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A SOCIEDADE CONTRA O ESTADO: libertário é sinônimo de anarquista

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Capitalistas vivem do roubo:
Uma breve introdução:

No dia 4 de agosto de 2019, o caderno Ilustríssima do jornal Folha de S. Paulo estampou em sua capa uma reportagem enaltecendo os ultraliberais que se intitulam “anarcocapitalistas”. Foi apenas mais um de uma série de artigos, como os de Hélio Beltrão – nada menos que o presidente do Instituto Mises Brasil – que estreou em abril como colunista naquela mesma Folha. O jornal, como isso, está apenas sendo condizente com o pluralismo liberal e com os falsos princípios de neutralidade (leia-se: alinhamento ao poder) e liberdade de expressão (fala quem tem poder para falar). Sabemos muito bem dos limites de veículos de imprensa com um histórico de apoio à Ditadura Civil-Militar (1964-1985) e defesa dos interesses da burguesia agroindustrial do sudeste do país. Quanto a isso não temos dúvidas.

Mesmo sabendo disso, após a divulgação do artigo intitulado “Quem são os libertários e anarcocapitalistas, que pregam o fim do Estado”, os professores universitários Camila Jourdan (UERJ) e Acácio Augusto (UNIFESP) enviaram à Folha uma resposta dos anarquistas com o intuito de desfazer enganos e rebater desonestidades históricas quanto ao uso de palavras como “anarco”, “anarquismo” e “libertário”. O jornal aceitou publicar. É sabido que tais grupos ultraliberais são financiados por think tanks empresariais de dentro e de fora do país e que isso os afasta em muito do anarquismo histórico e do presente. No entanto, embora tenha aceito publicar a resposta, o artigo de nossos camaradas anarquistas supostamente não “coube” na íntegra nas páginas do jornal, mesmo sendo um texto mais enxuto que o sobre os ultraliberais. Sendo assim, tivemos acesso ao seu conteúdo original completo (hacker aqui!) e o divulgamos agora como artigo e PDF para leitura e impressão.

Por favor, leiam, discutam, difundam a informação e busquemos estimular o debate factual e honesto sobre a história e as ideias anarquistas.

Pelo fim do Estado, mas para o benefício das pessoas, das classes oprimidas, do meio ambiente e do planeta, não para atender os interesses da burguesia liberal capitalista.

Pelo fim do Capitalismo, mas também da propriedade privada, das polícias, das prisões, dos tribunais e da burocracia, para que todas as pessoas sejam livres para se associar e não para que tenhamos que competir pela escassez artificial de recursos e terras; nem para que gestores de esquerda ou de direita usem o Estado para amortecer e apenas atrasar a catástrofe mundial em curso produzida pelo Capital e seus agentes públicos e privados.

Viva a anarquia! Sem Estado, sem patrão e sem polícia!

***

A SOCIEDADE CONTRA O ESTADO: libertário é sinônimo de anarquista

Recentemente a Folha S. Paulo publicou uma matéria de Fábio Zanini que apresenta o crescimento de grupos e intelectuais autodenominados “anarcocapitalistas” ou “libertários”1, associados ao libertarianismo ou ordoliberalismo, correntes derivadas da praxeologia da Escola Austríaca e dos chamados “ultraliberais” estadunidenses. Enquanto pesquisadores libertários, vemos esta linha de pensamento como situada nas antípodas dos anarquismos, tanto do anarquismo histórico como das diversas correntes anarquistas contemporâneas. Isso poderia ser argumentado pela própria história do movimento, que rechaça o uso de seus termos por liberais, ultraliberais, libetarianos e oportunistas aninhados na burocracia do atual governo.

A palavra anarquia é mobilizada na política moderna inicialmente pela literatura contratualista e jusnaturalista. A vida sem governo, para autores como Thomas Hobbes ou Jean Jacques Rousseau, era a selvageria, a brutalidade, o arbítrio, o caos. Será Pierre Joseph Proudhon quem, pela primeira vez, inverterá esse entendimento da palavra anarquia, usando-a para nomear suas proposições no clássico livro, de 1840, “O que é a propriedade? ou Pesquisa sobre o Princípio do Direito e do Governo”. Para ele, anarquia é ordem. Esse é o paradoxo derivado da mobilização política de trabalhadores no século XIX e que depois será chamada, no seio da Primeira Associação Internacional dos Trabalhadores (AIT de 1864), de socialismo libertário.

– Congresso da Associação Internacional dos Trabalhadores, Suíça 1866

A anarquia, modernamente, seja como movimento social ou elaboração analítica, nasce como crítica simultânea ao regime da propriedade (capitalismo) e aos sistemas de governo (estatismo), seu significado literal é ausência de governo. Proudhon acrescenta, ainda, uma crítica à direção das consciências, a qual implica não só o anticlericalismo anarquista, como a recusa em se apresentar como vanguarda iluminada dos trabalhadores, seu guia necessário para a revolução. Isto é algo que aparece tanto nas correspondências de Proudhon com Karl Marx, quanto nas polêmicas acaloradas desse último com Mikhail Bakunin no interior da AIT.

São mais de 150 anos de história de lutas, experiências, experimentações, proposições, análises. Tudo fartamente documentado em livros, trabalhos de pesquisa dentro e fora das universidades em todo planeta, arquivos mantidos por militantes e/ou pesquisadores, memórias e imagens. A anarquia e os anarquismos atravessam a história moderna até os dias de hoje em associação com diversas lutas políticas, sociais e culturais: o movimento dos trabalhadores e o sindicalismo, a luta contra o fascismo e a oposição à guerra de nações, a invenção de práticas educativas livres e uma ampla cultura libertária, a contestação ao terror de Estado de todas as cores, a liberdade das mulheres e os feminismos, a radical oposição ao racismo, os movimentos de juventude no pós II Guerra Mundial, a oposição à destruição ecológica, as lutas contra o colonialismo. Hoje, a anarquia é visível nas lutas anticapitalistas contemporâneas, desde o movimento antiglobalização no final do século XX até as atuais mobilizações de rua, como aquelas contra as políticas de austeridade na Grécia (desde 2008), o Occupy Wall Street (2011) nos EUA, o movimento dos Indignados na Espanha (2011) e o Junho de 2013 no Brasil, entre outros.

– Bandeira vermelha e negra anarquista nas ruas de São Paulo, 2013

A despeito da relevância histórica, social e cultural que a anarquia e os anarquismos sempre tiveram na política moderna, não é incomum seja na mídia, seja no imaginário do senso comum, a representação dos anarquistas como terroristas perigosos e inconsequentes. Na dogmática da esquerda tradicional, os anarquistas são retratados como pequeno-burgueses portadores de uma “doença infantil”, ou como coisa de jovens idealistas que ainda não atingiram uma compreensão pragmática da realidade. Mesmo em áreas especializadas das Ciências Humanas, o pensamento anarquista é seguidamente distorcido ou menosprezado como algo pré-político ou carente de complexidade. Em resumo, seja no senso comum, na ciência ou nas chamadas ideologias políticas (à direta e à esquerda), a anarquia sempre foi encarada como uma força estranha. Nos últimos 40 anos, entretanto, trabalhos acadêmicos em todo planeta e de diversas áreas de saber (da física teórica à antropologia e à ciência política) estão demonstrando que essa força estranha é uma potente perspectiva de interpelação da realidade. De um ponto de vista histórico-político, a crise sistêmica das democracias no presente contexto pós-Guerra Fria e de declínio da euforia da globalização vem mostrando que as críticas do chamado anarquismo clássico tanto ao socialismo soviético quanto ao capitalismo global se confirmam uma a uma.

