A COP30 não é um fracasso — é uma farsa

Em novembro de 2025, líderes de governos, empresas e ONG’s se reuniram em Belém, Pará, para a COP30 para debater supostas saídas ecológicas para o inferno na Terra que o capitalismo está construindo. Nosso camarada Peter Gelderloos, anarquista e pesquisador autônomo estadunidense esteve presente nos eventos críticos à conferência, percorrendo o território brasileiro coletando entrevistas com membros de comunidades indígenas, assentamentos e territórios de movimentos como MST e Teia dos Povos, além de ocupações urbanas. O artigo a seguir é uma das primeiras impressões que o autor publicou sobre o contexto e propostas em torno da COP30.

O autor está prestes a lançar livro “As soluções já estão aqui: estratégias revolucionárias ecológicas vindas de baixo”, editado neste ano pelas editoras Teia dos Povos, GLAC e Entremares e fez um bate-papo sobre o Jornadas ANTI-COP30 em Belém, organizadas pelo Centro de Cultura Libertária da Amazônia (CCLA).

Para saber mais sobre a posição de anarquistas do Pará sobre a COP30 e como foram as Jornadas Anti-COP30, leia o artigo completo do do CCLA aqui.


A COP30 não é um fracasso, é uma farsa – Porque cúpulas climáticas não podem resolver a crise e porque devemos apoiar as lutas indígenas

Ao fim da cúpula climática da COP30 em Belém, no estado brasileiro do Pará, os organizadores de conferências têm pouco a mostrar após duas semanas de conversas altamente divulgadas. Isto é ruim para todos. A Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas precisava desesperadamente restaurar sua reputação. Afinal, a COP 29 do ano passado ocorreu no Azerbaijão, onde os combustíveis fósseis representam 90% das exportações e onde o governo estava sendo acusado de realizar genocídio nos meses que antecederam a conferência. No ano anterior, a COP 28 foi realizada em Dubai, capital de outro petro-estado.

Este ano, a estratégia de marketing para a conferência climática começou com um mea culpa pela exclusão histórica dos povos indígenas. Um comunicado de imprensa da ONU anunciando as conclusões de um relatório recente sobre os povos indígenas e a crise climática colocou da seguinte forma: “De projetos de energia verde impostos sem consentimento para decisões políticas tomadas em salas onde as vozes indígenas estão ausentes, essas comunidades são muitas vezes excluídas de soluções climáticas, deslocadas por eles e negadas os recursos para liderar o caminho”.

Para isso, o Ministério dos Povos Indígenas (PMI) do Brasil convidou 360 líderes indígenas para participar de negociações dentro da COP, após um processo de seis meses em que eventos foram realizados com 80 povos indígenas cujos territórios são ocupados pelo estado brasileiro. O objetivo era garantir a maior participação indígena na história das Conferências Climáticas da ONU”, segundo o site oficial da COP 30. Em uma espécie de chamada e resposta, o The New York Times e outros meios de comunicação ecoaram acriticamente essas alegações, com manchetes como Indígenas, há muito marginalizados nas negociações climáticas, sobem ao palco”.

O que essas declarações pressupõem é que, embora possa haver erros no processo, a solução é maior participação. Nenhuma dessas instituições – a ONU, os grandes meios de comunicação, as principais ONGs e os governos mundiais – parece disposto a enfrentar a verdade de que o processo da COP não está simplesmente falhando em resolver a crise climática: eles não podem resolver a crise climática. E essa farsa está atrapalhando estratégias reais e ativas para proteger os povos indígenas e abordar o ecocídio.

A metáfora do Times sobre tomar o palco é apropriada, dada a natureza vistosa e espetacular desses esforços. Cidades em todo o Brasil têm sido cobertas de publicidade colorida que mostra povos indígenas e vida selvagem amazônica. E na segunda-feira, quando uma marcha dos povos indígenas começou a segunda e última semana da COP30, representantes indígenas que apoiam o governo e a conferência tiveram seu lugar na frente da marcha, com grandes faixas e um sistema de som móvel, enquanto grupos mais críticos falando sobre a falta de resultados reais foram relegados para trás.

Anarquista e outros movimento se juntam aos protestos Anti-COP30 em Belém, novembro de 2025.

Para manipular os movimentos indígenas, os governos usam benefícios e punições. Os benefícios incluem promessas de investimento e financiamento, como os US $ 11,8 bilhão que quatro países europeus e trinta e cinco filantropias apoiadas pela indústria prometeram aos povos indígenas nos próximos cinco anos. A maior parte desse dinheiro é destinada a ONGs que trabalham com povos indígenas. Tais investimentos têm um histórico duvidoso quando se trata de proteger a terra ou aumentar a autonomia indígena, embora seja certamente um recurso significativo para apoiar representantes indígenas em conformidade que são frequentemente nomeados pelos estados que ocupam suas terras.

As punições, entretanto, podem variar de técnicas difíceis a suaves de repressão. O dia da marcha, dos direitos humanos e dos grupos ambientais publicou uma carta aberta acusando o chefe climático da ONU, Simon Stiell, de ​ criando um efeito arrepiante e um sentimento de insegurança para os indígenas povos”, após Stiell pedir ao Brasil que aumentasse as forças de segurança em torno do local da COP.

No dia anterior, homens armados atacaram a comunidade indígena Guarani Kaiowá de Pyelito Kue, no sul Estado brasileiro de Mato Grosso do Sul, matando o defensor da terra Vicente Fernandes Vilhalva, ferindo outros quatro membros da comunidade e queimando por todas as casas e propriedades da comunidade. O assalto, o quarto de seu tipo em duas semanas, vem como os Guarani Kaiowá se envolveram em um luta para reocupar algumas de suas terras ancestrais.

