutas das comunidades mapuche possuem suas singularidades justamente por serem inseparáveis de seus modos de vida e do vínculo direto com a terra.

A relação com a terra está no próprio significado do nome: em mapudungún (o idioma mapuche, língua da terra) mapu significa terra e che gente, pessoa. E é sobretudo em torno da questão da terra que rondam os levantes das últimas décadas na região conhecida como Wallmapu (totalidade do território mapuche em ambos os lados da cordilheira). De um lado, no território dominado pelo Estado chileno, atualmente as comunidades mapuches se concentram sobretudo nas regiões patagônicas de Bio-Bio e Araucania, zona centro-sul, e são atacadas permanentemente pelas multinacionais, florestais e hidrelétricas, que destroem, pouco a pouco, a natureza da região com a derrubada dos bosques, contaminação das águas e expulsão das comunidades locais. De outro, no “lado argentino” da patagônia, os enfrentamentos se dão também contra o grupo Benetton, que é proprietário oficial de invasões em terras ancestrais mapuches. Como explica o livro Wenüy – por la memória rebelde de Santiago Maldonado, a invasão destas terras em específico tem origens na The Argentinian Southern Land Company, fundada em Londres em 1889 para realizar atividades comerciais na Patagônia e “em 1986 foi beneficiada com a doação de dez fazendas de quase noventa mil hectares cada uma. Em troca de financiar a Campanha do Deserto, obteve terras estratégicas para o desenvolvimento da ferrovia que lhe serviu para exportar a produção de gados. Em 1982 a empresa traduziu seu nome – Compañia de Tierras del Sud Argentino – e integrou sua direção com 60% de diretores argentinos. Esse pacote acionista foi comprado em 1991 pela Benetton por cinquenta milhões de dólares”.

É nesse contexto de usurpação e invasão das terras ancestrais mapuches que se formam as diferentes táticas de luta. Não há uma uniformidade entre as comunidades, que se dividem entre uma minoria que busca diálogo e acordos com os Estados; outros que reivindicam o reconhecimento dos povos mapuche como uma Nação, o que implica na formação de um Estado plurinacional, como no caso boliviano; e uma vasta gama de grupos que reivindicam sua autonomia total e a retomada das terras ancestrais por meio da ação direta. Estes últimos, ao fazerem valer sua autonomia, há décadas vêm promovendo as chamadas recuperações territoriais em ambos os lados da cordilheira. É por meio dessas recuperações que os laços comunitários e culturais se fortalecem, dos cultos espirituais à alimentação, de brincadeiras e jogos a ensino do mapudungún. Enfim, se trata de um modo de vida que enfrenta diretamente o capitalismo, ao não reconhecer a usurpação de suas terras e o princípio da propriedade privada, e aos Estados, ao reivindicarem e espalharem a autonomia de cada localidade.

Nesse sentido, como afirma um posicionamento de um companheiro mapuche reproduzido no livro “Wenüy…”, “seguimos tendo as piores terras e a qualidade do solo é abismalmente diferente em comparação com as grandes fazendas: têm os melhores pastos, as melhores vertentes, as nascentes dos rios, os riachos. E esse é um dos motivos pelos quais seguimos vivendo em uma situação de extrema pobreza. Assim, obrigam nossa gente a migrar para as cidades, a viver nos bairros periféricos, com uma qualidade de vida pior da que tinham nos campos, passando a ser mão de obra barata e trabalhando por miséria. Por isso temem essa recuperação: porque questiona o estado das coisas”.

Nos últimos anos, os meios anarquistas de outros territórios começaram a dar enfase à luta dos mapuche sobretudo quando Santiago Maldonado foi assassinado pela gendarmeria em 1 de agosto de 2018 na província de Chubut, na região patagônica ocupada pelo Estado argentino. Como mostra o livro “Wenüy…”, os partidos e organizações de esquerda e de direitos humanos tentaram apagar que Santiago era anarquista e que foi assassinado enquanto estava encapuchado com companheiros mapuche durante uma barricada pela liberdade de Facundo Jones Huala. Tanto foi que nas manifestações ocorridas nas cidades argentinas primeiro em decorrência de seu desaparecimento e depois pela confirmação de seu assassinato, os anarquistas foram perseguidos pelas organizações de esquerda, e aqueles que usavam capuchas foram acusados de infiltrados.