E eis que, mais uma vez, forças políticas se interpõem, agora não para desqualificar os anarquistas, mas num esforço em se apropriar de parte de suas ideias e palavras. A associação dos anarquismos, e de sua defesa da ausência de Estado enquanto ausência de governo, com o ultraliberalismo é uma apropriação arbitrária de elementos teóricos fora do contexto no qual se desenvolveram; é, na verdade, uma confusão deliberada, que desconsidera características essenciais das correntes de pensamento em questão. Ao se obliterar ou minimizar sutilmente tais diferenças radicais, aproximando assim perspectivas antagônicas, termina-se por esvaziar o anarquismo de qualquer sentido.

A anarquia emerge na história como fundamentalmente anticapitalista, como uma forma de socialismo que acreditava que a libertação total dos trabalhadores só seria possível com o fim do Estado. Uma aposta na capacidade política da classe trabalhadora no século XIX. A igualdade social como o fim das classes e das opressões só estaria completa com o fim das hierarquias políticas, das quais o Estado seria a principal expressão e fonte de manutenção. Isso significa que Estado e capitalismo estão intimamente relacionados e se mantêm mutuamente na modernidade. O Estado moderno nada mais é do que a expressão política do desenvolvimento capitalista pós-revolução industrial. A política e a economia não são separáveis, pois são dois lados de uma mesma moeda. Da mesma forma, igualdade e liberdade não são noções antagônicas ou distintas, mas complementares. Não existe igualdade sem liberdade, nem liberdade sem igualdade. Não é possível haver uma sociedade sem classes mas com Estado, por um lado; nem ausência de hierarquias políticas e opressões com desigualdade social e econômica, por outro. Para anarquistas a liberdade de um não termina onde começa a do outro, ao contrário, se potencializam mutuamente; essa é uma diferença radical com qualquer variação do liberalismo.

– Mujere Libres da Federação Anarquista Iberica na Revolução Espanhola, 1936

As análises feitas por gerações de militantes que desenvolveram a tradição libertária de pensamento demonstram como o Estado e o capitalismo andam juntos na história moderna. Por isso, uma noção como a de “anarcocapitalismo” não faz qualquer sentido, uma vez que defender o primado do capital implica aceitar uma forma de Estado — em particular, mas não exclusivamente, um Estado maximamente dedicado a suas funções clássicas de vigilância, controle, gestão da população e repressão. Reciprocamente, defender de fato a igualdade social implica querer a liberdade e, com isso, o fim das hierarquias e de qualquer forma de organização estatal. A associação entre anarquia e capitalismo, ausência de Estado e manutenção da propriedade — privada ou estatal — só pode ser defendida por má fé ou por incompreensão do que significam os conceitos de Estado e de capitalismo. Como coloca Proudhon ao federalismo, política corresponde o mutualismo econômico, isto é, anarquia e autogestão.

A identificação entre socialismo e uma organização estatal centralizada responsável por uma economia planificada deriva de uma certa leitura de Karl Marx e da experiência da URSS, mas é absolutamente estranha a qualquer forma de anarquia. As principais experiências de organização social visando a transformação revolucionária da sociedade envolveram sistemas de autogestão ou conselhos de trabalhadores, destituindo assim qualquer gerência estatal e/ou privada, bem como qualquer poder político de tipo hierárquico. Desconsiderar isso é ignorar a história das experiências revolucionárias e das organizações sociais. A história passada e, acrescentemos, presente: cite-se aqui, para lembrar que não estamos falando de utopias irrealizáveis, a experiência Zapatista no México, cujos territórios autônomos se organizam de maneira federalista libertária, sem Estado e de modo comunal, e o confederalismo libertário de Rojava, no território de ocupação majoritariamente curdo que derrotou o Daesh e hoje está sob ameaça militar do Estado turco.

– Unidades de Defesa das Mulheres, YPJ, em Rojava, Norte da Síria, 2014

O que, então, seria um ultraliberalismo? Primeiramente, a noção de “Estado mínimo” é uma ficção teórica. A forma-Estado é uma razão política elementar, um dispositivo semiótico-material de captura de todas as relações sociais, sendo assim de difícil ou impossível medição em termos de intensidade. Não existe menos Estado, assim como uma mulher não fica menos grávida. Ademais, como já dito, política e economia não se separam e, assim, poder econômico sempre foi e sempre será poder político. Diante deste fato, não faz sentido pensar em uma sociedade mais horizontal com uma radicalização de desigualdades; o que se tem, de fato, é um aumento do poder político de certas corporações que cumprem muito bem o papel de Estado (mesmo que não recebam este nome, as palavras não são as coisas). Elas podem substituir o Estado, cumprindo a mesma função que ele, ou o Estado nada mais é do que uma expressão (um braço armado?) deste poder econômico, o que na prática não faz tanta diferença. Não é por acaso que os partidários do suposto anarcocapitalismo, que de “anarco” não tem nada, afirmam que o aparato policial e jurídico seriam os últimos a serem alterados. E aqui, ironicamente, se assemelham pelo avesso aos seus adversários estatistas, os leninistas, que acreditam que o Estado definharia gradualmente, após a correção das desigualdades por meio do planejamento econômico centralizado. O Estado ultraliberal é, como todo Estado, o Estado policial. Esta é também uma das razões pelas quais nunca houve capitalismo sem Estado, nem haverá Estado sem capitalismo. A pretensão, à direita ou a esquerda, de se abolir um sem abolir o outro sempre acabará em restauração da parte supostamente abolida.

Com o crescimento dos conflitos sociais, próprios ao crescimento da desigualdade, o Estado policial, hoje, é evidente tanto no centro quanto na periferia do capitalismo global. O princípio do Estado é o princípio da propriedade, e o princípio da propriedade é o ato de “descomunhão” do comum, de exclusão: é a instituição de uma diferença fundamental entre interior e exterior, e a aplicação de violência para a estabilização dessa diferença. O Estado é a propriedade de um território que substitui a comunidade deste, substitui ao mesmo tempo que a coloca sob seu jugo. A Liberland, citada da matéria, nada mais é que um microestado ou uma microempresa, o que dá na mesma.

Capitalismo na era digital: a uberização da vida é a precarização disfarçada de autonomia; feudalismo com uma maquiagem de empreendedorismo individual

Vê-se também como seria contraditório falar em capitalismo sem Estado— exatamente a mesma contradição envolvida ao se falar em capitalismo sem propriedade. Mas não seria pensável um Estado que, pelo menos, não interviesse na economia? Isso também é falso. Se sabemos que política e economia são dois lados da mesma moeda, sempre se está intervindo também na economia mantendo-se a desigualdade econômica. Apenas por vezes esta intervenção não é evidente. Mas é importante ressaltar que é mesmo ‘apenas por vezes’, porque nas recentes grandes crises econômicas (desde 2008), quando as grandes instituições financeiras estiveram ameaçadas, a intervenção estatal precisou ser direta em socorro a estas instituições, o que sabemos se repetirá quantas vezes forem necessárias.