De todas as realizações que o quadro climático dominante pode se orgulhar, nenhuma delas tem a ver com a redução das emissões de gases de efeito estufa ou a desaceleração do desmatamento e a devastação de áreas úmidas em todo o mundo. Quando países específicos são capazes de reivindicar uma redução nas emissões, é em parte graças ao comércio de carbono e sistemas de contabilidade de carbono que os lobistas corporativos se certificaram de que estão incluídos em acordos climáticos, como eu relatei anteriormente aqui, aqui e aqui. Pelo contrário, as realizações da COP têm a ver com a garantia de investimentos e financiamento. As empresas que podem reivindicar um rótulo verde estão desfrutando de um mercado em crescimento e os lucros que vêm com ele, mas o benefício para as comunidades indígenas ou o movimento mais amplo para parar a crise ecológica é duvidoso.

Manifestantes indígenas marcham do lado de fora da conferência climática COP30 em Belém do Pará, Brasil, 17 de novembro.

Os povos indígenas em todo o Brasil fizeram seus maiores avanços na recuperação de seu território não com planos de investimento, mas por meio de ações diretas. O Ka’apor da Amazônia tem queimado caminhões madeireiros. Os Guarani da Mata Atlântica usaram protestos e bloqueios para forçar o governo a devolver uma pequena parte de suas terras que haviam sido roubadas. Gah Te Iracema, líder espiritual da comunidade Kaingang de Porto Alegre, no estado do Rio Grande do Sul, que viajou para Belém para a COP 30, me diz que “recuperamos uma parte de nossa terra, mas não é reconhecida pelo governo. Então, estamos aqui para falar sobre a nossa luta. Nós chamamos isso de recuperação de terras, mas é como voltar para nossa casa.”

Os Guarani Kaiowá, mencionados acima, foram violentamente expulsos de suas terras nos anos 1980 s. Os principais interesses da pecuária então se mudaram e assumiu. Os Guarani Kaiowá têm tentado recuperar alguns dos suas terras, mas a FUNAI, a agência governamental brasileira designada para proteger os povos indígenas, não seguiu com oficial demarcação. Um relatório da Survival International, uma organização que defensores dos direitos dos povos indígenas em todo o mundo, chamado a estagnação uma violação do direito brasileiro e internacional” que tem forçou “os Guarani a suportar ataques violentos e assassinatos nas mãos dos pecuaristas e policiais apoiados por políticos locais que atuam com impunidade”. O relatório prossegue: Um acordo oficial feito entre promotores públicos, FUNAI, e os Guarani em 20072007, e terras recentes promessas de demarcação do Presidente Lula — não foram mantidos.

O povo Guarani Kaiowá enfrenta escassez de alimentos e envenenamento por químicos agrícolas. Ao mesmo tempo, esses fazendeiros e donos de plantações têm uma voz menos pública mas bastante mais efetiva na COP30: s lobistas agrícolas, dos quais mais de 300 vieram à COP30, onde alguns receberam “acesso privilegiado” a negociações chave. Atualmente, a pecuária e a expansão de terras agrícolas, maioritariamente para plantações de soja para a alimentação do gado, são os principais fatores de desmatamento da bioma da Amazônia. O presidente Lula propôs uma mudança para outra indústria lucrativa, uma com uma reputação mais verde: os biocombustíveis, que podem substituir os combustíveis fósseis. No entanto, as plantações que cultivam biocombustíveis também contribuem para o desmatamento. Um estudo recente pelo think thank Transport and Environment descobriu que, quando todos os seus impactos são contabilizados, os biocombustíveis causam 16% mais emissões que os combustíveis fósseis.

Isso aponta para uma falha incorrigível na discurso oficial sobre o clima. Para todos os principais participantes — ministros do governo, indústria lobistas e até mesmo os diretores de grandes ONGs — o inquestionável fundação de uma solução climática é uma economia baseada no crescimento organizada por governos. A questão fundamental na COP 0 e todas as anteriores conferências climáticas não é, “como paramos a mudança climática?” A questão com a qual eles estão trabalhando é: que respostas às mudanças climáticas são compatível com o poder do Estado e as economias baseadas no crescimento?” E a resposta eles se recusam a admitir é que respostas efetivas não são compatíveis com o sistema atual, porque este sistema em si — suas formas aceitáveis de organização política e econômica — são as causas profundas da crise.

Os investidores não estão no negócio de dar dinheiro a programas dos quais eles não pode tirar lucro. Culturas se empoderando plenamente, que são eco-centradas e comunais, que não tratam a terra como mercadoria, são a verdadeira solução — mas isso seria uma má notícia para os negócios e para todos os governos em todo o mundo que atrelam seu poder ao crescimento econômico. Não importa quantos representantes de povos marginalizados estão na mesa de diálogo: o crescimento econômico está em conflito com a vida neste planeta. Não podemos ter ambos.

Para todos nós tentando sobreviver em meio a catástrofes em série sobre um planeta sitiado, a escolha entre lucro e a vida não deveria ser uma escolha difícil.


Peter Gelderloos é um pesquisador independente, escritor anarquista e militante estadunidense, autor de diversas obras, incluindo o célebre livro Como a Não Violência Protege o Estado Anarquia Funciona.

Não Precisamos de Heróis – Notas Sobre o Assassinato de um CEO

Um evento próprio de nosso tempo: um vídeo de 30 segundos, um jovem encapuzado e de mochila atirando em um sujeito de meia idade, corpulento e de cabelos grisalhos se espalha em poucas horas nos noticiários e nas mídias sociais. Isso se dá menos pelo que se pode ver nele e mais pelo que ele testemunha. O homem atingido pelos três disparos do jovem encapuzado é Brian R. Thompson, CEO da United Healthcare (UHC), uma megacorporação estadunidense de seguro saúde que, até 2023, era dona da empresa Amil, no Brasil. Os detalhes da ação, que logo foram conhecidos, fazem crescer o interesse por ela: as três cápsulas de bala encontradas pela polícia na calçada em frente ao Hotel Hilton, no centro de Manhattan, levavam as inscrições: defender, negar, destituir (defend, deny, depose, em inglês). As palavras são uma evidente alusão à forma como as empresas de seguridade médica costumam responder aos seus segurados, quando precisam de um serviço mais complexo e se encontram evidentemente fragilizados física e mentalmente.  Algo muito semelhante ao que lobistas dos planos de saúde brasileiros já buscam fazer para negar procedimentos e tratamento a milhares de pacientes, uma vez que não são previstos como obrigatórios no rol da ANS. A diferença é que nos Estados Unidos não existe um sistema público e gratuito de saúde como o SUS, no Brasil.