Os enfrentamentos e os assassinatos de mapuches em luta não são uma questão nova, seja nos territórios hoje conhecidos como Argentina ou Chile. Também não se restringem à governos de direita. Durante os governos de partidos de esquerda, a perseguição não parou. Em 2008, por exemplo, a polícia chilena assassinou a tiros o jovem Matias Catrileo durante uma recuperação territorial na região de Vilcún, em Araucania. No mesmo mês, após ser detido agredido por policiais, o jovem mapuche Johnny Cariqueo morre dias depois no hospital. No ano seguinte, em 12 de agosto de 2009, o comunero mapuche Jaime Mendoza Collío foi morto com tiro nas costas pelas Forças Especiais dos Carabineiros. Na época, o país era governado por Michelle Bachelet, que, ironicamente (ou não), atualmente ocupa o posto do alto comissariado de direitos humanos da Organização das Nações Unidas. Esses são somente alguns dos casos de execuções, torturas, espancamentos, prisões, montagens policiais realizadas contra os povos mapuches.

Manifestação realizada em Curaucatin por diferentes comunidades mapuches em repúdio aos ataques racistas ocorridos nos últimos dias.

O recrudescimento da repressão foi elevado quando o Estado chileno criou o chamado Comando Jungla, força especial treinada na Colômbia durante o governo Bachelet e que somente foi “inaugurada” por Sebastián Piñera em junho de 2018. A justificativa da criação do Comando era o combate à chamada “violência rural” na região de Araucania. Naquele ano, em 14 de novembro, foi responsável pela execução do mapuche Camilo Catrillanca com um tiro na cabeça. Um companheiro de 15 anos que o acompanhava, após presenciar o assassinato, foi levado pelos soldados e torturado. E isso não foi um desvio de conduta. As invasões dos territórios recuperados e das comunidades mapuches por parte das forças especiais da policia permanece. E obviamente essa repressão começou com Bachelet ou Piñera. A resistência mapuche tem séculos de existência. Contudo, nos últimos anos, tanto o Estado chileno quanto o argentino têm se armado ainda mais para tentar apagar o fogo que sopra desde a cordilheira. Os carabineiros continuam rondando o território ancestral mapuche com blindados, drones, GPS de ultima geração e armas de grosso calibre.

Frente a isso, a ofensiva não esquece de seus mortos. No contexto das ações em memória do assassinato de Matias Catrileo, um incêndio levou à morte do casal de latinfundiários Werner Luchsinger e Vivianne Mackay em janeiro de 2013, na mesma região de Vilcún. Por conta do incêndio, foram realizadas diversas prisões de lutadores mapuches nas cidades de Temuco, Vilcún e na comuna Padre de Las Casas. Dentre os presos estavam a Machi Francisca Linconao e José Cordova, irmão de Celestino Córdova. Ao julgamento, se somou um espetáculo midiático e o judiciário tentou aplicar a lei antiterrorista, mas não conseguiu. Dentre os acusados, Machi Celestino Córdova foi o único considerado culpado e condenado a 18 anos de prisão. Cabe lembrar que Machi é uma denominação utilizada pelos mapuches para se referir à uma autoridade espiritual ancestral, uma pessoa que faz a conexão com o mundo dos espíritos. Logo, a condenação do Machi Celestino Córdova é um ataque explícito às comunidades da região.

Há mais de 3 meses, o Machi Celestino e mais 8 mapuches que estão presos na cárcere de Angol iniciaram uma greve de fome contra a repressão ao seu povo. E a greve de fome foi se espalhando. Há mais de um mês, 11 mapuches encarcerados na prisão de Lebu também inciaram uma greve de fome e, alguns dias depois, 7 mapuches presos na cidade de Temuco também aderiram. Dentre eles, está Facundo Jones Huala, lonko (em mapudungún, cabeça e referência de uma comunidade) preso pelo Estado argentino e deportado e preso em junho de 2017 no território dominado pelo Estado chileno sob a acusação de ter causado um incêndio na região de Valdivia em 2013. Quando Jones Huala foi preso, uma campanha pela sua liberdade se espalhou pelos dois lados da Patagônia e foi durante um trancamento de uma estrada promovido por comuneros mapuches e apoiadores em Chubut, na região argentina, que a gendarmeria argentina assassinou o anarquista Santiago Maldonado em 1 de agosto de 2017.