Conclui-se que não faz sentido falar em anarquia com capitalismo, já que o anarquismo se funda na equivalência entre liberdade e igualdade. Isso ocorre não em uma sociedade sem Estado, mas em uma sociedade contra o Estado. Ou seja, organizada de forma a impedir que o poder político estabeleça privilégios sociais e econômicos, conforme observou o antropólogo Pierre Clastres entre muitos povos ameríndios de nosso continente. Uma sociedade horizontal, sem instituições hierárquicas, incompatível com as diferenças sociais, políticas e econômicas que constituem o capitalismo. Ao mesmo tempo, não pode haver capitalismo sem Estado, já que a manutenção da propriedade privada dos meios de produção, reprodução e manutenção da vida institui imediamentamente a forma estatal no seio social. As corporações, empresas, os empreendedores de si, a própria forma empresa que invadiu todos os âmbitos da nossa existência hoje, nada mais são que micro-estados propagados pela sociedade. O Estado surge com a organização hierárquica que estabelece desigualdades no acesso ao meios de produção e reprodução da vida. O que o capitalismo parece abolir é justamente a coletividade horizontal que o Estado supostamente substitui. E, neste sentido, o capitalismo é a forma-Estado por excelência. Ser anticapitalista é ser, antes de tudo, antiestatal.

Resta que a moda entre os neoliberais que se denominam anarcocapitalistas é apenas isso, uma moda. Não possui consistência histórica, teórica ou material. Quando muito se configura em mais uma tática que busca neutralizar a crítica e prática radicais dos anarquistas que tomam como alvo simultâneo de suas lutas o Estado e o Mercado. Em tempo, cabe registrar que como capitalistas que se autodenominam libertários estão a praticar a atividade essencial dos proprietários, sublinhada por Proudhon em 1840: o roubo. Pois a palavra libertário, forjada pelo poeta anarquista Joseph Déjacque, foi retomada por Sebatién Faure e Louise Michel para nomear o jornal que criaram no final do século XIX, quando se dizer anarquista significava risco de morte devido ao rescaldo da repressão à Comuna de Paris (1871) e o corrente Processo do Trinta, que chegou a prender Piotr Kropotkin. Logo, anarquista e libertário, são sinônimos. É desonestidade usar a palavra para nomear precisamente o que as lutas anarquistas combatem a mais de um século e meio.

As palavras não são representações estéreis da realidade, são objeto e resultante de lutas. Numa conjuntura em que o dito ultraliberalismo se mostra triunfante em todo o planeta, ocupando cargos nas burocracias de governos ultraconservadores que flertam com as formas históricas do fascismo, ver uma parcela desse conservadorismo buscando se apropriar de palavras como libertário e anarco apenas atesta que a luta dos anarquistas os fazem tremer por seus privilégios. Que se refugiem, então, na inóspita Liberland, pois sabemos que a hora mais escura da noite é aquela que precede a manhã mais radiante.

Camila Jourdan

Anarquista e autora do livro “2013 – Memórias e Resistência”. É professora adjunta de filosofia da Universidade do Estado do Rio de Janeiro

Acácio Augusto

Anarquista, punk e pesquisador no Nu-Sol (núcleo de sociabilidade libertária). Autor de livros como “Política e polícia: cuidados, controles e penalizações de jovens” (Lamparina, 2013) e “Anarquia y lucha antipolítica – ayer y hoy” (NoLibros, 2019). Coordenador do LASInTec e Professor no Departamento de Relações Internacionais da UNIFESP.

 

1 Fábio Zanini. “Quem são os libertários e anarcocapitalistas, que pregam o fim do Estado” In Folha de S. Paulo. Ilustríssima. 04 de agosto de 2019. Disponível em https://www1.folha.uol.com.br/ilustrissima/2019/08/quem-sao-os-libertarios-e-anarcocapitalistas-que-pregam-o-fim-do-estado.shtml

PORQUE NÃO FAZEMOS DEMANDAS

Estamos em um momento delicado e determinante no Brasil. A direita finalmente conseguiu eleger com voto popular uma das suas piores figuras, o plano B (ou C), o baixo clero, que veio à tona após as polarizações firmadas após as eleições de 2014 e o impeachment de 2016. Com o PT, vimos a social democracia aliada a uma economia neoliberal que permitiu medidas de transferência de renda como Bolsa Família e maior acesso a educação, saúde e emprego. Mas o clima mudou ainda com Dilma Rousseff no poder e com Michel Temer vimos a austeridade iniciada ainda no fim do governo PT ser transformada em um ataque ainda maior a direitos trabalhistas, ambientais e das minorias. No governo Bolsonaro não será diferente. Cortes na educação, reforma na Previdência, ataque a leis e órgãos que protegem minimamente minorias, povos indígenas florestas. As mortes nas periferias batem recorde. Em meio a tantas ofensivas que desmontam os poucos direitos e conquistas históricas das classes oprimidas, é fácil nos perder apenas reagindo a tantas ameaças e perdas concretas. Como não deixar os movimentos radicais e anticapitalistas serem tragados pela constante necessidade de reagir a agenda de nossos inimigos? Como manter nossa própria agenda enquanto tentamos não perder o que foi conquistado ao longo de séculos de luta? Como não esquecer que, para além das demandas e das reformas, precisamos construir uma luta de longo prazo pelo fim do Estado e do Capitalismo em um nível nada menos que global? Essa é a contribuição de anarquistas para uma crítica construtiva da política de demandas únicas. Se não vamos destruir o Capital uma demanda de cada vez, precisamos ter em mente que nossa luta e nossa agenda somos nós que fazemos.

Porque não fazemos demandas.

De ocupações de praças e escolas a poderosas insurreições populares, sempre que surgem grandes movimentos sociais, os comentários mais comuns na mídia e nas ruas os acusam de não possuírem demandas concretas. Por que os descontentes não resumem os seus objetivos em pautas coerentes? Por que não elegem representantes que possam negociar com as autoridades de forma a fomentar uma agenda concreta através dos canais institucionais adequados? Por que estes movimentos não se expressam em uma linguagem comum, usando meios já consagrados?

