Mais Fácil Imaginar o Fim do Mundo do Que o Fim da Polícia – Poster Para Imprimir

Um pensamento atribuído a Frederic Jameson e repetido por Slavoj Žižek e Mark Fisher, diz que, em nosso tempo, seria “mais fácil imaginar o fim do mundo do que o fim do Capitalismo”. A frase traz um diagnóstico crítico importante sobre a impossibilidade da imaginação e o sentimento perpétuo de que é impossível viver fora do atual sistema econômico e político dominante. A possibilidade de fim dessa ordem seria vivenciada apenas como o fim da humanidade em si e de seu mundo.

Talvez por esse motivo quase toda distopia apocalíptica conta com um roteiro semelhante, onde pessoas buscam reabilitar o mundo que foi destruído, e retornar para a “normalidade” conhecida – um desejo que se tornou universal durante a pandemia da Covid-19. Uma herança judaico-cristã, que aceita um deus, um mundo e, portanto, uma única “humanidade”. Se esquecendo que o mundo dos povos indígenas acabou muitas vezes desde 1492 mas seguem resistindo e nos ensinando a sobreviver o fim de mais esse mundo. 

Sejam reformistas ou revolucionários, tanto os defensores quanto os falsos críticos da ordem parecem concordar que os rumos do Capitalismo ameaçam a sobrevivência da vida no planeta. Porém sua disposição para acabar com as estruturas de dominação encontram limites no Estado e nos seus aparelhos repressores. De jacobinos a bolcheviques, de sociais-democratas a fascistas, a disputa parece ficar em torno da questão de que para superar o Capitalismo (ou o “sistema”) é necessário tomar o poder através de um “governo revolucionário” (e sua polícia). A questão parece ser sempre a de quem detém o controle de suas estruturas – e não a destruição das instituições que perpetuam a destruição de nossas comunidades e do meio ambiente.

Fica claro que críticas vindas da esquerda e das classes oprimidas muitas vezes evitam debater e promover ações que apontem para o fim da polícia e das prisões porque consideram que estas serão necessárias quando for sua vez de assumirem o comando por meios revolucionários ou da ocupação gradual dos postos de direção política. Afinal, quem vai impor as decisões do novo governo, do partido que “representa a classe” e seu comitê central?

Não é por acidente e nem deveria surpreender que movimentos revolucionários vitoriosos que se dedicaram a erguer sua própria polícia e a desenvolver seus aparatos repressivos, passaram a conduzir sua própria contrarrevolução e voltaram suas armas para as camadas populares que ajudaram a derrubar o regime anterior. Sem uma polícia e toda uma organização militar própria e secreta, os Bolcheviques não conseguiriam tomar grãos de camponeses à força, reprimir greves e massacrar camaradas socialistas e anarquistas que protestavam contra seus abusos.

Por compreenderem isso no seio da própria luta, anarquistas, desde Bakunin, diferenciam a revolução social, que derruba Estado e Capital em favor da ação direta e da autogestão, de uma revolução política; que entrega o controle do Capital ao Estado, dirigido pelos burocratas iluminados (e um tanto depressivos) da revolução e do partido que governa em nome dos trabalhadores.

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Desde o surgimento do que entendemos por uma polícia moderna, na Inglaterra do século XIX, sua função era o de disciplinar as massas trabalhadoras e controlar as camadas excluídas e miseráveis. Quando empregar em seu próprio território um exército treinado para guerras contra inimigos externos parecia ser brutal e ineficiente, a polícia surge como uma força mais amena de profissionais empregados para defender a propriedade e agir contra o ameaças internas à paz: greves, rebeliões e movimentos sindicais.

Nas chamadas Américas, onde as sociedades foram fundadas sobre o colonialismo e a escravidão, as polícias surgem como uma extensão das forças que capturavam e mantinham pessoas escravizadas. Nunca foi seu objetivo prevenir o crime, mas governar garantindo que apenas os comportamentos de certos grupos sejam criminalizados e punidos com base não apenas na cor da pele e no pertencimento de classe, mas também no gênero, idade, profissão (ou a falta dela). Mesmo se você não tiver nada, a polícia estará lá. Ela é o patrão de quem não tem emprego ou casa. Para isso,  as elites no poder recrutam entre a massa empobrecida pessoas dispostas a defender seus interesses em troca de dinheiro e respeito. São traidores da classe dispostos a ferir sua comunidade por um salário e o poder que uma arma na mão pode lhe dar.

A chamada “Guerra às Drogas” trouxe de volta a noção militarizada da força bruta e letal para a repressão da sua própria população. Mas obviamente, que não igualmente para todas as pessoas envolvidas com produção, venda e consumo de drogas. As pessoas brancas ricas e proprietárias, no topo, sofrem (quando muito) processos legais e administrativos. Na base, a população preta, imigrante e periférica enfrenta o encarceramento em massa, suspensão de direitos básicos e o extermínio.