Ano novo, antigos vícios.

A ação foi planejada e executada quase à perfeição. Um sujeito sozinho, se aproxima do alvo, dispara e foge correndo até encontrar uma bicicleta elétrica e sumir sem deixar rastros. Um trabalho paciente e dedicado que logrou êxito de forma admirável.

Todos sabem que o sistema de saúde nos EUA é um grande negócio (só em 2023, a UnitedHealth Group Incorporated, dona da UHC, arrecadou US$ 371,6 bilhões) que funciona para extorquir as pessoas precisamente em momentos nos quais economizar é a última coisa que passa pela cabeça. Além disso, UHC e outras companhias já implementam sistemas que usam inteligência artificial para avaliar, aprovar ou negar atendimento a clientes. Por isso, qualquer cidadão conhece uma história tenebrosa da relação com seguro saúde que, invariavelmente, também envolve batalhas judiciais.

Histórias vividas na própria pele ou na de amigos e parentes próximos. Mesmo em países onde há assistência médico-securitária estatal e gratuito, como Brasil e Inglaterra, planos de saúde são amplamente conhecidos como urubus que circundam os corpos de gente doente ou morta pelos seus atendentes, advogados e médicos, que ganham muito dinheiro com isso. Assim, não é exagero dizer que um CEO de uma megacorporação de seguro saúde é responsável direto e/ou indireto pelo sofrimento e a morte de muitas pessoas. E não surpreende, portanto, que a ação que matou Brian Thompson tenha sido recebida com simpatia por muitas pessoas e lida como um ato de justiça perpetrado por esse jovem de capuz.

Como é comum em tempos de comunicação instantânea, a ação foi capaz catalisar o sentimento de raiva e injustiça de milhares de pessoas no planeta, e logo viralizou e provocou uma enxurrada de comentários que alçaram o autor da ação ao paradoxal patamar de herói e procurado pela polícia. A UHC precisou retirar do ar a publicação das mídias sociais em que lamentava a morte de Thompson após receber mais de 40 mil reações e comentários de risos.

É compreensível — e até pare um pouco tardio — que uma pessoa comum decida atacar diretamente um CEO de uma empresa de saúde nos EUA. O que chama a atenção é o fato de alguém poderoso ser alvo de um cidadão comum. Quando é o contrário, e a ação de um executivo ou político resulta na vulnerabilidade ou morte de grupos inteiros de pessoas, isso é apenas mais uma “fatalidade”.

Como já se sabe, Mangione acabou capturado pela polícia. Seu sequestro por forças policiais se deu após a delação de uma pessoa que trabalhava numa lanchonete (a polícia simplesmente não existiria sem colaboração cidadã) e o herói de muitos, que catalisou o ódio latente por corporações em uma ação, está preso e será julgado. Se condenado em tribunal federal, pode encarar a pena de morte — pena que não foi aplicada nem mesmo a atiradores que mataram dezenas de crianças nos recorrentes tiroteios em escolas americanas. O que comprova que para o judiciário, a polícia, governos e a classe dominante, a vida de um dos seus é mais valiosa e motiva mais penalidades do que o assassinato em massa de cidadãos comuns.

 Risco de Neutralização do Conflito

Aqui começa um problema fundamental para os efeitos de uma ação como esta: a capacidade do sistema de justiça criminal e da mídia de neutralizar uma ação que, embora tenha sido perpetrada por um sujeito, expressa um sentimento coletivo de injustiça.

A espetacularização da ação e do seu autor e a individualização da responsabilidade criminal do ato criam a figura de um herói ao mesmo tempo em que o debate personaliza a “maldade” nos CEO’s, como se esse fossem proprietários ou a peça principal de uma empresa. É fácil esquecer que, no capitalismo financeiro, esses são apenas funcionários muito bem pagos, cujos salários milionários não chegam a um décimo do que ganham os reais donos da grana: os investidores. Para ficar em apenas um exemplo grosseiro, o CEO da Coca-Cola recebeu em 23 milhões de dólares em 2023. Enquanto isso, o investidor Warren Buffett recebeu da mesma empresa 776 milhões de dólares em dividendos apenas em 2024, uma fortuna que, diferente do CEO, não o obriga sequer a pagar imposto ao governo americano.

Portanto, mesmo dentro da lógica de bode expiatório, onde a classe dominante pode até aceitar a morte de um dos seus para se preservar enquanto grupo, sair individualmente disposto a alvejar CEOs pouco muda em uma luta para derrubar o Capitalismo, mesmo que isso promova avanços no debate sobre acesso a saúde e concentração de riquezas. O CEO é um alto funcionário. De um altíssimo escalão, é óbvio, mas apenas mais um funcionário.

Nem heróis nem mártires

Transformar Luigi Maggioni, a um só tempo, em herói e criminoso é a tática perfeita para que se fale de tudo, menos do mais importante: sua ação revela que é intolerável que a vida de milhões de pessoas esteja nas mãos de executivos que se hospedam em hotéis de luxo em Manhattan e fazem da vida e da morte um cálculo econômico. E que esses sejam apenas os funcionários de agentes que sequer sabemos o nome, mas os recursos que controlam determinam o destino de nações inteiras.