Frequentemente isso não passa de uma retórica dissimulada usada por aqueles que gostariam que os movimentos se limitassem a demandas bem comportadas. Quando perseguimos objetivos que eles preferem não reconhecer, nos acusam de sermos irracionais ou incoerentes. Compare a Marcha Popular pelo Clima de 2014 em Nova Iorque, com as revoltas ocorridas em Baltimore em abril de 2015 quando a polícia matou um jovem negro. A Marcha juntou 400 mil pessoas com uma mensagem simples ao mesmo tempo em que fazia tão pouco para protestar que a polícia não precisou fazer uma prisão sequer. Quando foi a última vez que 400 mil pessoas se reuniram em Nova Iorque sem que a polícia prendesse alguém? Aquilo foi mais uma válvula de escape do que um protesto propriamente dito, mais uma forma de pacificação ativa — uma forma de diminuir os atritos entre os manifestantes e a ordem à qual eles se opunham. Muitos louvaram a Marcha Pelo Clima enquanto tachavam as revoltas de Baltimore como irracionais, inconscientes e ineficazes; ainda assim a Marcha Pelo Clima teve pouco impacto concreto, enquanto as revoltas de Baltimore obrigaram o Procurador Geral a formalizar acusações contra policiais, algo praticamente sem precedentes. Você pode apostar que se 400 mil pessoas respondessem às mudanças climáticas da forma como milhares responderam ao assassinato de Freddie Gray, os políticos mudariam suas prioridades.

Mesmo as pessoas que pedem por demandas com as melhores intenções geralmente consideram a falta delas mais como omissão do que uma escolha estratégica. Ainda assim, os movimentos que agem dessa forma hoje não são uma expressão de falta de maturidade, mas sim uma resposta pragmática ao impasse que caracteriza todo o sistema político atual.

“Reformas que alcançam
ganhos de curto prazo
geralmente montam o
cenário para problemas
de longo prazo.”

Você deve pensar que se fosse fácil para as autoridades atender às exigências dos manifestantes deveríamos ver isso mais vezes. Na verdade, de Obama ao Syriza, nem mesmo os políticos mais idealistas foram capazes de cumprir as promessas de reforma com as quais se elegeram. O fato de terem sido formalizadas denúncias contra os assassinos de Freddie Gray após as revoltas de Baltimore sugere que a única forma de fazer algum avanço seria dar um fim à lógica de proposição de demandas.

Portanto, o problema não é que faltam demandas aos movimentos de hoje; o problema é a própria política de demandas. Se buscamos realizar mudanças estruturais, precisamos elaborar nossas agendas fora dos limites dos discursos daqueles que detêm o poder, fora da moldura das suas instituições. Devemos parar de apresentar demandas e passar a definir objetivos. Eis aqui o motivo.

Elaborar demandas nos coloca em uma posição inferior de negociação.

Mesmo que sua intenção seja de apenas negociar, você se coloca em uma posição inferior de barganha ao deixar claro desde o início qual é o mínimo necessário que vai satisfazer suas demandas. Nenhum negociador minimamente astuto começa fazendo concessões de início. É mais inteligente parecer implacável: então você deseja chegar a um acordo e dar um fim aos protestos? Faça-nos uma oferta. Enquanto isso, vamos continuar aqui bloqueando as rodovias e ateando fogo nas coisas.

Não existe moeda de troca maior que a capacidade de implementar por nós mesmos as mudanças que queremos, superando as instituições oficiais. Aliás, esse é o verdadeiro sentido da ação direta. Sempre que formos capazes de fazer isso, as autoridades vão competir inutilmente para nos oferecer tudo o que havíamos exigido. Por exemplo, a decisão do julgamento de Roe vs. Wade que tornou o aborto legal ocorreu apenas depois que grupos como o Coletivo Jane criaram redes auto-organizadas que realizavam abortos acessíveis a dezenas de milhares de mulheres.

É claro, comunidades que podem implementar diretamente as mudanças que desejam não precisam fazer exigências a ninguém — e quanto antes reconhecerem isso, melhor. Lembre-se como o povo bósnio ateou fogo em prédios do governo em Fevereiro de 2014, e depois realizou plenárias para formular demandas para apresentar a esse mesmo governo. Um ano depois, não receberam nenhuma atenção às suas demandas e sim acusações criminais, e o governo voltou a se erguer tão estável e corrupto quanto antes.

Após 2013, achar os “20 centavos” parecia mais decisivo que o poder da revolta popular para pressionar autoridades. Desde aquela vitória, a clareza e a concretude das demandas não barram mais nenhum aumento.

Limitar um movimento a demandas específicas sufoca a diversidade, condenando-o ao fracasso.

A sabedoria convencional diz que os movimentos precisam se reunir em torno de demandas. Sem demandas, ele seria difuso, efêmero, ineficaz.

Mas as pessoas que possuem demandas diferentes, ou não possuem demanda nenhuma, ainda assim podem ajudar a construir o poder popular coletivamente. Se entendermos os movimentos como espaços de diálogo, coordenação e ação, é fácil imaginar como um único movimento pode representar uma diversidade de agendas. Quanto mais horizontalmente organizado ele for, mais ele será capaz de acomodar objetivos diferentes.

A verdade é que praticamente todos os movimentos naufragam em razão de conflitos sobre como se organizar e sobre como definir suas prioridades. A necessidade de apresentar demandas concretas geralmente surge como uma disputa de poder entre facções dentro dos próprios movimentos que já se encontram melhor investidas pelas instituições dominantes, como uma forma de deslegitimar aqueles que querem construir o poder autonomamente ao invés de simplesmente pleitear junto às autoridades. Isto coloca de forma equivocada diferenças políticas genuínas como se fossem o caso de simples desorganização, e a verdadeira oposição às estruturas de governança como ingenuidade política.

“Nenhuma corporação irá impedir o aquecimento global; nenhuma agência do governo irá parar de espionar a população; nenhuma força policial irá abolir o privilégio branco.”

Forçar um movimento diversificado a reduzir sua agenda a um número específico de demandas inevitavelmente consolida o poder nas mãos de uma minoria. Pois quem decide quais demandas serão prioridade? Geralmente, são as mesmas pessoas que detêm uma fatia enorme de poder em nossas sociedades: indivíduos geralmente brancos e bem sucedidos devidamente versados no funcionamento do poder institucional e da mídia corporativa. As pessoas já marginalizadas são marginalizadas novamente dentro de seus movimentos em nome da eficiência.

Agir dessa forma raramente serve para tornar um movimento mais eficaz. Um movimento com espaço para as diferenças pode crescer; um movimento fundado na unanimidade se retrai. Um movimento que inclui uma multiplicidade de agendas é flexível, imprevisível; é difícil cooptá-lo, difícil de convencer seus membros a abrir mão de sua autonomia em troca de umas poucas concessões. Um movimento que preza pela uniformidade redutiva está condenado a alienar um segmento após o outro à medida em que subordina suas necessidades e preocupações.

Um movimento capaz de incorporar uma variedade de perspectivas e de críticas pode desenvolver estratégias mais compreensivas e multifacetadas que uma campanha de tema único. Forçar todas as pessoas a se alinharem sob um conjunto definido de exigências é uma estratégia ruim: mesmo quando dá certo, não funciona.

Limitar um movimento a demandas específicas debilita a sua longevidade.

Atualmente, conforme a história anda cada dia mais rápido, as exigências podem se tornar obsoletas antes mesmo de uma campanha decolar. Em resposta ao assassinato de Michael Brown, alguns reformistas exigiram que a polícia usasse câmeras — mas antes que essa campanha fosse deflagrada, um grande júri anunciou que o policial que matou Eric Garner não seria julgado, apesar do assassinato ter sido gravado em vídeo.