Reformar a polícia é, portanto, apenas tentar dar mais legitimidade à sua existência e tornar mais difícil sua abolição. Mesmo quando a polícia recruta membros da mesma cor, gênero ou origem dos grupos tradicionalmente excluídos, a realidade mostra que isso apenas aumenta a tensão nessas comunidades.

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A devoção ao Estado é, inevitavelmente, o amor pela polícia. Sem ela, não é possível uma divisão entre quem manda e quem obedece, entre quem trabalha e quem administra, entre pessoas incluídas e excluídas. Ela fabrica inimigos internos para justificar sua existência.

O mito de que a vida é melhor para  todo mundo – e não só para  a elite – com o trabalho da polícia está tão entranhado em nosso imaginário que as pessoas que se declaram revolucionárias e de esquerda acreditam que sua revolução também será melhor conduzida com a ajuda da polícia. Elas se recusam a assumir que o que desejam é a garantia de poder e controle que o uniforme e as armas dos especialistas em violência imposta os garante.

Em um mundo em colapso, a única coisa capaz de impedir que as pessoas consigam lutar por suas vidas e tirar a riqueza e os recursos das mãos dos ricos é a força bruta. A última e maior função do Estado é a repressão policial. Cientes disso, uma esquerda que almeja o poder centralizado não pode oferecer outra coisa que não um novo círculo de legitimação das forças de segurança. O Capitalismo pode até acabar, mas alguém precisa garantir o poder dos novos líderes.

Ou criamos comunidades livres e fortes com autogestão e por meio da ação direta, capazes de construir sua autodefesa sem depender de profissionais e especialistas em violência, ou prepararemos o terreno, os recursos materiais e a legitimidade de aparatos repressores que podem simplesmente cair na mão de futuros governos fascistas. Ou pior seguir na mão de benevolentes e humanistas governantes iluminados que praticam massacres em nome da democracia.

Quem fala de uma luta contra o capitalismo e o fascismo, sem falar de uma luta contra o Estado, suas polícias, tribunais, exércitos e prisões, fala com um cadáver entre os dentes.


LEITURAS RECOMENDADAS:

SOMOS TODAS ANTIFASCISTAS – MENOS A POLÍCIA: sobre como e com quem lutamos – por Facção Fictícia

Polícia: Um Estudo Etnográfico Foto-Ensaio Sobre a Obediência Armada – por CrimethInc.

O Fim do Policiamento – Alex S. Vitale

 

A COP30 não é um fracasso — é uma farsa

Em novembro de 2025, líderes de governos, empresas e ONG’s se reuniram em Belém, Pará, para a COP30 para debater supostas saídas ecológicas para o inferno na Terra que o capitalismo está construindo. Nosso camarada Peter Gelderloos, anarquista e pesquisador autônomo estadunidense esteve presente nos eventos críticos à conferência, percorrendo o território brasileiro coletando entrevistas com membros de comunidades indígenas, assentamentos e territórios de movimentos como MST e Teia dos Povos, além de ocupações urbanas. O artigo a seguir é uma das primeiras impressões que o autor publicou sobre o contexto e propostas em torno da COP30.

O autor está prestes a lançar livro “As soluções já estão aqui: estratégias revolucionárias ecológicas vindas de baixo”, editado neste ano pelas editoras Teia dos Povos, GLAC e Entremares e fez um bate-papo sobre o Jornadas ANTI-COP30 em Belém, organizadas pelo Centro de Cultura Libertária da Amazônia (CCLA).

Para saber mais sobre a posição de anarquistas do Pará sobre a COP30 e como foram as Jornadas Anti-COP30, leia o artigo completo do do CCLA aqui.


A COP30 não é um fracasso, é uma farsa – Porque cúpulas climáticas não podem resolver a crise e porque devemos apoiar as lutas indígenas

Ao fim da cúpula climática da COP30 em Belém, no estado brasileiro do Pará, os organizadores de conferências têm pouco a mostrar após duas semanas de conversas altamente divulgadas. Isto é ruim para todos. A Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas precisava desesperadamente restaurar sua reputação. Afinal, a COP 29 do ano passado ocorreu no Azerbaijão, onde os combustíveis fósseis representam 90% das exportações e onde o governo estava sendo acusado de realizar genocídio nos meses que antecederam a conferência. No ano anterior, a COP 28 foi realizada em Dubai, capital de outro petro-estado.