A essa altura, basta ter um smartphone na mão para se saber tudo sobre Luigi: onde estudou, o que gostava de ler, que música ouvia etc e etc. E, em torno dessas informações, especula-se sobre ele ser ou não de esquerda, sobre ter sofrido ou não com o plano de saúde em questão, sobre ser ou não um incel, ser bonito ou feio, sobre ter ligações com organizações políticas ou não etc., etc. Nada mais cômodo para os poderosos que Luigi e sua ação se tornem uma espécie de reality show que entretém os acomodados comentadores em sua passividade. Em pouco tempo, Luigi se torna uma espécie de duplo complementar de um personagem típico dos filmes policiais, um sujeito repleto de intenções nobres e assassinas, mas que é impedido pelo sistema de fazer justiça porque… as coisas são assim.

De quebra, o espetáculo persecutório que levou um atendente de uma rede de lanchonetes a delatá-lo (sempre tem um cagueta) cumpre o devido efeito dissuasório nas pessoas que, com razão, já pensaram em expressar violentamente sua raiva contra os donos do poder reunidos em salas pomposas das grandes corporações ou em congressos corporativos realizados em hotéis de luxo. Paradoxalmente, neste momento, interessa mais saber quem é e ao que serve Brian R. Thompson, do que especular sobre a vida do autor da ação.

Em relação Luigi Maggioni só interessa uma coisa: libertá-lo! O que ele fez ressoa em qualquer pessoa cuja saúde depende das escolhas de um executivo que tem as mãos, o quarto de hotel e seu cargo lavados de sangue de gente que paga planos de saúde para não morrer. Ninguém é inocente!

Para Além da Guilhotina e do Martírio: Uma Perspectiva Histórica

Precisamos olhar para ação de Luigi a luz da história das lutas libertárias e como um sintoma de nosso tempo. O chamado “período do terror anarquista”, do final do século XIX e começo do século XX, quando ações realizadas por anarquistas expropriadores ou regicidas se espalharam por todo mundo, revelou-se, hoje podemos dizer, como sinais de um clima geral de transformação social radical. Ações de anarquistas como Ravachol, Gaetano Bresci, Émile Henry e Severino Di Giovanni ou de grupos como Los Solidarios, Bando Bonnot e os Niilistas Russos, mais do que ações individuais ou simples roubos e assassinatos, eram a expressão da revolta latente na sociedade que dizia escandalosamente que as coisas não poderiam seguir daquela forma. Não à toa, essas ações eram seguidas ou associadas à grandes greves e mobilizações populares ou ao início de processo revolucionários como a Comuna de Paris, a Revolução Russa e a Revolução Espanhola.

Mais recentemente, os ataques à bomba contra uma delegacia de Santiago do Chile e contra Rodrigo Hinzpeter (ex-ministro do interior chileno, conhecido pela perseguição às lutas anárquicas e do povo Mapuche) em 2019, ambos reivindicados pelo anarquista Francisco Solar. Sob a acusação de participação nestes e em outros atentados aos poderosos e ao bairro dos ricos em Santiago, Francisco e Mónica Caballero seguem atrás das grades desde 2020. Os ataques ocorreram no contexto da insurreição que tomou as ruas naquele território, com atos gigantescos e enfrentamentos massivos diários com a polícia. Em resumo, nestes e em vários outros casos que poderíamos mencionar, não se trata de um ato individual, embora tenha sido perpetrado por um único sujeito ou por um pequeno grupo.

Por isso, devemos ter mais ambição e pensar para além do espetáculo do CEO e seu algoz. Já abordamos isso em outro texto sobre o assassinato de políticos e poderosos:

Anarquistas e socialistas já mataram presidentes e reis. Mas será que conseguiram alguma mudança sistêmica profunda com ações isoladas para eliminar certos indivíduos em posições de poder? Os fatos levam a crer que não, pois as instituições que acumulam poder continuaram intactas e operando com carne sempre nova. Bakunin nos alertou também sobre essa questão quando disse que “as carnificinas políticas nunca mataram os partidos; mostraram-se, sobretudo, impotentes contra as classes privilegiadas, porque a força reside menos nos homens do que nas posições ocupadas pelos homens privilegiados na organização das coisas”.

O debate é tão antigo quanto a luta por liberdade dos povos. E faz tempo que anarquistas se dedicam a apontar que os maiores inimigos são instituições políticas e econômicas controlando os recursos, a cultura, as leis e violência legítima.

Por aqui no Brasil, alguns debates entre anarquistas já escolhem o caminho do elogio e do aplauso puro e simples. Como radicais pensando e atuando no mundo de hoje, queremos mais do que convidar para uma luta de autossacrifício ou pela execução sumária de nossos inimigos. Entraremos em conflito e devemos vencer, mesmo que sangue seja derramado. Mas, como dizem combatentes anarquistas em Rojava, “a luta não é pelo martírio, mas pela vida”.  Mesmo sabendo do risco de matar e morrer numa guerra aberta, ou na luta cotidiana contra a classe dominante e suas forças de segurança, a morte, a dor ou a prisão não são o objetivo dessa luta. Assim como não é parte do nosso projeto erguer novas guilhotinas, paredões e cadafalsos para nossos nossos inimigos de classe, como fizeram os Bolcheviques e o os Jacobinos antes deles.

Independentemente da opinião e dos planos de grupos ou teorias anticapitalistas, eventos como o assassinado do CEO ou o sacrifício daqueles que, como do tuniziano Mohamed Bouazizi ou do estadunidense Aaron Bushnell vão acontecer cada vez mais em uma sociedade capitalista em franca decadência. E é nosso papel também não fazer com que eventuais sacrifícios sejam em vão. Precisamos avançar o debate e aprimorar as ações coletivamente.

Escapemos das especulações e dos espetáculos. Diante da perseguição policial, do assédio jurídico e da algaravia midiática, tenhamos a coragem de dizer que qualquer pessoa já pensou em se vingar de um patrão, um político ou policial. E isso não faz de ninguém um herói, mas um sujeito comum que sente que a existência de bilionários e seus capangas é intolerável!

E “não se trata, neste momento, de uma questão de conscientização, mas sim de jogos de poder claramente dispostos. Evidentemente sou o primeiro a encarar isso com uma honestidade tão brutal”. E que não seja o último!