Movimentos pautados por demandas específicas entrarão em colapso assim que essas demandas forem ultrapassadas pelos acontecimentos. E os problemas que elas propunham resolver persistirão. Mesmo sob uma perspectiva reformista, faz mais sentido construir movimentos em torno dos objetivos visados, ao invés de qualquer solução particular.

Limitar um movimento a demandas específicas pode dar a falsa impressão de que existem soluções fáceis para problemas que na verdade são extremamente complexos.

Ok, você possui uma série de reclamações – quem não possui? Mas nos diga, qual solução você propõe?”

A exigência por demandas específicas é compreensível. Não faz sentido se manifestar apenas para aliviar um pouco a pressão; o objetivo é mudar o mundo. Mas mudanças significativas exigem muito mais do que qualquer pequeno ajuste que as autoridades estão dispostas a garantir. Quando falamos como se houvessem soluções simples para os problemas que enfrentamos, correndo para nos apresentarmos como tão “práticos” quanto os especialistas em políticas do governo, criamos as condições para o nosso próprio fracasso, sejam as nossas demandas atendidas ou não. Isto dará lugar a frustração e apatia muito antes de desenvolvermos a capacidade coletiva de chegar à raiz das coisas.

Especialmente para aqueles entre nós que acreditam que o problema fundamental é a distribuição desigual de poder e liberdade de ação em nossa sociedade, ao invés da necessidade deste ou daquele ajuste político, é um erro prometer remédios fáceis na vã tentativa de nos legitimarmos. Não é nossa obrigação apresentar soluções prontas que as massas possam aplaudir às margens do processo; deixe isto para os demagogos. Nosso desafio, na verdade, é criar espaços onde as pessoas possam discutir e implementar soluções diretamente, em uma base permanente e coletiva. Ao invés de propor ajustes rápidos, deveríamos divulgar novas práticas. Não precisamos de esquemas, mas sim de pontos de partida.

Limitar um movimento a demandas específicas pode dar a falsa impressão de que existem soluções fáceis para problemas que na verdade são extremamente complexos.

Por outro lado, é de se duvidar que as instituições dominantes possam garantir a maioria das coisas que visamos mesmo que seus líderes tivessem corações de ouro. Nenhuma iniciativa corporativa irá impedir o aquecimento global; nenhuma agência do governo irá parar de espionar a população; nenhuma força policial irá abolir o privilégio branco. Apenas membros de ONGs ainda se apegam à ilusão de que essas coisas são possíveis – provavelmente porque seus empregos dependem disso.

“O mesmo sistema judiciário que regulou o fim da escravidão hoje aprisiona um milhão de negros; o mesmo Exército Brasileiro que ocupou o Haiti demonstrando força imperialista, hoje patrulha e mata pobres nas favelas ocupadas em seu próprio território.”

Um movimento forte o suficiente pode desferir duros golpes contra a poluição industrial, a vigilância estatal, e a supremacia branca institucionalizada, mas apenas se não se limitar à mera exigência. A política baseada em demandas limita o escopo inteiro de mudanças a reformas que possam ser feitas dentro da lógica da ordem existente, nos marginalizando e expulsando as verdadeiras mudanças para além do horizonte.

Não faz sentido exigir das autoridades coisas que elas não podem conceder e não concederiam caso pudessem. Também não devemos dar-lhes uma desculpa para adquirir ainda mais poder do que já têm sob o pretexto de que é necessário para a satisfação das nossas exigências.

Fazer exigências às autoridades legitima o poder delas, centralizando a capacidade de ação em suas mãos.

É uma tradição honrosa de organizações sem fins lucrativos e coalizões de esquerda apresentar demandas que elas sabem que nunca serão atendidas: não à invasão do Iraque, pelo fim dos cortes na educação, pelo perdão das dívidas das pessoas e não dos bancos, pelo fim do genocídio dos jovens negros. Em troca de curtas audiências com burocratas que prestam contas a atores muito mais perspicazes, elas diluem suas exigências e tentam obrigar seus colegas menos solícitos a se comportarem. Isto é o que elas chamam de pragmatismo.

Tais esforços podem não alcançar seu propósito expresso, mas realizam algo: enquadram uma narrativa na qual as instituições existentes são os únicos protagonistas concebíveis da mudança. Isto, por sua vez, pavimenta o caminho para mais campanhas infrutíferas, para mais espetáculos eleitorais nos quais novos candidatos ludibriam jovens idealistas, para mais anos de paralisia na qual o indivíduo médio apenas pode imaginar alcançar o seu próprio poder através da mediação de algum partido ou organização política. Rebobine a fita e aperte o play.

A verdadeira autodeterminação não é algo que uma autoridade possa nos garantir. Temos de criá-la agindo por nossas próprias forças, nos colocando no lugar de protagonistas da história.

Fazer demandas muito cedo pode limitar adiantadamente o escopo de um movimento, limitando o campo de possibilidades.

No começo de um movimento, quando os participantes ainda não tiveram a chance de conhecer a sua força coletiva, eles podem ser incapazes de reconhecer o quão complexas são as mudanças que realmente querem. Especificar as exigências neste ponto da trajetória de um movimento pode tolher o seu crescimento, limitando as ambições e a imaginação dos seus membros. Da mesma forma, criar, no começo, um precedente para resumir e diluir seus objetivos apenas aumenta a possibilidade de que isto irá acontecer novamente.

Imagine se o Movimento Occupy tivesse elaborado demandas concretas desde o seu surgimento — será se ele teria servido como um espaço aberto onde tantas pessoas pudessem se conhecer, elaborar suas análises, e se radicalizar? Ou teria acabado como um simples acampamento de protesto preocupado apenas com a personalidade jurídica, cortes orçamentários, e talvez o Banco Central? É melhor desenvolver os objetivos de um movimento à medida que o próprio movimento se desenvolve, proporcionalmente à sua capacidade.

Fazer exigências coloca algumas pessoas como representantes do movimento, criando uma hierarquia interna e dando a elas incentivo para controlar os outros membros.

Na prática, unificar um movimento em torno a demandas específicas geralmente significa designar porta-vozes para negociar por ele. Mesmo se estes forem escolhidos “democraticamente,” sob a base de seu comprometimento e experiência, eles não podem fazer outra coisa a não ser desenvolver interesses diferentes dos outros membros como consequência de representarem este papel.

Com o objetivo de manter a credibilidade do seu papel de negociadores, estes porta-vozes devem ser capazes de pacificar ou isolar qualquer pessoa que não esteja disposta a apoiar os acordos que eles fizerem. Isto dá a aspirantes a líderes um incentivo para reinar em um movimento, na esperança de conquistar uma cadeira à mesa de negociação. As mesmas almas corajosas cujas ações inflexíveis granjearam ao movimento sua posição altiva subitamente encontram ativistas de carreira que surgiram mais tarde lhes dizendo o que fazer – tentando impedir que eles sequer façam parte do movimento. Este drama foi representado em Ferguson em Agosto de 2014, onde os locais que fizeram o movimento decolar ao enfrentar a polícia foram caluniados por políticos e figuras públicas como estranhos que queriam tirar vantagem do movimento para realizar atividades criminosas. A verdade era exatamente o contrário: estranhos estavam tentando sequestrar um movimento iniciado através de honrosa atividade ilegal, com o objetivo de relegitimar as instituições de autoridade.