Este ano, a estratégia de marketing para a conferência climática começou com um mea culpa pela exclusão histórica dos povos indígenas. Um comunicado de imprensa da ONU anunciando as conclusões de um relatório recente sobre os povos indígenas e a crise climática colocou da seguinte forma: “De projetos de energia verde impostos sem consentimento para decisões políticas tomadas em salas onde as vozes indígenas estão ausentes, essas comunidades são muitas vezes excluídas de soluções climáticas, deslocadas por eles e negadas os recursos para liderar o caminho”.

Para isso, o Ministério dos Povos Indígenas (PMI) do Brasil convidou 360 líderes indígenas para participar de negociações dentro da COP, após um processo de seis meses em que eventos foram realizados com 80 povos indígenas cujos territórios são ocupados pelo estado brasileiro. O objetivo era garantir a maior participação indígena na história das Conferências Climáticas da ONU”, segundo o site oficial da COP 30. Em uma espécie de chamada e resposta, o The New York Times e outros meios de comunicação ecoaram acriticamente essas alegações, com manchetes como Indígenas, há muito marginalizados nas negociações climáticas, sobem ao palco”.

O que essas declarações pressupõem é que, embora possa haver erros no processo, a solução é maior participação. Nenhuma dessas instituições – a ONU, os grandes meios de comunicação, as principais ONGs e os governos mundiais – parece disposto a enfrentar a verdade de que o processo da COP não está simplesmente falhando em resolver a crise climática: eles não podem resolver a crise climática. E essa farsa está atrapalhando estratégias reais e ativas para proteger os povos indígenas e abordar o ecocídio.

A metáfora do Times sobre tomar o palco é apropriada, dada a natureza vistosa e espetacular desses esforços. Cidades em todo o Brasil têm sido cobertas de publicidade colorida que mostra povos indígenas e vida selvagem amazônica. E na segunda-feira, quando uma marcha dos povos indígenas começou a segunda e última semana da COP30, representantes indígenas que apoiam o governo e a conferência tiveram seu lugar na frente da marcha, com grandes faixas e um sistema de som móvel, enquanto grupos mais críticos falando sobre a falta de resultados reais foram relegados para trás.

Anarquista e outros movimento se juntam aos protestos Anti-COP30 em Belém, novembro de 2025.

Para manipular os movimentos indígenas, os governos usam benefícios e punições. Os benefícios incluem promessas de investimento e financiamento, como os US $ 11,8 bilhão que quatro países europeus e trinta e cinco filantropias apoiadas pela indústria prometeram aos povos indígenas nos próximos cinco anos. A maior parte desse dinheiro é destinada a ONGs que trabalham com povos indígenas. Tais investimentos têm um histórico duvidoso quando se trata de proteger a terra ou aumentar a autonomia indígena, embora seja certamente um recurso significativo para apoiar representantes indígenas em conformidade que são frequentemente nomeados pelos estados que ocupam suas terras.

As punições, entretanto, podem variar de técnicas difíceis a suaves de repressão. O dia da marcha, dos direitos humanos e dos grupos ambientais publicou uma carta aberta acusando o chefe climático da ONU, Simon Stiell, de ​ criando um efeito arrepiante e um sentimento de insegurança para os indígenas povos”, após Stiell pedir ao Brasil que aumentasse as forças de segurança em torno do local da COP.

No dia anterior, homens armados atacaram a comunidade indígena Guarani Kaiowá de Pyelito Kue, no sul Estado brasileiro de Mato Grosso do Sul, matando o defensor da terra Vicente Fernandes Vilhalva, ferindo outros quatro membros da comunidade e queimando por todas as casas e propriedades da comunidade. O assalto, o quarto de seu tipo em duas semanas, vem como os Guarani Kaiowá se envolveram em um luta para reocupar algumas de suas terras ancestrais.

De todas as realizações que o quadro climático dominante pode se orgulhar, nenhuma delas tem a ver com a redução das emissões de gases de efeito estufa ou a desaceleração do desmatamento e a devastação de áreas úmidas em todo o mundo. Quando países específicos são capazes de reivindicar uma redução nas emissões, é em parte graças ao comércio de carbono e sistemas de contabilidade de carbono que os lobistas corporativos se certificaram de que estão incluídos em acordos climáticos, como eu relatei anteriormente aqui, aqui e aqui. Pelo contrário, as realizações da COP têm a ver com a garantia de investimentos e financiamento. As empresas que podem reivindicar um rótulo verde estão desfrutando de um mercado em crescimento e os lucros que vêm com ele, mas o benefício para as comunidades indígenas ou o movimento mais amplo para parar a crise ecológica é duvidoso.

Manifestantes indígenas marcham do lado de fora da conferência climática COP30 em Belém do Pará, Brasil, 17 de novembro.