Ninguém é inocente! Vivemos na guerra social! Não precisamos de heróis!


Para saber mais:

Organizar a morte do Estado e do Capital, não de pessoas – perspectivas revolucionárias sobre atentados e assassinato de poderosos

Antinomia #128: Luigi Mangione

Sacrificial Violence and Retribution, coletivo CrimethInc.

“NÃO TEMOS MEDO DAS RUÍNAS”: DECLARAÇÃO DE TÊKOŞÎNA ANARŞÎST SOBRE ATUAL SITUAÇÃO EM ROJAVA

Desde 2020, a guerra civil na Síria não sofreu grandes desdobramentos. Com a Rússia, maior aliada do regime sírio, ocupada com a invasão da Ucrânia, e o Irã distraído com as agressões de Israel em Gaza e no Líbano, as forças jihadistas, como o grupo Hayat Tahrir al-Sham (HTS), tomaram Aleppo, cidade mais importante no norte da Síria, desafiando o poder do ditador Bashar al-Assad e impondo nova ameaça à luta por liberdade e a revolução social em Rojava. Em em meio a esses eventos, o grupo Tekoşîna Anarşîst (Luta Anarquista/TA), atuando em Rojava há pelo menos 5 anos, lançou um comunicado sobre a situação e sua posição diante dos novos desdobramentos da guerra civil síria.

entrevistamos companheiros do TA em 2020 e traduzimos uma outra entrevista feita pela da federação Anarquista uruguaia (fAu) aqui em nosso blog. Convidamos a todas as pessoas interessadas na superação do capitalismo, do fascismo, do patriarcado e do colonialismo a conhecer o processo revolucionário em Rojava e a contribuição de anarquistas em solo para essas lutas. A tradução do artigo abaixo foi feita pela editora Terra Sem Amos.


“NÃO TEMOS MEDO DAS RUÍNAS”

Há mais de cinco anos, as Forças Democráticas Sírias (SDF) puseram fim ao califado do Estado Islâmico (ISIS). Agora, com a nova ofensiva do Hayat Tahrir al-Sham (HTS), corremos o risco de reviver suas atrocidades. O HTS uniu diversos grupos jihadistas, incluindo ex-combatentes do califado em suas fileiras. Recentemente, eles iniciaram uma grande ofensiva, rompendo o cerco de Idlib e provocando o colapso do Exército Árabe Sírio (SAA). Aleppo foi a primeira grande cidade capturada, com a apreensão de grandes quantidades de armamento avançado deixado para trás por soldados do regime.

As SDF reagiram rapidamente, enviando reforços para proteger o bairro curdo de Sheh Maqsoud, em Aleppo, bem como os campos de refugiados na região de Sheba. No entanto, as forças que representam o exército turco, o Exército Nacional Sírio (SNA), iniciaram uma nova ofensiva coordenada com o HTS, invadindo essa mesma região de Sheba. Os refugiados deslocados pela invasão turca de Afrin em 2018 são, mais uma vez, forçados a abandonar seus lares sob a mira de armas. Mais de 100.000 pessoas agora buscam abrigo em tendas improvisadas às margens do rio Eufrates, ainda ameaçadas por novos avanços de grupos jihadistas.

Esses novos desdobramentos agravam a instabilidade no Oriente Médio e devem ser analisados em conjunto com outros conflitos em curso na região. A ocupação israelense de Gaza, juntamente com os ataques contra o Hezbollah, enfraqueceram a posição do Irã na Síria, limitando sua capacidade de apoiar o SAA. Tropas russas, também enfraquecidas após quase três anos de guerra na Ucrânia, abandonaram várias posições terrestres e estão bombardeando brutalmente Idlib e Aleppo. Os Estados Unidos tentam se manter fora do conflito, sabendo que Trump pode pressionar pela retirada de suas tropas do território sírio. Os soldados turcos ainda não estão abertamente envolvidos, mas o Estado turco está mexendo os pausinhos do SNA para continuar suas políticas genocidas contra o povo curdo. Assad está tentando obter apoio internacional de outros países árabes, e o Irã já começou a enviar reforços para uma contraofensiva conjunta com o SAA. Em meio a esse caos, a Revolução de Rojava e o Movimento de Libertação Curdo resistem como a principal esperança para revolucionários no Oriente Médio.

A maior movimentação de forças na Síria nos últimos cinco anos está em curso e pode ter implicações que ainda não conseguimos prever. É uma situação complexa, e vemos como muitos jornalistas têm dificuldade em compreendê-la. Grande parte da mídia ocidental tem sido complacente com o avanço do HTS, chegando até a chamá-los de oposição revolucionária, “rebeldes” contra a ditadura de Assad. Também desejamos a queda do regime, mas o HTS e seu “governo de salvação” não são uma solução libertadora. Seu objetivo é substituir a dinastia Assad por leis da sharia e um estado islâmico, pouco diferente do que o Talibã está fazendo no Afeganistão ou do que a República Islâmica do Irã tem feito desde 1979. Esse não é um futuro que podemos aceitar, e muitos sírios também não aceitarão.

Nós, como anarquistas e internacionalistas em Rojava, desempenharemos nosso papel nesses tempos desafiadores. Lutaremos ao lado das SDF para defender e expandir o projeto revolucionário, construindo uma sociedade sem Estado onde prevaleçam os princípios do confederalismo democrático, pluralismo e da revolução das mulheres. Conclamamos todas as forças anarquistas e outros movimentos revolucionários, agora mais do que nunca, a defender Rojava!

Sabemos que a guerra traz sofrimento e destruição, mas também pode abrir oportunidades para uma vida livre para aqueles que estão prontos. Vimos o que a vitória sobre o ISIS nos possibilitou e estamos prontos para continuar lutando por um futuro melhor. Porque não temos medo de ruínas!