No longo prazo, este tipo de pacificação colabora apenas para a morte de um movimento. Isto explica a relação ambígua que a maioria dos líderes possui com os movimentos que representam: para servir às autoridades, eles devem ser capazes de subjugar os seus camaradas, mas os seus serviços não seriam minimamente necessários se o movimento não representasse qualquer ameaça. Disso surge a estranha mistura de retórica militante e obstrução prática que geralmente caracteriza tais figuras: eles devem montar o cavalo bravo e mantê-lo sobre controle.

Algumas vezes a pior coisa que pode acontecer a um movimento é que suas demandas sejam atendidas.

Reformas servem para estabilizar e para preservar o status quo, matando o ímpeto dos movimentos sociais. Isso garante que não sejam realizadas mudanças mais profundas. Garantir pequenas demandas serve para dividir um movimento poderoso, persuadindo os membros menos comprometidos a voltarem para casa ou fazerem vista grossa à repressão daqueles que não se comprometerem. Tais pequenas vitórias só são garantidas porque as autoridades as consideram a melhor forma de evitar maiores mudanças.

Em tempos de convulsão social, quando tudo está no ar, uma forma de desarmar uma revolta florescente é atender suas demandas antes que ela comece a crescer. Algumas vezes isto se parece com uma verdadeira vitória — como na Eslovênia em 2013, quando dois meses de protestos derrubou o governo. Isto pôs um fim à agitação antes que ela pudesse visar os problemas estruturais que lhe deram origem, que iam muito além de qual governante ocupava o cargo. Outro governo ocupou o poder enquanto os manifestantes ainda estavam aturdidos com seu sucesso — e as coisas voltaram a ser como antes.

Durante o crescimento da revolução de 2011 no Egito, Mubarak repetidamente ofereceu aquilo que os manifestantes estavam exigindo alguns dias antes de pedirem; mas à medida em que se intensificava a situação nas ruas, os manifestantes se tornaram cada vez mais inflexíveis. Se Mubarak tivesse feito uma oferta maior, talvez ainda estaria no poder hoje. Realmente, a revolução egípcia falhou não por que pediu demais, mas sim porque não foi longe o suficiente: ao remover o ditador mas manter intactos a infraestrutura do exército e do “Estado profundo”, os revolucionários deixaram a porta aberta para novos déspotas consolidarem o poder. Para a revolução ser bem sucedida, teriam de ter destruído a própria arquitetura do Estado enquanto as pessoas ainda estavam nas ruas e a janela de oportunidade estava aberta. “As pessoas exigem o fim do regime” oferecia uma plataforma conveniente para agregar a maioria do povo egípcio, mas isto não os preparou para os regimes que se seguiriam.

No Brasil em 2013, o MPL (Movimento Passe Livre) ajudou a catalisar protestos gigantescos contra o aumento no transporte público; este é um dos poucos exemplos de um movimento que foi bem sucedido na conquista de suas demandas. Milhões de pessoas foram às ruas, e o aumento de vinte centavos na tarifa foi cancelado. Os ativistas brasileiros escreveram e deram palestras sobre a importância de se definir demandas concretas e paupáveis, de modo a ganhar impulso através de vitórias elementares. Em seguida, tentaram forçar o governo a tornar o transporte público.

Por que sua campanha contra o aumento da tarifa foi bem sucedida? À época, o Brasil era uma das poucas nações do mundo com uma economia ascendente; ele havia se beneficiado da crise econômica mundial atraindo os dólares de investimento longe do volátil mercado estadunidense. Em outros países — na Grécia, na Espanha, inclusive nos Estados Unidos — os governos estavam contra a parede tanto quanto os movimentos anti-austeridade, e não podiam atender às demandas destes mesmo que desejassem. Não foi por falta de demandas específicas que nenhum outro movimento foi capaz de alcançar tais concessões.

Mal havia completado um ano e meio, quando as ruas se esvaziaram e a polícia reafirmou seu poder, o governo brasileiro introduziu outra série de aumentos de tarifas — maiores desta vez. O MPL tinha que começar tudo de novo. Acontece que você não pode derrubar o capitalismo com uma reforma por vez.

Se você quer conquistar concessões, vise além do alvo.

Mesmo se o que você quer é realizar pequenas mudanças dentro do status quo, a estratégia mais inteligente é almejar mudanças estruturais. Frequentemente, mesmo se quisermos alcançar pequenos objetivos concretos, devemos almejar muito além. Aqueles que se recusam a aceitar acordos presenteiam as autoridades com uma alternativa indesejável além (da alternativa) de tratar com reformistas. Sempre vamos encontrar alguém desejoso de ocupar a posição de negociador — mas quanto mais as pessoas se recusam, melhor será sua posição de barganha. Aqui o ponto de referência clássico é a relação entre Martin Luther King, Jr. e Malcolm X: se não fosse por causa da ameaça representada por Malcolm X, as autoridades não teriam tanto incentivo para negociar com o Dr. King.

Para aqueles dentre nós que visam mudanças genuinamente radicais, não se ganha nada diluindo nossos objetivos para consumo público. A Janela de Overton — o espectro de alternativas consideradas politicamente viáveis — não é determinada por aqueles no pretenso centro do espectro político, mas pelos extremos. Quanto mais ampla for a distribuição de alternativas, mais o território se abre. Os outros podem não se juntar imediatamente a você nos extremos, mas saber que algumas pessoas estão dispostas a defender aquela agenda pode encorajá-las a agir mais ambiciosamente.

“Não pediremos nada. Não Demandaremos nada. Vamos tomar, ocupar.”

Em termos puramente pragmáticos, aqueles que aceitam uma diversidade de táticas são mais fortes, mesmo quando se trata de alcançar pequenas vitórias, do que aqueles que limitam a si mesmos e aos outros e excluem aqueles que recusam a se limitar. Por outro lado, sob a perspectiva da estratégia de longo prazo, a coisa mais importante não é se nós alcançamos algum resultado particular imediato, mas como cada engajamento nos coloca em relação às questões posteriores. Se adiamos infinitamente as questões que queremos colocar, o momento ideal nunca chegará. Não precisamos apenas ganhar concessões; precisamos desenvolver competências.

Fazer as coisas sem elaborar propostas não significa ceder espaço no discurso político.

Talvez o argumento mais convincente a favor da elaboração de demandas concretas é que se não o fizermos, outros farão — sequestrando o ímpeto da nossa organização para promover suas próprias agendas. O que aconteceria se, por culpa da nossa falha em apresentar demandas, as pessoas acabarem consolidando uma plataforma liberal reformista — ou, como em muitas partes da Europa hoje, uma agenda nacionalista de direita?