Os povos indígenas em todo o Brasil fizeram seus maiores avanços na recuperação de seu território não com planos de investimento, mas por meio de ações diretas. O Ka’apor da Amazônia tem queimado caminhões madeireiros. Os Guarani da Mata Atlântica usaram protestos e bloqueios para forçar o governo a devolver uma pequena parte de suas terras que haviam sido roubadas. Gah Te Iracema, líder espiritual da comunidade Kaingang de Porto Alegre, no estado do Rio Grande do Sul, que viajou para Belém para a COP 30, me diz que “recuperamos uma parte de nossa terra, mas não é reconhecida pelo governo. Então, estamos aqui para falar sobre a nossa luta. Nós chamamos isso de recuperação de terras, mas é como voltar para nossa casa.”

Os Guarani Kaiowá, mencionados acima, foram violentamente expulsos de suas terras nos anos 1980 s. Os principais interesses da pecuária então se mudaram e assumiu. Os Guarani Kaiowá têm tentado recuperar alguns dos suas terras, mas a FUNAI, a agência governamental brasileira designada para proteger os povos indígenas, não seguiu com oficial demarcação. Um relatório da Survival International, uma organização que defensores dos direitos dos povos indígenas em todo o mundo, chamado a estagnação uma violação do direito brasileiro e internacional” que tem forçou “os Guarani a suportar ataques violentos e assassinatos nas mãos dos pecuaristas e policiais apoiados por políticos locais que atuam com impunidade”. O relatório prossegue: Um acordo oficial feito entre promotores públicos, FUNAI, e os Guarani em 20072007, e terras recentes promessas de demarcação do Presidente Lula — não foram mantidos.

O povo Guarani Kaiowá enfrenta escassez de alimentos e envenenamento por químicos agrícolas. Ao mesmo tempo, esses fazendeiros e donos de plantações têm uma voz menos pública mas bastante mais efetiva na COP30: s lobistas agrícolas, dos quais mais de 300 vieram à COP30, onde alguns receberam “acesso privilegiado” a negociações chave. Atualmente, a pecuária e a expansão de terras agrícolas, maioritariamente para plantações de soja para a alimentação do gado, são os principais fatores de desmatamento da bioma da Amazônia. O presidente Lula propôs uma mudança para outra indústria lucrativa, uma com uma reputação mais verde: os biocombustíveis, que podem substituir os combustíveis fósseis. No entanto, as plantações que cultivam biocombustíveis também contribuem para o desmatamento. Um estudo recente pelo think thank Transport and Environment descobriu que, quando todos os seus impactos são contabilizados, os biocombustíveis causam 16% mais emissões que os combustíveis fósseis.

Isso aponta para uma falha incorrigível na discurso oficial sobre o clima. Para todos os principais participantes — ministros do governo, indústria lobistas e até mesmo os diretores de grandes ONGs — o inquestionável fundação de uma solução climática é uma economia baseada no crescimento organizada por governos. A questão fundamental na COP 0 e todas as anteriores conferências climáticas não é, “como paramos a mudança climática?” A questão com a qual eles estão trabalhando é: que respostas às mudanças climáticas são compatível com o poder do Estado e as economias baseadas no crescimento?” E a resposta eles se recusam a admitir é que respostas efetivas não são compatíveis com o sistema atual, porque este sistema em si — suas formas aceitáveis de organização política e econômica — são as causas profundas da crise.

Os investidores não estão no negócio de dar dinheiro a programas dos quais eles não pode tirar lucro. Culturas se empoderando plenamente, que são eco-centradas e comunais, que não tratam a terra como mercadoria, são a verdadeira solução — mas isso seria uma má notícia para os negócios e para todos os governos em todo o mundo que atrelam seu poder ao crescimento econômico. Não importa quantos representantes de povos marginalizados estão na mesa de diálogo: o crescimento econômico está em conflito com a vida neste planeta. Não podemos ter ambos.

Para todos nós tentando sobreviver em meio a catástrofes em série sobre um planeta sitiado, a escolha entre lucro e a vida não deveria ser uma escolha difícil.


Peter Gelderloos é um pesquisador independente, escritor anarquista e militante estadunidense, autor de diversas obras, incluindo o célebre livro Como a Não Violência Protege o Estado Anarquia Funciona.