Muitos camaradas estão perguntando: O que posso fazer para apoiar a revolução?
  • Viajar para o Nordeste da Síria (NES) não é possível no momento, pois as fronteiras estão fechadas. Mas você pode garantir que o que está acontecendo na Síria seja conhecido, escrevendo artigos, realizando entrevistas, podcasts, organizando palestras e eventos em coordenação com comitês de solidariedade já existentes.
  • Se houver manifestações de solidariedade em sua região, participe e apoie! Se não houver, talvez você possa organizá-las!
  • Você também pode fornecer apoio econômico aos mais necessitados, já que a crise humanitária atual é crítica e requer nossa atenção. Para isso, a Heyva Sor, uma organização independente, já está trabalhando para apoiar e prover assistência aos afetados pela guerra no nordeste da Síria.

Isto está longe de acabar. Mantenha-se informado e prepare-se para os próximos acontecimentos!


PARA SABER MAIS:

A História se Repete: Primeiro como Farsa, Depois como Tragédia – Por que o Partido Democrata é Responsável ​​pelo Retorno de Donald Trump ao Poder

Donald Trump venceu a eleição presidencial de 2024 nos Estados Unidos. Antifascistas, anarquistas e todos insubmissos deverão se preparar para lugar as mesmas batalhas de 2017-2020 novamente, em um terreno ainda mais perigoso, uma vez que Trump e sua base fascista conhecem melhor o terreno em que lutarão, além de terem mais cadeira no congresso e senado.

O retorno de Trump como presidente eleito pelo partido Republicano já é tratado como exemplo a ser seguido no Brasil por Jair Bolsonaro e seus familiares, que acompanharam de perto a apuração da eleição estadunidense. Apesar de condenado pelo Tribunal Superior Eleitoral e tornado inelegível, Bolsonaro diz que será candidato voltar à presidência ou eleger um aliado próximo em 2026.

Outros paralelos entre o que aconteceu nos EUA e no Brasil podem ser traçados a partir da leitura do artigo a seguir, do coletivo CrimethInc., uma vez que desde a forma como concorreram, governaram e buscaram dar um golpe de estado ao perder a reeleições, um parece emular a cartilha do outro.

De qualquer forma, seja para combater o bolsonarismo nas próximas eleições, ou seus aliados ocupando cargos no executivo e legislativo, ou seus capangas ruas, é preciso avaliar como a esquerda brasileira fez de tudo para sabotar os protestos de rua, greves e organizações populares contra o governo Bolsonaro. Da  mesma forma que o partido Democrata condenou e atacou protestos radicais nos Estados Unidos, numa das maiores ondas de protestos de sua história, contra a polícia e o racismo.

Democratas tiraram a legitimidade de um levante popular amplo que trouxe ao debate a redução de investimentos em polícia e prisões, aceitando levar suas políticas ainda mais para a direita só para conseguir competir com Trump, enquanto abria caminho para o fascismo se radicalizar sem oposição popular. Por aqui, o ministro da Fazenda de Lula, Fernando Haddad, já avaliou como “moderada” a declaração de Trump ao anunciar vitória nas urnas.

Se não aprendermos com nossos erros por aqui e com a derrota da esquerda estadunidense, estaremos em desvantagem para enfrentar o fascismo que pode muito bem voltar ao poder em 2026, mas, o que é mais perigoso, se instalar no imaginário social como única saída “radical” para as crises do capitalismo.

Portando, publicamos e convidamos a todas as pessoas para entender a escala do que está acontecendo nos EUA e como foi o caminho até aqui.

Leia mais artigos do coletivo CrimethInc. em português aqui.


A batata quente muda de mãos novamente

Há muito tempo argumentamos que, no século XXI, o poder estatal é uma batata quente. Como a globalização neoliberal tornou difícil para as estruturas estatais mitigar o impacto do capitalismo sobre as pessoas comuns, nenhum partido é capaz de manter o poder estatal por muito tempo sem perder credibilidade. De fato, nos últimos meses, derrotas inesperadas minaram os partidos governantes na França, Áustria, Reino Unido, e Japão.

Na eleição de 2024, tanto Kamala Harris quanto Donald Trump já estavam manchados por seu relacionamento com o poder do estado, mas Harris era a única associada ao governo vigente e esta é uma das razões pelas quais ela perdeu. Dezenas de milhões de eleitores de Trump apoiam seu programa, sim, mas os eleitores que o empurraram para a vitória estavam essencialmente dando votos de protesto ao status quo.

Democratas fizeram tudo o que podiam para se associar à ordem dominante: movendo suas políticas para a direita, mudando o apoio de supostos “esquerdistas” dentro de suas fileiras, desmobilizando movimentos de protesto. Acontece que essa foi uma aposta perdida em um momento em que as pessoas estão sedentas por mudanças.

Resta saber como o resto do país responderá. Se a liderança do Partido Democrata for capaz de ceder e aceitar uma posição como sócios minoritários no fascismo, o futuro pode ser realmente sombrio. Por outro lado, se ficar claro que metade do país vai resistir ao programa Trump, parte da liderança Democrata será forçada a seguir sua posição como representantes dessa parte da população, como ocorreu em 2017.

O que acontecerá a seguir será decidido nas ruas.

O Partido da Cumplicidade

Republicanos se tornaram o partido do fascismo. Na preparação para esta eleição, os democratas se estabeleceram como o partido da cumplicidade com o fascismo.

O que significa reconhecer que Donald Trump é um fascista, mas não fazer nada além de incitar as pessoas a votarem contra ele? Se, de fato, Trump pretende introduzir o fascismo nos Estados Unidos — se, como ele prometeu explicitamente, ele irá perseguir milhões de pessoas (“a maior operação de deportação doméstica na história americana”), colocar os militares nas ruas para reprimir protestos e usar o sistema judicial para atacar qualquer um que se oponha a ele — então limitar-se à mera oposição eleitoral significa acolher o fascismo de braços abertos.