Certamente isso ilustra os perigos do fracasso em expressar nossos sonhos de transformação com aqueles com quem dividimos as ruas. É um erro aumentarmos o tom das nossas táticas sem comunicar os nossos objetivos, como se todo confronto tendesse necessariamente à emancipação. Na Ucrânia, onde as mesmas tensões e ímpetos que deram origem à Primavera Árabe e ao Occupy engendraram uma revolução nacionalista e uma guerra civil, podemos ver como até os fascistas podem se apropriar dos nossos modelos táticos e de organização para seus propósitos.

Mas isso dificilmente justifica endereçarmos nossas exigências às autoridades. Pelo contrário, se sempre dissimularmos nossos desejos radicais dentro de uma frente reformista comum por medo da alienação do público em geral, aqueles que não têm paciência para as verdadeiras transformações irão muito provavelmente correr em direção aos nacionalistas e fascistas, como os únicos que estão buscando abertamente mudar o status quo. Precisamos ser explícitos sobre o que queremos e como buscamos conquistá-lo. Não para obrigar as pessoas a seguir nosso método como o fazem organizadores autoritários, mas para oferecer uma alternativa e um exemplo para todos aqueles que estiverem buscando um caminho a seguir. Não para apresentar uma pauta específica, mas o oposto disso: nós queremos autodeterminação, algo que ninguém pode nos conceder.

Se não vamos trazer propostas, então o que faremos?

A forma como fazemos nossas análises, a forma como nos organizamos e a forma como lutamos — devem falar por si mesmas. Elas devem servir como um convite para se juntarem a nós em uma forma diferente de se fazer política, baseada na ação direta ao invés da propositura. As pessoas de Ferguson e de Baltimore que reagiram aos assassinatos de Michael Brown e Freddie Gray confrontando fisicamente a polícia fizeram mais pela discussão sobre violência policial do que décadas de defesa da vigilância comunitária. Ao tomar espaços e distribuir recursos, desviamos do caminho circular e insensível da representação. Se devemos enviar uma mensagem às autoridades, que seja esta exigência única e simples: Não mexam conosco.

Ao invés de fazer demandas, vamos começar a traçar objetivos. A diferença é que nós traçamos nossas próprias metas, no nosso próprio ritmo, conforme surgem as oportunidades. Elas não precisam ser limitadas pela lógica das forças dominantes, e sua realização não depende da boa vontade das autoridades. A essência do reformismo é que mesmo quando você conquista alguma coisa, você não adquire controle sobre ela. Devemos desenvolver a capacidade de agir em nossos próprios termos, independente das instituições com que estivermos lidando. Este é um projeto de longo prazo, e ele é urgente.

Ao perseguir e conquistar nossos objetivos, desenvolvemos a capacidade de lutar por objetivos maiores e mais ambiciosos. Isto contrasta fortemente com o modo como movimentos reformistas tendem a entrar em colapso quando suas exigências são atendidas ou consideradas irreais. Nossos movimentos serão mais fortes se puderem acomodar uma diversidade de objetivos, considerando que os mesmos não conflitem abertamente entre si. Quando compreendemos os objetivos uns dos outros, se torna possível identificar por que faz sentido cooperarmos entre si, e quando não faz — um tipo de clareza que não resulta do alinhamento em torno de um mínimo denominador comum.

A partir deste ponto, podemos perceber que escolher não elaborar demandas específicas não necessariamente é um sinal de imaturidade política. Pelo contrário, pode ser uma recusa perspicaz a cair nas armadilhas que debilitaram as gerações anteriores. Vamos conhecer nossa própria força, longe das jaulas e filas da democracia representativa — longe da política de demandas.

“Talvez, portanto, a moral da história (e a esperança
do mundo) reside não naquilo que as
pessoas exigem dos outros, mas de si mesmas.”

–James Baldwin
No Name in the Street

 

Originalmente publicado por camaradas do Coletivo CrimethInc.

DA DISCORDÂNCIA AO ÓDIO

Como nossa forma de comunicar pode sabotar nossos esforços*

Nas últimas duas décadas nossos costumes avançaram pelo menos um pouco no sentido de aceitação da homossexualidade, na luta contra o racismo, na igualdade de gêneros e no respeito às minorias de forma geral. Agora estamos assustadas com uma onda reacionária que dominou o país, propagando um discurso de ódio e intolerância com as minorias e com os movimentos sociais, ao ponto de pipocarem agressões homofóbicas, antifeministas e esquerdofóbicas por todo o lado. O que deu errado? Por quê as pessoas estão se opondo tão violentamente a mudanças que visam construir um mundo com mais tolerância e igualdade e sentem tamanho ódio por ativistas e pessoas que defendem a igualdade das mulheres, a igualdade de gêneros?

Em termos de conteúdo, nosso discurso pode ser muito diferente do da direita reacionária e conservadora, mas, pelo menos até o momento, tem sido idêntico na forma. “Eu tô certo, você está errado!” é a forma de comunicação preferida na civilização ocidental e nas suas esferas de influência desde o seu surgimento. Seja com nossas famílias, em nosso círculo de amizades, com nossas colegas de trabalho ou com uma pessoa estranha na rua, quando nos deparamos com uma discordância, somos ensinadas desde pequenas a argumentar, jamais a dialogar. Quando uma criança faz algo que pessoas adultas não aprovam, ela logo é posta em seu lugar: “Não pode!”, “Sua irresponsável!”, “Isso é errado!”. Ao invés de dialogarmos com ela para descobrir por que fez e o que estava tentando fazer com aquilo, somos impelidas (pela nossa própria criação) a demonstrar todas as formas em que elas erraram.

E nas nossas discussões sobre política e transformação social, agimos da mesma forma. Estamos sempre prontas para acusar e criticar, mas jamais para tentar compreender o que faz aquela pessoa pensar e agir daquele jeito, nem para expor nossos sentimentos e juntas tentarmos encontrar uma solução para nossos problemas. Quando fazemos isso sem ouvi-las e buscar a empatia, estamos negando a validade do seu ponto de vista, da sua vivência e tentando impor a nossa visão como a Verdade.

E isso parece não estar dando certo para ninguém.

Todo ataque, gera resistência.

Assim como a violência do Estado e do capitalismo gera resistência por parte das pessoas que lutam por liberdade e por um mundo com mais igualdade, quando agimos ou dizemos algo que outras pessoas interpretam como crítica, julgamento ou reprovação, é muito provável que surja resistência às mudanças que estamos tentando realizar. É normal ficar na defensiva durante um ataque, mesmo que argumentativo, e, dentro de um certo limite, isso é até mesmo saudável para não aceitarmos acriticamente tudo que nos dizem e sermos manipuladas.

Os últimos anos de avanços na igualdade social, como o maior acesso da população negra às universidades através das cotas, o empoderamento das mulheres para denunciar abusadores publicamente e a coragem de casais homoafetivos de demonstrar o seu amor em público, entre outros, trouxeram no seu encalço uma resistência feroz. Pessoas que se sentiram julgadas ou acusadas de serem machistas, racistas, homofóbicas, e todo mundo que se identificou com elas por ser parte de uma cultura que ainda propaga esses valores, ficaram na defensiva e ali se entrincheiraram. Isso colaborou com a polarização política que acabou levando Bolsonaro, Mourão e uma horda de reacionários ao Palácio do Planalto, o que agora pode pôr tudo a perder.