Não Precisamos de Heróis – Notas Sobre o Assassinato de um CEO

Um evento próprio de nosso tempo: um vídeo de 30 segundos, um jovem encapuzado e de mochila atirando em um sujeito de meia idade, corpulento e de cabelos grisalhos se espalha em poucas horas nos noticiários e nas mídias sociais. Isso se dá menos pelo que se pode ver nele e mais pelo que ele testemunha. O homem atingido pelos três disparos do jovem encapuzado é Brian R. Thompson, CEO da United Healthcare (UHC), uma megacorporação estadunidense de seguro saúde que, até 2023, era dona da empresa Amil, no Brasil. Os detalhes da ação, que logo foram conhecidos, fazem crescer o interesse por ela: as três cápsulas de bala encontradas pela polícia na calçada em frente ao Hotel Hilton, no centro de Manhattan, levavam as inscrições: defender, negar, destituir (defend, deny, depose, em inglês). As palavras são uma evidente alusão à forma como as empresas de seguridade médica costumam responder aos seus segurados, quando precisam de um serviço mais complexo e se encontram evidentemente fragilizados física e mentalmente.  Algo muito semelhante ao que lobistas dos planos de saúde brasileiros já buscam fazer para negar procedimentos e tratamento a milhares de pacientes, uma vez que não são previstos como obrigatórios no rol da ANS. A diferença é que nos Estados Unidos não existe um sistema público e gratuito de saúde como o SUS, no Brasil.

Ano novo, antigos vícios.

A ação foi planejada e executada quase à perfeição. Um sujeito sozinho, se aproxima do alvo, dispara e foge correndo até encontrar uma bicicleta elétrica e sumir sem deixar rastros. Um trabalho paciente e dedicado que logrou êxito de forma admirável.

Todos sabem que o sistema de saúde nos EUA é um grande negócio (só em 2023, a UnitedHealth Group Incorporated, dona da UHC, arrecadou US$ 371,6 bilhões) que funciona para extorquir as pessoas precisamente em momentos nos quais economizar é a última coisa que passa pela cabeça. Além disso, UHC e outras companhias já implementam sistemas que usam inteligência artificial para avaliar, aprovar ou negar atendimento a clientes. Por isso, qualquer cidadão conhece uma história tenebrosa da relação com seguro saúde que, invariavelmente, também envolve batalhas judiciais.

Histórias vividas na própria pele ou na de amigos e parentes próximos. Mesmo em países onde há assistência médico-securitária estatal e gratuito, como Brasil e Inglaterra, planos de saúde são amplamente conhecidos como urubus que circundam os corpos de gente doente ou morta pelos seus atendentes, advogados e médicos, que ganham muito dinheiro com isso. Assim, não é exagero dizer que um CEO de uma megacorporação de seguro saúde é responsável direto e/ou indireto pelo sofrimento e a morte de muitas pessoas. E não surpreende, portanto, que a ação que matou Brian Thompson tenha sido recebida com simpatia por muitas pessoas e lida como um ato de justiça perpetrado por esse jovem de capuz.

Como é comum em tempos de comunicação instantânea, a ação foi capaz catalisar o sentimento de raiva e injustiça de milhares de pessoas no planeta, e logo viralizou e provocou uma enxurrada de comentários que alçaram o autor da ação ao paradoxal patamar de herói e procurado pela polícia. A UHC precisou retirar do ar a publicação das mídias sociais em que lamentava a morte de Thompson após receber mais de 40 mil reações e comentários de risos.

É compreensível — e até pare um pouco tardio — que uma pessoa comum decida atacar diretamente um CEO de uma empresa de saúde nos EUA. O que chama a atenção é o fato de alguém poderoso ser alvo de um cidadão comum. Quando é o contrário, e a ação de um executivo ou político resulta na vulnerabilidade ou morte de grupos inteiros de pessoas, isso é apenas mais uma “fatalidade”.

Como já se sabe, Mangione acabou capturado pela polícia. Seu sequestro por forças policiais se deu após a delação de uma pessoa que trabalhava numa lanchonete (a polícia simplesmente não existiria sem colaboração cidadã) e o herói de muitos, que catalisou o ódio latente por corporações em uma ação, está preso e será julgado. Se condenado em tribunal federal, pode encarar a pena de morte — pena que não foi aplicada nem mesmo a atiradores que mataram dezenas de crianças nos recorrentes tiroteios em escolas americanas. O que comprova que para o judiciário, a polícia, governos e a classe dominante, a vida de um dos seus é mais valiosa e motiva mais penalidades do que o assassinato em massa de cidadãos comuns.

 Risco de Neutralização do Conflito

Aqui começa um problema fundamental para os efeitos de uma ação como esta: a capacidade do sistema de justiça criminal e da mídia de neutralizar uma ação que, embora tenha sido perpetrada por um sujeito, expressa um sentimento coletivo de injustiça.

A espetacularização da ação e do seu autor e a individualização da responsabilidade criminal do ato criam a figura de um herói ao mesmo tempo em que o debate personaliza a “maldade” nos CEO’s, como se esse fossem proprietários ou a peça principal de uma empresa. É fácil esquecer que, no capitalismo financeiro, esses são apenas funcionários muito bem pagos, cujos salários milionários não chegam a um décimo do que ganham os reais donos da grana: os investidores. Para ficar em apenas um exemplo grosseiro, o CEO da Coca-Cola recebeu em 23 milhões de dólares em 2023. Enquanto isso, o investidor Warren Buffett recebeu da mesma empresa 776 milhões de dólares em dividendos apenas em 2024, uma fortuna que, diferente do CEO, não o obriga sequer a pagar imposto ao governo americano.