Quando o fascismo está a caminho, a coisa apropriada a fazer é organizar redes subterrâneas de resistência, como os antifascistas italianos e franceses fizeram nas décadas de 1930 e 1940. A coisa apropriada a fazer é se preparar para resistir por quaisquer meios necessários. Qualquer coisa menos que isso é cumplicidade.

Reformar as instituições que serão usadas pelos fascistas parar aplicar suas políticas é cumplicidade. Normalizar a violência contra as pessoas que os fascistas pretendem atacar é cumplicidade. Entregar as plataformas de comunicação por meio das quais as pessoas compartilham informações é cumplicidade. Desencorajar as pessoas do tipo de tática necessária para lutar contra um regime fascista é cumplicidade. Nos últimos quatro anos, os democratas fizeram cada uma dessas coisas.

A liderança do partido Democrata já está preparada para coexistir com fascistas, para ser governada por fascistas. Eles prefeririam o fascismo a mais quatro anos de protestos tumultuados. Ter um partido mais autoritário no poder lhes dá um álibi — os faz parecer bons em comparação, mesmo que sejam eles que canalizam as pessoas para fora das ruas e pavimentam o caminho para Trump executar seu programa.


O Caminho para o Fascismo

Vamos explicar por que os democratas são culpados por essa situação.

A Polícia

Democratas começaram a era Biden-Harris dobrando seu apoio à polícia, precisamente quando milhões de pessoas nos Estados Unidos estavam se perguntando se era hora de procurar uma maneira mais eficaz de lidar com a pobreza e as crises de saúde mental do que continuar canalizando grandes quantidades de financiamento público para a militarização dos departamentos de polícia. Quando Trump assumir o cargo novamente em 2025, os departamentos de polícia em todo o país que o governo Biden financiou e glorificou estarão na vanguarda da imposição da agenda de Trump.

A virada pró-polícia do Partido Democrata ajudou a trazer ex-policiais como o prefeito de Nova York, Eric Adams, para o gabinete em 2020. A administração de Adams tem sido um desastre; ele é atualmente o primeiro prefeito de Nova York a enfrentar acusações federais, incluindo suborno, conspiração e fraude. Desde então, Trump estendeu a mão para Adams, um homem forte corrupto para outro. É isso que acontece quando você coloca o poder do estado diretamente nas mãos das forças de repressão.

A Lei

Desde o início do primeiro governo Trump, os democratas concentraram suas críticas a Trump na ideia de que o que ele estava fazendo era ilegal, usando o slogan “Ninguém está acima da lei”. Como debatemos em 2018,

Se você está tentando estabelecer a base para um poderoso movimento social contra o governo de Trump, “ninguém está acima da lei” é uma narrativa autodestrutiva. O que acontece quando uma legislatura escolhida por manipulação eleitoral aprova novas leis? O que acontece quando os tribunais lotados com os juízes que Trump nomeou decidem a seu favor? O que você fará quando o FBI reprimir os protestos?

Agora, com a Suprema Corte controlada pelos indicados de Trump e este se preparando para retomar o poder, veremos as respostas para essas perguntas. Qualquer um que esteja determinado a impedir Trump de executar sua agenda precisará se preparar para quebrar as leis que a legislatura de Trump vai aprovar e os juízes de Trump irão aplicar.

Marchar sob a bandeira “ninguém está acima da lei” é cuspir na cara de todos aqueles para quem o funcionamento diário da lei é uma experiência de opressão e injustiça. É rejeitar a solidariedade com os setores da sociedade que poderiam dar a um movimento social contra Trump alavancagem nas ruas. Finalmente, é legitimar o próprio instrumento de opressão — a lei — que Trump eventualmente usará para suprimir seu movimento.

Como alertamos em julho passado, uma vitória de Trump significa que todas as instituições com as quais os centristas contavam para protegê-los — a política eleitoral, o sistema judiciário, a polícia, a inclinação dos cidadãos comuns de obedecer à lei e respeitar as autoridades — agora são armas nas mãos de seus inimigos.

A Mídia

Quando os donos do Twitter o venderam para Elon Musk em 2022, eles entenderam que estavam colocando o controle da principal plataforma de comunicação política do século 21 nas mãos de um megalomaníaco de extrema direita. Uma das primeiras coisas que Musk fez foi banir algumas das contas anarquistas mais conhecidas que ajudaram a mobilizar pessoas durante o primeiro governo Trump. Este foi um passo no processo de reduzir o Twitter a um veículo de propaganda de extrema direita.

Como apontamos na época,

A aquisição do Twitter por Musk não é apenas o capricho de um plutocrata individual — é também um passo para resolver algumas das contradições dentro da classe capitalista, para melhor estabelecer uma frente unificada contra os trabalhadores e todos os outros que sofrem a violência do sistema capitalista.

De fato, o financiamento de um grupo de bilionários foi um dos principais fatores que permitiram que Trump vencesse a eleição de 2024. Os bilionários conseguiram mudar sua lealdade para Trump em parte porque, com as plataformas de comunicação e os protestos de rua controlados, eles não precisaram temer que uma segunda administração Trump criasse um caos que seria ruim para os negócios.

Isso nos leva ao próximo ponto.

Esvaziando as Ruas

O esforço dos democratas para desacreditar e desmobilizar o movimento contra a polícia caiu diretamente nas mãos de seus adversários, preparando o caminho para Trump retornar ao poder sem resistência.

Ao competir com os Republicanos para se afirmarem como o partido da lei e da ordem, os Democratas permitiram que os Republicanos levassem o discurso sobre “crime” tão para a direita que Trump e seus capangas puderam usar a retórica de combate ao crime, embora crimes violentos tenham diminuído nos últimos anos. Isso contrasta dramaticamente com a maneira como Donald Trump se recusou a recuar seus pontos de discussão um milímetro sequer.

Ao mesmo tempo, Democratas buscaram impedir que novos movimentos ganhassem força. Quando o acesso ao aborto foi restringido em todo o país, por exemplo, os Democratas fizeram o melhor que puderam para impedir uma mobilização popular eficaz em resposta.