Entre as reivindicações da greve de fome está a liberdade dos mapuches encarcerados poderem realizar seus rituais espirituais, o que é permitido, formalmente, pelas as normas judiciárias e por tratados internacionais, como o caso do Convênio 169 sobre povos indígenas e tribais da Organização Internacional do Trabalho (OIT), assinado em 1989. O documento afirma, nos parágrafos 9 e 10: “1- Desde que sejam compatíveis com o sistema jurídico nacional e com direitos humanos internacionalmente reconhecidos, os métodos tradicionalmente adotados por esses povos para lidar com delitos cometidos por seus membros deverão ser respeitados. 2- Os costumes desses povos, sobre matérias penais, deverão ser levados em consideração pelas autoridades e tribunais no processo de julgarem esses casos” ; “1- No processo de impor sanções penais previstas na legislação geral a membros desses povos, suas características econômicas, sociais e culturais deverão ser levadas em consideração. 2- Deverá ser dada preferência a outros métodos de punição que não o encarceramento”.

Obviamente que não estamos aqui defendendo tratados internacionais, nem a própria Organização Internacional do Trabalho, composta por representantes de Estados-nações e que faz funcionar o capitalismo a partir de suas “recomendações” e “regulamentações”. Contudo, é importante compreender que para perseguir aqueles que lutam , que vivem outro modo de vida, uma outra maneira de se relacionar com a terra, os Estados rasgam tratados muitas vezes assinados por eles mesmos. Isso mostra mais uma vez a seletividade presente no sistema penal e que é inerente a todo e qualquer exercício de governo. Os “direitos”, teoricamente universais, são desconsiderados rapidamente na tentativa de conter as práticas indomáveis. E como afirmou a companheira mapuche Giovanna Tafilo, uma das porta-vozes dos presos em greve de fome, em uma entrevista ao canal Nuestra Dignidad, a perspectiva, ao lançar mão dessa Convenção, é justamente a de explicitar que não apenas aqueles que estão em greve de fome devem ser liberados, mas que as prisões deveriam deixar de existir.

A situação da greve de fome dos mapuches presos explicita mais ainda que a prática de Estado é uma prática de morte dos povos originários e uma tentativa de aniquilação de seus modos de vida. Machi Celestino, junto aos demais companheiros, está há 99 dias em greve de fome (sem ingerir alimentos) e caso as reivindicações não sejam atendidas, anunciou que entrará novamente em greve seca (sem ingestão de líquidos) nos próximos dias. De acordo aos costumes mapuches, ele, por ser uma autoridade espiritual, não pode ter seu sangue retirado e isso vem sendo desrespeitado pelo Estado chileno e, portanto, seus companheiros precisam estar sempre alertas para impedir que isso ocorra. Ele também se pronunciou exigindo que caso sua situação piore, que não seja submetido à alimentação e hidratação forçada e, no limite, se tiver uma parada cardio-respiratória, que seu corpo não seja reanimado. Todavia, o Estado chileno já deu mostras de que pode desrespeitar essa decisão pessoal de Machi, pois, conforme publicizado por mapuches que acompanham de perto a luta, os médicos do hospital de custódia já deixaram preparados máquinas de reanimação para impedir que ele morra.