Portanto, mesmo dentro da lógica de bode expiatório, onde a classe dominante pode até aceitar a morte de um dos seus para se preservar enquanto grupo, sair individualmente disposto a alvejar CEOs pouco muda em uma luta para derrubar o Capitalismo, mesmo que isso promova avanços no debate sobre acesso a saúde e concentração de riquezas. O CEO é um alto funcionário. De um altíssimo escalão, é óbvio, mas apenas mais um funcionário.

Nem heróis nem mártires

Transformar Luigi Maggioni, a um só tempo, em herói e criminoso é a tática perfeita para que se fale de tudo, menos do mais importante: sua ação revela que é intolerável que a vida de milhões de pessoas esteja nas mãos de executivos que se hospedam em hotéis de luxo em Manhattan e fazem da vida e da morte um cálculo econômico. E que esses sejam apenas os funcionários de agentes que sequer sabemos o nome, mas os recursos que controlam determinam o destino de nações inteiras.

A essa altura, basta ter um smartphone na mão para se saber tudo sobre Luigi: onde estudou, o que gostava de ler, que música ouvia etc e etc. E, em torno dessas informações, especula-se sobre ele ser ou não de esquerda, sobre ter sofrido ou não com o plano de saúde em questão, sobre ser ou não um incel, ser bonito ou feio, sobre ter ligações com organizações políticas ou não etc., etc. Nada mais cômodo para os poderosos que Luigi e sua ação se tornem uma espécie de reality show que entretém os acomodados comentadores em sua passividade. Em pouco tempo, Luigi se torna uma espécie de duplo complementar de um personagem típico dos filmes policiais, um sujeito repleto de intenções nobres e assassinas, mas que é impedido pelo sistema de fazer justiça porque… as coisas são assim.

De quebra, o espetáculo persecutório que levou um atendente de uma rede de lanchonetes a delatá-lo (sempre tem um cagueta) cumpre o devido efeito dissuasório nas pessoas que, com razão, já pensaram em expressar violentamente sua raiva contra os donos do poder reunidos em salas pomposas das grandes corporações ou em congressos corporativos realizados em hotéis de luxo. Paradoxalmente, neste momento, interessa mais saber quem é e ao que serve Brian R. Thompson, do que especular sobre a vida do autor da ação.

Em relação Luigi Maggioni só interessa uma coisa: libertá-lo! O que ele fez ressoa em qualquer pessoa cuja saúde depende das escolhas de um executivo que tem as mãos, o quarto de hotel e seu cargo lavados de sangue de gente que paga planos de saúde para não morrer. Ninguém é inocente!

Para Além da Guilhotina e do Martírio: Uma Perspectiva Histórica

Precisamos olhar para ação de Luigi a luz da história das lutas libertárias e como um sintoma de nosso tempo. O chamado “período do terror anarquista”, do final do século XIX e começo do século XX, quando ações realizadas por anarquistas expropriadores ou regicidas se espalharam por todo mundo, revelou-se, hoje podemos dizer, como sinais de um clima geral de transformação social radical. Ações de anarquistas como Ravachol, Gaetano Bresci, Émile Henry e Severino Di Giovanni ou de grupos como Los Solidarios, Bando Bonnot e os Niilistas Russos, mais do que ações individuais ou simples roubos e assassinatos, eram a expressão da revolta latente na sociedade que dizia escandalosamente que as coisas não poderiam seguir daquela forma. Não à toa, essas ações eram seguidas ou associadas à grandes greves e mobilizações populares ou ao início de processo revolucionários como a Comuna de Paris, a Revolução Russa e a Revolução Espanhola.

Mais recentemente, os ataques à bomba contra uma delegacia de Santiago do Chile e contra Rodrigo Hinzpeter (ex-ministro do interior chileno, conhecido pela perseguição às lutas anárquicas e do povo Mapuche) em 2019, ambos reivindicados pelo anarquista Francisco Solar. Sob a acusação de participação nestes e em outros atentados aos poderosos e ao bairro dos ricos em Santiago, Francisco e Mónica Caballero seguem atrás das grades desde 2020. Os ataques ocorreram no contexto da insurreição que tomou as ruas naquele território, com atos gigantescos e enfrentamentos massivos diários com a polícia. Em resumo, nestes e em vários outros casos que poderíamos mencionar, não se trata de um ato individual, embora tenha sido perpetrado por um único sujeito ou por um pequeno grupo.