Ainda estamos presas a uma mentalidade de tentar realizar transformações acusando as outras pessoas de estarem erradas, e isso não está funcionando.

Quando abrimos mão do diálogo, a única forma de mudar o comportamento opressivo de outra pessoa é através do constrangimento ou do medo. Ou seja, através da ameaça de ostracização ou de uso da força. A ostracização não resolve o problema, apenas o afasta de nossos olhos. Por exemplo, ostracizar uma pessoa homofóbica não fará com que ela deixe de ser hostil a pessoas em relacionamentos homoafetivos, apenas fará com que ela faça isso longe de nossos olhos e de nossa esfera de influência – ou seja, empurramos o problema para outras pessoas.

Já a força não é uma forma eficaz de convencimento e de mudanças a longo prazo, principalmente se o que queremos é um mundo baseado no princípio da liberdade. O uso da força pode sim ser eficiente como defesa, para preservar a vida frente a uma ameaça. Se a polícia representa uma ameaça à liberdade e à vida das pessoas, a força pode ser útil para impedir o seu avanço, protegendo as pessoas da repressão. Se uma mulher está prestes a ser violentada por um homem, esfaqueá-lo pode ser uma forma eficaz de preservar a integridade física e mental dela. A ameaça de violência física também pode dissuadir um grupo fascista de cometer ataques homofóbicos e racistas, e a sabotagem pode proteger uma floresta do desmatamento iminente. Embora a força possa ser uma boa solução para ameaças imediatas à vida, não é a melhor solução a longo prazo.

“As pessoas foram treinadas a criticar, insultar e se comunicar de formas que distanciam as pessoas.”

— Marshall B. Rosenberg

Se forçamos alguém através do constrangimento, da coerção ou do medo de punição a fazer algo contra a sua vontade, essa pessoa voltará a fazer isso assim que enxergar uma oportunidade de fazê-lo sem sofrer retaliação. Se o número de pessoas constrangidas for grande, elas poderão fazer parte de um movimento reacionário.

Opondo-se a ideias, não a pessoas

Chamar alguém de fascista, machista, racista ou homofóbico pode fazer a gente se sentir bem, descarregar um pouco da nossa raiva e frustração e reforçar nosso sentimento de estarmos do lado da justiça e da liberdade. Mas vai ser pouco eficiente em transformar as ações dessa pessoa. Se ela luta por mudanças radicais, como nós, isso pode fazer com que se sinta inferiorizada, que não é boa ou pura o suficiente, e isso pode acabar imobilizando-a ou afastando-a do movimento. Se ela simpatiza com nossa luta, mas não é tão radical quanto nós, a probabilidade de afastá-la é ainda maior e poderemos ser taxadas de extremistas, reduzindo nosso apoio em grupos mais moderados. Por outro lado se ela for mais conservadora ou não for familiarizada com ideias mais radicais, ela pode acabar se identificando com os rótulos que impomos a elas, assumindo a pecha de antifeminista, de defensor dos direitos dos homens, passar falar de racismo invertido e outras formas de vitimismo.

Há uma diferença entre acusar alguém de “ser” racista e de ter agido de forma racista. O mesmo vale para o sexismo, a homofobia ou o fascismo. Essas opressões estão entranhadas dentro de nós e mesmo a pessoa mais esclarecida pode cometer atos machistas, racistas, sem ter consciência, mas isso não significa que ela pense que mulheres ou pessoas negras são inferiores ou que devem ser tratadas de forma diferente. Se em certo momento ela agiu de forma que consideramos opressora, se conversarmos sobre essa ação específica será mais fácil para nós dialogarmos abertamente e também para ela evitar realizar aquela mesma ação no futuro. Mas se a rotulamos como machista, racista, homofóbica, a congelamos no status de opressora, e será muito mais difícil para nós estabelecermos um diálogo com ela e mais difícil será para ela mudar, e portanto estaremos mais distantes do nosso objetivo de acabar com a opressão.

Se enxergamos as outras pessoas como iguais e não queremos oprimi-las, impondo nosso ponto de vista, a saída é estabelecer um diálogo. Para isso, precisamos ouvir e ser ouvidas, o que é muito raro hoje em dia. Realmente escutar nossa interlocutora não é ficar pensando, enquanto ela fala, em como retrucá-la, mas ouvir o que ela tem a dizer, tentar descobrir como ela está se sentindo e o que leva ela a se sentir assim. Muitas vezes, somente depois de ter certeza que você ouviu o que ela tinha a dizer, uma pessoa se abrirá para saber o que você sente, precisa e as mudanças que gostaria de ver. Precisamos aprender a discordar das ideias de alguém sem desumanizar a pessoa.
É improvável que conseguiremos resolver as disputas numa única conversa, mas mesmo que haja discordância é precioso mantermos os canais abertos para irmos compreendendo umas às outras e quem sabe um dia elas estarão prontas para atender nossos pedidos.

“O mundo não está dividido entre Oriente e Ocidente. Você é americana, eu sou iraniana, nós não nos conhecemos, mas conversamos e nos entendemos perfeitamente. A diferença entre você e seu governo é muito maior que a diferença entre você e eu. E a diferença entre eu e meu governo é muito maior que a diferença entre eu e você. E nossos governos são muito parecidos.”

— Marjane Satrapi, quadrinista iraniana.

Nem sempre é fácil manter um diálogo com quem pensa e fala coisas que ferem nossos princípios e valores. Fica mais fácil se mantivermos o foco em qual necessidade humana aquela pessoa está tentando proteger quando diz e pensa isso. Afinal, todas precisamos das mesmas coisas: sustento, segurança, liberdade, paz, compreensão, etc. É claro que manter esse tipo de diálogo demanda uma boa quantidade de disposição e energia e, por vezes, pode ser muito tentador mandar a pessoa catar coquinhos e seguir com nossa vida. Por essa razão, precisamos conhecer e respeitar nossos próprios limites. Se não estamos conseguindo manter um diálogo, temos que ter em mente que é sempre possível interrompê-lo e perguntar à outra pessoa se ela estaria disposta a continuar em outro momento. Também precisamos aprender a pedir ajuda quando necessário.
A fim de conseguirmos escutar alguém, precisamos nos sentir escutadas e para isso é importante ter pessoas em quem confiamos com quem podemos nos abrir e desabafar. Ao criar redes de pessoas que se escutam, começamos a criar uma cultura de diálogo. Essa cultura se faz muito necessária em uma conjuntura que, estimulada pelas redes sociais corporativas (Facebook, Instagram, etc.), facilita o bloqueio e a exclusão de pessoas de quem discordamos de nossas bolhas e da nossa própria existência digital.

Quem mais se beneficia do isolamento e da desintegração das comunidades é o Estado, o fascismo e qualquer grupo interessado em fazer perseguição política. Se queremos um mundo livre de opressão, precisamos encontrar formas não-coercitivas de criá-lo, senão estaremos reproduzindo as mesmas dinâmicas e estaremos portanto fadadas ao fracasso.

 

*Originalmente publicado por camaradas da revista Fagulha.