Beneficiou as perspectivas eleitorais dos democratas em 2024 esvaziar as ruas? Vamos voltar para 2020 para uma resposta.

Na época, em artigo de opinião após artigo de opinião, os centristas expressaram preocupação de que os confrontos de rua de maio e junho de 2020 pudessem influenciar a eleição para Donald Trump. Na verdade, o registro de eleitores democratas em junho de 2020 aumentou em 50%, enquanto o registro de eleitores republicanos cresceu apenas 6% naquele mês. Uma pesquisa entre o eleitorado constatou que, dentre as pessoas que citaram os protestos como um fator de determinação para votar em 2020, uma porção 7% maior disse que votou em Joe Biden.

Em outras palavras, a Revolta por George Floyd ajudou a eleger Biden.

E lembre-se: a Revolta de George Floyd não começou com uma campanha de registro de eleitores. Ela começou com a queima de uma delegacia de polícia. De acordo com uma pesquisa da Newsweek, 54% dos entrevistados acreditavam que queimar a delegacia era justificável. Se isso não tivesse ocorrido, o movimento não teria conseguido empurrar os assassinatos de George Floyd, Breonna Taylor e outros para o debate público, e não haveria ganho eleitoral para o Partido Democrata. Não há como criar movimentos poderosos sem tomar medidas reais contra as causas da injustiça.

Como o partido que coopta movimentos de resistência, os democratas teriam se beneficiado de movimentos mais poderosos em 2021-2024. Eles preferiram perder.

A Catraca Política

A campanha de Harris recebeu o apoio do ex-presidente George W. Bush, da ex-representante Liz Cheney, do apresentador de rádio conservador Charlie Sykes e de muitas outras figuras de direita. Isso não ocorreu apenas porque a agenda de Trump era chocante até mesmo para aqueles que antes representavam a face do establishment republicano — também porque Harris representava um projeto político centrista, deixando os Republicanos determinarem o discurso sobre questões como imigração.

Como já argumentamos anteriormente,

O sistema bipartidário dos EUA funciona como uma catraca, com o Partido Republicano puxando constantemente as políticas públicas e o discurso permitido para a direita, enquanto os Democratas, ao tentarem adquirir poder perseguindo o centro político, servem como um mecanismo que impede que as políticas e o discurso retornem.

Essa estratégia ajudou os Republicanos a normalizar o que antes eram ideias marginais sobre imigração e crime, mas não tornou os Democratas mais elegíveis.

Para voltar atrás no tempo, podemos ver que a vitória de Trump em 2024 marca uma virada crucial no discurso político do século XXI. Quando Trump foi eleito em 2016, o consenso neoliberal parecia invencível; sua vitória parecia representar um acaso em que um político atípico chegou ao poder cooptando a retórica do chamado movimento antiglobalização. Hoje, está claro que o auge do consenso neoliberal acabou e algo mais terá que vir a seguir. No entanto, por décadas, os democratas têm colaborado com os republicanos para esmagar movimentos que propunham uma alternativa. Eles suprimiram as forças dentro de seu campo, como a campanha de Bernie Sanders, que representavam um caminho a seguir; foi isso que tornou possível para Trump se apresentar falsamente como um representante da rebelião.

Isso tornou inevitável que a extrema direita detenha o poder na próxima fase, já que os Democratas ajudaram a suprimir alternativas anarquistas, antiautoritárias e de esquerda.

Dessensibilizando o Público

Finalmente, de forma dolorosa, o governo Biden já fez muito do trabalho para dessensibilizar o público em geral para o programa que um segundo governo Trump encorajado tentará executar. Acima de tudo, o governo Biden conseguiu isso apoiando os militares israelenses na execução de um genocídio brutal em Gaza. Ao fazer isso, Biden e Harris acostumaram milhões de pessoas à ideia de que a vida humana não tem valor inerente — que é aceitável massacrar, aprisionar e atormentar pessoas com base em seu status em um grupo demográfico específico.

Este é exatamente o tipo de ambiente que permitirá que Donald Trump execute o tipo de políticas internas brutais que ele pretende fazer quando retornar ao cargo em dois meses e meio.


O caminho à frente

No final das contas, não podemos culpar os Democratas por tudo. Nós falhamos em construir movimentos poderosos o suficiente para sobreviver aos seus esforços para nos suprimir. Nós ainda não estamos preparadas para impedir Trump de deportar milhões de pessoas e canalizar bilhões de dólares a mais para bilionários e o aparato de segurança do estado.

Felizmente, esta história ainda não acabou.

Temos a responsabilidade de não deixar que as estatísticas eleitorais nos desmobilizem. Como escrevemos em 2016, em resposta à primeira vitória de Trump,

As eleições servem para nos representar uns aos outros no nosso pior, destilando os aspectos mais ofensivos, covardes e servis da espécie. Muitas pessoas que nunca arrancariam pessoalmente uma mãe de seus filhos são capazes de endossar a deportação da privacidade de uma cabine de votação, assim como a maioria das pessoas que comem carne nunca poderiam trabalhar em um matadouro. Se não fosse pela alienação que caracteriza o próprio governo, a maioria das políticas feias que compõem a agenda de Trump nunca poderiam ser implementadas.

Haverá uma breve janela de possibilidade agora, quando milhões de pessoas que contavam com os Democratas para mantê-los seguros acordarem e perceberem que somos a única esperança um do outro. Temos que agir imediatamente para fazer contato uns com os outros, para restabelecer tudo o que perdemos desde o ano de 2020.

Temos que empreender projetos proativos que nos diferenciem dos partidos políticos, projetos que mostrem o que todos têm a ganhar com nossas propostas e que ofereçam oportunidades para pessoas de todas as esferas da vida se envolverem no projeto de mudar o mundo para melhor.

A boa notícia é que podemos fazer isso. Já fizemos isso antes. Nos vemos na linha de frente.


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