Por isso, devemos ter mais ambição e pensar para além do espetáculo do CEO e seu algoz. Já abordamos isso em outro texto sobre o assassinato de políticos e poderosos:

Anarquistas e socialistas já mataram presidentes e reis. Mas será que conseguiram alguma mudança sistêmica profunda com ações isoladas para eliminar certos indivíduos em posições de poder? Os fatos levam a crer que não, pois as instituições que acumulam poder continuaram intactas e operando com carne sempre nova. Bakunin nos alertou também sobre essa questão quando disse que “as carnificinas políticas nunca mataram os partidos; mostraram-se, sobretudo, impotentes contra as classes privilegiadas, porque a força reside menos nos homens do que nas posições ocupadas pelos homens privilegiados na organização das coisas”.

O debate é tão antigo quanto a luta por liberdade dos povos. E faz tempo que anarquistas se dedicam a apontar que os maiores inimigos são instituições políticas e econômicas controlando os recursos, a cultura, as leis e violência legítima.

Por aqui no Brasil, alguns debates entre anarquistas já escolhem o caminho do elogio e do aplauso puro e simples. Como radicais pensando e atuando no mundo de hoje, queremos mais do que convidar para uma luta de autossacrifício ou pela execução sumária de nossos inimigos. Entraremos em conflito e devemos vencer, mesmo que sangue seja derramado. Mas, como dizem combatentes anarquistas em Rojava, “a luta não é pelo martírio, mas pela vida”.  Mesmo sabendo do risco de matar e morrer numa guerra aberta, ou na luta cotidiana contra a classe dominante e suas forças de segurança, a morte, a dor ou a prisão não são o objetivo dessa luta. Assim como não é parte do nosso projeto erguer novas guilhotinas, paredões e cadafalsos para nossos nossos inimigos de classe, como fizeram os Bolcheviques e o os Jacobinos antes deles.

Independentemente da opinião e dos planos de grupos ou teorias anticapitalistas, eventos como o assassinado do CEO ou o sacrifício daqueles que, como do tuniziano Mohamed Bouazizi ou do estadunidense Aaron Bushnell vão acontecer cada vez mais em uma sociedade capitalista em franca decadência. E é nosso papel também não fazer com que eventuais sacrifícios sejam em vão. Precisamos avançar o debate e aprimorar as ações coletivamente.

Escapemos das especulações e dos espetáculos. Diante da perseguição policial, do assédio jurídico e da algaravia midiática, tenhamos a coragem de dizer que qualquer pessoa já pensou em se vingar de um patrão, um político ou policial. E isso não faz de ninguém um herói, mas um sujeito comum que sente que a existência de bilionários e seus capangas é intolerável!

E “não se trata, neste momento, de uma questão de conscientização, mas sim de jogos de poder claramente dispostos. Evidentemente sou o primeiro a encarar isso com uma honestidade tão brutal”. E que não seja o último!

Ninguém é inocente! Vivemos na guerra social! Não precisamos de heróis!


Para saber mais:

Organizar a morte do Estado e do Capital, não de pessoas – perspectivas revolucionárias sobre atentados e assassinato de poderosos

Antinomia #128: Luigi Mangione

Sacrificial Violence and Retribution, coletivo CrimethInc.

“NÃO TEMOS MEDO DAS RUÍNAS”: DECLARAÇÃO DE TÊKOŞÎNA ANARŞÎST SOBRE ATUAL SITUAÇÃO EM ROJAVA

Desde 2020, a guerra civil na Síria não sofreu grandes desdobramentos. Com a Rússia, maior aliada do regime sírio, ocupada com a invasão da Ucrânia, e o Irã distraído com as agressões de Israel em Gaza e no Líbano, as forças jihadistas, como o grupo Hayat Tahrir al-Sham (HTS), tomaram Aleppo, cidade mais importante no norte da Síria, desafiando o poder do ditador Bashar al-Assad e impondo nova ameaça à luta por liberdade e a revolução social em Rojava. Em em meio a esses eventos, o grupo Tekoşîna Anarşîst (Luta Anarquista/TA), atuando em Rojava há pelo menos 5 anos, lançou um comunicado sobre a situação e sua posição diante dos novos desdobramentos da guerra civil síria.

entrevistamos companheiros do TA em 2020 e traduzimos uma outra entrevista feita pela da federação Anarquista uruguaia (fAu) aqui em nosso blog. Convidamos a todas as pessoas interessadas na superação do capitalismo, do fascismo, do patriarcado e do colonialismo a conhecer o processo revolucionário em Rojava e a contribuição de anarquistas em solo para essas lutas. A tradução do artigo abaixo foi feita pela editora Terra Sem Amos.