Simultaneamente, diversas ações foram e estão sendo realizadas. Na primeira semana de agosto, mapuches ocuparam as prefeituras de Victoria, Curacautín, Ercilla e Traiguén, todas na região de Araucanía, em solidariedade aos 27 presos em greve de fome. Durante a ocupação, grupos de extrema-direita cercaram as ocupações, agrediram os mapuches e tentaram incendiar os prédios. A situação mais grave se deu no município de Curacautín. Os ataques racistas foram acompanhados pela gendarmeria, que não interveio, numa explícita cumplicidade com a tentativa de matar os mapuches que ali estavam. Vários grupos de extrema-direita estavam envolvidos, como a Associação para a Paz e a Reconciliação em Araucania (APRA), composto por latifundiários e empresários da região. Em resposta, dias depois 100 mapuches ocuparam a prefeitura de Tirúa e foram prontamente atacados pela gendarmeria. Mas a luta não tem fim, o fogo não se apaga. Dias depois, 17 caminhões e duas retroescavadeiras foram incendiados e destruídos em uma fábrica na região. Os enfrentamentos continuam enquanto escrevemos estas linhas e as notícias que nos chegam dizem ter mais de 50 pessoas detidas e outros tantos feridos.

Enfim, sabemos que nesses processos nunca se tratou da participação real dos anarquistas nos ataques à bomba ou dos mapuches em incêndios e demais ações. Sabemos que tais processos não são mais do que uma tentativa desesperada do Estado de disseminar uma ideia de que haveria uma luta boazinha e outra condenável, uma palatável e a outra intragável, pois insurrecta, indomável. Se tratou (e se trata) de um uso estratégico e permanente que todo Estado faz dos eventos na tentativa de silenciar as práticas insurrecionais. Além de processar e encarcerar, mata e desaparece com companheiras e companheiros. Mata, como fez o Estado chileno com a anarquista Claudia Lopez, assassinada a tiros por carabineiros durante uma barricada no dia 11 de setembro de 1998 e tantos outros e com os mapuches Camilo Catrillanca, Matías Catrileo, Alex Lemún, Macarena Valdés, Rafael Nahuel e tantos outros até o dia de hoje. Desaparece, como fez com Jose Huenante, considerado um dos primeiros desaparecidos da democracia chilena pós-ditadura de Augusto Pinochet. Mata, como fizeram os Estados chileno e argentino, em 2018 quando assassinaram Santiago Maldonado. Encarcera, como faz com Facundo Jones Huala e com os presos subversivos Marcelo Villaroel Sepúlveda, Juan Aliste Vega, Mónica Caballero, Francisco Solar, entre muitos outros.

O fogo não tem fim. Sua chama pode diminuir, mas continua a arder, eternamente. A tudo queima. Consome as certezas, os acordos, as pacificações. Suas fagulhas voam como estrelas cadente iluminando a escuridão da noite. Frente ao silêncio paralisador das maiorias, submissas à ordem, aos tribunais e à legalidade democrática, os pequeninos estalos produzidos pelas brasas se tornam ensurdecedores. E não há Estados, deuses ou mestres que as apaguem.

Nem um minuto de silêncio, toda uma vida de combate!
Mano tendida a los compañeros, puño cerrado al enemigo!
Solidariedade irrestrita à Mónica Caballero, Francisco Solar, às comunidades mapuches em luta e os demais presxs da guerra social!

WALLMAPU LIBRE!
Abaixo a sociedade carcerária!
Pelo fim do medo,
Liberdade!


Para Saber Mais:

Uma Nova Onda de Repressão no Chile, por Crimethinc.

Amplas Manifestações Pela Nação Mapuche Contra a “Horda Racista”, texto por Equipe de Comunicações Mapuche, traduzido por Terra Sem Amos.

Caso Bombas, documentário sobre a série de montagens policiais para perseguir anarquistas no Chile.

Por que como anarquistas apoyamos la lucha autonoma del pueblo mapuche, por La Peste

Carta a Mónica e Franscisco

“Wenüy – por la memoria rebelde de Santiago Maldonado”, livro que compila textos, artigos e comunicados tanto sobre a morte do anarquista quanto dos grupos mapuche em luta na região patagonica.

Canais com notícias sobre as lutas anarquistas e mapuches:

Contrainfo – es-contrainfo.espiv.net
Coordinadora 18 de Octubre – instagram.com/coordinadora18octubre
Rede pela liberdade de Mónica e Francisco – instagram.com/redlibertadmonicayfrancisco
Rádio Kurruf – https://radiokurruf.org/
Kimunkaweychan – instagram/kimunkaweychan
Libertade para Machi Celestino – instagram.com/libertadmachicelestino