“NÃO TEMOS MEDO DAS RUÍNAS”

Há mais de cinco anos, as Forças Democráticas Sírias (SDF) puseram fim ao califado do Estado Islâmico (ISIS). Agora, com a nova ofensiva do Hayat Tahrir al-Sham (HTS), corremos o risco de reviver suas atrocidades. O HTS uniu diversos grupos jihadistas, incluindo ex-combatentes do califado em suas fileiras. Recentemente, eles iniciaram uma grande ofensiva, rompendo o cerco de Idlib e provocando o colapso do Exército Árabe Sírio (SAA). Aleppo foi a primeira grande cidade capturada, com a apreensão de grandes quantidades de armamento avançado deixado para trás por soldados do regime.

As SDF reagiram rapidamente, enviando reforços para proteger o bairro curdo de Sheh Maqsoud, em Aleppo, bem como os campos de refugiados na região de Sheba. No entanto, as forças que representam o exército turco, o Exército Nacional Sírio (SNA), iniciaram uma nova ofensiva coordenada com o HTS, invadindo essa mesma região de Sheba. Os refugiados deslocados pela invasão turca de Afrin em 2018 são, mais uma vez, forçados a abandonar seus lares sob a mira de armas. Mais de 100.000 pessoas agora buscam abrigo em tendas improvisadas às margens do rio Eufrates, ainda ameaçadas por novos avanços de grupos jihadistas.

Esses novos desdobramentos agravam a instabilidade no Oriente Médio e devem ser analisados em conjunto com outros conflitos em curso na região. A ocupação israelense de Gaza, juntamente com os ataques contra o Hezbollah, enfraqueceram a posição do Irã na Síria, limitando sua capacidade de apoiar o SAA. Tropas russas, também enfraquecidas após quase três anos de guerra na Ucrânia, abandonaram várias posições terrestres e estão bombardeando brutalmente Idlib e Aleppo. Os Estados Unidos tentam se manter fora do conflito, sabendo que Trump pode pressionar pela retirada de suas tropas do território sírio. Os soldados turcos ainda não estão abertamente envolvidos, mas o Estado turco está mexendo os pausinhos do SNA para continuar suas políticas genocidas contra o povo curdo. Assad está tentando obter apoio internacional de outros países árabes, e o Irã já começou a enviar reforços para uma contraofensiva conjunta com o SAA. Em meio a esse caos, a Revolução de Rojava e o Movimento de Libertação Curdo resistem como a principal esperança para revolucionários no Oriente Médio.

A maior movimentação de forças na Síria nos últimos cinco anos está em curso e pode ter implicações que ainda não conseguimos prever. É uma situação complexa, e vemos como muitos jornalistas têm dificuldade em compreendê-la. Grande parte da mídia ocidental tem sido complacente com o avanço do HTS, chegando até a chamá-los de oposição revolucionária, “rebeldes” contra a ditadura de Assad. Também desejamos a queda do regime, mas o HTS e seu “governo de salvação” não são uma solução libertadora. Seu objetivo é substituir a dinastia Assad por leis da sharia e um estado islâmico, pouco diferente do que o Talibã está fazendo no Afeganistão ou do que a República Islâmica do Irã tem feito desde 1979. Esse não é um futuro que podemos aceitar, e muitos sírios também não aceitarão.

Nós, como anarquistas e internacionalistas em Rojava, desempenharemos nosso papel nesses tempos desafiadores. Lutaremos ao lado das SDF para defender e expandir o projeto revolucionário, construindo uma sociedade sem Estado onde prevaleçam os princípios do confederalismo democrático, pluralismo e da revolução das mulheres. Conclamamos todas as forças anarquistas e outros movimentos revolucionários, agora mais do que nunca, a defender Rojava!

Sabemos que a guerra traz sofrimento e destruição, mas também pode abrir oportunidades para uma vida livre para aqueles que estão prontos. Vimos o que a vitória sobre o ISIS nos possibilitou e estamos prontos para continuar lutando por um futuro melhor. Porque não temos medo de ruínas!

Muitos camaradas estão perguntando: O que posso fazer para apoiar a revolução?
  • Viajar para o Nordeste da Síria (NES) não é possível no momento, pois as fronteiras estão fechadas. Mas você pode garantir que o que está acontecendo na Síria seja conhecido, escrevendo artigos, realizando entrevistas, podcasts, organizando palestras e eventos em coordenação com comitês de solidariedade já existentes.
  • Se houver manifestações de solidariedade em sua região, participe e apoie! Se não houver, talvez você possa organizá-las!
  • Você também pode fornecer apoio econômico aos mais necessitados, já que a crise humanitária atual é crítica e requer nossa atenção. Para isso, a Heyva Sor, uma organização independente, já está trabalhando para apoiar e prover assistência aos afetados pela guerra no nordeste da Síria.

Isto está longe de acabar. Mantenha-se informado e prepare-se para os próximos acontecimentos!


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